Três perguntas para o secretário

Maristela Tesseroli

Metrópole – Com medo de perder “clientes”, a direção das escolas particulares é cada vez mais complacente com atitudes antes inadmissíveis em salas de aula, fragilizando a autoridade do professor.Como posicionar-se frente à idéia do “aluno-cliente”?

Gabriel Chalita – O professor tem de ser um referencial. E para isso tem de ter autoridade. Autoridade é diferente de autoritarismo. O aluno tem de olhar para o professor com admiração, respeito. Se isso acontecer, o limite não será um problema. É claro que, se os pais forem referenciais e se o limite fizer parte da educação familiar, a função do professor fica muito mais suave. Quando isso não acontece, o papel da escola é ainda mais difícil.

Os pais são complacentes com as irresponsabilidades dos filhos porque são ausentes. E acabam querendo suprir a ausência com um excesso de “sim”. O que é um erro. Saber dizer sim e saber dizer não faz parte do aprendizado para o exercício da liberdade. E quanto à escola é a mesma coisa. O diálogo é essencial. Nunca o enfrentamento. Eu sempre digo que o professor não pode brigar com o aluno nunca. Se fizer isso ele deixa de ser referencial. E isso é um problema. A conquista do aluno passa pelo afeto que engloba competência e capacidade de impor os limites necessários à boa convivência.

Em seu livro A Ética do Rei Menino, o senhor defende valores praticamente esquecidos nos dias atuais. Transmissão de valores cabe à família ou à escola?

Aos dois. Começa na família. As primeiras lições de amizade, respeito, honestidade, trabalho e generosidade nascem em casa. E mais do que em palavras. Nascem nos exemplos. Imagine um pai que vai à feira com o filho e recebe um troco maior do que o devido. E devolve o troco. E nem comenta sobre isso com o filho. Na mente da criança vai desabrochando a flor da honestidade. Outro exemplo vem da relação harmoniosa entre o marido e a mulher. O filho percebe o que é ser sereno e correto nessa parceria que ele presencia no dia-a-dia.O contrário também influencia. Como não deve se sentir uma criança que observa o pai bêbado agredindo a mãe ou vice-versa?

Na escola, os valores devem permear todas as aulas. Sem partir para conselhos durante as explanações, pode-se discutir esses valores por meio de artigos, textos literários, fatos do cotidiano. É só permitir que o aluno fale, que se expresse. É quando ele traz para aula coisas que viu na tevê ou nos jornais. E sempre haverá algum caso que chame atenção sobre um valor. Um texto de teatro ou um filme também ajudam. A estratégia pedagógica tem de ser boa para que o professor não se transforme em um “tiozinho” chato que dá conselhos. Na minha opinião, a mais importante função da educação é ensinar esses valores. Sem eles não há vida. Ensinar a ser, a conviver, a conhecer e a fazer. Nessa ordem.

O senhor acredita na eficiência da gestão participativa ou na formação dos Conselhos de Pais como ferramentas para estreitar a parceria família-escola?

A parceria escola-família-comunidade é essencial para o bom andamento do processo ensino-aprendizagem. Há muitas escolas fantásticas que vêm superando as expectativas graças a esse fortalecimento dos conselhos ou das Associações de Pais e Mestres (APMs). Dois bons exemplos são as escolas Enio Voss, que fica no Brooklin, um bairro de classe média em São Paulo, e a Professora Eulália Silva, no Jardim Ângela, um bairro popular. Não importa o local. O importante é que os pais se interessem e acompanhem, de perto, a educação dos filhos.

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