Rádio feita por alunos

Quinze minutos antes de o sinal bater anunciando o intervalo na escola estadual Sapopemba, todos os alunos estão ansiosos para descansar, menos Nieverson Felício e Eliseu Henrique dos Santos, ambos de 17 anos. Os dois, responsáveis pela Rádio Sapopemba, que funciona durante o recreio para os 2.400 alunos da escola, sabem que não terão descanso durante esses 25 minutos.

São eles que conectam os fios, ligam as caixas de som e decidem a ordem das músicas, os recadinhos amorosos, comunicados e propagandas que embalam as conversas dos estudantes.

A estação só funciona dentro da escola e começou no fim de 2002, como um projeto para fazer os alunos conhecerem novos ritmos. “Nossos alunos só queriam ouvir axé e pagode e nos sentimos no dever de mostrar que existem músicas diferentes”, conta a professora Márcia Regina de Oliveira, coordenadora da escola. “Neste ano, trabalhamos as músicas em sala de aula e montamos um festival, em que os alunos tocavam e cantavam.”

Os shows foram um sucesso. Depois, alunos e professores resolveram utilizar o computador e as caixas de som que só eram ligados nas festas da escola para montar uma rádio. Começaram com apenas um aparelho de som instalado em um banheiro adaptado. Hoje, a área ainda conserva os azulejos e torneiras do antigo banheiro de 3 m x 1,5 m, mas já tem uma mesa de 16 canais e dois microfones potentes, que não deixam ninguém parado na hora do recreio.

Para ajudar os seis alunos que comandam a mesa (divididos em quatro turnos), foi feita a parceria com uma escola de informática da região. “Como não entendemos nada de eletrônica, pedimos um técnico para auxiliar os alunos com a mesa e os cabos. Em troca, a escola de informática poderia anunciar na rádio”, diz Márcia.

“O rapaz nos ensinou até a enrolar os fios. Ainda bem, porque senão tinha queimado tudo logo na primeira vez que liguei os equipamentos”, conta Eliseu. O estudante começou sua carreira radiofônica no início do ano passado e não quer abandonar tão cedo. “Quis participar porque ficava a tarde toda em casa, sem fazer nada. Só que precisava ter notas boas para entrar. Quase não consegui”, lembra o rapaz.

São duas as condições impostas por Márcia para participar da rádio: notas boas e disciplina. “É um modo de incentivar os garotos a se dedicar aos estudos. A rádio tem também a proposta de prepará-los para o mundo do trabalho”, diz a professora.

Eliseu se enquadrou nas regras e desde então é quem comanda os microfones. “Eu era bem tímido no início. Depois, aprendi a ser mais comunicativo, mais solto, conheci várias pessoas e até passei a gostar de músicas para as quais não dava valor”, diz. A lista de cantores que sempre aparecem na Rádio Sapopemba vai de Linkin Park a Bezerra da Silva, autor que os alunos descobriram recentemente. Eliseu acredita que a experiência tenha lhe ajudado a ser escolhido para o trabalho que tem hoje, na área de vendas.

Nieverson também aprendeu a ser mais comunicativo. Afinal, ele e Eliseu são conhecidos entre as salas de aula e precisam manter seus ouvintes cativos. “Gosto mais de ficar na mesa de som. E, se aparecer algum trabalho em uma rádio de verdade, eu não vou desperdiçar a oportunidade, né?”

Leave a comment