Castigos e aprendizados

Por Gabriel Chalita

A grandiosidade com que foi construído o personagem do jovem Raskólnikov – figura central do romance Crime e Castigo, de Dostoiévsky – nos obriga a relevar a atitude atroz cometida pelo protagonista da trama. O estudante Rodka (como era chamado no romance) visava, por meio de um latrocínio, uma forma rápida de ascender socialmente. Na verdade, sem a sua personalidade complexa e transtornada, a literatura teria perdido um dos textos mais brilhantes de sua história.

E, aos leitores, caberia o prejuízo inenarrável causado pela ausência de uma obra-prima dessa magnitude. Na vida real, infelizmente, não ganhamos absolutamente nada com o aumento da criminalidade, com a banalização da violência e com o consumismo exacerbado que serve, muitas vezes, como detonador desse processo. Em todo o mundo, na última década, observamos a intolerância, o preconceito, a inversão de valores e o desrespeito em relação à diversidade atingirem patamares elevadíssimos e que acarretaram danos incomensuráveis às suas vítimas. A criminalidade parece não encontrar fronteiras em sua expansão vertiginosa na busca por novos adeptos. Nesse contexto, os jovens – seres em formação e por isso muito mais vulneráveis – têm sido presas cada vez mais fáceis. Há tempos, a barbárie não obedece a nenhum critério para escolher suas vítimas. Dia após dia, inocentes têm suas vidas ceifadas em meio a balas perdidas. As drogas – vedetes dessa nova ordem (des)ordem – originaram um poder paralelo de dimensões inimagináveis até há bem pouco tempo. Todos os anos, milhares de familiares aflitos vêem seus entes queridos sendo conduzidos à viagem sem volta patrocinada pelo tráfico – um negócio gigantesco fundamentado na sedução, no vício, na corrupção e na extorsão de grandes e pequenos personagens desse roteiro macabro. O 11 de setembro, as novas ameaças de guerra, os atentados de assassinos seriais e os crimes hediondos praticados nas esquinas de todo o planeta – vide o duplo assassinato de um pai e uma mãe, realizado com a participação da própria filha e que estarreceu São Paulo e o Brasil há poucos dias – despertaram a sociedade para a necessidade premente de tomar uma atitude. Algo precisa ser feito antes que o caos absoluto se instaure sob os olhares atônitos de todos. Assim, frente a esse quadro dantesco e de proporções globais, nós, como educadores, somos impulsionados a refletir sobre esses fatos e buscar, no exercício cotidiano do magistério, alternativas urgentes para revertê-lo. Nesse contexto, qual deverá ser o papel da escola, da família e das instituições que compõem a sociedade para enfrentar esse desafio? Talvez, a resposta esteja na união de esforços em torno de uma mesma causa. É preciso que estabeleçamos parcerias e que troquemos idéias sobre uma educação efetiva em favor da não-violência. Esse é um dos maiores objetivos da Secretaria de Estado da Educação. Todos os educadores têm de ter consciência de que a formação das novas gerações precisa se dar por meio de um compromisso firmado por todas as esferas sociais, sob pena de transformarmos a escola num ambiente isolado e que oferecerá, por isso, uma educação fragmentada e distante das necessidades reais de nossos educandos. Muitos de nossos estabelecimentos de ensino já estão provando que é possível fazer da escola um centro de luz. Um ambiente repleto de agentes e atores sociais voltados à transformação da realidade à sua volta. A violência, a desigualdade, a injustiça, o preconceito e todas as mazelas sociais só são mesmo justificáveis quando sob a guarda dos grandes artistas que se utilizam da arte como um canal que conduz seus apreciadores à reflexão. Sófocles, com sua peça Édipo Rei, Dostoiévsky, com o romance Crime e Castigo, Machado de Assis, com seu brilhante conto “Pai contra Mãe”, e Monteiro Lobato, com o contundente conto “Negrinha”, são exemplos de autores e de textos que nos ajudam a compreender de forma mais abrangente não apenas a natureza humana, mas a forma como o mundo pode moldá-la, para o bem ou para o mal. Cabe a nós, educadores, fornecer aos alunos, por meio do acesso ao conhecimento e aos valores realmente essenciais à vida pessoal e profissional, a possibilidade e as ferramentas necessárias para esculpir seu próprio destino, da melhor forma possível. Um bom trabalho a todos.

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