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Os porões dos navios negreiros

Hoje é o dia da consciência negra. Data escolhida em memória de Zumbi dos Palmares. Tem gente que acha desnecessário esse tipo de comemoração. Afinal, os negros não são uma pequena minoria. Será?

Numericamente, certamente, não são. Mas o são nos cargos de comando, nos poderes constituídos, nas direções de empresas e organizações. E por quê? São os negros menos competentes do que os brancos? Certamente que não. Não querem eles assumir também o comando? Seria ingênuo imaginar isso.

Mas o que há, então, se nossa constituição e nossas legislações infraconstitucionais são abundantes na proibição dos preconceitos e de toda forma de racismo?

 As leis vieram para corrigir um erro histórico, mas as mentalidades ainda demoram a mudar. Foi ontem que vieram esses nossos irmãos em porões de navios. Castro Alves põe sua alma para denunciar a ausência de alma com que foram tratados mulheres e homens, feitos escravos, arrancados de suas terras, e que atravessam os mares com esperanças nenhumas.

Como eram aqueles porões? Quanta dor presenciaram? Quantas lágrimas incontidas? Porões do horror e da ausência de humanidade.

Transcorridos tantos anos, ainda há porões de preconceitos nas mentes de nossa gente. Piadas desnecessárias, comentários chulos, atitudes incorretas;  já poderíamos ter superado esses erros. Mas os porões do racismo persistem. Vez ou outra, aparecem, nas mídias sociais, criminosos querendo lançar achincalhes. Elegem negras e negros que têm visibilidade, que romperam grilhões para viver a esperança e saem em decisão de ataque. Feias posturas de quem pouco entende das belezas da convivência, da pluralidade, do respeito, do amor.

Um dia, talvez, a data da consciência negra seja apenas um registro de feitos heroicos do passado. Hoje, ainda temos muito trabalho. Muitas limpezas nesses porões da consciência que persistem nos erros de ontem. Humanos é que somos. E então?

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/11/2015