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Uma visita inesperada

O calvário existe. Cada um sabe o peso da sua cruz. O sofrimento e a esperança nos moldam. O sofrimento chegou para a família de Eduardo Campos. Sim, porque além de um político respeitado em todo o país, além de um homem que governou seu estado com brilhantismo e que anunciava um futuro feliz, Eduardo era filho, era esposo, era pai. Cinco filhos. O país lamenta a prematura partida do estadista. A família chora seu amado. As famílias, das outras vítimas, igualmente choram.

A morte é uma visita inesperada. Alguns não compreendem. Minutos depois do anúncio da partida, já falavam em sucessão, em outra candidatura. Mesquinho poder. Passa uma impressão estranha do quanto somos descartáveis no jogo de interesses. O luto existe. O respeito também. Olhar a morte nos ajuda a enxergar a vida. A consciência da finitude nos aproxima do que de fato somos. Consciência de todos. Igualamo-nos ao saber que seremos visitados por ela. Alguns mais jovens; outros, mais idosos. Alguns ainda na infância como nas tristes cenas das guerras tantas. A morte sempre vem. Quem se alimenta de fé tem outra perspectiva. É como o inverno nos países frios que, aparentemente, destrói as folhagens. Parecem mortas as árvores. Apenas parecem. Elas renascem exuberantes na primavera. A eternidade é a primavera da alma. E, aí, surge a esperança. A esperança do reencontro e, ao mesmo tempo, a esperança de viver melhor o que nos resta. Deixar de lado as complicações. Brigando menos. Desperdiçando pouco os encontros que nos acalentam. No dia dos pais, Eduardo celebrou a vida com seus filhos. É essa a lembrança, no meio da dor, que há de alimentar a esperança.

Depois do calvário, vem a Páscoa. Para os judeus, é a passagem da escravidão para a libertação; para os cristãos, a passagem da morte para a vida. A fé não expulsa a dor, ela fica, ela nos frequenta, mas depois vai. E ficamos nós tentando manter acesa a chama do que de bom aprendemos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/08/2014

O Papa e a defesa da vida

O Papa Francisco fez um contundente apelo em defesa da vida. Falou sobre o aborto, o “horror das crianças que nunca poderão ver a luz”. O aborto é um ato criminoso. E de covardia a um ser, em gestação, que, frágil, não tem direito a defesa.

O aborto é um “descarte de ser humano”. Assim como é o tráfico humano, pessoas que vendem pessoas, órgãos comercializados como se algumas vidas tivessem mais importância que outras.

Lembrou o Papa, também, o descarte dos idosos. Usou um conceito de Thomas More. Os idosos e os jovens precisam conviver. “Os idosos trazem a sabedoria, enquanto os jovens nos abrem ao futuro, impedindo de nos fecharmos em nós mesmos”.

Descartar pessoas é desvalorizar a vida. “Jogar fora” uma criança em gestação é tão grave quanto jogar fora um idoso ou um doente. É triste ver idosos abandonados pela própria família. Pais que criaram filhos, que estiveram presentes na chegada dos netos e, de repente, viraram um incômodo. Então, a sociedade do descartável arruma um asilo e, vez ou outra, para aliviar o peso da consciência, faz uma visita.

Triste sociedade que não cultiva o amor nem na família. Tantas histórias, que poderiam se enlaçar para fortalecer a vida e dignificar os encontros necessários da convivência, descartadas por falta de tempo ou de vontade ou de amor.

Não nos cabe julgar as escolhas, mas, sim, fazer esta reflexão iluminados pelo Papa. Por que descartamos pessoas? Infelizmente, é mais fácil descartar mãe, pai ou avós do que um carro ou um apartamento. Ouvi de uma senhora que, para a mãe morar com ela, era preciso mudar de apartamento. O dela já estava todo montado. Um quarto se  transformara em escritório; o outro, em sala de TV. Logo, não cabia a mãe. Então, o melhor a fazer era descartá-la. Evidentemente, ela usou outras palavras: ”a mãe ficaria mais feliz, pois teria o canto dela”. Ora, perdoem-me, mas mãe não foi feita para ser jogada em um canto.

Eis o canto da ingratidão. De quem não consegue cultivar o passado para dele se alimentar, de quem não permite perdoar os erros e prosseguir juntos. Pais erraram, certamente. Filhos, também. Somos todos errantes caminhando pela vida. Talvez uma das razões da doença dos nossos tempos, a depressão, seja a ausência de laços significativos. Quem descarta não cultiva. Quem não cultiva não dignifica a própria vida. Mais uma vez, o Papa, com simplicidade e sabedoria, nos ensina.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/1/2014