
“O Velho Guerreiro” marcou a história da televisão brasileira. Sua irreverência, criatividade, ousadia fizeram dele um dos maiores comunicadores do nosso tempo. Frases suas eram repetidas (e ainda são) no cotidiano das pessoas. “Quem não se comunica se trumbica”. Comunicou ao Brasil os novos talentos que desfilavam em seu programa. Artistas que ainda hoje fazem sucesso emocionam-se ao lembrar a primeira chance, o primeiro contato com a massa pela magia da televisão.
“Vocês querem bacalhau?” E o bacalhau se esgotava nas prateleiras dos supermercados. Gênio do marketing, ele dizia: “Eu não vim para explicar, eu vim para confundir”.
José Abelardo Barbosa de Medeiros ou Abelardo Barbosa ou Chacrinha nasceu em Surubim, em 30 de setembro de 1917, e morreu em 30 de junho de 1988, no Rio de Janeiro. O musical que está em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo, narra sua trajetória de fantasias e dores. O texto é de Pedro Bial e Rodrigo Nogueira. A trilha sonora, com arranjos e direção de Delia Fischer, reúne mais de 60 grandes sucessos da nossa música. A direção é de Andrucha Waddington.
Os atores, bailarinos cantores, estão impecáveis, mas é preciso uma menção especial, honrosa, a dois brilhantes atores de gerações diferentes que encarnam Chacrinha. O primeiro é Leo Bahia que faz o menino Abelardo Barbosa. Leo começou a chamar a atenção por seu talento na Casa de Cultura Julieta de Serpa, no Rio de Janeiro. Interpretando cantores e canções de épocas e estilos diferentes foi ganhando visibilidade. Na UNIRIO, levava a plateia ao delírio no excelente musical The Book of Mormon. Aos 23 anos, Leo Bahia vive a personagem com uma carga dramática invejável. Faz rir e faz pensar. No primeiro ato, é ele quem interpreta as peripécias do menino pobre de Surubim, Pernambuco, em seus devaneios provocados por um vulcão que os artistas do interior geravam em seu interior. O pai faliu. A mãe o incentivou. Quis ser médico. Encantou-se com o rádio. Quis ser músico. Quis comunicar. E foi tudo isso do seu jeito.
O Chacrinha adulto é vivido por Stepan Nercessian. Genial ator brasileiro que conseguiu encarnar brilhantemente cada gesto do Velho Guerreiro. O final do primeiro ato, quando Stepan deixa de ser o artista inspirador do menino Abelardo para ser Chacrinha, é mágico. No segundo ato, vem a lembrança dos programas de auditório. “Stepan é o meu pai”, dizia emocionado o filho de Chacrinha, Leleco Barbosa. “Ele anda como meu pai, ele senta como meu pai, ele fica parado como meu pai, ele ri e se entristece como meu pai”. Esse é o maior prêmio que um ator pode receber. Generosamente, morre o ator para nascer a personagem.
Abelardo, na vida pessoal, não era tão feliz quanto na televisão. Seus medos o sufocavam. Suas dúvidas o preenchiam e roubavam dele a alegria. Cobrava a si mesmo uma perfeição difícil de alcançar. Queria audiência, mas queria mais do que isso, queria a compreensão das pessoas pelas escolhas que fez na vida. Traumas pessoais acompanham a todos nós e com ele não foi diferente. Dores dos filhos. Brigas com os que mandavam na televisão. Inseguranças. Chacrinha era humano como todos nós. E o enredo traz esse cotidiano que destoa um pouco da irreverência e da alegria na cena da televisão. Isso tudo sem apelos, sem exagero. Afinal, qual ser humano não fica nu diante das dores impossíveis de serem esquecidas na vida? Somos paixão e desilusão. Festa e solidão. Entusiasmo e medo. Brincar de viver é algo sério, e ninguém passa impune a essa ventura. Mostrar o artista – e mostrar também o homem – é uma feliz escolha da narrativa do espetáculo.
As músicas muito bem interpretadas fazem uma viagem ao nosso baú de afetos. Roberto Carlos, Ney Matogrosso, Rosana, Ritchie, Lilian, Gretchen, Gilberto Gil, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Sidney Magal, Fábio Júnior, Clara Nunes, Dorival Caymmi, Wanderléa entre outros, desfilam em seu Cassino ou Discoteca. Na estreia, em São Paulo, Fábio Júnior fez uma participação especial. Seu olhar para Stepan era quase de espanto, de admiração profunda, de recordação de um tempo em que o Velho Guerreiro abriu para ele e tantos outros as janelas dos sonhos possíveis, daqueles que nos fazem voar nas asas dos nossos talentos, mas que se não descobertos ficam para sempre adormecidos.
Encontrei, ao final do espetáculo, uma ex-chacrete que chorou muito lembrando os seus tempos ao lado dele, o homem mito, o que foi chamado pelo filósofo francês Egdar Morin de “fenômeno da comunicação em massa”. Na época, desabafou Chacrinha: “Quero ver o que vão dizer agora os críticos brasileiros que me chamam de débil mental”?
Fica a dica. Assistir “Chacrinha, o Musical”. E aplaudir o talento do artista brasileiro.
Abelardo Barbosa
Está com tudo e não está prosa
Menino levado da breca
Chacrinha faz chacrinha
Na buzina e discoteca
Ó Terezinha, ó Terezinha
é um barato o cassino do Chacrinha
Ó Terezinha, ó Terezinha
é um barato o cassino do Chacrinha!
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/04/2015
