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Talentos desperdiçados

Já faz um tempo, o Papa Francisco, ao rezar uma missa na Praça São Pedro, disse aos jovens presentes: “Não enterrem seus talentos! Não tenham medo de sonhar grandes coisas”.

Ao exortar os jovens à perseguição de seus ideais, de seus temas de vida, o papa resumiu, com essas palavras, sua crença no humano jeito de ser um homem de Deus que cuida do povo. 

 Enterrar os talentos é uma menção a uma parábola de Jesus. E tem um significado claro. Cada um de nós recebe um quinhão de talentos. E é bom para nós e para o mundo que os multipliquemos. É bom para nós e para o mundo que coloquemos nossos talentos a serviço de boas causas. Todas as vezes que ouço histórias de jovens hackers, fico imaginando o tanto de inteligência que está sendo desperdiçado. Gastam tempo e talento a serviço de uma ação que nada contribui para si mesmos nem para o mundo. Ao contrário, ações que promovem, não raro, o mal. Há jovens que se lançam a mostrar a perícia em disputar rachas, com seus carros em alta velocidade, desafiando o medo e, infelizmente, pondo fim antecipadamente à vida de outros e às suas próprias. Por quê? Por que não usar o talento do domínio sobre o carro e sobre os medos de maneira nobre? Há jovens chefiando facções criminosas, mostrando disciplina e capacidade de trabalho e, por meio desses talentos que poderiam ser virtuosos, espalham o que há de pior na comunidade em que vivem: violência, exemplos equivocados, falta de apreço pela vida. Ausência de sonhos!

Sonhar grande, larguear os ideais, é o caminho, mas esse caminho só pode ser percorrido sobre os alicerces da ética, com a vivência comum, com sonhos comuns que trazem não apenas o prazer estranho que desvia a rota do comandante, mas a felicidade de uma vida plena de significados para toda a nau. Comandantes somos nós todos, quando não desperdiçamos nossos talentos, quando sonhamos o grande sonho de cuidar das pessoas e do mundo. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/10/2015

Alcione, a voz que emociona

A menina que saiu do Maranhão para conquistar o Brasil e o mundo tem a consciência de que nasceu para cantar. Cantou, menina, em sua terra natal. Fez-se professora para agradar ao pai e nunca deixou de professar a crença de que sua voz é um presente de Deus. Cantou para o papa João Paulo II e se emocionou. Emociona plateias de todas as idades que iniciaram histórias de amor ou afogaram mágoas de dor ouvindo sua voz, suas canções.

 

O samba é seu companheiro. Canta as escolas de samba por saber que, em cada uma delas, moram gentes e sonhos. É Mangueira, sempre, no coração. Tradições de poetas, ritmistas, artistas do povo que aguardam a avenida para desfilar os seus sonhos, para contar o enredo que marca suas histórias.

A história de Alcione é digna. É ciosa de sua obrigação social, obrigação que todo mundo tem, a da generosidade, da doação, do cuidado com o outro. Ama a sua terra, o Maranhão, e as outras terras que lhe abriram as portas das oportunidades. É grata a Jair Rodrigues, o artista que a viu cantando, acreditou em seu talento e a fez gravar seu primeiro disco. Ela, que trabalhava em uma loja de discos, e que, na noite, oferecia sua voz e sua emoção.

Alcione tem temperamento forte, determinação, mas mais forte é a braveza de uma guerreira que nasceu para cuidar. Cuida dos sobrinhos, dos amigos – a saudade do genial Emílio Santiago, dos admiradores. É respeitosa com o seu público e sente gratidão pelas pessoas que saem de suas casas para a verem cantar.

São Paulo recebe, novamente, esta genial cantora. Alcione, a voz que emociona. Alcione, a menina que veio ao mundo para cantar com eterna alegria.

“Nasci pra fazer esse povo cantar 

Se faltava alegria, acabou de chegar 

Manda a tristeza pra outro lugar 

Que o samba não pode parar”. 

(trecho da música Eterna Alegria)

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Entrevista: 

Gabriel Chalita: Na canção “Obrigada”, você agradece as pessoas que saem de casa para vê-la cantar. Depois de tantos anos de carreira, o que a inspira no início de cada show? 

Alcione: É a paixão pelo que faço, a gratidão a Deus, aos meus pais, ao meu público, a minha família. Enfim, a tudo que a música pôde me dar de bom.

 

Gabriel Chalita: Você é uma das maiores cantoras brasileiras. Quais conselhos você pode dar àqueles que cantam bem, que sonham em construir uma carreira e que já tiveram tantas portas fechadas?

Alcione: Porta fechada é pra bater! Não desista, tenha responsabilidade, viva para isso, respeitando seu público, os profissionais de sua área e cuide de sua saúde.

 

Gabriel Chalita: Você acha que o resultado da grande interpretação vem mais da emoção ou da técnica?

Alcione: Acho que é da emoção, porque a técnica é importante, mas é a emoção que move o mundo. E cantar é um dom de Deus também…

 

Gabriel Chalita: Qual a sua relação com a cidade de São Paulo? O que esta cidade já lhe deu? Quais emoções você viveu por aqui?

Alcione: São Paulo é uma cidade cuja tradução é trabalho. O povo de São Paulo tem uma tradição como trabalhador, por isso se diz que esta cidade não para. Já vivi muitas e belas emoções em São Paulo.

 

Gabriel Chalita: Quando você olha para trás, o que foi mais penoso e o que foi mais prazeroso em sua trajetória? 

O mais penoso foi me separar dos meus pais e irmãos, no início da carreira. Deixar a minha cidade de São Luís para trás. Porém, o melhor de tudo foi poder, com essa distância, construir uma trajetória, uma carreira, levando conforto e tranquilidade para todos os meus. Isso não tem preço!

 

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ALCIONE 

THEATRO NET SÃO PAULO

Dia 11 de novembro, às 21h 

 

A cantora maranhense Alcione é atração do Palco Petrobras Premmia no próximo dia 11 de novembro, às 21h. Marrom, como é conhecida mundialmente, interpreta músicas de seu CD “Eterna Alegria” no Theatro Net São Paulo, na Vila Olímpia.  

SOBRE O SHOW

Três anos após lançar os discos “Ao Vivo na Mangueira e Jam Session”, ambos de 2011, Alcione volta aos palcos paulistas em grande estilo. Com o show intitulado “Eterna Alegria, ao Vivo”, a cantora resgata um trabalho que ostenta o mesmo título do seu último álbum gravado em estúdio e serviu-lhe de base para este novo produto, numa reedição de parceria entre Marrom Music e a Biscoito Fino.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/11/2014 | Foto: Divulgação

Alguma delicadeza

Maria Bethânia disse poemas no belíssimo Theatro Net, recém-inaugurado em São Paulo. Aliás, sempre que nasce um novo teatro, é preciso celebrar. Palco em que as emoções da arte inspiram as ações da vida.

Bethânia disse poemas. E cantou. Seu canto é expressão de uma voz a serviço do talento. A menina que, nos anos 60, subiu ao palco do Rio de Janeiro para cantar “Carcará” continua o seu ofício de tocar almas e fazer pensar. Entre poemas de Pessoa, Drummond, Vinicius, Cabral e de Reynaldo Jardim, o autor de “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”, a baiana, a brasileira falou sobre educação. Com os pulmões plenos, bradou que estudou em escola pública e professou que a educação pública brasileira tem jeito. E, mais do que isso, homenageou dignamente os seus professores.

Na plateia, eu aplaudia a cantora que desafia o tempo e continua a surpreender. Falou Bethânia do silêncio e da delicadeza. A poesia pede, ao menos, alguma delicadeza. Em tempos de urgências, parece difícil parar, refletir, ler um poema e se permitir o milagre do entranhamento. É o poema nos preenchendo ou nos esvaziando de acordo com o tempo. E com a necessidade. Alguma delicadeza… será que a vida de tantas agressões e solidões – não a necessária, a que faz refletir, mas a brotada na ausência de terra amorosa – não carece dessa delicadeza? Gestos de cavalheirismo parecem pouco convidativos. Elegâncias com os mais velhos. Cuidado no dizer, consciente do poder perfurador de palavras malditas. Atenção ao outro, que também sou eu, espelho de minha alma, irmão de convivência. 

Não descuidemos dos encontros, os desinteressados, os que colaboram com as nossas emoções mais belas, os que nos elevam ao patamar do que somos. Pessoas, inspiração de Pessoa, o que falou sobre o sino da sua aldeia, sobre uma tarde calma, sobre sua alma, porque tinha delicadeza para ver as delicadezas que a vida nos proporciona. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/10/2014