Alguns professores tiravam foto comigo, quando uma criança me olhou nos olhos e perguntou: “Quem é você?”. “Meu nome é Gabriel, sou professor”, respondi. E a criança prosseguiu: “Mas quem é você?”. “Eu cuido da educação, cuido de você”. “Cuida de mim?! Ah, bom!”, foi a resposta que o acalentou.
Quem somos nós? Cuidadores de outras pessoas? Seres capazes do caminhar coletivo, do pensar coletivo? Feitos da matéria-prima do encontro? Do amor que emancipa, que eleva, que faz brotar o riso bom da felicidade? Certamente que sim. Mas também somos capazes de outras atitudes. Menos nobres. Menos humanas. Fotografias de um mundo em desconstrução circulam por aí. Imagens reais de abandono, de perversidade, de egoísmo. Quem somos nós? Operários de que causa? Obreiros e poetas da esperança, sim, porque o fazer e o sonhar se encontram no amálgama propício das edificações. Mas também somos o oposto. Nossas misturas, por vezes, são explosivas. Corroemos os outros e nós mesmos com atitudes impensáveis para quem têm a virtude do pensamento. Ausências de reflexão sobre “quem somos” são presságios de derrota. O vitorioso não é aquele que tem mais, mas aquele que sabe mais sobre quem é. Conhecermos a nós mesmos é um dos impulsos vitais da filosofia. Sócrates, o pensador grego, instigava os seus interlocutores a irem além das aparências, a permitirem o nascimento das próprias ideias. Ideias, ideais. Alicerçava sua filosofia no autoconhecimento, na nossa relação com o mundo e com os outros. Como dita a máxima de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Mas quem somos nós?
Aquela criança insistiu. Não ficou satisfeita com o meu nome nem com a minha profissão. Queria mais. Queria entender a intenção da minha vida. Meu nome não foi escolha minha. Minha profissão, sim. “Mas para que serve tudo isso?”, indagou ele sem receios. “Para cuidar de você”. “Então, prossiga. Continue a fazer o que deve ser feito”. Autorizou-me ele com seus olhos de amanhã.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/09/2015

Nesta semana, estive com o prefeito Fernando Haddad na EMEF “Dr. Sócrates Brasileiro”, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Fiquei impressionado com a liderança da diretora da escola, Solange Amorim, e com o incrível corpo de professores e funcionários. A escolha do nome respeitou um processo democrático exemplar. Primeiramente, foi realizado um estudo sobre possíveis patronos. Pesquisaram suas biografias e elegeram o seguinte critério para a escolha definitiva: qual deles poderia ser uma fonte de inspiração a toda comunidade escolar? Produziram vídeos, textos, material virtual para as redes sociais, entre outros, e participaram de debates, apresentações, palestras. Alunos e comunidade. Como deve ser. Uma escola não é de um prefeito, de um secretário, de um governador nem de um presidente. A escola não é nem mesmo do diretor. A escola é da comunidade e quanto mais a comunidade participar do dia a dia da escola, melhor será a sua gestão.