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A lente do medo

A guerra sempre nos mostra a face embrutecida da humanidade. Pretensos líderes que se acham conhecedores do “bem e do mal”. Comeram eles a árvore do fruto proibido, como narra o Gênesis. Alguns imaginam que a proibição de Deus para Adão e Eva era para roubar-lhes a liberdade. Não era. Comer o tal fruto proibido significaria comer um ao outro com os dentes do ódio, com a boca da destruição, com a intenção do apequenamento. Assim nasceu o pecado. O homem e a mulher podem tudo, menos destruir o outro ou a si mesmo, porque isso nos desumaniza. No texto bíblico, ficaram eles envergonhados depois de comer o que a serpente ofereceu. Envergonhados por saberem-se ávidos pela destruição do outro. Envergonhados deveríamos ficar cada um de nós com esses mesmos pecados de destruição que nos acometem.

Uma cena chocante correu mundo afora. Comoveu, revoltou, indignou. Um fotógrafo, Osman Sagirli, estava na Síria, a 10 km da fronteira com a Turquia, no local em que milhares de refugiados, amedrontados pela sombra da destruição, buscavam sobrevivência.  Seu objetivo era registrar rostos comuns, de adultos e crianças que se perdiam naquela multidão. Foi quando, ao tentar fotografar uma menina de quatro anos, a pequena Hudea, percebeu sua estranha reação. A menina levantou as mãos pensando ser a câmera uma arma. Mordeu os lábios de pavor. Olhou tão assustada que ele teve o ímpeto de abraçá-la, de aconchegar a dureza de sua trajetória. Tão menina e tão cheia de marcas. Sangues jorram naquela região há muito tempo. Famílias destruídas. Túmulos que não dão conta dos tantos que perderam o direito ao futuro.

Como corrigir isso? Como voltar ao paraíso e encontrar mulheres e homens vivendo em harmonia? Cenas assim são comuns nas guerras que sabemos e nas outras que, no escuro dos lares, roubam a inocência de crianças. Exatamente daqueles que deveriam ser os mais cuidados, os mais protegidos, os mais amados.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Foto: Osman Sagirli Data: 10/04/2015

 

Oração e ação pela paz

O papa Francisco tem falado com insistência sobre o tema da paz. O mundo merece viver em paz. O papa pediu oração e pediu ação pela paz.

E a Síria merece viver em paz, também. Os conflitos no Oriente Médio não são recentes. Brigas religiosas, econômicas, étnicas mostram feridas abertas de uma região que há muito não sabe o que é conviver em paz.

Há acusações de utilização de armas químicas, há imagens de crianças mortas, de feridos sofrendo em hospitais, de civis amedrontados pelos conflitos, de gente fugindo e se refugiando, onde podem, em situações precárias. E há ameaça de guerra.

Será que esse é o único caminho para solucionar conflitos? O sangue derramado e as vidas roubadas, em tantas outras contendas, não servem de exemplo para buscar alternativas?

Na Síria ou nas esquinas de qualquer canto do mundo, é preciso agir pela paz. A paz se conquista na simplicidade do cotidiano e na complexidade das reflexões sobre o sentido da vida. Há guerras entre famílias mortificadas pela agressão contra mulheres e crianças. Há guerras nas mídias sociais com a virulência de ataques contra pessoas ou grupos por razões tolas. O fato é que não há razão para a violência. A violência é a ausência da razão. Se somos seres de convivência, é nela que aprendemos a coexistir com as diferenças e a entender que é a inteligência nossa arma mais poderosa.

Podemos orar pela paz na Síria, mas podemos agir pela paz em nossas casas e nas nossas relações. É esse o desafio. Os pais são as primeiras referências para seus filhos. Pais violentos geram, com maior facilidade, filhos violentos. É a força do exemplo. Pais que dialogam, que exercitam a maturidade dos afetos, provavelmente, gerarão filhos assim, filhos da paz. É claro que há outras influências como a escola, a mídia, os grupos tantos que convivem com as crianças. Mas a família é, sem dúvida, o espaço privilegiado para que a criança aprenda a discernir o certo do errado, a compreender o que faz bem ou o que faz mal.

Viver em paz não pode ser apenas uma utopia.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 13/9/2013