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Ruth Guimarães, a caipira do mundo

Entre as exuberantes serras, do Mar e da Mantiqueira, conheci Ruth Guimarães. Em sua chácara, próxima ao rio Paraíba, na minha amada Cachoeira Paulista, bebi de sua consistente prosa. Ruth era assumidamente caipira. Mulher da terra. Contadora de causos. Contadeira de histórias, como sua mãe, como sua avó. Ouvinte paciente de compadres e comadres que frequentavam seu quintal.

Saudoso tempo em que, ainda menino, fitava-a, sentada à sua máquina de escrever, dando vida às palavras e aos personagens. A autora do genial “Água Funda” conhecia profundamente os mitos gregos e os clássicos russos, sem falar dos franceses. Traduziu Balzac e Dostoiévski. Conversava sobre Flaubert e sobre Guimarães Rosa. Exaltava Machado de Assis, dizendo que maior que ele não há. Era grata a Mario de Andrade, seu mestre, crítico ensinante de sua obra. E, no meio de tanta sabedoria, me ensinava que ser sábio é ser simples.

Lembro-me das tantas vezes em que eu, estudante de filosofia, ia conversar com ela sobre Agostinho ou Tomás de Aquino. Sobre Sartre ou Nietzsche. Eu, ávido, inquieto; ela, serena, mestra. Nessas narrativas, éramos interrompidos por um ou outro vizinho que pedia um pouco de açúcar ou de feijão, e ela, com a mesma placidez, os atendia.

Caipira, sim – mas cidadã do mundo. Ruth conhecia e enfrentava os temas mundiais. A autora de “Os Filhos do Medo” era uma destemida destruidora de preconceitos. Não tolerava a mesquinhez dos arrogantes, nem a arrogância dos mesquinhos.

Tive a honra de recebê-la em nossa Academia Paulista de Letras. Eu, seu aluno, abraçando a mestra. Que privilégio! Depois de tantos anos, sentava-me, novamente, ao seu lado e a ouvia. Ruth, serena, falava pouco. Mas, quando falava, era preciso ouvi-la. Ela tinha o que dizer. Saudade da sua presença. E, presente, ela continua. Em suas obras. Em seu jeito caipira de amar o mundo.

Por: Gabriel Chalita (jornal Vale Paraibano) | Data: 25/5/2014