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É quase Natal

Mais um aniversário para o Menino Jesus. Mais uma oportunidade para olhar para a manjedoura e ressignificar a vida. Vida brotada de um sopro de amor do Criador. Vida nascida de águas santas que jorram a esperança de um curso mais limpo. A natureza é prova disso. Das nascentes, prova-se água pura;  no percurso, os entulhos, as poluições, os pedaços de insanidades, vão deformando a pureza do que, antes, se bebia.

Com os homens, também é assim. Nascem as crianças e os seus entornos cuidam de roubar delas os futuros bons. Mas é mais um Natal que se aproxima. Quem sabe das lamas bolorentas de tantos ódios jorrados sem compaixão brotem algumas nascentes, miraculosas nascentes com o intuito de limpar o rio. Quem sabe nos ressignificados possíveis olhemos sem pressa para a manjedoura e nos afeiçoemos com a imagem do Amor feito menino. Menino que riu, que chorou, que surpreendeu, que se assustou, que se inspirou na carpintaria do mundo pelas mãos habilidosas de seu pai. Um bom José.

 Menino feito homem que ouviu de sua mãe, Maria, que havia acabado vinho naquela festa. Que havia acabado alegria. Sabia ela que, tudo guardava no coração, que sua missão era restabelecer a alegria. Ele fez o que devia ter feito. E surpreendeu.

Que o natal nos surpreenda. Não nas expectativas do que os outros possam trazer para as nossas vidas. Não nas esperas de milagres que limpem as águas cujas nascentes eram belas, como dissemos. Que o natal nos surpreenda pela nossa capacidade de compreender o poder que temos de dar às nossas vidas o verdadeiro sentido do natal. Uma vida que surge e que surpreende um mundo marcado por guerras, ódios, intolerâncias, perversidade. Era assim no tempo de Jesus. É assim nos nossos tempos.

Mulheres eram apedrejadas. Mulheres são apedrejadas. Mentiras eram espalhadas. Mentiras são espalhadas. Ausências de amor traziam dor. Ausências de amor trazem dor. E o mundo não compreendeu Jesus. Alguns queriam vê-Lo no poder. No tipo de poder que acreditavam. Outros O desprezaram quando mentiras foram espalhadas sobre Ele. Outros apenas assistiram sem entender o real significado da compaixão.

É mais um Natal. Tempo da alegria. Tempo do nascimento. Tempo de presentes que trazem significado. Tempo de ser presente nas ausências e de dar ao menino o presente que ele merece. 

Razões há para o pessimismo, o curso está sujo;  razões há para o desânimo, mulheres e homens não se cuidam mutuamente e o rio segue distante da nascente. Mas é Natal. Deixemos de lado o que causou estranheza e prossigamos. Lembrando a pureza da nascente, da vida brotada do Sopro do Criador, do Menino rindo e chorando, nascendo. É aniversário do Menino Jesus. Deixemos que Sua simplicidade inspire o encontro. Exageros não combinam com a manjedoura. Na receita da ceia, não pode faltar ternura; o resto é menos importante. 

Renasçamos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/12/2015