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Respeite minha memória

Em um restaurante, uma filha mostrava impaciência com a mãe que repetia as histórias. A filha a interrompia, grosseiramente, dizendo: “Mãe, você já contou isso, você está muito esquecida, você não está bem. Que pena, mas você não está bem!”. 

A mãe, olhar ao longe, ficava em silêncio, parecia triste, mas voltava ao assunto. A filha a interrompia, começava uma história, falava do marido, falava mal do marido. A mãe tentava ajudar, dizendo que tivesse paciência, pois as pessoas eram diferentes. Falava vagarosamente. E a filha a interrompia, mais uma vez, dizendo: “Mãe, você está muito lenta, está sem cabeça, você não é mais a mesma. Que pena, mas você não está bem!” A mãe não retrucava. Calava-se, obediente. Voltava ao seu silêncio, como se buscasse, dentro de si, o conforto da própria companhia.

Como aquela conversa me incomodou! Quantas vezes a filha disse para a mãe que ela estava sem cabeça, que não estava bem! Repetir histórias, todos nós fazemos, independentemente, da idade. Quando percebemos que o outro está esquecido, que o tempo trouxe alguma dificuldade à memória, é preciso respeitar. 

Tratar os pais com respeito. Compreender as limitações que todos nós temos em qualquer idade. Não expor as ausências, não ridicularizar, não diminuir quem nos alimentou de vida nos mais fortes anos de suas vidas e que, agora no entardecer, já não têm o mesmo vigor são formas de fortalecer os laços de família, de amor, de acolhimento. Laços que lhes parecem tão fragilizados nessa etapa da vida. 

Ao final, a filha, impaciente, não esperou a mãe terminar de comer. “Vamos, tenho que ir embora, você está comendo muito devagar. Também, você não faz nada. Vamos, eu cuido de você”. Cuidar não é isso. Nas palavras, estão instrumentos poderosos de diminuir ou elevar as pessoas. Há gestos que fazemos sem refletir. Tempos que perdemos por não compreender. Pessoas que machucamos por não respeitar. Que pena. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/01/2015

 

Civilidade

O padrão básico da vida em sociedade é uma trama com múltiplos laços de relacionamento. Nutrir uma sociedade é cuidar das relações. E o alicerce dessa trama, chamada convivência, é o respeito. O respeito é um valor essencial para harmonizar as relações, e a violação desse princípio enfraquece o convívio humano.

Cada vez mais comuns, casos como a tragédia ocorrida entre vizinhos num condomínio em Santana do Parnaíba devem não só ser lamentados, mas, principalmente, servir como alerta. Uma briga de condomínio, uma discussão no trânsito, uma desavença em casa, entre outras situações, não podem desencadear atitudes violentas. O grupo social se enfraquece quando um membro decide resolver (ou interromper) a própria vida desconsiderando a vida das outras pessoas. Não há culpados, não há julgamentos exatos, não há argumentos absolutos. Há violência. Há vítimas. Há tristeza. 

Como dizia Mahatma Gandhi, “a lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos”. Isto é, conflitos angustiam a alma humana, desde sempre. Impedir que eles sejam resolvidos com o emprego da violência é a chave. 

Esses acontecimentos vêm, não raro, acompanhados de justificativas: falta de tempo, cansaço, estresse. O grande risco é que a incivilidade vire um hábito, e maus hábitos violam os direitos dos outros.

Conviver bem se aprende com a educação. Na família. Na escola. Nos diversos espaços sociais. Há muitas receitas para o convívio humano, mas a educação é a ponte. A educação conduz a comportamentos mais amistosos, pois fortalece o respeito à liberdade alheia. 

A educação tem a magia de engendrar pessoas e processos para encontros. Cada encontro é, em semente, uma nova amizade. Em um mundo onde a violência salta aos olhos, contamina as relações e deteriora os sentidos, a amizade é um bem a ser preservado. E o respeito mútuo, uma regra sem exceção.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)