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Que horas ela volta?

Assisti ao filme de Anna Muylaert. Assisti com atenção à excelente trama que traz o universo cotidiano da casa brasileira – o universo de relações entre patrões e empregados. O filme traz uma profunda reflexão sobre preconceitos, solidão, sonhos, ética.

Uma empregada, Val, interpretada brilhantemente por Regina Casé, dedica a sua vida a cuidar da vida dos seus patrões. Faz de tudo. Esmera-se para fazê-los felizes. Percebe, sutilmente, as idiossincrasias de cada um deles, mas, com abnegação e respeito, fica no seu espaço, a cozinha. Espaços são bem tratados na trama. Qual é o espaço dos patrões? Qual o espaço dos empregados? Val parece ser tratada como alguém da família. O patrão não trabalha. É um pintor que perdeu a inspiração. Mas tem dinheiro. A patroa busca reconhecimento por seu estilo. E tem uma relação fria com o marido e o filho. O filho dos patrões busca os afetos no quarto da empregada. É ela a sua mãe de acolhimento. É ela que o incentiva a acreditar no seu talento. Os lugares dos afetos são o quarto da empregada e a cozinha. Ali, o menino se desmancha em vida. Ali, ele é ouvido e tem voz.

 Mas um fato muda a rotina da família. A filha de Val vem do Nordeste para prestar vestibular de arquitetura. E fica hospedada com a mãe na casa dos patrões. O conflito vai ganhando tom. O tom desafinado do desalinhamento do discurso inicial de permissão à prática de preconceito com a filha da empregada. A cena da limpeza da piscina é cheia de significados. A menina é jogada na piscina, em uma brincadeira. Brinca com o filho do patrão e com um amigo dele. A dona da casa chama um homem para esvaziar e desinfetar a piscina. A justificativa é que um rato foi encontrado naquele espaço que pertence apenas à família e aos seus convidados.

A linguagem trabalha com o não-dito. A escada interna da casa tem um significado que sugere várias possibilidades. O país mudou. A filha da empregada passa,  para assombro da patroa, no vestibular de arquitetura. O filho do patrão não passa. A filha da empregada tem um filho. E o deixa no Nordeste para fazer faculdade em São Paulo e, depois, voltar a cuidar dele. É como a história da mãe que deixou a filha e veio trabalhar por causa da filha. Laços que se rompem por razões sociais. Futuros que, para serem atingidos, dependem de presentes interrompidos. Mas a história não se repete. O desfecho é surpreendente. É preciso ver o filme para saber. É preciso ver o filme para refletir sobre os preconceitos disfarçados que continuam a desafinar as histórias entre empregados e patrões. É preciso ver o filme para aplaudir o cinema brasileiro. O talento de Anna Muylaert e de um elenco afinadíssimo.

Histórias do cotidiano são mais complexas de serem retratadas. Poderiam cair na vala comum dos exageros, dos apelos, da intenção maniqueísta de criar bruxas e princesas ou bandidos e mocinhos. Não se trata de maldade ou de bondade. Trata-se de ética. De comportamentos erráticos que fazem com que patrões não consigam enxergar os seus empregados. Cenas de famílias brasileiras ainda são chocantes. Empregados que cozinham para os seus patrões e não podem sequer experimentar o que preparam. Os patrões dão uma desculpa que julgam satisfatória: “O problema é que não estão acostumados a comer dessa comida”.  Separam os copos de bebida. Os espaços. Os problemas. Empregados com problemas familiares não agradam. Os patrões justificam: “Já tenho problemas demais para me preocupar com os outros”. “Os outros”, no caso, são pessoas que vivem na mesma casa, que preparam a comida, que lavam as roupas, que melhoram o ambiente, que cuidam diuturnamente para que o espaço esteja o mais agradável possível. Mas o espaço do empregado não é o do patrão. “Essa gente é folgada”, sugerem alguns. Qual gente? Há categorias de gente? Os que têm mais ou menos dinheiro? Os que têm mais ou menos instrução? O país está mudando. Quem nunca imaginou entrar numa universidade, hoje, faz mestrado e doutorado. Quem estava apartado começa a exigir fazer parte de um país que é de todos. Os anos horrendos da escravidão se findaram, mas ainda há, na alma de alguns brasileiros, resquícios daqueles tempos: casa grande e senzala.

Que bom sair do cinema refletindo. Sobre a postura dos outros. Sobre a nossa própria. “Que horas ela volta” é uma inspiração para dias melhores…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/10/2015