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Sobre a lucidez e a cegueira

“Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.” José Saramago

Há uma obra do genial escritor português José Saramago, chamada “Ensaio sobre a lucidez”, que dá sequência à outra não menos importante, “Ensaio sobre a cegueira”. As angústias frente aos desmandos das ações humanas no poder são as mesmas. Os eleitores, no “Ensaio sobre a lucidez”, num dia cinza e chuvoso, primeiramente, demoram a ir às urnas, o que causa imensa preocupação nas autoridades. Depois saem, quase em bando, o que traz alívio. Mas dura pouco, pois a apuração mostra um número assustador de votos em branco. Convocada nova eleição, o feito piora. A população não aguenta mais os partidos de direita, os de esquerda e os do meio. Os políticos não compreendem o recado e começam a agir de forma ainda mais errática. A mentira se alastra. As ameaças, também. Até que as autoridades resolvem abandonar a cidade. Abandonada já estava ela com atitudes pouco lúcidas de seus governantes. Cegos pelo poder, inebriados pelo isolamento da realidade, enxergavam apenas seus próprios interesses e devaneios.

Lucidez vem de luz. Uma pessoa lúcida é alguém dotado de clareza, de compreensão dos fatos, de percepção da realidade. Há cegueiras em todas as áreas da atividade humana; em outras palavras, há ausência de lucidez. Parece-nos mais fácil perceber a cegueira alheia, olhar com clareza os erros dos outros e lamentar diante do que vemos. Enxergar as sujeiras que nos envolvem parece mais difícil. E esse deveria ser nosso real intento.

Os governantes nascem das comunidades onde estão inseridos. Não caem de planetas longínquos. A expressão “o poder revela o homem” parece servir a homens não preparados para o exercício do poder. Qualquer que seja esse poder. Pessoas com pouca maturidade para tal ou falta de capacidade para enxergar com clareza seus próprios erros e corrigi-los. Porque errar não é tão grave quanto a teimosia de permanecer no erro.
Pessoas revelam-se, não raro, cegas ou pouco lúcidas em cargos de comando. Agem desbaratinadas, atabalhoadas, incorretas porque não estavam preparadas para exercer autoridade. Autoridade não é um exercício de dar ordens, gritar, ameaçar. Ao contrário, é fazer com que o outro seja tão autor quanto eu da demanda que proponho, da ideia que tenho, da ação que realizo. É conquistar o outro para as teses que me parecem mais corretas no exercício do poder. É envolver com honestidade meus governados. Sem mentiras. Sem apelações. Sem arrogâncias. Uma das formas mais comuns da cegueira, no exercício do poder, é a arrogância. O arrogante é dono da verdade. É incapaz de ouvir o clamor daqueles que “votam em branco”, é ausente na escuta democrática, porque imagina saber tudo. O mentiroso é,também, cego. Cria histórias e delas fica refém para se manter no poder. O que ameaça e persegue, da mesma forma, sofre de ausência de lucidez, porque é incapaz de se sentir tão humano quanto seu liderado. Assim também são os perversos, os que gastam o tempo tentando amealhar maldades sobre seus concorrentes. Os cargos passam, a essência humana fica. Apoderar-se do cargo é prova de cegueira. Compreender a efemeridade de cada posição ocupada é prova de lucidez.

Valem estas modestas reflexões para todos os exercícios de poder. Para aqueles que administram empresas ou governos, para os que lideram pessoas em companhias ou nas famílias, os que dirigem pelotões ou grupos de voluntários. O líder não é agressivo, não impõe medo, não se distancia da verdade. Ao contrário, o líder é admirado pela lucidez de suas falas e pela coerência de suas atitudes. É educado para ser competente, humilde e amoroso. É cuidadoso com o que não lhe pertence, mas que cabe a ele administrar.

Somos todos passageiros do tempo. Não permanecemos eternamente nos cargos que ocupamos nem no espaço fascinante deste mundo. Não agarramos o poder e nem a idade que nos convém. Vamos envelhecendo, e os dias vão escorrendo de nossas mãos. Cegos seremos, se nos sentirmos donos do mundo ou das pessoas. Bendita lucidez que faz com que nos reconheçamos pequenos diante da história e, ao mesmo tempo, capazes de gigantescos gestos de bondade. Lúcidos,comandamos melhor o nosso destino e as pessoas que, por alguma razão, estão sob nosso cuidado.
Lembremo-nos de Mandela governando com olhos de amor seu ferido povo. Lembremo-nos de Dulce, a irmã que exercia o poder da caridade. Ou de algum conhecido nosso, anônimo,  que consegue ver os desvarios dos outros e prosseguir lúcido.

Das casas nossas e dos outros, nascem os que governam. Cuidemos, então, da educação. Quem sabe amanhã a lucidez seja uma companheira mais frequente do que a cegueira.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/03/2015

Somos todos brasileiros

Nada justifica o preconceito. Nada. Nem alegrias nem decepções. Nem celebrações de vitórias nem lamentos de derrotas. O preconceito é feio. É mesquinho. É a prova de que ainda temos muito a aprender na arte de conviver com as diferenças. Opiniões diferentes, olhares diferentes para temas diferentes, pessoas diferentes.

Vez ou outra, por alguma razão, surgem pessoas que disparatam os seguintes dizeres: “eu não sou preconceituoso, mas…”. A palavra que introduz a triste mensagem que será dita já é uma amostra de que o que vem não foi fruto de reflexão, mas de impulsos gerados por emoções estranhas. Ganhar ou perder uma eleição. Ganhar ou perder o campeonato de futebol. Ganhar ou perder na sugestão, na opinião, faz parte. Mas é preciso que o vencedor tenha humildade; e o perdedor, também. Até porque nada é definitivo. E o conceito de vencedor e perdedor é bastante relativo. Nessas eleições, vozes se pronunciaram mostrando o quão feio é o preconceito. Somos todos filhos de um mesmo país. De um gigante que tem mulheres e homens com sotaques diferentes, religiões diferentes e formas diferentes de ver o mundo. Mas somos únicos no sonho de termos direito a um futuro, de melhorarmos o que nos envergonha e de aprimorarmos o que já conquistamos. Juntos. Não há estado melhor ou pior. Não há região melhor ou pior. Não há mulher e homem melhores ou piores. Cada um exerce o sagrado direito de ser livre. Liberdade que requer responsabilidade. Porque o outro, também, é livre. Liberdade que significa usar a razão. Usa a razão quem controla os ímpetos, as incontinências que levam a agredir. Quantas palavras malditas em redes sociais, quanto descuido com o outro, cidadão como eu, brasileiro como nós. 

Sejamos, como diz o nosso hino, “um povo heroico”, que preza pela igualdade, pela liberdade. Afinal, “Brasil, de amor eterno seja símbolo”. Um amor que vence qualquer divisão, qualquer indisposição. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/10/2014

Política é coisa séria

Resolvi não ser candidato nestas eleições. Sou muito grato aos milhares de eleitores que confiaram em mim e posso dizer que desempenhei meu papel. Tive a honra de presidir a Comissão de Educação quando da votação do PNE – Plano Nacional de Educação. Estabelecemos metas que podem, se cumpridas, mudar a face de nossa educação. Presidi a Frente Parlamentar em defesa da Adoção e as mudanças do código de ciência, tecnologia e inovação, entre outros.

A educação sempre foi minha paixão. A educação e a literatura. Já escrevi 70 livros entre romances, peças de teatro, ensaios de filosofia e pedagogia, literatura infantojuvenil, contos, biografias, poesia etc.  Vivo agora a alegria de ver esses livros sendo lançados em outros países. Espanha e América Latina, Itália, Inglaterra, Líbano e China. Vou dar palestra, em outubro, no maior evento literário do mundo, a Feira de Frankfurt. Essas são as razões de não me candidatar. Não conseguiria dar a atenção devida ao parlamento. Entretanto, sou um entusiasta da política, da boa política. Nesse meio, conheci pessoas valorosas, que exercem a militância correta de fazer da vida um serviço aos cidadãos. E também conheci gente perversa, que age no subsolo tentando, de forma criminosa, destruir biografias e iludir o povo. É preciso separar o joio do trigo. Há muito joio. Mas há muito trigo. Preocupo-me ao ver que essas pessoas estão por aí, tentando angariar votos. E há, também, os que não sabem o que farão se eleitos. Política é coisa séria. O voto é um exercício de poder. Olhar com cuidado, desconfiar de promessas mirabolantes, refletir, eis as ações necessárias para que o futuro nos agradeça.

Continuo trabalhando pelo país que tanto amo. Nas salas de aula, onde professo minha crença no ser humano, e nos livros, onde conto histórias e partilho sentimentos, faço minha parte. Façamos nossa parte. É isso que nos realiza. A consciência de que não estamos aqui por acaso.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/08/2014