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O prazer de ser justo

A injustiça é dolorosa. Saber que o incorreto venceu, que o mentiroso obteve êxito, que o demagogo convenceu, que o perverso ganhou espaço não é agradável. É até desestimulante. E na vida, infelizmente, esses maldizeres rasuram nosso texto.

Quando ficamos sabendo que uma injustiça foi cometida contra alguém, deveríamos ter a compaixão e a razão necessárias para nos sentirmos, também, injustiçados. A injustiça vai além do individual. Ela é do todo. Da vida em sociedade. É como uma parte do corpo que dói – todo o corpo sofre. A justiça também. Como é bom saber que o resultado de um julgamento devolveu o que alguém, injustamente, tomou de uma pessoa. Quando a mentira é, enfim, desmascarada, e a face da verdade está ainda intacta. É assim na vida. É assim na arte.

 Assisti ao belo filme de Simon Curtis, “A Dama Dourada”, e saí com a feliz sensação que a justiça é capaz de provocar. A história é incrível. Uma mulher austríaca que teve sua vida arrasada pelo governo nazista resolve ingressar com uma ação contra o governo reivindicando seus direitos sobre alguns quadros de Gustav Klimt. Um deles retrata a sua tia, Adele. A linda Adele. Obra que ficou conhecida como “A Dama Dourada”.

Quando Maria Altmann (Helen Mirren) inicia sua saga contra o governo austríaco, ela conta com a ajuda de um advogado, Randol Schönberg (Ryan Reynolds), que é neto do renomado compositor austríaco Arnold Schönberg. A tarefa parece inglória. As portas se fecham já que o quadro é considerado uma espécie de Monalisa da Áustria. Nas lembranças de Maria Altmann, o horror da invasão nazista e a tristeza de ver os seus compatriotas recebendo, festivamente, o exército de Hitler. O que justificava tamanha euforia se sabiam que cidadãos como eles estavam sendo arruinados? A lembrança da partida quando teve de abandonar os pais. Da chegada aos Estados Unidos. Do que ficou e do que era preciso fazer ficar. 

 Quantos morreram nos campos de concentração? Quantas famílias foram dizimadas, histórias roubadas, mortes antecipadas por causa do horror da construção de uma raça pura. Pura é a raça que tem compaixão, que tem senso de justiça, que compreende a dor do outro e faz de tudo para amenizá-la. Pura é a raça que não mente, que não compartilha da injustiça por nenhuma razão. A razão correta é ser justo.

A batalha parece perdida algumas vezes no filme. Mas são persistentes os seus protagonistas. Têm uma causa. Têm uma razão de viver. O que ficou perdido no passado não poderá ser reencontrado, mas há meios de devolver a paz que a intranquilidade dos injustos roubou. É isto, afinal, a justiça, a busca da harmonia, da razão correta, da pacificação social. É o impedimento da ganância, dos abusos, dos exageros que fazem com que não haja medida para se ter o que se quer.

O que Hitler queria? Ser um deus dos viventes? Decidir quem tem o direito de viver ou de morrer? Limpar o mundo do que ele julgava sujo? Sujo é quem não se percebe membro de uma mesma humanidade. Quem se descuida dos seus. E de si próprio. Ninguém abraça a si mesmo. É preciso conviver. E, convivendo, aprender a ser justo.

O desfecho é bom. Altmann consegue o que sonhou. A justiça venceu. No cinema em que eu estava, algumas pessoas aplaudiram. Aplausos à justiça. Mas é preciso ter cuidado. Nem tudo o que parece justo o é. Há muita sujeira impedindo que vejamos a linda face da justiça. Como saber? Como encontrar? Como revelar a justiça?

Perguntas, é bom que existam. Respostas, é melhor alguma prudência para alcançá-las. O bom é prosseguir. Celebrando a escolha limpa de quem tem uma razão para viver. A justa razão.

O filme é bom. Mas a vida é ainda melhor. Desde que saibamos o que viemos aqui fazer. E não consintamos que nos desviem do alvo certo. Dizia Aristóteles que o arqueiro erra de muitas maneiras e só acerta de uma. Dá trabalho. Mas dá um enorme prazer saber que acertamos. Que a decisão foi justa. Que a verdade libertou. Que o convencimento nasceu de uma profunda reflexão. E que o perverso não prevaleceu sobre o generoso.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/08/2015