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A morte e seus mistérios

Já sofri a dor da perda. Já enterrei amores. Já chorei as ausências. E não foram poucas. Partes nossas se vão. Difícil recompô-las. Elas se vão sofridas acompanhar os que gostaríamos que, por aqui, permanecessem. Encontrar palavras para o consolo não é fácil. Talvez não seja possível. Racionalizar o que acontece com os nossos mortos é quase ingenuidade. Como saber? As religiões não dão detalhes. Nem poderiam. Ou se tem fé ou não se tem. E, mesmo tendo, não tem a fé o poder da cicatrização imediata. Não estanca a saudade que barulhenta nos lembra, o tempo todo, do que perdemos. É uma perda, sim. Não há como negar. Perdemos a presença, o colo, o abraço, as histórias. Perdemos e é assim que é. Guardamos, entretanto, o que vivemos. O passado não nos pode ser roubado. Mas, no momento da separação, o passado parece até atrapalhar. Cada foto, cada filme, cada viagem no caldeirão da memória nos queima. E voltamos ao choro. E voltamos à consciência de que os momentos de amor precisam encontrar outra canção. Quando a morte vem, com ou sem despedidas, a dor que permanece é aguda. Voltar para a casa, depois de um enterro, é quase que um corte no que somos e no que gostaríamos de continuar a ser. 

 Sofri muito a morte de meu pai. Mas lembro-me dos gestos da minha mãe quando chegou ao quarto em que viveram por anos e anos um amor encantado. Os cantos de dor estavam ali para serem entoados. Minha mãe chorou baixinho. Olhou para mim e disse que não resistiria. Já havia perdido dois filhos. Já havia perdido os pais. Foi um pouco com cada um. Mas o seu amor estava com ela. Chorando junto. Cambaleando junto. Reerguendo com alguma dificuldade, junto. Olhou-me com vagar. Vagou pelo ontem e desejou que o ontem voltasse. Que tudo pudesse ser como nos dias que se foram. A fotografia da família estava incompleta. O filme já não tinha o mesmo barulho. Faltavam vozes. Disse pouco a ela. Abracei-a. Chorei junto. Agradeci por prosseguirmos, sabendo que independe de nós as partidas. Mas permanecemos, compreendendo que haveremos de continuar. É essa a nossa fé.

Minha mãe quis saber como nos encontraremos. Se seus filhos, na outra vida, continuarão sendo seus filhos. Se meu pai haverá de olhar para ela e reconhecê-la como a mulher que o amou e que foi amada. Se seus pais continuarão casados no Paraíso prometido.

Demorei a responder. Entendi que ela queria apenas desabafar. Mas ela insistiu.

– Só tenho dois filhos comigo. Quando morrermos todos, voltarei a ter os quatro filhos? Ou seremos todos irmãos? Eu quero saber.

Abracei-a novamente e tentei alguma resposta. Disse que não tinha certeza. Disse que a nossa crença era a de que há o mundo que vivemos e há um outro mundo, a eternidade ou Céu ou Paraíso ou como quisermos chamar.

– Mãe, entre esses dois mundos há algo fascinante chamado mistério. Não há como saber.

Ela quis saber o que dizem as Escrituras. Eu a lembrei de que Jesus falava que “na casa de meu Pai, há muitas moradas”.

E, se o Pai é Amor, o que virá depois não pode ser ruim. Se o Pai é Amor, não somos nós brinquedinhos que velhos ou estragados são descartados. Se o Pai é Amor, prosseguiremos.

– Permita, mãe, que o mistério a tranquilize. O mistério junto com a fé. Somos peregrinos de um mundo que nos encerra sem nos encerrar. Aqui, ficam sabores que experimentamos, afetos que alimentamos, histórias que escrevemos. Levamos a leveza dos nossos desprendimentos. O Amor nos liberta e nos dá asas. E é esse o voo final que os nossos amores já fizeram e que um dia faremos. Meu pai será meu pai na outra vida? Não sei. E meus irmãos? Também não sei. Só sei que não pode ser ruim. Só sei que estar mais próximo de Deus fará com que eu seja capaz de viver plenamente o que vivo, aqui, quando amo. Porque o céu começa aqui.

Minha mãe deitou e adormeceu com o cansaço da perda, mas ficou pensando na morte e nos seus mistérios. Eu me deitei ao seu lado e agradeci a Deus por sua inspiração e pelo meu pai que me ensinou a acreditar.

Saudade, pai.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/11/2015