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Misericórdia

O Papa Francisco nos convida a viver o Ano Santo da Misericórdia.
Por meio da Bula Papal Misericordiae Vultus (O Rosto da Misericórdia), Francisco fala da missão do cristão em ser misericordioso.

O que significa a misericórdia? A origem da palavra nos remete a, pelo menos, duas possibilidades que se complementam:
Miser  (pobre) e  cordis (coração), portanto, coração de pobre.
Miseratio (compaixão) e cordis (coração), coração compadecido.

O sentido de “coração de pobre” é ter a consciência de que todos nós somos pobres, necessitados, carentes de algo. Todos nós. Não há ninguém que viva sem carências. As carências são diferentes. Há carências materiais, afetivas, espirituais e outras. Carecemos do outro como essência da nossa existência. E careceremos sempre. Ninguém chegará ao patamar da satisfação absoluta.

Da mesma forma que, por mais que já tenhamos nos alimentado fisicamente todos os dias, precisaremos continuar a nos alimentar, isto é, careceremos de alimentos, assim também acontece nas relações humanas. Ninguém poderá dizer que já foi muito amado, e isso o alimentou de tal forma que nunca mais precisará de amor. Careceremos de amor para sempre. Essa é uma boa condenação. Estamos condenados a precisar de amor e de amar. Sem isso, nossos dias perderão o significado e fenecerão. Há várias formas de amar. O que não há é a possibilidade de viver dignamente sem amor.

A primeira reflexão de misericórdia refere-se, portanto, ao universo individual. A consciência de que essa boa limitação é para todos. Somos limitados às nossas necessidades. Pobres. Carentes. Necessários de alimentos físicos e afetivos.
A segunda reflexão, como consequência da primeira, refere-se ao coletivo. Se sou carente e o outro também é, é preciso que nos unamos em nossas carências e que fortaleçamos os nossos vínculos. Um coração compadecido é um coração que sofre com o sofrimento do outro, que enxerga o outro que, portanto, não lhe é indiferente. A indiferença é uma falha grave no tribunal dos afetos. Deixar de enxergar, de compreender, de acolher o outro é prova de ausência de humanidade. Vivemos tempos de cobranças, de julgamentos, de achincalhes. Criticamos quem nem conhecemos. Empenhamo-nos em exercer o triste ofício de carrascos de irmãos nossos. Sim, somos irmãos, independentemente de origens, crenças, religiões. Somos irmãos no sentido humano. Nascemos da mesma terra e nutrimo-nos das mesmas necessidades.

A abertura do Ano Santo da Misericórdia coincide com os cinquenta anos do encerramento do Concílio Vaticano II. O Papa do Concílio – hoje,  São João XXIII – declarou que: “em nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade…”. Redescobrir o valor do perdão, dos ensinamentos da parábola do filho pródigo, do pai que acolhe o filho que errou e o encoraja a corrigir a rota e a seguir no caminho do bem. Redescobrir o valor do cuidar, a bela história do bom samaritano, que para, que enxerga o irmão ferido e que cuida dele.
Quantos ensinamentos há para serem incorporados no nosso dia a dia para vivermos a misericórdia! Palavras ganham significado quando são vividas. Eis a bela expressão da caridade que nos ensina São Paulo. Precisamos de uma fé com obras. Com obras de misericórdia, com obras de amor.

Algumas pessoas se diminuem quando imaginam que, em um mundo tão errático, fazer o bem não faz a diferença. O mundo é formado por muitos mundos. Cada ser humano é um mundo que convive com outros mundos. Antes de pensarmos no mundo inteiro, pensemos nos mundos com os quais os nossos mundos convivem. É assim, na simplicidade de um cuidar, que mundos se elevam e que a misericórdia se realiza.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/01/2016

Talentos desperdiçados

Já faz um tempo, o Papa Francisco, ao rezar uma missa na Praça São Pedro, disse aos jovens presentes: “Não enterrem seus talentos! Não tenham medo de sonhar grandes coisas”.

Ao exortar os jovens à perseguição de seus ideais, de seus temas de vida, o papa resumiu, com essas palavras, sua crença no humano jeito de ser um homem de Deus que cuida do povo. 

 Enterrar os talentos é uma menção a uma parábola de Jesus. E tem um significado claro. Cada um de nós recebe um quinhão de talentos. E é bom para nós e para o mundo que os multipliquemos. É bom para nós e para o mundo que coloquemos nossos talentos a serviço de boas causas. Todas as vezes que ouço histórias de jovens hackers, fico imaginando o tanto de inteligência que está sendo desperdiçado. Gastam tempo e talento a serviço de uma ação que nada contribui para si mesmos nem para o mundo. Ao contrário, ações que promovem, não raro, o mal. Há jovens que se lançam a mostrar a perícia em disputar rachas, com seus carros em alta velocidade, desafiando o medo e, infelizmente, pondo fim antecipadamente à vida de outros e às suas próprias. Por quê? Por que não usar o talento do domínio sobre o carro e sobre os medos de maneira nobre? Há jovens chefiando facções criminosas, mostrando disciplina e capacidade de trabalho e, por meio desses talentos que poderiam ser virtuosos, espalham o que há de pior na comunidade em que vivem: violência, exemplos equivocados, falta de apreço pela vida. Ausência de sonhos!

Sonhar grande, larguear os ideais, é o caminho, mas esse caminho só pode ser percorrido sobre os alicerces da ética, com a vivência comum, com sonhos comuns que trazem não apenas o prazer estranho que desvia a rota do comandante, mas a felicidade de uma vida plena de significados para toda a nau. Comandantes somos nós todos, quando não desperdiçamos nossos talentos, quando sonhamos o grande sonho de cuidar das pessoas e do mundo. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/10/2015

Globalização da indiferença

Acompanhei o prefeito Fernando Haddad em um evento com o Papa Francisco, na última semana, no Vaticano. Estavam prefeitos e outras lideranças de várias partes do planeta.

O Papa convidou a todos para refletir sobre a vida nas cidades e as consequências da globalização da indiferença. O encontro tinha como base a Encíclica Laudato si que traduz a voz do Sumo Pontífice sobre a Casa que é de todos.

Nos pronunciamentos, o cenário de um mundo repleto de desafios. O prefeito de Roma falou do terrível comércio de órgãos para transplantes. A cada hora, um órgão é vendido no mundo. Pessoas pobres que retiram uma parte do corpo em troca de dinheiro. No comércio ilegal de órgãos, os rins representam 75%. A prefeita de Paris falou da responsabilidade que têm os países mais ricos em socializar a tecnologia com os mais pobres para que não destruamos ainda mais a natureza. Insistiu ela que os mais ricos gastaram, irresponsavelmente, os recursos naturais e, agora, querem exigir que os mais pobres não façam a mesma coisa. Para isso, é preciso ajudá-los. A recém-eleita prefeita de Madrid discorreu sobre as modernidades necessárias para que as vidas nas cidades sejam melhores. Juíza de carreira, ela insistiu nos exemplos que os governantes precisam dar para quem os elegeu. O prefeito de Medellín falou sobre o problema das cidades quando das expansões que segregam os mais pobres. Falou também sobre a importância da mobilidade e da requalificação dos espaços públicos. A prefeita de Gana ponderou sobre políticas afirmativas para as mulheres. Elas representam 65% da população e são vítimas de todas as formas de violência. O prefeito de São Paulo relacionou a melhoria das questões sociais com as questões ambientais, mostrando que é mais fácil lutar por aquilo que me atinge do que por aquilo que atinge aos outros. O meio ambiente é uma preocupação de todos. A fome não pode ser uma preocupação apenas daqueles que passam fome.

Alguns depoimentos de vítimas da escravidão moderna emocionaram os participantes do evento. Meninas escravizadas para o sexo ou para o trabalho forçado. Vidas dolorosas covardemente usadas por outras pessoas.

O papa Francisco, com uma simplicidade contagiante, falou dos seus sonhos de que os homens de boa vontade não permitam que os seus irmãos sofram. O tráfico de pessoas, a escravidão disfarçada dos nossos tempos, o uso irresponsável dos recursos que são de todos, e tudo isso agravado pela globalização da indiferença.

O que é a indiferença? É o lavar as mãos, como fez Pilatos, para os problemas dos outros. É o egoísmo, um dos piores vícios do ser humano. É o acomodar-se diante do incômodo do outro. No mundo em que vivo, crianças são destruídas e eu não me importo; mulheres são violentadas e eu não me importo. Irmãos nossos morrem em travessias clandestinas para fugir das guerras ou da miséria de seus países. Fogem em busca de liberdade, em busca de paz. Alguns morrem na travessia. Outros encontram cenários por vezes tão perversos quanto aqueles que deixaram. Dores de alma. E os indiferentes preferem nem ouvir falar sobre isso.

A globalização da indiferença aponta um pecado comum. Eu não quero cuidar do meu irmão. Porque me dá trabalho. Porque não tenho tempo. Porque tenho outras preocupações na vida. Então, o melhor é nem ficar sabendo.

Mas a indiferença não mora apenas naqueles que nada fazem por um irmão que arranca um órgão do próprio corpo para vender a alguém, por necessidade de ter dinheiro. A indiferença também está na falta de compaixão com o meu próximo mais próximo. Aquele que vive comigo, que é meu pai, minha mãe, meu irmão ou a pessoa que trabalha na minha casa. Aquele com quem eu convivo no dia a dia da minha profissão. Ou o amigo que a vida me deu e que, por alguma razão, eu vou ficando indiferente à sua dor. E a dor é uma senhora insistente que visita todos em muitos momentos da vida. E como é bom quando há por perto quem socialize a amizade, a generosidade, o cuidar. Eis a vacina contra a indiferença. Um remédio poderoso chamado Amor. Mesmo que nos sintamos impotentes diante de tantas agruras que destroem cidadãos dos nossos tempos, façamos nossa parte.

Descruzemos os braços e calcemos as sandálias para entrar no território sagrado do encontro. Encontremos quem de nós precisa – e há tantos – e, ao menos desses, cuidemos. É esse o primeiro passo para os outros que surgirão. O primeiro abraço em tantos que em nós poderão ver acesos os luminares da própria esperança.

Voltei de Roma com este desejo. Persistir na determinação de não permitir que nenhuma força do mal roube a crença de que posso tornar o mundo melhor. Todo mundo pode.

A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. (…) Nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se. (Laudato si – Papa Francisco)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/07/2015

A cultura do encontro

Desde que o mundo conheceu o novo papa, somos todos – católicos ou não – surpreendidos por sua sabedoria e simplicidade. Francisco é um homem de palavras exatas. De reflexões singelas e provocativas. Ocupa-se, incansavelmente, de nos atentar para as evidências que, na velocidade da vida moderna, deixamos de enxergar, de ponderar.

Em sua rede social, com 14 milhões de seguidores, o papa nos chama para o cuidado com os idosos: “Às vezes descartamos os idosos, mas eles são um tesouro precioso: descartá-los, para além de ser injusto, é uma perda irreparável”. Alerta-nos contra a cultura do descartável. Da injustiça. Convoca-nos, enfim, à missão de paz e bem. “Fazei-me instrumento de Vossa paz”, como disse o outro Francisco, o santo de Assis. O revolucionário do Amor.

Apenas o amor pelo próximo nos faz enxergar a face de Deus. Descartar nosso irmão é desconhecer nossa essência. Somos carentes uns dos outros. Em qualquer idade. No caso dos idosos, há uma razão a mais: é desperdício não aprender com sua sabedoria e experiência. Os idosos, assim como os jovens, constroem a sociedade, sustentam-na, alimentam-na em sua fonte de conhecimento, de histórias, de continuidade da família, de vir-a-ser. Edifiquemos a cultura da inclusão, do encontro, do acolhimento.

Pesquisas revelam que a população mundial vem envelhecendo, e a pirâmide etária, antes triangular, tende a se transformar. As pessoas estão vivendo cada vez mais. Além disso, nota-se uma participação mais ativa dos idosos, seja na continuidade do trabalho ou do estudo, seja na contribuição orçamentária às famílias. É evidente a importância da mudança do estereótipo do idoso e de sua inclusão.

Sigamos os exemplos da milenaridade das culturas que respeitam e dedicam a seus idosos posição de destaque no tecido social; amemos os que se empenharam em construir o que somos. Continuemos. Juntos. Sem descartar ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/6/2014

O Papa e a defesa da vida

O Papa Francisco fez um contundente apelo em defesa da vida. Falou sobre o aborto, o “horror das crianças que nunca poderão ver a luz”. O aborto é um ato criminoso. E de covardia a um ser, em gestação, que, frágil, não tem direito a defesa.

O aborto é um “descarte de ser humano”. Assim como é o tráfico humano, pessoas que vendem pessoas, órgãos comercializados como se algumas vidas tivessem mais importância que outras.

Lembrou o Papa, também, o descarte dos idosos. Usou um conceito de Thomas More. Os idosos e os jovens precisam conviver. “Os idosos trazem a sabedoria, enquanto os jovens nos abrem ao futuro, impedindo de nos fecharmos em nós mesmos”.

Descartar pessoas é desvalorizar a vida. “Jogar fora” uma criança em gestação é tão grave quanto jogar fora um idoso ou um doente. É triste ver idosos abandonados pela própria família. Pais que criaram filhos, que estiveram presentes na chegada dos netos e, de repente, viraram um incômodo. Então, a sociedade do descartável arruma um asilo e, vez ou outra, para aliviar o peso da consciência, faz uma visita.

Triste sociedade que não cultiva o amor nem na família. Tantas histórias, que poderiam se enlaçar para fortalecer a vida e dignificar os encontros necessários da convivência, descartadas por falta de tempo ou de vontade ou de amor.

Não nos cabe julgar as escolhas, mas, sim, fazer esta reflexão iluminados pelo Papa. Por que descartamos pessoas? Infelizmente, é mais fácil descartar mãe, pai ou avós do que um carro ou um apartamento. Ouvi de uma senhora que, para a mãe morar com ela, era preciso mudar de apartamento. O dela já estava todo montado. Um quarto se  transformara em escritório; o outro, em sala de TV. Logo, não cabia a mãe. Então, o melhor a fazer era descartá-la. Evidentemente, ela usou outras palavras: ”a mãe ficaria mais feliz, pois teria o canto dela”. Ora, perdoem-me, mas mãe não foi feita para ser jogada em um canto.

Eis o canto da ingratidão. De quem não consegue cultivar o passado para dele se alimentar, de quem não permite perdoar os erros e prosseguir juntos. Pais erraram, certamente. Filhos, também. Somos todos errantes caminhando pela vida. Talvez uma das razões da doença dos nossos tempos, a depressão, seja a ausência de laços significativos. Quem descarta não cultiva. Quem não cultiva não dignifica a própria vida. Mais uma vez, o Papa, com simplicidade e sabedoria, nos ensina.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/1/2014