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Alguma delicadeza

Maria Bethânia disse poemas no belíssimo Theatro Net, recém-inaugurado em São Paulo. Aliás, sempre que nasce um novo teatro, é preciso celebrar. Palco em que as emoções da arte inspiram as ações da vida.

Bethânia disse poemas. E cantou. Seu canto é expressão de uma voz a serviço do talento. A menina que, nos anos 60, subiu ao palco do Rio de Janeiro para cantar “Carcará” continua o seu ofício de tocar almas e fazer pensar. Entre poemas de Pessoa, Drummond, Vinicius, Cabral e de Reynaldo Jardim, o autor de “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”, a baiana, a brasileira falou sobre educação. Com os pulmões plenos, bradou que estudou em escola pública e professou que a educação pública brasileira tem jeito. E, mais do que isso, homenageou dignamente os seus professores.

Na plateia, eu aplaudia a cantora que desafia o tempo e continua a surpreender. Falou Bethânia do silêncio e da delicadeza. A poesia pede, ao menos, alguma delicadeza. Em tempos de urgências, parece difícil parar, refletir, ler um poema e se permitir o milagre do entranhamento. É o poema nos preenchendo ou nos esvaziando de acordo com o tempo. E com a necessidade. Alguma delicadeza… será que a vida de tantas agressões e solidões – não a necessária, a que faz refletir, mas a brotada na ausência de terra amorosa – não carece dessa delicadeza? Gestos de cavalheirismo parecem pouco convidativos. Elegâncias com os mais velhos. Cuidado no dizer, consciente do poder perfurador de palavras malditas. Atenção ao outro, que também sou eu, espelho de minha alma, irmão de convivência. 

Não descuidemos dos encontros, os desinteressados, os que colaboram com as nossas emoções mais belas, os que nos elevam ao patamar do que somos. Pessoas, inspiração de Pessoa, o que falou sobre o sino da sua aldeia, sobre uma tarde calma, sobre sua alma, porque tinha delicadeza para ver as delicadezas que a vida nos proporciona. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/10/2014

 

Uma verdadeira lição de amor

Há alguns dias, o Brasil se despediu, com dor, de um de seus mais notáveis atores e homens de bem, Paulo Goulart. Por todo lado, a tristeza de não se poder mais desfrutar de sua presença nos palcos e na televisão. Foi como se perdêssemos alguém de nossa própria família. E Paulo não deixava de nos ser tão familiar. Sempre. Ele partiu, mas ficaram seus exemplos de simplicidade, de amor, de humanidade e a arte de seus personagens memoráveis.

Paulo nos deu grande lição de amor. Até o último instante. E foram 62 anos de muito amor. Paulo e Nicete. Que difícil a missão da despedida! Cada um sabe o quanto é penoso o momento de dizer adeus a um ente querido. E ter de dizer adeus por amor. Nicete o fez. Com força. Despediu-se, serenamente, das emoções terrenas, prometendo a Paulo a perenidade do reencontro: “Vá em paz! Nosso amor é eterno”.

Conheceram-se muito jovens. Vieram ambos, de diferentes caminhos, com muita paixão. Pelo teatro. Pela arte de representar. Estrearam juntos. Nasciam para o palco. Nasciam para viver um grande amor. Companheirismo, cumplicidade, respeito, admiração, os mesmos valores, o mesmo momento de vida. Ingredientes presentes e bem dosados ao longo de seis décadas de convívio. “Estou te namorando”, Paulo dizia sempre a Nicete. E ela só pensava em agradá-lo: “Nunca apareci desarrumada para ele. Nenhum bobe no cabelo. Nenhum creme na cara”. Mantiveram o encantamento da estreia. Uma flor inesperada, um bilhete escondido, um sorriso apaixonado. Souberam cultivar e fortalecer os laços. Semearam os afetos e tiveram o cuidado de esperar o tempo da colheita. E os frutos: Beth Goulart, Bárbara Bruno e Paulo Goulart Filho. A família era a grande paixão de Paulo. No momento de ir, todos estavam juntos. Tristes, mas serenos. Exatamente como ele gostaria que fosse, confessa a atriz. Uma lição de amor. De vida.

Nesses tempos de banalização da vida, de relações descartáveis, de fragilidade dos vínculos humanos, um amor assim, intenso, verdadeiro, que transcende o mundo físico, chama-nos a atenção. Tempos de amores líquidos, nas palavras do sociólogo Bauman. Aprendemos, certamente, com essa lição de amor. Com a história de Paulo e Nicete. Uma história que cada vez mais nos falta.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/3/2014