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Um menino, uma pomba, um destino

Domingo passado, fui almoçar na região da Paulista com alguns amigos. Em pleno inverno, o sol aquecia a cidade. Estávamos caminhando, quando vi uma cena triste. Um menino saiu de uma lanchonete e, ao ver uma pomba na calçada, não teve dúvidas, chutou com uma violência impressionante o assustado animal. Não conseguiu atingi-la. Pombos têm asas. Melhor assim. E o menino? Tem o quê? Que destino? Quem chuta uma pomba, hoje, chuta uma pessoa amanhã. Quem não tem sensibilidade com um animal, que nada fez nem o importunou nem estava no seu caminho, imagine o que poderá fazer com alguém que o incomodar? Dizia Tolstoi, acostumado a traduzir em palavras as angústias humanas, que “se um homem aspira a uma vida correta, seu primeiro ato de abstinência é o de ter compaixão pelos animais.”

 Sou educador e preocupo-me cada vez mais com o que vem acontecendo com as pessoas. A agressividade vem ganhando patamares impressionantes. Na vida real e na virtual. A ausência de paciência e de compaixão é cada vez mais evidente. Impaciência com o jeito do outro, com o tempo do outro, com as escolhas do outro. Compaixão como um dos mais nobres sentimentos humanos: a capacidade de sentir a dor do outro e fazer de tudo para não provocá-la ou, se for o caso, amenizá-la. A compaixão é a certeza de que habitamos a mesma moradia humana. E que o que o outro sofre eu também poderia sofrer.

Mas quero voltar ao menino. Quem educou esse menino? Quem lhe apresentou os valores mais significativos da vida? Quem o conduziu para ver e compreender as criaturas que compõem o universo? Almir Sater, em inspiração poética, canta: “Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”. Mas, no início, se não educarmos, as escolhas ficam mais difíceis, os destinos mais tristes, e um menino perde a capacidade de ver que, até nas pombas, há vida, há sentimento, há beleza.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/08/2015

 

Sobre a paciência

Uma das frases que ficaram na minha caixa de memórias dentre tantas outras ditas pelo meu saudoso pai é: “Tenha paciência, meu filho”. Meu pai era um homem paciente. Era um homem generoso. O tempo foi seu bom companheiro. Ele envelheceu com sabedoria. E fez de tudo para que nós pudéssemos compreender que a paciência nos ajudaria a navegar, com mais leveza, a nossa nau.

Vejo com perplexidade o tanto de irritação que assalta as pessoas. De coisas corriqueiras a ações covardes. Da buzina desnecessária ao desrespeito com a demora de alguém. Da tentativa de levar vantagem furando a fila ao ataque nada correto nas redes sociais. O outro me irrita por alguma razão. Será que a irritação vem do outro ou das ausências de pensamento, de reflexão, de enredo da minha própria vida? A incapacidade de conviver com pessoas diferentes me torna um ser violento. Assistimos, recentemente, a cenas bárbaras de pedras jogadas em seres humanos. Irmãos nossos. Até onde vai a nossa intolerância! A que ponto chegamos! Nos tempos de absolutismos, senhores podiam valer-se da vida de seus servos. O ódio religioso, social, político, entre outros, já martirizou mulheres e homens bons. Não tiveram a paciência sequer de tentar entender as razões das acusações. Lançaram ao fogo ou pregaram na cruz ou lançaram fora a cabeça ou apenas fizeram desaparecer os que pareciam representar algum perigo.

Falamos, hoje, em dignidade da pessoa humana, em evolução, em respeito ao outro, em convivência pacífica. E, na prática, reproduzimos erros do passado. Meu pai nunca perdeu a fé. Era simples e grande. Foi se fazendo aos poucos. Foi construindo sua trajetória em cima do solo da dor e do afeto. Bebo dessa água e partilho da sua fé. Apesar de, muitas vezes, ficar impressionado com os estranhamentos que nos fazem tão pouco humanos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/06/2015