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Canção de Natal

Cantarolava ininterruptamente. Olhava para o seu bichinho, presente de algum outro natal, e cantarolava, Colocava o bichinho de pelúcia em posição de quem adverte que é bom estar atento à canção. E dançava guiado pelo ritmo que emprestava à sua canção. Os outros estavam atarefados. Havia conversa e trabalho na cozinha. Palpites e ação. Mudanças de rumo. Pratos que precisavam estar prontos para que a ceia pudesse agradar. Era mais de uma cozinha. Uma tinha fogão a lenha, e outra, a gás.

Na sala, um presépio. Papel comprado em papelaria. Amassado. Tentando ser uma gruta. As personagens, os animais, cada qual no seu espaço. Deixavam apenas de fora o Menino Jesus. Ele deveria chegar à meia-noite. E a árvore de natal, montada com badulaques de muitos natais. Tudo ia se acumulando. Algumas crianças, as menores, ainda acreditavam em papai noel. Os adultos se dividiam em dizer ou não dizer que quem presenteava eram os pais de verdade.

A verdade é que não paravam. As mulheres ainda tinham horário no salão de beleza. Pés, mãos, cabelo, maquiagem. Os homens cuidavam da bebida. E jogavam prosa, enquanto esperavam. Alguns trabalhavam na véspera. E ficavam afoitos para encerrar logo e estar ali. Em família. E ele era imune a todas essas preocupações. Cuidava apenas de cantarolar. Sons mais altos. Sons mais baixos. Risos entremeando as músicas. Não havia dizeres em suas canções. Desconhecia dizeres o menino cantador. Eram sons apenas. Afinados pelo tempo ou pelo amor de quem os ouvia. Certamente ganharia presente. Mas não havia pedido nada. Não sabia pedir. Apenas olhava. E ria. E cantarolava.

Vez ou outra, algum adulto que recebia um telefonema de cumprimentos de algum parente de alguma outra cidade fazia um barulho sério para que ele diminuísse o som. E ele ria. Não fazia cara de aborrecimentos nem de contrariedade. Não sabia o que era isso. Sabia o que era sorrir. O que era dançar no centro da sala. O que era cantarolar para seu bichinho de pelúcia. O que era abraçar quando quisesse. Ah, abraço ele pedia. Vinha correndo e se jogava. E não era pequeno. Era preciso força para compreender a sinceridade de tanto amor. O riso e o abraço eram fáceis de compreender, mas a dor não. Via-se apenas que a música cessara e que as lágrimas caíam e caíam. Alguma parte estava doendo. Como saber qual? A cabeça? O estômago? As costas? Os dentes? Como saber? O que fazer para curá-lo? O amor conhecia os seus caminhos. E ele, de novo, estava no centro da sala.

Preparavam-se para a missa. Ele não iria. Não ficaria quieto sem as suas canções e sua dança durante tanto tempo. Havia uma Rosa que ficaria com ele. Havia Deus que estaria na missa e também lá naquela sala, contemplando a beleza da Sua criação.

Na hora dos presentes, ele haveria de abri-los e, logo depois, olhar e, logo depois, voltar a cantar.

Comeria o que lhe dessem. Sem reclamações. Comeria tudo. E não pediria por mais nada. Apenas que estivessem por ali. Com ele. Ouvindo sua canção. E rindo quando tivessem vontade de rir. Dormiria quando alguém o levasse. Brincaria um pouco mais em sua cama. Olharia com gratidão por compreenderem o que, talvez, ele não pudesse compreender. Abraçaria algum bichinho, algum travesseiro, algum paninho e sonharia com o que não saberíamos traduzir. E, no dia seguinte, levantaria para viver a alegria, novamente. A singela alegria de uma criança que resolveu se eternizar naquele menino.

Nas brigas entre os outros, apenas olhava. Nos reencontros, olhava também. É como se soubesse, de alguma maneira, que todas aquelas angústias e ansiedades haveriam de ir embora. O seu tempo era todo dedicado à alegria. Nas canções. Nas danças. Na despreocupação com o amanhã.

Amava, do seu jeito. Era amado, do nosso jeito.

Um dia, partiu. Cedo demais. Foi cantar em algum lugar preparado pelo milagre do amor. Deve estar cantando e dançando agora, enquanto escrevo e penso nele. Meu irmão, meu irmão Junior, que não passa mais os natais entre nós. Passa, sim. Em algum lugar, passa, sim.

É quase natal

Todo natal traz um clima diferente para a cidade. Alguns gostam muito. E ficam felizes com os enfeites, as músicas, a correria para as compras. Outros ficam tristes. Lembram-se de outros natais em que a vida era diferente. A vida é sempre diferente. O que pode significar esse clima diferente?

Nos cartões enviados, sempre há alguma frase de esperança. Algum dizer de felicidade. Algum sonho compartilhado de que os valores mais caros à humanidade merecem ser resgatados. E as ações? São as ações que podem fazer com que o natal não seja triste.

O natal é a festa do nascimento do Menino Jesus. O que se pode dar ao aniversariante? Quando crescido, Ele ensinou que toda a Lei e todos os ensinamentos se resumem a este: “Amar a Deus e amar ao próximo”. Quem é o próximo que poderia ser amado neste natal? Pode ser alguém que viva em um asilo ou que viva em um abrigo ou que esteja em algum hospital. Há muitas ações generosas a serem realizadas sempre, mas, em especial, nesse período. Mas o próximo pode ser também quem é da família e com quem se está brigado. Pode ser um vizinho com quem há anos relações foram cortadas. Pode ser um parente distante que aguarda um telefonema.

Uma ação de amor em um natal ganha um significado completamente diferente. Diferente, porque vem carregado de esperança. De novidade. De nova vida. Seja um gesto de ajuda ou de perdão. Um olhar para aquele que estava invisível, um cuidar para aquele que estava abandonado. Uma canção para alegrar corações entristecidos. Ou um gesto delicado de tornar-se um escrevedor de cartões a parentes distantes, ajudando aqueles a quem faltam palavras escritas, mas abundam amor e saudade. O “bom samaritano” pode se multiplicar nas ações mais singelas de cada natal. Aí a manjedoura estará preparada para o Menino que quer chegar. Mas que precisa ser convidado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/12/2016

Medo de falar em público

Ela voltou para a escola. Para a faculdade. Faculdade de Direito. Na mesma sala em que o filho. No início, teve algum receio. Seria a mais velha da turma? Conseguiria conviver com os demais? E o filho? Acharia estranho ter a mãe na carteira ao lado? Rompeu essas incertezas e iniciou uma nova fase da vida. Filho e mãe iam juntos e estudavam juntos. Ela, viúva, teve de dar conta da criação deste e dos outros três filhos. Não teve como estudar antes. Mas sempre quis fazer faculdade de Direito. Gostava de falar sobre o exercício da cidadania, sobre os direitos e os deveres, sobre a justiça. Sempre teve horror a injustiças. Viveu isso na pele. Sofreu calvários intermináveis com a saúde precária do nosso país. Fez de tudo para que o marido fosse atendido com dignidade, não foi fácil, Teve de brigar com planos de saúde. A família fazia uma economia enorme para pagar, todo mês, o plano. E quando precisaram…mas o marido se foi. A dor da separação era confrontada com a certeza de que havia feito tudo o que estava ao seu alcance e que o marido também tinha o direito de descansar em paz.

E lá estava ela, agora, em uma nova fase da vida. Nas provas, ia muito bem. Estudava mais do que o filho. Tinha receios de, com a idade, ter mais dificuldade para memorizar o necessário. Não era isso que se mostrava, entretanto. Enquanto o filho frequentava algumas festas, ela frequentava o abajur e os óculos grossos para ler e reler a matéria, para estudar, para não ficar sem o conhecimento necessário.

Eis que nos conhecemos. Em uma palestra. Mãe e filho. Eis que ela me contou a sua história e detalhou as suas superações. Mas havia algo que a incomodava muito. O medo de falar em público. “Minhas mãos ficam suadas, eu ensaio uma coisa e sai outra, seguro o microfone longe da boca, coloco um ‘né?’ depois de cada frase, me perco, não sei como terminar e, quando acabo, sinto que não me saí bem”. O filho discorda da mãe. Diz que ela está melhorando, que tem que vencer a insegurança. Ela volta ao tema e diz que, às vezes, sente que não tem o dom de falar em público.

Eu tento jogar alguma luz. “Dom? Falar em público se aprende. O medo é natural. Medos são enfrentados quando há uma causa maior. Fazer justiça é uma causa nobre. É um fim nobilitante. Ter uma causa é ter o conteúdo. Falar é a forma de levar esse conteúdo”.

E prosseguimos na conversa. Ela quis saber da minha história. De como eu havia aprendido a falar. Viajei um pouco no tempo. Contei dos meus medos, das minhas inseguranças, dos meus equívocos. Ela foi prestando atenção a cada detalhe da narrativa. Seus olhos foram ganhando mais brilho. “Então, você também tem medo de falar em público?” Respondi positivamente. Expliquei que, se esse medo não paralisasse, não era ruim. Que o medo nos tornava mais cuidadosos. Que nos dava a humildade e a responsabilidade necessárias para sabermos que era preciso preparar cada fala, inclusive em respeito às pessoas que estavam ali para nos ouvir.

Outros alunos vieram participar da conversa. Ela foi vendo que, de fato, esse é um medo mais comum do que se imagina. Mas é possível conviver com ele. E usar dele para aprimorarmos nosso poder de convencimento. As técnicas ajudam, mas o essencial é a causa que nos move, é a verdade que faz com que queiramos ajudar nossos interlocutores a melhorarem a si mesmos e ao mundo. As utopias sempre foram aliadas dos grandes oradores. Mandela tinha uma causa clara que ultrapassava todo o mal que lhe fizeram. Seu povo, sua pátria, o movia para falar cada vez melhor. Assim foi com Martin Luther King e com Gandhi. Assim a multidão se ajeitava para ouvir as parábolas de Jesus. A mãe me olhava concordando. “Mandela era bem mais velho do que eu e queria mudar o mundo, não é? Eu também posso”. Líderes são inspiradores. Carecemos deles. Ela vai ser a oradora da turma. Tenho certeza de que fará um lindo discurso. E o filho estará lá. E os outros alunos também. Inspirando-se em quem soube recomeçar, em quem luta para transmutar as injustiças sofridas em um sonho de com elas acabar. Oxalá todos os profissionais que atuam com o Direito tivessem esta “causa”. A causa da justiça.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 11/12/2016

Sobre as esperas

Esperar é um verbo que, necessariamente, é conjugado por todas as pessoas. Por toda a vida.

A espera pode ser agradável como pode ser penosa. A espera de um amor que vem ao longe, acenando, trazido por uma maré boa.

A espera de um filho. O tempo do peso. O tempo da dor. O tempo das incertezas há de ser recompensado com uma vida nova que surge. Quantas esperas se sucederão por esse mesmo filho. Noites indormidas em intermináveis adolescências. E o barulho da chegada avisa à espera que volte em uma outra ocasião. Sono bom quando o filho descansa ao lado. A espera de um amigo. Afetos amenizam ausências e acalmam ansiedades. Os ansiosos sofrem mais com as esperas. Querem, para hoje, o que só o amanhã pode resolver. Brigam com o tempo. Brigas inglórias. O tempo é que decide o tempo de decidir.

Feridas têm o seu tempo de cicatrização. Dores de amor, também. Um amigo chorava, há alguns dias, pela mulher que resolveu partir. “Como viver sem ela? Como mudar o rumo de tudo? E os projetos em comum? E os sonhos compartilhados? E os entardeceres prometidos?”, Chorou dias e noites. Poucos, penso eu. E eis que subitamente surgiu um novo amor. “Dará certo?” – perguntava-me ele. “Comece, espere para ver o que acontece. Tente não comparar, tente usufruir da brisa nova, desconhecida”. Um amor novo traz sentimentos contraditórios. Há uma avidez para que tudo dê certo. Há um medo pelo recomeço. Tudo de novo. Tudo diferente.

A espera de um encontro. Um encontro desses encontrados em maneiras antigas ou novas. Em uma esquina ou em uma página. Em um olhar ou em um revelar. Quem somos nós que buscamos sempre? Que carecemos sempre? Que nos acotovelamos para ver quem passa na avenida? Quantas avenidas presenciaram desfiles de presenças aguardadas. Nas janelas, debruçavam-se sonhos, esperanças, espera.

A queda de um avião é dor horrenda. Que ousadia é essa da morte de levar o meu amor? O amor da outra, do outro. O pai, a mãe, o filho, a filha, o amigo, o jogador, o torcedor. Torcemos para que o nosso amor seja protegido. Para que fique. Para sempre.

Não há como ficar para sempre. Depois do adeus, o luto, a dor. Depois, a espera de dias melhores. O inverno não dura para sempre. O frio cobra seu preço e depois vai. É preciso viver as outras estações.

A espera da idade certa para se sentir livre. Um dia se saberá que a liberdade é muito mais complexa do que poder fazer o que se quer. A liberdade é exigente, é caprichosa. Ela nos desafia todos os dias. E quem não sabe esperar jamais será livre.

A espera da vez em uma fila qualquer. A espera no carro para que o sinal se abra. Quantos sinais fechados surgem sem que compreendamos que é melhor esperar. É um erro dar a partida sem esperar que o sinal abra. Acidentes podem ocorrer. O correto é permanecer o tempo certo e, depois, ir em frente com um pouco mais de segurança.

A espera do amanhecer. A noite pode bagunçar a visão. Pode nos confundir. Opções erradas nos trarão dor. O amanhecer há de clarear muita coisa. A maré revolta também passa. Ir adiante não demonstra coragem, mas temeridade. É melhor esperar o convite do mar e só assim a ele se lançar.

As árvores esperam o tempo certo de oferecer os seus frutos.

Os ramos que enfeitarão com suas flores também sabem disso.

E por que nós, os chamados racionais, queremos para ontem o que pertence ao amanhã? Por que brigarmos por antecipações?

Tempo bom aquele em que cartas eram esperadas.

Românticas cartas de amor. Chegavam no tempo que queriam.

Ouvi de um pai, irritado com o filho, gritos anunciando que ele não era mais criança. Imaginei a mente em ebulição daquele menino de 6 anos.

Seria o quê, então?

Antecipar a maturidade é um poder que não temos. Como também não temos o poder de segurar as estações nem as idades nem os bons momentos de euforia. O rio tem seu curso. A vida também.

Esperar que o rio pare é não compreender a essência do rio. Serve para a vida. Serve para a boa calmaria. Tão necessária nas relações. Por que dizer com pressa sobre o ódio que nos domina? Por que falar do que não se tem certeza? Por que atacar quem amamos? Por que essa verborragia agressiva? Se esperássemos um pouco mais, diríamos sem o tom cortante, sem as palavras bagunçadas, sem as expressões erráticas.

Quantos afetos fogem depois de dizeres apressados. Desperdício. Afetos são conquistas que vieram para permanecer. Inclusive no tempo das esperas. Para perfumar, quem sabe.

Só sei que esperar é um verbo que, necessariamente, é conjugado. Então, aprende – outro necessário verbo.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O dia – RJ) | Data: 04/12/2016

E a verdade?

A conversa discorria sobre a importância de se falar bem em público.

Há, falavam os interlocutores, muitas técnicas de convencimento. O olhar. O movimento das mãos. As pausas. O tom da voz.

Falavam alto. Era possível compreender cada pequeno detalhe.

E era possível perceber a preocupação que tinham com o tal do convencimento.

Diziam que alguns se negavam a fazer o tal treinamento. Que se sentiam suficientemente seguros. Que sabiam, inclusive, enganar.

Foi aí que a prosa degringolou. As tais técnicas tinham uma finalidade: fazer parecer verdade o que verdade não era. Era quase que um curso sobre “a mentira” ou sobre “o engodo”.

Comentaram sobre um deles, um político, que foi tão enfático na entrevista, que venceu. Que soube olhar, movimentar as mãos, dar a pausa correta, usar o correto timbre de voz, que ninguém mais o perturbaria com aquela história. Riram os dois da ardilosidade do companheiro. “Ele chorou na hora certa”, vibrou um dos dois. “É importante, sensibiliza as pessoas”, concordou o outro. “Tem que saber despertar o sentimento de pena adormecido”. E riram e riam ainda mais falando quão ignorante são as pessoas. Qualquer coisa as leva para um lado ou para outro.

Ora, vejam. A oratória é uma arte antiga. Sobre ela se debruçaram muitos pensadores. Platão critica os que se valem de artifícios da linguagem para o convencimento. Aristóteles discorda do mestre e valoriza a retórica como uma arte de dizer bem o bem. Forma e conteúdo. É preciso verdade, queria o filósofo, para que o que deve ser dito seja dito e convença.

Não há problemas em se estudar como falar bem em público. Para plateias ou para os que assistem pelos meios eletrônicos. Saber convencer. Saber utilizar a linguagem corporal. Saber como se inicia, como se desenvolve e como se conclui uma oração. A retórica se ocupa disso. E traz com ela outros elementos, como a hermenêutica, que trata da compreensão, da interpretação; e a heurística, que trata do compromisso com a verdade.

E é sobre a verdade que eu quis perguntar àqueles dois. Chorar é possível desde que haja razões para tanto. Ir e vir com palavras e gestos. Tudo isso é possível e é preciso.

Mas a pergunta fundamental é: e a verdade? Não precisa um político ou um pregador ou um jornalista ou um palestrante ou quem quer que se disponha a convencer pessoas ter um compromisso com a verdade?

Decorar fórmulas para enganar é desprezível.

Um dos piores problemas da política é a mentira e seus outros nomes, a dissimulação, a enganação, a hipocrisia.

Fala-se não a verdade, mas o que deve ser falado para minimizar danos. O maior dano é precisar mentir. Depois do malfeito, o ensaio para criar uma história e sair-se ileso.

Tristes prosas em que os risos nascem do aplauso ao que soube mentir com mais categoria porque dominava algumas técnicas.

Proseemos sobre outras canções. A canção da verdade, da sinceridade. Errar é parte do caminhar. Mas compete aos caminhantes um arrependimento sincero, uma correção necessária, um dizer verdadeiro a si e aos outros. A mentira também está presente quando o auditório é o próprio falante. Convenço-me a mim mesmo de que o erro não é tão errado assim. E por isso persisto enlameado.

Depois dessa conversa, ouvi uma professora falando sobre uma aluna com síndrome de Down em sua sala de aula. Da sua evolução. Da riqueza de sua convivência com os outros alunos. Vi tanta verdade naquela emoção, que agradeci.

Há esperança.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia (RJ)) | Data: 27/11/2016

Sobre a inocência

Era menina ainda quando disse que gostaria de ser freira ou médica ou professora. Um dia, mudou de ideia e afirmou que seria bailarina. Foi em uma festa, em um final de ano, em uma escola, em algum canto por aí. Cantaram, também, alguns meninos. Um coral preparado com esmero por uma professora que sorria ao seu piano vendo seus pupilos brilharem. Estavam todos uniformizados. Até os cabelos. Até o jeito de mexerem os braços e agradecerem os aplausos.

Era uma escola pública. E o público composto, majoritariamente, pelos familiares vibrava com os seus. A menina, a que já quis ser tanta coisa, procurava os pais. Como fazem as meninas e os meninos nessas apresentações. Há muitas pessoas, mas o olhar mais doce é revelado, primeiramente, aos pais.

Ela os encontrou. Estava vestida com a roupa de bailarina. A mãe não se continha de emoção. Era a única filha. A outra se fora prematuramente. Atropelada por um trem. Isso mesmo. Estavam alguns amigos atravessando a linha de ferro. Ela teve medo e parou. Eles insistiram, e ela foi. Foi, titubeante, e aconteceu o horror. Um corpo sem vida esmagado por um trem.

A irmã nunca se esqueceu disso. Ela não estava junto. Era muito pequena. Mas ouviu tantas vezes os relatos, viu tantas lágrimas e gritos de dor de sua mãe, de seu pai, que a história a frequentava desde sempre. Mas, ali, o sorriso dos pais parecia uma pausa à dor que viveram. Uma se foi. A outra brilhava.

O tempo foi passando e a menina foi crescendo. Sempre muito religiosa. Sempre muito prestativa com os seus. Achava-se responsável por trazer alegria. E fazia sua parte. A menina virou mulher. Casou. Teve filhos. O primeiro recebeu o nome da irmã. O segundo, o do marido. Teve o privilégio de se casar com o homem dos seus sonhos. No dia em que foi bailarina, ele foi cantor. E se olharam, ainda sem saber o que seriam. O terceiro filho também veio.

Ele não tinha mãe. Apenas o pai e ninguém mais. A mãe morrera em um acidente de carro em que o pai era o motorista. Não teve culpa. Sentiu-se culpado. Acreditava ele ser o responsável por trazer alegria ao seu pai.

Ele formou-se médico. Ela professora. Escolheu preencher os seus dias preenchendo vidas de significados. Lembra-se ainda do primeiro dia em que pôde entrar em uma sala de aula e ensinar. Dos olhos das crianças. Das suas dúvidas – das crianças e das dela. Do medo de tropeçar. Tropeçou, talvez, algumas vezes. Mas prosseguiu. A filha que recebeu o nome da irmã que se fora resolveu ser freira. O filho com o nome do pai é bailarino. E o terceiro é também professor.

Quando se lembra dessas histórias, lembra-se de um tempo que se foi. De uma inocência difícil de ser reinventada. Lembra-se do primeiro dia em que ela e o marido deram as mãos. Eram adolescentes, apenas. Ele a pediu em casamento. Ela disse que perguntaria à mãe. Ele disse que não era para aquele momento, mas que já queria selar um secreto compromisso de amor. Ela sorriu. Achou bonito. Ele a beijou no rosto. Ela ficou corada. E se despediram. Só começaram a namorar quando estavam na faculdade. Casaram-se depois da formatura dela e um pouco antes da formatura dele. Os pais estavam presentes.

O padre pediu para que os dois improvisassem algum dizer de amor. Ele disse que se apaixonou por ela quando a viu de bailarina. Ela apenas sorriu e, timidamente, disse que se apaixonou por ele no mesmo dia.

Os pais dos dois já não mais estão com eles. Foram encontrar os que já se foram. Há os filhos. Há lembranças de ontem e muitas vontades a serem realizadas. Nos dois, há um sentimento que permaneceu das dores que viveram. Têm eles a consciência de que nasceram para trazer alegria. Aos pais. A eles mesmos. Aos alunos e pacientes. Aos que encontram por aí.

Quando veem alguma fumaça, lembram-se dos tempos da claridade. Na idade de hoje, são capazes de viver as idades que se foram. Sabem que não são perfeitos. Estranhamentos há em toda família. Mas há algo que os mantém inteiros. Inocentemente, continuam a se amar.

A dor do outro não sai no jornal

Na canção de Chico Buarque, os dizeres são: “A dor da gente não sai no jornal”. O compositor fala de uma tal Joana e de um João.

Desconhecidos, eram os dois. Nem o barraco existe mais.

A dor dos conhecidos, às vezes, sai no jornal. Há famosos por aí que qualquer movimento desperta enorme atenção. Há outros, porém, que passam desapercebidos. Mas, também, esses sentem dor.

Também esses choram os seus filhos, quando eles morrem. Mesmo quando os filhos erram.

Li, com atenção, a matéria sobre “bandido bom é bandido morto”. Acompanhei várias histórias de jovens que morreram vítimas, talvez, de escolhas erradas. Sei que há uma imensa indignação da sociedade contra aqueles que agridem a própria sociedade. Vivi isso nos tempos em que pude cuidar da antiga FEBEM. Havia muito ódio por aqueles que ali estavam. E ódio deles mesmos por serem frutos de uma sociedade que não lhes deu oportunidades e que lhes cobrava pelos erros que cometeram. Erraram, muitos deles. Certamente. Não todos. Muitos não deviam estar ali. Mas estavam. E sofriam por ali estarem e pelo futuro.

Quem quer dar oportunidade a alguém que errou? Quem contrata alguém que passou por uma unidade de internação para adolescentes infratores ou pelo sistema penitenciário? Como eles poderão se recuperar, então? Mas por que optaram pelo erro? Optaram?

Que vida levaram? Que valores aprenderam? Que exemplos tiveram?

“Sim, mas erraram” – insistem alguns. “E quem não erra?” – pergunto. “Mas cometeram atos infracionais, cometeram crimes”.

Há sociedades que optam por eliminar os que assim agem. Matam. Há outras, como a nossa, que estendem, inclusive para esses, o princípio da dignidade da pessoa humana. Eles também têm família. Eles, também, têm alguém que chora por eles, que torce por eles.

Há uma onda de reducionismos na solução de problemas. Como se bastasse uma ordem de choque para que todos os problemas se resolvessem. Seres humanos são complexos. Sociedades são complexas.

Posso garantir que, na época em que implementamos um programa de educação humanista, em que desenvolvemos a sensibilidade artística, em que nos preocupamos com a porta da saída para que eles pudessem ter uma nova chance, em que os tratamos como gente, muitos deles puderam construir uma vida digna. Ainda os encontro por aí. Ouço suas histórias. Lágrimas nos olhos, agradecendo uma mão estendida.

Dia desses, em uma palestra, ouvi uma ex-funcionária da FEBEM relatando o que ela viveu no tempo em que fiz com que eles acreditassem que a educação abriria as portas para uma nova vida na dura vida daqueles jovens.

Ou nos conscientizamos de que a sociedade é um todo e que mesmo os que dão mais trabalho precisam de cuidado ou partimos para o triste caminho de tentar extirpá-los. Não é só a pena de morte que faz isso. É a insensibilidade. É a ausência de compaixão. De prontidão para abrir portas a quem se perdeu. É preocupante o grau de egoísmo que vai tomando forma nos nossos dias. Cada um quer saber de si mesmo. Os outros são os outros. E, se os outros nada podem acrescentar a minha vida, e, se ainda me dão trabalho ou me colocam em algum risco, então, é melhor não tê-los por perto. Mas não estamos falando de coisas. Pessoas não podem ser jogadas porque incomodam. Mesmo os que incomodam sentem dor. Mesmo quando a dor deles não sai no jornal.

É sempre atual relembrar Chaplin. O que precisamos vai além das máquinas, das tecnologias. O que precisamos mesmo é de humanidade, é de afeição, é de ternura.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 13/11/2016

Onde mora o mal?

Dia desses, ouvi uma senhora comentando com outra que era insuportável ver as crianças vestidas para a festa de Halloween.

Havia algumas crianças assim à nossa frente. Ouvi algo como: “O demônio mora nessas festas”. Fiquei curioso com o desenrolar da história. Pareciam religiosas as duas. Falavam que o dia das bruxas não poderia ser de Deus. Insistiam na ideia de que o demônio estava por trás de tudo, além das questões de importar algo que não fazia parte da nossa cultura.

Dobraram a esquina e eu prossegui o meu caminho. As crianças ainda estavam à minha frente. Felizes. Brincando. Usando a palavra para afagos e bons comentários. Fiquei pensando, “será que o demônio mora nessas crianças ou nessas festas?”. Não quero entrar em detalhes sobre a origem ou o significado da festa de Halloween ou de qualquer outra festa desta ou daquela cultura. Nem nas crenças daquelas duas senhoras que pareciam expelir ódio ao falarem. Religião para mim sempre foi religação. Reencontro com o amor, com a felicidade.

Mas, decididamente, não posso acreditar que o demônio faça morada naqueles espaços. Há outros muito mais propícios a ele.

Ele mora na guerra. Nas “guerras santas”, inclusive. No assassinato de crianças inocentes desligadas da vida por religiosos fundamentalistas. Mora no ódio incontido de quem se julga superior por qualquer razão. Mora nos horrores da escravidão. Da de ontem, que por aqui tanta dor causou, e, na de hoje, em que persiste, teimosas, maltratando as gentes. Há tantas pessoas que são assassinadas brutalmente, porque ferem alguns princípios que uns julgam mais valorosos do que a vida. Basta fazer uma breve pesquisa sobre a morte de cristãos em muitos países do Oriente Médio. Cenas chocantes de pessoas que são assassinadas por não renunciarem à fé em Jesus. Há grupos radicais islâmicos matando seus irmãos islâmicos, porque alguma razão parece mais importante do que a vida.

O demônio mora no homem que estupra a mulher em qualquer lugar do mundo. Na dor daquela mulher. Na humilhação. No sentimento de superioridade do homem. E, talvez, até na aceitação dos que cruzam o braço.

O demônio mora na mentira, na dissimulação, na trama para destruir o outro em nome do poder ou de qualquer outro sentimento. A vingança também é uma boa morada.

O demônio mora na humilhação. E há tantos que, por qualquer razão que pareça maior do que a vida, teimam em olhar o outro de cima para baixo. O dinheiro, o poder, o sobrenome, a origem, não há nada que justifique a superioridade de um em detrimento do outro.

O demônio mora na injustiça. Os invisíveis se multiplicam. São um estorvo para os que só querem ver o que decidiram chamar de beleza.

A beleza é onde mora Deus. A beleza é irmã da bondade. Não vivem separadas em nenhuma circunstância. É belo perceber a diversidade do mundo e respeitar mesmo o que somos incapazes de compreender. É bom nos esforçamos para diminuir a dor dos que sofrem para lançar luzes onde as trevas continuam existindo.

Não quero falar mal daquelas senhoras até porque julgá-las por algumas frases não seria correto. Mas nelas não vi luz. Vi nas crianças. Que iam brincar. Que iam animar a vida. Que iam dizer que juntos tudo fica mais gostoso.

O tema de Deus e do demônio sempre incomodou os estudiosos da filosofia e das religiões. Aqui, não temos tempo para nos aprofundarmos tanto sobre isso. Mas temos tempo de dizer. Onde há amor, não há como demônio nenhum habitar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 06/11/2016

Alegria sobre três patas

Não sei bem a raça do cachorro que vi passeando com sua dona. Não sei se tem pedigree. Não sei nada da vida de ambos – a mulher e o cachorro.

Eu estava correndo, quando vi a alegria daquele pequeno cachorro com três patas. Ele saltitava chamando sua dona para continuar a caminhada. Latia. Reclamava, talvez. Tinha pressa de viver. Tinha vontade de sentir outros cheiros, de encontrar outros companheiros que, por aquela via, também passeavam.

O dia estava bonito. Os dias são bonitos quando estamos bem. Pessoas corriam. Outras caminhavam. Algumas conversavam. Outras ouviam alguma canção. Canções nos remetem a tempos e a pessoas. Histórias que, algum dia, vivemos ou gostaríamos de tê-las vivido. Os pensamentos também correm.

Continuei observando o cachorro, enquanto diminuía o meu ritmo. Encontrou um outro, um pouco maior. Era fêmea. Ele, macho. Menores possibilidades de disputas, de brigas. Cheiraram-se. Ameaçaram pular um no outro. Brincaram e se despediram, forçosamente, já que os seus donos continuavam a caminhar. Entre os cachorros, nenhum comentário sobre a ausência de uma das patas. A cadela pareceu nem ter reparado. Depois, ainda vi o encontro entre ele e um filhote. Risco menor ainda de alguma contenda. Os cachorros maiores respeitam os filhotes. Há uma lei que não precisou ser escrita e a que todos eles obedecem. Não podem brigar. Podem e devem brincar. Rolaram-se no chão. Abraçaram-se à sua maneira. Lambidas e partida. E nada de perguntas sobre a ausência da pata.
A dona comprou uma água de coco. Dividiu com o seu cachorro que não cabia em si de tanta gratidão. Olhavam-se com cumplicidade. Sabiam quanto eram importantes um ao outro.

O que vi termina aí.

O que imaginei foi além.

O cachorro sofreu um acidente? Teve alguma doença? Teve a pata amputada? Nasceu sem uma pata? O que importa? Alguém resolveu cuidar do bichinho. Dar a ele o direito de viver com as patas de que ele dispunha. Passear com ele. Permitir que ele pudesse fazer companhia. Brincar de viver. De viver sem os pesos e sem as responsabilidades das comparações. Quem tem cachorro sabe do que estou falando. É bom chegar em casa e ser recebido com festa. É bom sentir-se importante quando, por exemplo, arrumamos a mala e eles nos olham com olhares que podem significar – “De novo? vai viajar novamente? E eu?”.

Não se importam se erramos ou acertamos. Se nossos “pés de galinha” já chegaram para ficar, se engordamos um pouco ou se emagrecemos, se o que esperávamos não vai chegar. Não importa se o dia está mais nublado ou se há sol em abundância. Percebem eles nossas tristezas. Certamente. Se, por um lado, eles não se preocupam com as aparências, preocupam-se com os nossos sentimentos. Uma pata a mais ou a menos não merece tanta observação. Uma lágrima que cai merece uma brincadeira surpreendente, um deitar-se pedinte. As carícias que dispensamos a eles nos abastecem de companheirismos.

Alguns criticam que há pessoas que cuidam melhor dos cachorros que dos humanos. Eu discordo. Cada um tem o seu espaço. E, se somos capazes de desenvolver nossa sensibilidade com os animais, faremos o mesmo com maior facilidade com os humanos. O inverso também é verdadeiro. Quem agride um tem maior chance de agredir o outro.

Terminei a corrida. Fiquei com a imagem daquele cãozinho. E de sua alegria. E dos outros que o encontraram e o festejaram do jeito que ele é. E da sua dona. A mulher que com ele dividiu sua água. Ela tinha os pés e as mãos. Mas, certamente, como todos nós, também tinha suas ausências.

Era definitivamente um dia bonito.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 30/10/2016

Um doce para digerir

Era final de um almoço e ela pediu um doce. Disse, justificando: “Doce é bom. Ajuda na digestão”. Eu discordei dando algum espaço para alguma explicação. “Doce ajuda na digestão? Imagine! Pelo contrário. Doce acumula gordura. Doce tem calorias. Doce engorda. Bem, a não ser que tenham descoberto alguma nova teoria. Descobriram?”. Perguntei e um filme passou pela minha cabeça de tantas teorias surgidas e desaparecidas que criaram mitos na alimentação. O ovo, por exemplo, já foi vilão antes de ser o queridinho dos que querem um corpo escultural. A manteiga e a margarina. As misturas proibidas e depois liberadas de alguns alimentos. Ah, lembrei até do leite com manga. Alguns se contorciam de medo das reações quando viam um desavisado tomar suco de leite com manga. E os regimes inusitados. O da Lua. O do limão.

“Teoria?” – ela perguntou, interrompendo minha viagem, mas também viajando. Olhando ao longe. Não era, na verdade, uma pergunta de alguém que buscava uma resposta. Era uma tentativa de revelação. “Queria entender alguma teoria que me explicasse as escolhas erradas que eu fiz na vida”. E foi assim que, antes do doce, ela revelou o seu amargor.

O marido não tinha escrúpulos em humilhá-la. O tempo cobrou o seu preço. Ela já não era a menina que o conhecera em um jogo de tênis. Não sei sua idade. Ela não revela e não acho necessário perguntar. Pois bem, entre pausas e soluços, ela disse do medo da solidão, do medo de buscar outra vida, sem as humilhações, do medo, inclusive, de não saber o que fazer sem elas. “Os meus seios não são os mesmos de quando nos conhecemos”.

Contou-me dos 3 filhos. Falou que agora cada um vivia as suas escolhas. Estavam apenas os dois em casa. Ela e o marido. Ela e o marido e os monstros das comparações. Diz o marido que não tem desejo por ela. Que seu corpo perdeu todos os atrativos. Enquanto fala, arruma o cabelo e se olha no espelho que esta atrás da poltrona em que estou sentado. Eu digo que a acho uma mulher muito bonita. Ela não dá ouvidos e prossegue. “Ele faz piadas com os amigos sobre mim. Diz coisas que me depreciam. E eu rio. Rio de tristeza. Rio de medo. Rio de vergonha”.

“E os filhos?”, pergunto. Ela explica que não sabem, que não têm tempo para observar, que estão distantes. Ela fica distante. “Ele já me bateu. Ninguém sabe. Foram poucas vezes. Mas ele me bateu”.

Ficamos em silêncio.

Entro no assunto da atitude covarde e criminosa. Das delegacias em que mulheres podem contar o seu martírio. Ela me interrompe e diz que decidiu nada fazer porque não deveria ter sido feito e que ela tinha as suas razões. Olha, novamente, no espelho. Passa o dedo pelos olhos, buscando as rugas. Volta a mexer no cabelo. “Há muito tempo que sou infeliz. Não acredito, aliás, em felicidade”. Tento discordar, mas ela me lembra que sou jovem demais para compreender. “Eu já fui apaixonada por ele. Já senti muito prazer. Já sonhei com uma velhice terna”. Mais uma vez no espelho. Agora estica um pouco a pele. “Não tem volta. Se tivesse volta, eu teria sido mais cuidadosa. Eu deveria ter impedido que ele começasse a me destratar. Agora é tarde”.

Eu fico um pouco mais enfático para não ser interrompido como nas outras tentativas e insisto que nunca é tarde para escolher outro caminho, para deixar quem merece ser deixado, para dizer a si mesmo que a vida é curta para ser desperdiçada. Ela ri da minha ênfase e diz que gostaria de ser novamente jovem. Eu digo que as pessoas vivem mais.

“Ontem, ele me disse, com aspereza, que eu o incomodava com minhas histórias intermináveis”.

Ela me diz que realmente tinha lindos seios. E eu digo que os seus seios agora têm muito mais histórias dos que os seios de antigamente. Ela os toca com algum carinho. E ri. Eu digo que espero ainda ter o prazer de comemorar sua alforria.

“Alforria?”

Chegou o doce. Ela olhou aquele doce com tanto prazer, com tanta necessidade, que me arrependi de minhas teorias nutricionais.

“Como é bom um doce para digerir”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/10/2016