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Mãe, o milagre do encontro

O encontro se deu entre o espermatozoide e o óvulo. E a vida foi encontrando sua forma. Pedaço por pedaço. Detalhe por detalhe.

Coração transmutou-se em corações. Os dois ritmando a vida. Uma chegando, e a outra autorizando. E o cordão, enfim, cortou-se. Apenas o cordão. O resto permaneceu.

Os corações jamais se distanciaram. E, nas pequenas quedas, no engatinhar, no caminhar, no chorar, o encontro aliviante. Nos cortes que doem, o poder cicatrizante dela. Da mãe. No seu colo, o recobrar de forças. Crianças ou adultos descansam ali. Choram ali. Realimentam ali os seus sonhos. Enquanto dormem o sonho bom, encontram o aconchego. E se valem do direito de estar ali. Tendo errado ou não. O amor de mãe suplanta erros e acertos. Não que não devam elas consertar o que se quebrou. Mas com jeito. Almas alquebradas precisam de algum cuidado. Elas têm.

Nos inícios, os choros são mais previsíveis. Depois, há razões para o debulhar que, talvez, elas desconheçam. A vida é cheia de paisagens. E de becos. E de lamas. E de água para a limpeza. Os sofrimentos virão sempre. Quem os teme desperdiça um sagrado aprendizado. Os erros também são companheiros desde sempre. Tolos os que apontam os erros dos outros. Como se fossem imunes. As mães sabem como soprar alívios. Primeiro, o abraço; depois, o dizer que educa. E as exigências de que melhoremos. Inverter a ordem nos enfraquece. Se o filho sobe na mesa e cai e se corta, primeiro elas cuidam do curativo, depois repreendem pelo abuso.

As mães, um dia, partem. E o milagre do encontro? Prossegue. Partem na sua forma física. Levam pedaços de nossa história. Deixam tristeza. Mas o encontro que se deu, desde os inícios, permanece. No que somos, elas estão. Onde estamos, elas são. Dos traços físicos aos recônditos da memória. Da criação à personalidade que fomos moldando. Elas sempre estão. São.

Já vi filho lamentar pelo amor economizado antes da partida da mãe. Já vi filho arrependido do dito e do não-dito. Das brigas que trouxeram dor. Das ausências que roubaram momentos preciosos. O que passou, passou. Talvez sirva de aprendizado aos que podem ter sua mãe por perto. Os que podem dizer. Os que podem ouvir. A mãe não é um ser perfeito. Perfeição não é matéria-prima dos humanos. Mas é nela que encontramos a raiz que nos ajuda a buscar o sulco vital. A memória do que viemos fazer por aqui. E o material onírico que nos faz prosseguir.

Gordas ou magras, altas ou pequenas, falantes ou tímidas, com cabelos encaracolados ou lisos, com muito ou pouco estudo, com muitas posses ou necessitadas, mãe é mãe.

Lembro-me do interior onde morava. Do chegar da escola. Subia as escadas e encontrava o seu sorriso. E o beijo sem pressa. E o abraço. E a atenção para ouvir tudo enquanto preparava o almoço. E, depois, ficávamos juntos. Lembro-me do dia que deixei o interior para estudar. Dos seus preparos, das suas lágrimas, da sua compreensão para os amanhãs que precisavam ser construídos.

Construiu em mim, ela, o amor. Dores ela teve e tem. Mas foi além. Bebeu de uma fonte reservada especialmente para as mães. A fonte que renova sua força. Para continuar alimentando os seus rebentos. Perdeu minha mãe dois filhos. Muitas mães se partem nessa dor. E choram o mais doído choro do mundo. Lá se vão os que deveriam ficar.

Uma amiga escritora perdeu seu único filho. Abraçou-me com tanta entrega que entreguei a ela o que podia, minha fé. As árvores parecem mortas no alto inverno. Parecem. Na primavera, elas ressurgem e surpreendem. Seria a morte a primavera da alma?

Falemos um pouco mais da vida. E do encontro. Químico. Biológico. Histórico. Matemático. E os outros todos. Em todas as matérias do concreto do existir, o que carregamos tem ela, a mãe. Aos que têm sua mãe, por aqui, vale um encontro especial. Aos que as têm nas lembranças, vale uma oração, uma homenagem silenciosa na necessária conversa que fazemos conosco. Vale até um “eu te amo” em pensamento. Ela há de sorrir, onde estiver. E o poder que ela continua tendo há de fazer você também sorrir. Lembra que no início um coração se fez dois? Os dois continuam sabendo que podem se encontrar…

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 14/05/2017

Os inícios em Maio

Solange soube, desde cedo, que o mês de maio é o mês das noivas. Na cidade onde mora, nas vozes que escuta sobre o assunto, nas mulheres mais velhas que se acotovelam na pressa de não desperdiçar o mês. Para iniciar um namoro. Para prosseguir até o ano seguinte. Tempo suficiente para conhecer e decidir. E casar.

Uma tia experiente de Solange, que se casou mais de uma vez, não sem antes ter chorado o luto de mais de uma viuvez, sempre iniciou os namoros no mês de maio. E, um ano depois, exatamente no mês de maio, fazia no altar as novas juras de amor eterno. Solange chegou a inquirir a tia se não era pouco tempo um namoro de apenas um ano. A tia, sabida, explicou que, se para o nascimento era preciso apenas 9 meses,… E silenciou. Solange tentou fazer a ligação de uma coisa com outra. Era mais difícil uma criança inteira ganhar forma do que um amor mostrar que já se formou. Que já estava pronto. Seria isso? Ela não sabia. Sabia que era mais um mês de maio. Nos meses que antecederam, ela fez um sério regime. Deixou para os derradeiros dias de abril a mudança de penteado. Soube, de uma e de outra, as promessas que costumavam não falhar. O santo mais acionado era Santo Antônio. Por sinal, padroeiro da sua cidade.

Solange não buscava um homem perfeito. Longe disso. Queria apenas alguém com quem pudesse dividir os afetos mais sinceros. Alguém que a respeitasse. Alguém que dissesse palavras doces em uma vida de tanto amargor. Se fosse bonito, melhor. Se não fosse, beleza é passageira, dizia ela para si mesma. Queria o permanente. Não era dessas que aceitavam um aqui e outro ali. Queria a paz de ir conhecendo cada detalhe das linhas das mãos do seu amor. Leu no salão de beleza que cada linha tem um significado. Interessou-se pela linha da vida. A que define se viveremos mais ou menos. Será que sua tia reparava nas mãos dos maridos? Bobagem. Não acreditou muito. Mas gostou de saber que as linhas não estão à toa nas mãos. Nada é por acaso. Nada é fruto do acaso. Nem as mãos. Solange queria um amor. Que estivesse distraído em alguma esquina e a visse passar. E a olhasse com algum desejo. E reparasse que ela estava pronta para um início, no início de mais um mês de maio. Não se atiraria rapidamente porque o recato é uma qualidade que lhe parece necessária. Por outro lado, não se faria insincera, dificultando uma prosa que poderia ter continuidade.

A mãe de Solange enviuvou cedo. E não quis saber de outra história. Dizia que amar dava muito trabalho. Que preferia permanecer nas lembranças. Solange não concordava. Respeitava, mas não concordava. “Viver dá trabalho”, dizia ela para si mesma. Frase de algum escritor famoso de quem ela não se lembrava. Mas, no trabalho do viver, o amor é uma brisa boa que nos perfuma de novidade. De uma eterna novidade. Solange vivia perfumada. Era melhor assim. Sem exageros para não enjoar o tal do distraído parado em alguma esquina.

Parado? Não. Era melhor encontrar um homem em movimento. O amor é movimento. Movimentamo-nos para cuidar, para surpreender, para elevar quem amamos. Se a beleza não era a condição primeira para o enlace, a admiração era. Quem ama admira. Um ao outro. Nas ações diferentes e nos tempos diferentes. Nada de anulações. Mas de encontros. Cada um prosseguirá tendo a própria história. E, juntos, uma história comum. Quem se anula um dia cobra. Quem ama não admite anulações. É como as asas de um pássaro qualquer. Não sabe Solange porque se lembrou de um pássaro. Talvez porque tenha duas asas, e as duas precisam estar inteiras para o voo certeiro. Talvez.

A vocação do amor é o alto. Se se prende a detalhes menores, não há voo. São cúmplices as asas. Os amantes. Os sonhos.

Solange sonha com esse mês de maio. Não que esteja em apuros. Se não encontrar, há de esperar mais um pouco. Não há de estragar os novelos com uma blusa que não aqueça. Solange gosta das tardes em que acompanha a despedida do sol com as agulhas de tricô e o tecer de mais um agasalho.

O mês de maio é um mês bonito. Nem muito quente. Nem muito frio. A paixão é apressada, ansiosa. O amor é paciente, tranquilo. Há muitas esquinas na cidade de Solange. Não é preciso se precipitar no primeiro encontro. Se o que amou não correspondeu, nada de mendigar. Migalhas não satisfazem uma vida. A paixão se satisfaz com migalhas. Depois se irrita. Depois quer mais. Depois desiste. Depois volta. Depois chora. Depois agride. Depois jura que nunca mais. Depois desiste do que jurou. O amor, não. Ou é pleno ou não é. O amor cuida como exigência própria de sua existência. Nada de agressões nem de ausências. Olhares. Mãos. Cheiros. Beijos. Tudo calmo e tudo intenso. E admiração. Daí é que nasce o respeito. O gosto de ver. E de ver de novo. De ouvir. E de ouvir de novo. E de não se cansar. Cansaços fazem parte do trabalho, da lida, não do amor. Quem se cansa de uma brisa leve? Que nunca incomoda? Quem se cansa da água que nos alimenta de vida? Quem se cansa das mãos, com todas as suas linhas, que estão prontas para acariciar?

Ainda estamos no início do mês de maio. Solange tem algum tempo para o início. Hoje, ela saiu especialmente feliz. Teve um lindo sonho. Em tempo, sonhos ajudam a encontrar um amor.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 07/05/2017

Motorista de ônibus

Paterson é um motorista de ônibus que vive a rotina de um motorista de ônibus. Sua cidade e sua linha de ônibus têm o mesmo nome que o seu, Paterson. Ele é casado com Laura, uma mulher que passa os dias pintando cortinas e tapetes na companhia de seu cachorro. Sonha ela em ser doceira, ou melhor, fabricadora de cupcakes ou quem sabe uma cantora country.

Paterson tem uma rotina comum. Acorda quase sempre no mesmo horário. Beija sua mulher. Come alguma coisa. E vai trabalhar caminhando. Nos mesmos trajetos, consegue inspiração e tempo para escrever poemas. Escreve-os em um caderno secreto. A mulher gosta quando ele os lê. Ela o admira profundamente. Quer que o mundo conheça os seus escritos. É mais ou menos essa a narrativa de um filme de Jim Jarmusch que está em cartaz nos cinemas. O filme é uma celebração à poética do cotidiano.

Ezequiel é um motorista de um ônibus que vive em uma grande cidade que não leva o seu nome, em um grande país chamado Brasil. Ele é casado com Laura, uma professora apaixonada por crianças e por seu marido. Moram em uma casa simples. Acordam muito cedo. Fazem amor quase que cotidianamente e saem para trabalhar. Ezequiel gosta dos finais dos dias, quando toca violão para Laura. Ela escreve silenciosamente seus poemas de amor em um caderno qualquer.

As duas Lauras sonham muito. E gostam de falar sobre os seus sonhos. As duas Lauras admiram os seus maridos. Paterson e Ezequiel orgulham-se de terem feito a escolha correta. Dirigir. Os ônibus e suas vidas. Dirigir sem solavancos. Felizes pelos cotidianos. Nada de velocidade exagerada para não precisar de freadas incômodas. Há que se ter atenção. Há perigos por todos os lados. Há desavisados que tentam entrar na frente e causar acidente. Às vezes, propositadamente; outras, por descuido. Comentários infelizes sobre vidas felizes podem causar estragos.

A Laura do filme sonhou que teriam eles filhos gêmeos. A Laura de Ezequiel está grávida. De gêmeos.

Ficção e realidade se encontram em narrativas comoventes de vidas humanas. Há tanta história para ser contada. Poetas se valem do que veem, do que ouvem, do que experimentam, do que sentem, do que imaginam. A poesia é democrática. Nasce dos que se dedicam às palavras como ofício de vida e nasce dos que conduzem ônibus ou educam crianças. A poesia é livre. Não a detém apenas os que ampliaram o repertório estudando tratados e enciclopédias. A vida também é uma escola. Uma escola poética.

Certamente, haverá aqueles que dirão que motoristas de ônibus sofrem muito, ganham pouco, trabalham exaustivamente. Que professores ou fabricadores de cupcakes não têm tempo nem para respirar, quanto mais para amar. Conclusões apressadas. O amor é soberano. Sobrevive ao tempo e às ausências. Empresta perfume ao suor cotidiano. Lava o que é necessário. E alimenta as ruas que precisam ser percorridas.

A rota de Paterson e de Ezequiel é sempre a mesma. Mas é diferente. Um texto de uma música country é sempre o mesmo. Mas é diferente. As crianças que estão na sala de aula com a professora Laura são as mesmas. Mas são diferentes. E o sabor da diferença é uma experiência necessária.

Ousar outras vidas, mudar de profissão ou atividade, experimentar uma nova história, tudo isso é possível e, às vezes, imperativo. Quando não se está feliz em uma rota, urge lembrar que há outras.

Paterson e Ezequiel preferem permanecer. Querem continuar assim. Conduzindo e sendo conduzidos. Experimentando as diferenças das estações. Acompanhando uma conversa aqui outra lá, não por intentos de espalhar segredos, mas por encantamento. Vidas humanas trazem encantos quando se compreende. Arrogantes desperdiçam essas oportunidades.

O filme e a vida nos ensinam que a humildade é uma companheira e tanto. Como Laura. Como as Lauras. As que amam. As que sonham.

Em suas rotinas, parece não haver muitos recursos para gastos extraordinários. Não querem comprar o que veem nos anúncios. Seus sonhos são outros. Como trabalham muito, o pouco tempo que resta é dedicado ao amor e à poesia. Conduzem a vida dos outros sem delas se valer para comentários maldosos. Não. Isso não lhes cabe. Como só sabem de trechos de conversas, não se dão o direito de conclusões. Preferem concluir o dia com canções e com o direito de dormirem juntos. Porque amanhã tem mais.

Quem tiver oportunidade assista ao filme. Quem tiver oportunidade preste atenção a um motorista de ônibus e a como ele conduz sua vida. Quem sabe você encontre um Ezequiel por aí. Se encontrar, mande lembranças para Laura, ele há de agradecer.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 30/04/2017

Viver a vida

Os desajustes de hoje desaparecerão amanhã. Os embates tão apaixonados darão lugar a outros. As dores também serão substituídas. Problemas que parecem montanhas intransponíveis serão reduzidos a areias inofensivas. É esse o poder cicatrizante do tempo.

Pense em uma discussão de trânsito. Que significado terá ela para uma vida? Por que tanta efusividade com o que passa no abrir de um sinal? Uma escolha para onde ir em um entre tantos finais de semana? Brigas? Por quê? Porque o time fez um gol? Outros jogos nos preencherão, outros gol poderão ser defendidos ou marcados.

Um vaso se quebrou? Que o tempo da varredura seja o mesmo que o tempo da chateação. E nada mais. E prosseguir.

Um machucado? Algumas lágrimas. E nada mais. Um aparelho que se quebrou. Uma encomenda que não chegou. Um projeto que falhou. Sucessões de “nãos” nos incomodarão, mas nos ensinarão, também, a dizer os “nãos” necessários. Que hão de nos proteger.

Uma doença chega e nos ensina. Ensina-nos a valorizar o que poderíamos perder.

Uma amiga, que venceu uma doença que parecia invencível, um dia me disse: “É preciso ‘viver a vida’, porque a vida que passa não volta e a que ainda haverá de vir talvez não venha.

Desperdiçamos tanto tempo maculando o sagrado tempo do amor, da amizade, dos encontros. Precisamos inaugurar uma pedagogia do encontro. Do encontro com os sonhos que restaram em nós. Que sobrevivam! Do encontro com mãos que ainda acreditam no caminhar juntos. Do encontro com os amores imperfeitos que conseguimos amealhar. Não esperem amores perfeitos. Ainda não foram inventados. Nem pessoas perfeitas. Basta que nos olhemos no espelho da consciência e percebamos que em nós também mora a imperfeição.

Certo amigo disse ao outro: “Te perdoo pelos seus erros”. O outro apenas sorriu. Sorriu o sorriso da compreensão. Quem não erra?

Quando vejo dois idosos caminhantes, fico imaginando o meu amanhã. Acompanhado. De amores. De amigos.

O tempo há de nos presentear com alguma lucidez. Menos desperdícios com o efêmero e mais celebração com o eterno. O que gostaria de eternizar nos meus gestos? A arrogância ou a compreensão? A avareza ou a generosidade? O orgulho ou a delicadeza?

Hoje, é plantio. Amanhã, é colheita. Hoje, é colheita. Amanhã, é plantio. Plantamos e colhemos sem pausas. O que falamos expressa e constrói o que sentimos. O que sentimos se materializa no que falamos e somos. Por isso, é preciso “viver a vida”. Sem concessões. Em qualquer idade. Diante de qualquer enfermidade. No enfrentamento de qualquer dor. Viver a vida como um decisão inegociável. Aproveitar cada instante para a reinvenção. Se o que foi, foi, então, é viver o que fica. Se um movimento se perdeu, há outros que merecem atenção. Se um amigo nos decepcionou, há alguém, logo adiante, aguardando um olhar amoroso.

Se não há dinheiro para uma longa viagem de celebração, celebre o pôr do sol. Em alguma esquina. Mas acompanhado. Sempre há alguém – não necessariamente quem teimamos desejar – disposto a assistir ao espetáculo.

O sol se põe. E o sol nasce. E novamente se põe. E novamente nasce. Os ciclos são um convite a separarmos o bom do que passa rápido. O que é bom permanece. Como obra humana inspirada e inspiradora. O que é bom permanece nos oferecendo sorrisos gratuitos. Basta uma prosa, em um dia qualquer, e a alma se alimenta.

Ao contrário do grito, do xingamento, das rasuras. Eles assustam a alma. E ela encolhe. E, pequena, já não vê a sucessão de belezas que compõem a nossa vida.

Em um velório, presenciei o adeus de uma mulher ao marido amado. O choro da saudade e a gratidão do amor sem economias. Palavras lindas de quem encontrou alguém para costurar os sentimentos e cuidar como decisão e necessidade.

Todos os dias chegam vidas e todos os dias vidas partem. A sabedoria está em compreender as chegadas e as partidas e viver o tempo que temos sem complicações.

Vez ou outra, eu me pego lembrando do tempo ao qual gostaria de voltar. Acabo voltando às caixas tantas que armazenam o bem que vivi. Volto onde estou com vontade de prosseguir. Sabendo que sou capaz de enfrentar as tormentas com o depósito de amor que meus pais e tantos que amei, por mim, passaram.

Plantios e colheitas. Colheitas e plantios. Vida que segue… de preferência com bagagem leve. Para que não nos descuidemos de quem precisa de nós.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 23/04/2017

Páscoa, o amanhecer da vida

Amanheceu.

O túmulo está aberto. Os que conseguiram chegar perceberam que a morte já havia sido vencida. A noite demorada não resistiu. A luz chegou.

É um novo dia de novos dias que se sucederão. Os esforços dos senhores do poder deram em nada. Nada é mais forte do que o amor.

A Páscoa é a celebração do amor. Do amor que vence o ódio. Da vida que vence a morte. Da liberdade que vence a escravidão.

Os que odeiam são escravos do próprio ódio. Os que oprimem são escravos da própria opressão. Os que condenam são escravos da própria condenação.

Julgaram Jesus. Condenaram-no a deixar este mundo. Primeiro a cruz, depois o túmulo. A cruz persiste como sinal do que houve. O túmulo está vazio. Era pequeno demais para caber tanta vida. A morte nos inquieta. Certamente. Há um mistério entre o que vemos e o que gostaríamos de ver. Se pudéssemos saber o que acontecerá depois… Fiquemos no que está ao nosso alcance. Olhar para o que aconteceu e aprender com o acontecido. E prosseguir.

Na Páscoa antiga ,a coragem de Moisés. Nem os exércitos nem as águas foram capazes de deter o seu sonho. Era um povo escravo que merecia a liberdade. Na Páscoa nova, é a vida de Cristo que renova a nossa. Um povo carente de um sinal. Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há crianças aprendendo a serem suicidas, há outras chorando os pais, mortos “em nome de Deus”, há outras vitimadas pelas violências tantas. E Jesus ensinou que cuidássemos delas.

Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há famílias destroçadas pela violência, há guerras dentro das casas, lares que se transformam em palcos de morte. Apedrejadores em posição de alerta. E Jesus nos olhou com compaixão.

Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há alguém ao nosso lado, esperando um gesto de amor, um reconhecimento, um cuidar que alivia o cargo pesado que mora em nosso destino. E Jesus nos deixou o mandamento do amor, do amor a Deus e ao próximo. Quem é o meu próximo? Passo ao longe e tenho pena ou desço de onde estou para cuidar de suas feridas?

Mundo ferido o nosso. Feridas abertas que precisam de um poder cicatrizador. Quem há de pegar a essência que ficou no amanhecer daquele túmulo para perfumar os ambientes e aliviar as dores? Os professores? Os médicos? Os artistas? Os pais? Os amigos? O próximo?

Quem é o meu próximo? Quem precisa de mim hoje? Se conseguíssemos responder a essa pergunta e encontrássemos esse irmão, celebraríamos uma Páscoa muito mais significativa. Seríamos menos escravos, menos trancafiados em nossos túmulos. Tristes de nós quando nos afeiçoamos aos túmulos e nos negamos a ver que estamos vivos e que o dia já amanheceu.

Tristes de nós quando fechamos os olhos fingindo que é bom estar onde estamos, no lugar dos mortos, dos que desistiram. Tristes de nós quando – avarentos de atitudes e de sentimentos – somos incapazes de abraçar a generosidade.

Páscoa é alegria. É esperança. Mesmo àqueles que passam ao longe das religiões vale um olhar para a história. Por que um filho de carpinteiro marcou a história da humanidade? Que carpintaria de alma é essa? Que poder é esse que atravessa os tempo e continua a fascinar? O seu fascínio está além das religiões. Está além do que conseguimos ver ou compreender. Seu legado é simples. Amar. Sem barreiras nem fronteiras. Sem muros. Sem nada que impeça de estender as mãos e cuidar. Do próximo. Do distante. De qualquer um cujos olhos se encontram com os nossos.

Páscoa é passagem. Barreiras, muros e túmulos tentam interromper o curso das vidas. E há quem defenda isso. Deixemos, por ora, essas escuridões de lado.

Amanheceu. E a esperança voltou a nos fazer companhia.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 16/04/2017

Domingo de Ramos

Quem eram aqueles que aclamavam Jesus na entrada de Jerusalém? Aqueles que, com os seus ramos de oliveira, gritavam “Hosana, hosana ao filho de Davi”? Quem eram os que festejavam sua história? O Nazareno que falava sobre o amor, que não tinha preconceitos, que conversava com as crianças, que acolhia as mulheres, que não tinha nojo dos leprosos? Aquele que ensinava em parábolas?

Havia razões para comemorar a sua chegada. Ele desassossegava as pessoas com sua capacidade de ensinar o amor e seus afluentes. Do rio precioso, saíam outros necessários como o perdão, a misericórdia, a compaixão.

Teve Jesus compaixão por aquela mulher que, por pouco, não fora apedrejada. Chorou com os choros das irmãs de Lázaro. Compreendeu a dor da viúva de Naim. Era um cortejo de lágrimas que saía da cidade quando ele chegava com o cortejo da esperança. E a mãe pôde abraçar novamente o seu filho. Devolveu alegria aos noivos de Caná da Galiléia. Explicou que os humilhados serão exaltados e que os humilhadores não encontrarão a paz.

Entrava esse homem em Jerusalém e o povo tinha razões de sobra para aplaudi-lo. Mas o que houve depois? O mesmo homem foi humilhado, açoitado, despido de sua dignidade em um calvário de abandonos. Os gritos eram outros. Queriam o seu fim. Não toleravam mais a presença de alguém tão bom. Era preciso jogar sobre ele todos os ódios que estavam acumulados.

Ele representava algum perigo? Decidiram que “sim”. Em uma guerra de comunicação, convenceram os que o receberam com aplausos a cerrar os punhos e lançar sobre Jesus suas ausências. Nada de misericórdia ou compaixão. Nem a dor da mãe que encontra o filho ensanguentado parecia comovê-los. Até os amigos tiveram medo e o negaram. A cruz seria o seu destino. Antes um governante lavou as mãos. Antes uns religiosos justificaram os horrores em nome de Deus.

Usar o nome de Deus para matar é correto? Quem decide o que é o correto? Mas e o povo? O povo que o aclamava com alegria? Mudou de lado. Um cisco entrou em seus olhos e já não mais enxergavam. O ódio tem esse poder. O poder de não nos deixar ver. E o pregador do amor caminhava para ser pregado na cruz.

E a história se repete. É o início de mais uma Semana Santa. As cerimônias são plenas de ensinamentos e instigações. Quem estamos crucificando hoje? Quem estamos abandonando? Ontem, os entusiasmos diante da possibilidade do poder. Hoje, o abandono.

O jovem pregador do amor não reagiu aos odientos ataques. Não era esse o seu tema de vida. Seguiu ciente de que o tempo haveria de rasgar o véu da ignorância que cegou aquela gente.

O que nos cega hoje? Dizeres malditos que nos convencem a matar? A morte na cruz não está prevista em nosso sistema jurídico. Mas e as cruzes que obrigamos o outro a carregar? Houve justiça com Jesus? Justiça injusta aquela. Filha da mentira divulgada. Filha do medo de um amor revelador.

Políticos e religiosos, legalistas e moralistas estavam todos do mesmo lado. Divulgadores de falsidades, também. E, do lado certo, estava Ele. Entrando em Jerusalém. Partilhando o pão. Lavando os pés dos Seus amigos. Orando por paz.

Os nomes dos que gritavam pedindo Sua morte não ficaram registrados nas história. O Dele ficou. O menino de Nazaré, o filho de Maria e do carpinteiro José, o inaugurador de uma nova forma de falar com Deus, de falar de Deus.

Que essa semana nos santifique. Os ciclos se repetem. Os de ódio e os de amor.

Quando olhamos os ódios do passado, os tiranos, os injustos, os mentirosos, certamente, lamentamos. Mas e quando reproduzimos esses mal comportamentos? Há alguns que tiveram o poder e mataram milhares ou milhões. Há outros que matam esperanças dentro de casa, que desperdiçam infâncias, que agridem mulheres, que roubam a alegria. Que tiram a paz dos que encontram nas tantas esquinas que há por aí. Há os que crucificam na primeira informação e há os que conversam com o tempo para compreender.

No domingo que vem, é Páscoa. Um outro dia. Um outro artigo. Um outro raio de esperança a nos dizer que é a vida a vitoriosa.

Que seja uma semana de vida, para todos nós, imperfeitos, errantes, ávidos por alguma luz. A luz está na cruz, mas sairá dela para viver nas consciências que se abrirem, como se abriu aquele túmulo, mostrando que a morte não poderia matar o amor.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 09/04/2017

Sujos e malvados

Uma mulher estava limpando a rua. Muitas mulheres e homens limpam as ruas, todos os dias, nas pequenas e nas grandes cidades. Com seu uniforme, a mulher, gari, limpava a rua.

Um homem chegou para entrar em seu carro e começou a xingar a mulher. Falava alto. Gesticulava. Ameaçava. A mulher tentava explicar. O homem não estava disposto a ouvir. Eram frases tão soltas, tão desconectadas, tão agressivas que ficava difícil entender tamanha chateação em uma manhã ensolarada.

O dia estava apenas começando. O homem saiu com o carro em alta velocidade, sem desperdiçar, entretanto, a oportunidade de mais algum xingamento. Com o vidro aberto, mandou que ela sujasse a mãe e ainda disse que estava com o nome dela e que ela aguardasse para ver o que haveria de acontecer. Gritando e olhando para trás, quase atropelou uma criança com roupa de escola.

A mulher parou um pouco, colocou as duas mãos sobre a vassoura em pé, abaixou o queixo para acomodá-lo sobre as mãos e respirou calmamente para que as batidas apressadas do coração voltassem a ser o que eram antes do ocorrido.

Chorou aquela mulher. Lembrou-se da mãe, de quem ela cuidou até morrer. Sujar a mãe? Nunca. Limpou-a muitas vezes, quando a doença roubou sua autonomia. Acordou cedo, cedíssimo, para trabalhar. O pouco salário nunca foi desculpa para algum descuido. Se alguma poeira atingiu aquele homem, não foi proposital. Ela estava de costas quando ele chegou. O carro estava estacionado em frente a uma igreja. Certamente, ele não estaria saindo da igreja, pensava a mulher. Se estivesse saindo, se estivesse ido rezar, não agiria daquela forma.

O homem pediu o seu nome. Ela, imediatamente, deu. Com a língua presa, pronunciou um nome comum. Não entendeu a razão. Ligaria ele para algum conhecido poderoso e pediria que ela fosse demitida? O homem parecia decidido a mostrar que mandava.

Pensamentos tantos ocuparam a cabeça da mulher. O cansaço. A diabetes. A preocupação em não ficar nervosa. A pressão alta. Os filhos que dependiam dela. O marido, que gritava de forma parecida à do homem do carro, havia ido embora. Estava tudo nas mãos dela. Limpar a cidade e cuidar dos seus. E, agora, numa manhã ensolarada, num dia ainda espreguiçando, a chateação dos maus tratos.

O homem estava bem vestido. Parecia limpo. Parecia. Não. Não era a poeira saída das ruas que haveria de sujá-lo. Estava sujo o homem.

Lembrei-me do filme de Ettore Scola, “Feios, sujos e malvados”. O filme é uma provocação. Comportamentos desprovidos de ética moravam naquelas personagens que misturavam estilos, tragédia shakespeariana e comédia italiana. Tragédia e comédia. Dores e risos. Pessoas bondosas que amanhecem conosco, e pessoas que almejam roubar nossos amanheceres.

O homem do carro não tinha nenhum estilo. Não sei dizer se era feio. Não deu para reparar. Mas era malvado. Era uma manhã ensolarada. A folha do novo dia estava quase em branco. Aguardando textos. Começar com uma rasura demonstra descuido maior do que o da mulher, se descuido houve. O que ela sujou? Ele? O carro? Com alguma poeira?

Covardias são comuns em pessoas sujas e malvadas. E feias. A beleza não mora em detalhes objetivos e explícitos. Brota de uma luz que todo o ser humano é capaz de irradiar. Parecida com a luz daquela manhã ensolarada. O homem teria outros motivos para estar daquele jeito? Não. Não há justificativas para ações assim.

A criança que quase foi atropelada, um pouco adiante, ajudou uma senhora idosa a atravessar a rua. Aprendeu esses bons modos em algum lugar. Que bom. Há esperança!

O homem saiu dali para ir a algum lugar. Sei quase nada dele para dizer algo a mais. Sei que o que vi é feio. Abracei aquela mulher, suada de nervosismos e da lida, preocupada com o amanhã, ciosa de que teria que prosseguir, de que havia muito a ser limpo naquela cidade.

Cenas cotidianas nos inspiram. Falou-me um pouco do seu calvário aquela mulher. Tinha medo de gritaria. Conviveu com um pai assim e com um marido assim. Gostava da vida. De acordar cedo. De ter um trabalho. De deixar a cidade mais bonita. De encontrar pessoas educadas que, com naturalidade, a cumprimentavam. Sorriso bonito o daquela mulher. Passado o susto, ela estava novamente limpando. Fui saindo e reparando que os seus lábios se movimentavam. Não sei se ela estava conversando com ela mesma e dizendo que não se importasse ou se estava cantando. Se estivesse cantando, certamente seria uma canção bonita. O sorriso dos olhos revelava isso.

Disse a mim mesmo que não fosse descuidado. Que nunca agisse como aquele homem em frente à igreja. Disse a mim mesmo que cultivasse a beleza e a bondade daquela mulher.

A criança, ao longe, ia para a escola. Deve ter ela bons professores.

Era uma manhã ensolarada. Era um dia ainda começando. Quantas outras mulheres bonitas e bondosas ainda haveriam de se encontrar com homens sujos e malvados?!

Não que não haja mulheres malvadas e homens bondosos. Mas, naquela manhã ensolarada, foi o que eu vi, foi o que me aqueceu.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 02/04/2017

Sinfonia do encontro

Um olhar. Apenas um olhar e a quietude. E o coral de vozes não mais a amedrontou.

Era uma menina. Ainda nos tempos da infância. E era tímida. E tinha os medos todos comuns à infância e a todas as idades.

Os pais moravam longe um do outro. Optaram por tentar outras escolhas. Filha única a menina. Era a mãe quem a preparava para ir à escola. O pai a visitava quando podia. Sentia falta do pai a menina, mas ressentia não conseguir dizer o que sentia. Ensaiava pedir alguma atenção. Chegava a pronunciar para si mesma o que haveria de dizer. Não dizia.

A mãe estava sempre em busca de algo que a menina não compreendia. Sobressaltada com a vida. Com as buscas. Com os fracassos.

A menina tinha medo do fracasso. Alguém disse que ela não cantava bem. Brincadeira estúpida, talvez. Mas a incomodou. E como! Quis sair do coral, mas não conseguiu dizer. E por lá ficou. O medo, nesse caso, foi-lhe companheiro.

Era o dia da apresentação. Mulheres e homens estavam no teatro. Entraram as crianças. A menina tinha o coração acelerado. Resolveu cantar baixo para não incomodar. Talvez assim não percebessem os erros da sua voz. Temia esquecer a canção. Temia ter alguma tontura. E o medo roubava dela o prazer de estar ali. Resolveu ficar um pouco escondida. Melhor que não a vissem. Com olhos baixos, teve um súbito de coragem e olhou. Um olhar. Depois de tantos que nada viram. Um olhar e o encontro com os olhos da mãe. Um sorriso. Um alívio. E mais um desejo.

O pai estava entrando. Ela viu ao longe. E não precisou de mais nada. Esqueceu-se de tudo. E cantou. E participou daquela sinfonia. Naquele tempo em que o tempo ainda não dizia quanto é apressado.

A menina cresceu. Os pais se foram. Amores vieram para participar da sua vida. Os medos ainda a incomodam. Ora fazem mal, ora fazem bem. Fazem mal quando retiram dela possibilidades incríveis. Fazem bem quando a ajudam a permanecer atenta para, na vida, não desafinar.

A menina virou cantora. Canta como necessidade vital. Canta e permanece nos que a ouvem. Ganhou confiança. Sabe que saem de casa para vê-la. Sabe que silenciam os murmúrios para ouvi-la. Vez em quando, lembra-se de como tudo começou. Naqueles desencontros, encontrou, mesmo que distantes um do outro, os olhares de que necessitava. Estavam ali a dizer algo. E a sinfonia iniciou a sua jornada.

Encontros. Cantores ou construtores. Julgadores ou auxiliares. Motoristas ou doutores. Professores ou professadores de qualquer crença. Estão todos tentando encontrar o tom da própria vida. Nos inícios, a dificuldade é talvez maior. A menina, feita mulher, ainda é tímida. Ainda economiza nos ditos. Gosta do palco porque se sente segura. No canto, encontrou o segredo de dizer o que não conseguia dizer, o que talvez ainda não consiga. Sofreu de amores que se foram, mas prosseguiu cantando. Entusiasmou-se com outros que ofereciam eternidades, mas não deixou de cantar.

Na sinfonia da vida, foi percebendo que é preciso ser forte. Que a dependência de olhares não faz bem. Naquele dia, os pais foram. Poderiam não ter ido. Poderia ter sido tudo mais difícil. Mas eles foram. Alquebrados de necessidades, ansiosos por outros encontros, frios um com o outro, mas, com tudo isso, foram. Algum Maestro os inspirou a perceber que a menina era maior do que as suas pausas, que a menina iniciava na sinfonia da vida os seus primeiros acordes. E precisava deles. Indubitavelmente, precisava deles. Se soubessem o poder que têm sobre o amanhã dos seus filhos, os pais seriam um pouco mais atenciosos. Venceriam, certamente, outros certames, para estar onde devem estar. Entrecruzando olhares, expulsando medos, sorrindo.

A menina-mulher hoje canta o amor. Acredita no amor. Fala dos pais com os olhos marejados. Eles se foram tão cedo. Os mesmos olhos que os viram. Uma, um pouco à frente; o outro, chegando apressado. Mas estavam ali. Antes de partirem, puderam vê-la consagrada. Tiveram orgulho da menina tímida. Cantaram as suas canções. Encontraram-se muitas vezes. Sem os ressentimentos do início da separação. Maduros compreenderam que o tempo do amor foi capaz de gerar amor. E que melhor do que lamentar pelo que poderia ter sido era celebrar o que foi. Também eles, um dia, fizeram parte de uma mesma sinfonia que, como toda sinfonia, um dia chega ao fim. Acabou antes de terminar? Talvez, sim. Mas existiu. E a menina continua existindo. Seus olhos olham outros olhos. Mas aqueles continuam vivendo na menina e a fazendo cantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 26/03/2017

Não sou dono do amanhã

Minha mulher tem câncer. Um câncer que não tem cura. O diagnóstico foi o pior possível. Pouco tempo de vida.

Quando soubemos, olhamo-nos e ficamos algum tempo em silêncio. São quase 40 anos de vida comum. Nos nossos silêncios, filmes nos percorreram. Sei, pelo tempo que estamos juntos, o que ela pensou. Sabe ela o que eu pensei. Os médicos de hoje são pouco econômicos em tergiversações. Vão direto. Não sei decidir se é bom ou ruim.

Depois do silêncio, tentei algum dizer. Lembrei-me de tantos que se curam. A medicina evoluiu, e sei de muitos que enfrentaram cirurgias ou sessões de quimio e de radioterapia. E ficaram curados. E ganharam outro significado no viver. O médico não deu margens às minhas ilusões. Disse logo que não era o caso dela.

Permaneceu ela em silêncio. Saímos daquele lugar e fomos para casa. Olhávamo-nos. Ela andou pelos cantos que guardam nossas memórias e depois resolveu cozinhar. Fiquei com ela na cozinha. Ela fez comentários sobre a massa, o ponto do cozimento, o cortar da cebola e do tomate, o tempero.

Durante o almoço, eu disse que deveríamos ir a outro médico. Sempre é bom ter outras opiniões. Ela consentiu rapidamente e comentou sobre o vinho que estávamos bebendo. Sobre o prazer de estarmos ali. Olhou-me como nos tempos de juventude. Olhou-me com alguma malícia, até. Sorriu. Estávamos juntos. Deitamo-nos depois e nos amamos. Sem pensar no amanhã. Era uma sexta feira. Passamos o final de semana namorando. Nada de assuntos outros.

Fomos a outro médico e a outro. Tratamentos paliativos, apenas. O diagnóstico estava certo. Contamos aos nossos filhos. Não foi fácil. Abraços, choros, ditos de amor. Explicações. Irritações. Revolta, até. Por que tanta gente má vive muito e gente que só faz o bem é escolhida para partir? A revolta deles não era a da minha mulher. Ela surpreendia-me pela serenidade. Nada de brigas com o destino. O tempo por aqui é limitado. Minha mulher tem muita fé. E tem uma linda certeza sobre o que virá depois. Eu ora acredito, ora desanimo. Tentava, contudo, viver cada momento. Dizia a mim mesmo que não há ninguém com o poder sobre a vida e a morte. Eu poderia morrer primeiro. Já vi casos assim. Enquanto um estava aguardando a partida, alertado por alguma enfermidade, o outro partiu vítima de um entre tantos acidentes que há por aí.

Começamos a namorar mais do que de costume. Resolvemos marcar uma viagem. Só os dois. Vez ou outra, ela dizia sobre algum detalhe do tratamento. Rapidamente. O tempo que tínhamos não poderia ser desperdiçado. Fizemos uma linda ceia de natal. Sem despedidas. Quem sabe o que há de acontecer amanhã? Comemoramos juntos o ano novo. Ela olhou-me como sempre e brindou as nossas escolhas de vida. Estávamos em família. Filhos. Netos. Estávamos apenas nós. Nossos olhos se entrecruzaram. O mundo poderia terminar ali. No alto, os fogos explodiam. Barulhos por todo o canto. E estávamos sós. Nas férias, resolvemos voltar ao hotel em que fizemos nossa lua de mel. Os momentos de dor não eram esquecidos, naturalmente. Ela surpreendeu-me algumas vezes com os olhos marejados. Enxugava-os com cuidado. E me beijava. Dançamos no quarto em que, pela primeira vez, nos amamos. Na época, era assim. Esperávamos o dia do casamento.

Voltemos ao hoje.

Trabalho pensando na volta para casa. Compro alguma lembrança para roubar um sorriso dela. Nem seria necessário, mas me faz bem. Surpreendê-la me faz bem. Aproveitamos cada feriado. Desde o primeiro diagnóstico, provamos ao médico que o tempo de vida não se mede em exames.

Lembro-me quando perguntei sobre uma primeira viagem que estávamos programando. Ele disse, sem rodeios, que era muito tempo. Que eu não me animasse. Fui forte e desobedeci. E outras viagens se sucederam.

Estamos fazendo planos para a Páscoa. Que a morte virá não nos restam dúvidas. Para ela e para mim, inclusive. Mas saberá, a morte, que não perdemos tempo aguardando a sua chegada. Venha quando tiver de vir. Enquanto isso, viveremos o tempo do amor. Quantos casais têm essa felicidade? Naturalmente, a paixão enlouquecida dos primeiros tempos sobreviveu aos primeiros tempos apenas. Depois, outros sentimentos nos preencheram. O companheirismo, a cumplicidade, o cuidado mútuo, o amor. Hoje nos amamos. E como nos amamos! Sei disso porque os melhores momentos da minha vida são os que eu estou com ela. As minhas vitórias profissionais ganham novo sabor quando sei que ela está por perto. E as dela, também. Um olhar e adivinhamos o que o outro sente.

Se brigamos? Sim! Longe de nós a perfeição. Se desejamos nos separar? Várias vezes. Se olhamos para o lado? Certamente. Quem manda nos desejos? Mas quando olhamos para nós mesmos, percebemos que era melhor permanecer. Que decisão acertada!

Talvez viajemos na páscoa. Praia? Campo? Interior? Capital? Ou talvez fiquemos em casa. Ainda não decidimos. Decidimos estar juntos. Vivendo juntos a dor. Vivendo juntos o amor. Também gosto de cozinhar. Para ela. Gosto quando ela elogia apenas pelo cheiro. Antes, inclusive, de provar. Gosto quando ela me cobre antes de dormir. E me dá um último beijo. Não sou dono do amanhã.

Hoje?

Vou surpreender, mais uma vez, o meu amor.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/03/2017

Encanto ou espanto?

O fato ocorreu em um vagão de metrô. De um lado, um casal com o seu filho. Do outro, também. Um outro casal e uma outra criança.

No início da viagem, as crianças pareciam sem muito empolgação. Quietas. Os adultos falavam. De um e de outro lado. Falavam sobre coisas que nada significavam para as crianças. Mas as crianças estavam ali. Naquele vagão. Naquela viagem. Foi quando o pai disse ao filho: “Você é um encanto”. Não sei muito bem o que o filho havia feito para receber esse afeto. O filho sorriu. Meneou sua cabeça no colo da mãe. E, do colo da mãe, via o pai. E assim prosseguiram.

Enquanto prestava atenção à cena, ouvi um outro dito que me pareceu o mesmo. Agora do outro lado. “Você é um encanto”. Vi a criança chorando. A mãe dando de ombros. E o pai prosseguindo o seu dito de adulto. Não. A frase fora outra. Talvez empolgado pelo que ouvi e vi, imaginei se tratar do mesmo afago. O pai disse ao filho: “Você é um espanto”. Não sei o que fez o menino para ouvir essa sentença.

O que é um espanto? Espanto pode ser surpresa, admiração. Mas pode ser assombro. E o filho chorou. E o choro foi tido como rotina, e os pais prosseguiram entre eles.

Encanto não tem duplo significado. Encanta quem agrada, quem tem qualidades, quem desperta bons sentimentos. Uma criança chorava, a outra ria. Uma criança participava do enlace entre os pais. A outra estava à parte. Uma parte que espantava.

Todos em um vagão de metrô. Todos no movimento. Todos vindo de algum lugar e indo para algum lugar. Não sei de onde vinham nem para onde iam. Não sei quando haveriam de descer. Nem as razões que levavam ao encanto ou ao espanto. Sei que crianças dependem de vínculos. Dependem de dizeres e de atenção. Para o riso ou para o choro. Para a paz ou para o desassossego.

Falavam entre eles, os adultos, na viagem que faziam. E os filhos? Longe de mim decidir motivos, razões, vidas. Apenas nos vimos na viagem. Vejo, na viagem da vida, muitas crianças e seus pais. Ouço vozes de incentivo, palavras de amor. Ouço vozes de desprezo, palavras dor.

O que será dessas crianças? Encanto? Espanto? Quem decide o que seremos? De quantos ontens é feito o hoje. De quantos hojes se fará o amanhã? A semântica tem poder. Dizer a um filho, “você é um encanto”, tem poder. Dizer a um filho, “você é um espanto”, tem poder.

Lembrei-me de Guimarães Rosa e de seu Miguilim. E da importância do olhar dos adultos com as crianças. Miguilim era menino que via sem ver. Menino que nos ensina que ver bem, não raro, também vem de dentro. Tinha olhar de espanto para o mundo que o rodeava no sertão, mas de um espanto que provocava encanto. Certo dia, um cavalo trouxe um homem. Movimento simples, mas que agitava a vida pacata do Mutum. Miguilim, com espanto, notou que o homem era grande, claro, tinha óculos e chapéu diferente. O olhar do homem sobre Miguilim espantou-se porque o menino, para vê-lo, apertava os olhos. O desconhecido pediu para ir ter com a mãe. O doutor do cavalo e do chapéu emprestou-lhe os próprios óculos. O olhar de Miguilim encantou-se. Não podia acreditar. Tudo mudara. Tudo era mais lindo. O invisível se fez grande: o grão de areia, as pedrinhas, os detalhes caprichosos da natureza. E tudo era tão claro. A mãe incentivou: “Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai.”. E Miguilim foi. Partiu com o doutor para novo encanto. O encanto da cidade. Um olhar, um cuidado, uma atenção, um gesto. E um novo futuro descortinou-se para aquela criança.

O vagão chacoalhava. Interrompeu meus pensamentos. Os balanços nos levam um pouco mais a um lado ou a outro. É preciso aprender a se segurar. É preciso aprender a levantar, se porventura cair. Quem são os ensinadores? Que palavras devem ser usadas para ensinar? E os gestos? Lindo o gesto do menino com a cabeça no colo da mãe olhando para o pai.

O outro casal estava ocupado demais para ver o filho. O choro do filho. O espanto do filho. Talvez estivesse mesmo espantado. Espanto com a ausência da palavra encanto. Quem sabe no movimento do vagão, da vida, o menino encontre outros dizeres. Quem sabe. O que se sabe é que palavras têm poder. O poder de espantar. O poder de encantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 12/03/2017