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Avenida Paulista

Quando cheguei a São Paulo, vindo do interior, gostava de passar pela Avenida Paulista para contemplar a grandeza da cidade que adotei como minha. Era aluno da PUC, dava aulas em alguns colégios e faculdades e ia me encontrando nas novas tribos da capital. Os teatros, cinemas, museus, restaurantes. O vaivém de pessoas. Arlequinal, como poetizou Mário de Andrade. Pulsante. Gigante.

Lembro que, nessa época, era sucesso nas rádios uma linda composição de Eduardo Gudin, Paulista. Na voz de Vania Bastos ou Leila Pinheiro, eu sentia a cidade em mim:

“Na Paulista os faróis já vão abrir…
 E um milhão de estrelas 
prontas pra invadir, os jardins 
onde a gente aqueceu uma paixão…
 Manhãs frias de abril.”

Quando eu passava pela Avenida, sempre imaginava os tempos de ontem, da cidade antiga, de outras pessoas que também ali gastaram sua existência. Dos gritos políticos aos encontros de amor. Caminhantes defendendo a liberdade ou o direito de encontrar alguém para aquecer os sonhos nas “manhãs frias de abril”. Eu ficava ressabiado com o mês escolhido para falar do frio. Por que não junho ou julho? Talvez porque o compositor, ou alguém que o inspirou, tivesse alguma história habitada no mês de abril. Eu nasci em abril.

Segue a canção:
“
Se a avenida exilou seus casarões,
 quem reconstruiria nossas ilusões?
 Me lembrei de contar pra você, nessa canção,
 que o amor conseguiu…

O que teria o amor conseguido? Com que dificuldades? 

Você sabe quantas noites eu te procurei,
 nessas ruas onde andei?
 Conta onde passeia hoje esse seu olhar…
 Quantas fronteiras ele já cruzou, 
no mundo inteiro de uma só cidade?”

São Paulo não é apenas uma cidade. O mundo inteiro passa por aqui. Todos os dias é dia de lágrimas. Todos os dias é dia de sorriso. Nascem e morrem pessoas. Chegadas e partidas. Celebrações e lamentos. Cruzando os  quarteirões e rasgando os céus na cidade que tem a vocação para ser de todos.

No domingo passado, estava na Paulista, como tantos outros, celebrando o povo que tomava posse da avenida. Na ciclovia, nas calçadas, nas ruas proibidas aos carros, os faróis abriam e fechavam sem impedir que a Paulista fosse de todos.
Em que cidade sonhamos morar? Que futuros nascem nas nossas aspirações de hoje? Como será a convivência amanhã? Conseguiremos diminuir o fosso que separa a cidade rica da cidade pobre? A que oferece oportunidades da que não oferece? A que dá condições de que os seus protagonizem histórias de sucesso e a que fecha os olhos à dor dos outros que não encontraram o caminho porque ninguém a eles estendeu as mãos?

No domingo, estavam todos na Paulista. Sem desperdícios de reparações entre as tristes divisões da nossa cidade. Salve Castro Alves: “A praça é do povo como o céu é do condor”. De todo o povo. A Paulista é também do povo. Símbolo da pujança e dos movimentos que não param em nossa cidade. Coração que acolhe os choros e ri os risos. Uma avenida que tem sentimentos.


”Se os seus sonhos imigraram sem deixar
nem pedra sobre pedra pra poder lembrar…
 Dou razão, é difícil hospedar no coração
 sentimentos assim.”

Sou grato por viver em São Paulo e por ver que a cidade, embora com enormes problemas, é maior do que eles todos. Por sua gente valente. De razão e de sentimentos.

Ocupemos, civilizadamente, a Paulista como símbolo de tempos que ousamos sonhar. Uma cidade melhor. Mais educada e mais acolhedora. Nos concretos que ousamos construir, há metáforas abstratas de sentimentos que somos capazes de sentir.

Que cada um faça a sua parte. A cidade é de todos. Que os faróis da gentileza, do respeito e da generosidade estejam sempre abertos. Quem ganha somos todos nós.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/07/2015

Ode a Mário de Andrade

“São glórias desta cidade

Ver a arte contando história…” (Mário de Andrade)

Sem a beleza da senhora Palavra, as tardes de quinta-feira não seriam tão generosas comigo. Há uma década, tenho a honra de desfrutar, na Academia Paulista de Letras, espetáculos grandiosos de sabedoria. No tradicional encontro dos Acadêmicos, a prosa faz reverências às nossas origens com reflexões que resgatam o sentido primeiro das palavras, as vozes poetizam as verdades, as memórias são desveladas, ora com dor ora com amor, e a sabedoria faz-se dona dos momentos de leveza. Das horas de descuido, como diria Guimarães Rosa. Enlevo-me. Admiro. Aprendo. Ensino. A Academia vive, e seus moradores são artífices engenhosos e brilhantes de sua majestade, a Palavra. Representantes das Letras. Gigantes da generosidade. 

Neste enredo, como uma grande família, em nossa casa do Largo do Arouche, respiramos diversidade e convergência. Em cada cadeira que ocupamos, resgata-se uma história eternizada por enlaces culturais. Das diferenças, nasce o aprendizado. Aquele que permanece em nosso olhar. Filho mais novo, sinto-me privilegiado por renascer nessa fonte. Tão fecunda. E desafiado na função de gerenciar os sonhos dessa família. Ilustre. Digna. Amorosa.

Inicio essa jornada como presidente da Academia Paulista de Letras como intuito de multiplicar o que resgatamos desse convívio. Abrir as portas da Academia, do espaço que herdamos dos antigos confrades, das histórias vistas e vividas ali, tesouros à espera de curiosidades. A Academia dos paulistas, de todos os paulistas, inaugura o novo ano, em prosa e em poesia, para que todos possam vivenciar o que, há mais de 100 anos, nós, Acadêmicos, compartilhamos: cultura, conhecimento, amizade, encantamento. 

2015, um ano em homenagem a Mário de Andrade

Na próxima quinta-feira, dia 05 de fevereiro, inauguraremos o Ano Literário 2015. Para esse encontro, convidaremos para a prosa o Acadêmico Mário de Andrade e sua eterna vanguarda. Mário, nosso confrade, deixou-nos há 70 anos, mas a audácia e o espírito renovador de sua arte permanecem em seus livros, em sua história, em sua vida. Vida que Mário amava viver, conforme confessou a Drummond, “Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente.” 

Mário que já havia se imortalizado nas linhas das Pauliceias Desvairadas e nas geniais desventuras de Macunaíma passou a ocupar a cadeira no3 da Academia Paulista de Letras, em 1934. São inúmeros os artigos, nas edições da “Revista da Academia Paulista de Letras”, que delineiam as características desse homem audacioso, artista de muitas artes. Em uma dessas páginas, sua pluralidade. Em uma carta escrita em 1944, Mário revela ao confrade René Thiollier:” (…) você deve estar lembrado que já uma vez eu quis me retirar da Academia por me reconhecer incapaz dela. Eu não tomo posse. Por que não tomo? Porque não tomo. Não tenho jeito, sou infenso a academias, e cada vez estou mais bicho do mato, malcriado, aceitando mil convites e faltando a todos. Eu gosto da “nossa” Academia, isso gosto. Mas sou assim, me xingo, mas fico assim.” 

É esse nosso Mário de Andrade. Homem de genialidades, que ousa imaginar-se incapaz de ser acadêmico. Que rompe barreiras narrativas e lexicais. Que norteia, ainda, os que vivem da literatura. Professor a que tantos de nossos escritores submetiam seus fazeres literários: “É preciso colocar responsabilidade humana nos escritos”, alertava. Coerente na irreverência. O paulista e paulistano que distribuiu, em vida e em versos, partes de seu corpo a cada canto desta imensa e arlequinal cidade. São Paulo, comoção de sua vida. É esse Mário que estará presente em nossos encontros. Nos encontros dos Acadêmicos e nos encontros que a “casa” dos paulistas no Largo do Arouche, proporcionará a todos que se alimentam de cultura. Sigamos com seu espírito, Mário. Contestador. Transgressor do trânsito pacífico das artes. Das letras. Da vida. 

 

”Minha casa…

Tudo caiado de novo!

É tão grande a manhã!

É tão bom respirar!

É tão gostoso gostar da vida!…”

(Mário de Andrade)

 

Academia Paulista de Letras

Largo do Arouche, 312/ 324

República, São Paulo

Telefone: 3331.7222

www.academiapaulistadeletras.org.br

 

Principais obras de Mário de Andrade

Pauliceia Desvairada

Lira Paulistana

Amar, Verbo Intransitivo

Macunaíma

Contos Novos

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | 01/02/2015 | Foto: Jorge de Castro (divulgação)

São Paulo em palavra, em poesia

“Alguma coisa acontece no meu coração” (Sampa, Caetano Veloso)

Adoniran Barbosa, “dá licença de contá” a sua São Paulo. A nossa São Paulo. A cidade que há 461 anos, numa colina entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, nasceu para ensinar. Antes de ser cidade, São Paulo foi escola. E continua sendo. Não sobrevivemos ilesos aos seus paradoxos, tão cristalizados e dolorosos. Crescemos com eles. São José de Anchieta versificou as marcas de algumas de nossas injustiças em seu nascedouro. As mesmas que, tanto tempo depois, sobrevivem nos livros e nas ruas de Ferréz e seu Capão Redondo, “Capão pecado”.

Ah! São Paulo que desperta paixões. De poesia e poeira. De rimas e desencontros. A “São, São Paulo”, de Tom Zé. A cidade que vem “morrendo a todo vapor” em abismos culturais, econômicos, sociais. Em abismos viscerais. Palco das “Diretas Já” e de tantos desalentos. Da Semana de Arte Moderna e das crianças abandonadas à sorte. Mário de Andrade, escritor que protagonizou o movimento modernista, declara, em diversos fragmentos de sua obra, seu fascínio pela “Pauliceia desvairada”. Cidade colcha de retalhos. Que desperta risos e lágrimas. “Arlequinal”. Mas, em seu “Prefácio Interessantíssimo”, Mário adverte-nos: “versos não se escrevem para leitura de olhos mudos”. Cada nuance de sua musa inspiradora, a cidade de São Paulo, é revelada no dito e no não-dito de sua obra. E sua poesia lapida nosso olhar. Nas ruas e nos livros.

Ah! São Paulo, comoção da vida de Mário de Andrade, comove também o príncipe dos poetas, Paulo Bomfim, que declara: “Pelo crime de seres boa, pelo pecado de tua grandeza, pela loucura de teu progresso, pela chama de tua história – eu te amo, São Paulo!”. Novamente, a dualidade. O sentimento dual é reiteradamente (e encantadoramente) declarado por escritores, músicos e por todos nós que descortinamos sua verdade. Moramos em São Paulo e ela mora dentro de nós. Como canta Tom Zé, “com todo defeito/ Te carrego no meu peito/ São, São Paulo/ Meu amor”.

Fomos forjados pelo sangue de trabalhadores que não temeram nem a garoa nem o futuro. Acolhemos imigrantes, como retrata Alcântara Machado em “Brás, Bexiga e Barra Funda”; e por vezes, nos distanciamos de nós mesmos. São Paulo, uma cidade que não rejeita ninguém. Nesse barro, fomos criados. Com trabalho e lirismo; acolhimento e coragem. Em São Paulo, encontramos os becos do Brasil e as marcas mais valiosas de Milão. A São Paulo que puxa o “r” para explicar o “porquê” de tudo fala também todas as línguas. Aqui, vive um mundo. Pelo caminho, encontram-se os contrastes que compõem o nosso mosaico cotidiano. As histórias que vivem rentes à nossa pele. Como a de Carolina Maria de Jesus. Ela era negra, pobre, mãe solteira, catadora de papel e foi muito discriminada até descobrirem sua palavra, sua confidência. Sua história de vida sai da extinta favela do Canindé, “o quarto de despejo da cidade,” e chega às bibliotecas e estantes de vários países no livro “Quartos de despejo”. Seu calvário, igual ao de tantos outros. 

As astúcias poéticas que permeiam a história de nossa cidade e que cantam os versos do nosso dia a dia são inúmeras. São mais de 10 milhões de histórias que pulsam com encantamento e dor. A São Paulo de Adoniran, São José de Anchieta, Ferréz, Tom Zé, Mário de Andrade, Paulo Bomfim, Alcântara Machado e Carolina Maria de Jesus é tão minha quanto sua. É dos paulistas e de todo o mundo. Parabéns, São Paulo. 461 anos da capital da esperança.

 

Livros e músicas

“Sampa”, de Caetano Veloso

“Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa

“São, São Paulo”, de Tom Zé

“Capão pecado”, de Ferréz

“Pauliceia Desvairada”, Mário de Andrade

“Insólita metrópole”, de Paulo Bomfim 

“Brás, Bexiga e Barra Funda”, de Alcântara Machado

“Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus

 

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/01/2015