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Lygia e as meninas

Lygia Fagundes Telles foi homenageada, na última quinta-feira, na Academia Paulista de Letras, dentro da programação do EMIL – Encontro Mundial da Invenção Literária. Mais de 120 autores dos quatro cantos da Terra e de todos os cantos de nosso país participam desse evento que termina hoje. Conferências, diálogos, debates, saraus, contação de histórias trazendo o universo do livro e dos autores. A obra e os criadores. Sentimentos que nascem das tramas da vida e percorrem as páginas dos livros. E o caminho inverso, também.

Lygia é uma das maiores escritores da nossa língua. Seus contos e romances preenchem nosso imaginário. Sua ousadia, sua antevisão, trouxe temas leves e agudos. Escreveu sobre sentimentos nobres como a compaixão, a piedade, a cumplicidade e, sobretudo, o amor. Escreveu também sobre traição, perda, morte, medo, separação.

Leio e releio seus escritos e encanto-me como se os lesse pela primeira vez. Que água ela bebeu para saciar sua sede inspiradora? Quais os alimentos que a fortaleceram para dizer o que deveria ser dito em enredos e personagens marcantes? Lygia foi homenageada. Escritores falaram sobre sua obra. Os contos preferidos. Ela mesma já publicou um livro com esse título. E, depois, um outro chamado “Meus contos esquecidos”. Não sei qual o meu predileto. Confessei isso. Depende do dia. Depende do que estou sentindo. Acho que não esqueceria nenhum. Todos eles merecem um altar no oráculo da palavra: Biruta, Venha ver o pôr do sol, Natal na Barca, Antes do baile verde, O moço do saxofone, Papoulas em feltro negro e tantos outros escritos maravilhosos. 

 Lygia usou a palavra, sua majestade, para agradecer a homenagem. E resolveu falar sobre as meninas. Não falou sobre “As meninas”, seu romance. Falou sobre as meninas que precisam assumir o comando da própria vida.

Disse, lembrando Miguel Reale, que a revolução da mulher foi a mais importante do século XX. E continua no XXI.  Abriu o seu legado afetivo ao compartilhar as chamas que a aqueceram em vez de queimá-la. Sofrera ela preconceitos, certamente. A mãe, naquela época, separou-se do pai, que perdera tudo no jogo. Ela entrou para a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Uma universidade de homens, disse ela. E teve de responder, várias vezes, as perguntas sobre o que levava uma mulher a ingressar naquele curso. “Quer estudar Direito ou arrumar marido?”, perguntou uma tia. Brincalhona, respondeu: “As duas coisas, por que não?”. E casou-se com um de seus professores, Goffredo da Silva Telles Júnior.

Lygia era amiga de Clarice Lispector. Conviveu com muitos escritores. Conta que se encontrou três vezes com Monteiro Lobato. Uma vez, foi visitá-lo na prisão. Outra, Lobato foi agradecer sua gentileza e foi à sua casa no dia do aniversário da jovem Lygia. E, na terceira vez, no enterro do escritor.

Disse Lygia, na homenagem:  “Sempre quis comandar o meu destino, por isso estudei, por isso resolvi sair dos espaços que me queriam reservar e fui construir o meu próprio”. E disse isso às meninas que estavam na Academia Paulista de Letras, olhos atentos na escritora. “A mulher tem de ser protagonista. Não pode ser relegada. Não pode se acovardar!”. Usou a metáfora do polvo que, quando tem medo, solta no mar uma mancha: “Em pleno mar, quando se sente perseguido, o polvo solta uma tinta negra para que a água fique escura e assim ele possa fugir. A negra tinta do medo, tão viscosa e morna.” Conclamou as mulheres a vencer os medos e, de cabeça erguida, construir os espaços desejados, com coragem.

Lygia, a eterna menina, terminou pedindo: “Eis que então, hoje, aqui na Academia Paulista de Letras, durante este evento tão importante para a literatura, esta escritora que está sendo homenageada faz um convite ao jovem e ao velho leitor: ‘ Me leia, não me deixe morrer. Repito: Me leia, não me deixe morrer!’”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/11/2015

Lygia e a generosidade natalina

Lygia Fagundes Telles é, certamente, a grande dama da nossa literatura. Obras memoráveis fizeram-na uma das maiores contistas de todos os tempos. “Venha ver o pôr do sol” é uma aula de estranhamentos, ciúmes, loucura, morte; “O moço do saxofone” traz, com riqueza de detalhes, os cortiços da alma, as aceitações obrigadas de um amor injustificado. Há mais. Muito mais. “Antes do baile verde”, “Seminário dos ratos”, “A confissão de Leontina”, “A estrutura da bolha de sabão”. E muitos outros. Sem contar o consagrado romance “As meninas”. Quantas contradições em tempos de “guerra e de paz” tinham essas meninas. Lygia fala de outro menino, em um outro conto. Um triste conto de natal. De dor. De perversidade. O menino Alonso mora em um conto chamado “Biruta”.

Biruta era um cãozinho que morava na casa de dona Zulu, uma dura senhora, que adotara o menino Alonso. Resgatara-o de um asilo de crianças, levando-o para um suposto lar. Mas ordenava-lhe trabalho. Não lhe ofertava amor. Biruta era o companheiro, o irmão, a família toda. Biruta era sua pouca, mas intensa e verdadeira alegria.

O fato é que, enquanto Alonso era obrigado a reprimir sua meninice para não zangar dona Zulu, Biruta vivia intensamente a arte de ser “criança”. Aprontava poucas e boas, fazendo com que Alonso ora pagasse por isso, ora escondesse os estragos para que seu grande amigo não tivesse que ser castigado. Implorava o menino ao seu cãozinho: “Só dona Zulu não entende que você é que nem uma criancinha. Ah Biruta, Biruta, cresça logo, pelo amor de Deus! Cresça logo e fique um cachorro sossegado”. Dona Zulu não gostava de crianças. O que parecia caridade era, na verdade, a maldade de exploração do trabalho de uma criança, confinada nos cômodos de serviço da casa, tendo a garagem fria como quarto. Mas Alonso era feliz. Biruta era toda a sua felicidade. Mas dona Zulu não queria “crianças” na casa. 

Era dia de Natal. E deu-se o desencontro dos sentimentos humanos. Dona Zulu entra na cozinha, surpreendentemente gentil, e diz ao menino: “Vou numa festa onde tem um menininho assim do seu tamanho. Ele adora cachorros. Então me lembrei de levar o Biruta emprestado só por esta noite. O pequeno está doente, vai ficar radiante, o pobrezinho. Você empresta só por hoje, não empresta? O automóvel já está na porta. Ponha ele lá que já estamos de saída.” Alonso não conseguia conter a alegria. Pelo menos o Biruta iria a uma festa de Natal. Parecia impossível que dona Zulu pudesse ser ainda mais cruel. Mas foi. E deu fim ao único laço de amor de Alonso. Biruta não voltaria mais.

Ao saber da verdade por Leduína, a empregada da casa que demonstra, nesse momento, um sentimento de compaixão pelo garoto, Alonso “deixou cair os braços ao longo do corpo. E arrastando os pés, num andar de velho, foi saindo para o quintal. Dirigiu-se à garagem. A porta de ferro estava erguida. A luz fria do luar chegava até a borda do colchão desmantelado. Alonso travou os olhos brilhantes num pedaço de osso roído, meio encoberto sob um rasgão do lençol. Ajoelhou-se. Estendeu a mão tateante. Tirou de baixo do travesseio uma bola de borracha.

– Biruta – chamou baixinho – Biruta… – E desta vez só os lábios se moveram e não saiu som algum.

Muito tempo ele ficou ali ajoelhado, segurando a bola. Depois apertou-a fortemente contra o coração.

A genialidade de Lygia, ao mesclar as questões sociais e humanas, vai construindo no leitor um sentimento de cumplicidade com a condição da criança abandonada. Há um misto de verdade e inventividade construído na narrativa fantástica da escritora que leva o leitor a se perder na ficção para se encontrar no sofrimento do outro. Este, sim, com referente concreto na nossa sociedade. A inversão das expectativas de um menino que, no asilo, recebia presente no Natal e que, no novo lar, é maltratado constrange e provoca. Lygia confessa: “O meu objetivo é a condição humana. A condição humana me apaixona muito, então eu tento me desembrulhar, desembrulhando meu próximo. Nesse ato de me desembrulhar, faço do próximo meu cúmplice, meu parceiro. Tenho vontade de trazer este leitor até onde estou e na realidade nós somos parecidos, temos os medos, as esperanças.”

Lygia é genial, reiteradamente genial. A mestria de nossa escritora nos presenteia com sua arte, sempre e neste momento de encontro, com a cumplicidade, com o desejo de transformar o sofrimento do outro, provocando, em nós, a reflexão e a esperança. O que fez de dona Zulu uma mulher capaz de tamanha perversidade? Quem semeou nela sentimentos tão inferiores? Qual é a melhor semeadura que nos compete em mais este Natal? A literatura é a inspiração. A simplicidade de Alonso e a alegria de Biruta são bons companheiros. E ler Lygia é um presente que podemos dar a nós mesmos. Salve Lygia e a generosidade natalina.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/12/2014

Dias de alegria

Algumas pessoas esperam as festas chegarem para extravasar toda a alegria que fica escondida durante o duro dia a dia. Trabalham, estudam, convivem em casa e na rua com uma certa desilusão cotidiana. Tudo é muito pesado, sem grandes e boas novidades. O acordar, o conviver com gente desagradável, os transportes desconfortáveis, o trabalho, muitas vezes, indesejado e assim por diante. Dia após dia, vive-se o que não traz alegria.

Quando chegam as festas, muitas pessoas acham que é momento de extrapolar. “De caminhar contra o vento, sem lenço e sem documento”, como na canção Alegria, alegria, de Caetano. E o carnaval é uma festa assim. Festa da carne. Para muitos, o momento de beber à vontade, de se fantasiar, de beijar todo mundo, de gritar, de desopilar. Alguns se enchem de energético para ficar sem dormir. Para não perder nenhum instante da festa, da alegria. Porque, depois, volta a mesmice, a chateação, a rotina indesejada. Namoros e até casamentos se desfazem. Tive um amigo que terminou com a namorada, na véspera do carnaval, para voltar depois; afinal, não se desperdiça um carnaval.

Não é estranho viver a alegria apenas nas festas? Ou nem isso é alegria? 

O dia da alegria tem que ser todo dia. Nada contra brincar no carnaval ou em outras festas que recheiam o nosso calendário. O que causa espanto é a mudança de comportamento, são os exageros, é o desperdício do prazer diário. A beleza da alegria está em encontrar prazer no que se faz. Acordar com prazer. Agradecer pelo privilégio de viver mais um dia. Desfrutar da convivência familiar. Ir para o trabalho sabendo que ali está um grande desafio. Conviver com os problemas sem se deixar sufocar por eles. 

Carlos Drummond de Andrade escreveu que “há uma pedra no meio do caminho”. Lygia Fagundes Telles, com licença poética, decidiu, “há um caminho no meio da pedra”. 

Aí, mora a alegria. No “sim” que damos à vida, na vontade de viver cada momento com intensidade, sem ingenuidade e com esperança.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/2/2014

Nova edição do livro “Mulheres de água”

Ao contrário de muitos homens, sem paciência para refletir sobre as angústias e os anseios mais íntimos das mulheres, Gabriel Chalita é um desbravador do universo feminino. Prova disso é seu livro “Mulheres de água”, reeditado pela Editora Planeta com novas histórias acerca da alma feminina. 

Com influência de ícones femininos da literatura, como Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, o autor de “Mulheres de água” joga luz a todas as angústias, anseios e devaneios daquelas que um dia cruzaram a sua vida. Aquelas que, assim como a água e seus mais diferentes formatos e dimensões, moldam-se a cada instante: intensas e compassivas, assediadas e rejeitadas, amorosas e espinhentas.

Dentre as complexas situações vividas pelas personagens, há a tímida jovem que floresceu e encontrou seu grande amor; a rejeitada à procura por atenção; a velhota ansiosa para ser cortejada e desencalhar; a traída e a quase virgem; a mãe e seus instintos compulsivos em proteger a cria; a intolerante que implicava com tudo. É um penetrar sútil e sensível na complexa e fascinante alma das mulheres. 

Fonte: Assessoria de imprensa | 10/2/2014