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Lygia e a generosidade natalina

Lygia Fagundes Telles é, certamente, a grande dama da nossa literatura. Obras memoráveis fizeram-na uma das maiores contistas de todos os tempos. “Venha ver o pôr do sol” é uma aula de estranhamentos, ciúmes, loucura, morte; “O moço do saxofone” traz, com riqueza de detalhes, os cortiços da alma, as aceitações obrigadas de um amor injustificado. Há mais. Muito mais. “Antes do baile verde”, “Seminário dos ratos”, “A confissão de Leontina”, “A estrutura da bolha de sabão”. E muitos outros. Sem contar o consagrado romance “As meninas”. Quantas contradições em tempos de “guerra e de paz” tinham essas meninas. Lygia fala de outro menino, em um outro conto. Um triste conto de natal. De dor. De perversidade. O menino Alonso mora em um conto chamado “Biruta”.

Biruta era um cãozinho que morava na casa de dona Zulu, uma dura senhora, que adotara o menino Alonso. Resgatara-o de um asilo de crianças, levando-o para um suposto lar. Mas ordenava-lhe trabalho. Não lhe ofertava amor. Biruta era o companheiro, o irmão, a família toda. Biruta era sua pouca, mas intensa e verdadeira alegria.

O fato é que, enquanto Alonso era obrigado a reprimir sua meninice para não zangar dona Zulu, Biruta vivia intensamente a arte de ser “criança”. Aprontava poucas e boas, fazendo com que Alonso ora pagasse por isso, ora escondesse os estragos para que seu grande amigo não tivesse que ser castigado. Implorava o menino ao seu cãozinho: “Só dona Zulu não entende que você é que nem uma criancinha. Ah Biruta, Biruta, cresça logo, pelo amor de Deus! Cresça logo e fique um cachorro sossegado”. Dona Zulu não gostava de crianças. O que parecia caridade era, na verdade, a maldade de exploração do trabalho de uma criança, confinada nos cômodos de serviço da casa, tendo a garagem fria como quarto. Mas Alonso era feliz. Biruta era toda a sua felicidade. Mas dona Zulu não queria “crianças” na casa. 

Era dia de Natal. E deu-se o desencontro dos sentimentos humanos. Dona Zulu entra na cozinha, surpreendentemente gentil, e diz ao menino: “Vou numa festa onde tem um menininho assim do seu tamanho. Ele adora cachorros. Então me lembrei de levar o Biruta emprestado só por esta noite. O pequeno está doente, vai ficar radiante, o pobrezinho. Você empresta só por hoje, não empresta? O automóvel já está na porta. Ponha ele lá que já estamos de saída.” Alonso não conseguia conter a alegria. Pelo menos o Biruta iria a uma festa de Natal. Parecia impossível que dona Zulu pudesse ser ainda mais cruel. Mas foi. E deu fim ao único laço de amor de Alonso. Biruta não voltaria mais.

Ao saber da verdade por Leduína, a empregada da casa que demonstra, nesse momento, um sentimento de compaixão pelo garoto, Alonso “deixou cair os braços ao longo do corpo. E arrastando os pés, num andar de velho, foi saindo para o quintal. Dirigiu-se à garagem. A porta de ferro estava erguida. A luz fria do luar chegava até a borda do colchão desmantelado. Alonso travou os olhos brilhantes num pedaço de osso roído, meio encoberto sob um rasgão do lençol. Ajoelhou-se. Estendeu a mão tateante. Tirou de baixo do travesseio uma bola de borracha.

– Biruta – chamou baixinho – Biruta… – E desta vez só os lábios se moveram e não saiu som algum.

Muito tempo ele ficou ali ajoelhado, segurando a bola. Depois apertou-a fortemente contra o coração.

A genialidade de Lygia, ao mesclar as questões sociais e humanas, vai construindo no leitor um sentimento de cumplicidade com a condição da criança abandonada. Há um misto de verdade e inventividade construído na narrativa fantástica da escritora que leva o leitor a se perder na ficção para se encontrar no sofrimento do outro. Este, sim, com referente concreto na nossa sociedade. A inversão das expectativas de um menino que, no asilo, recebia presente no Natal e que, no novo lar, é maltratado constrange e provoca. Lygia confessa: “O meu objetivo é a condição humana. A condição humana me apaixona muito, então eu tento me desembrulhar, desembrulhando meu próximo. Nesse ato de me desembrulhar, faço do próximo meu cúmplice, meu parceiro. Tenho vontade de trazer este leitor até onde estou e na realidade nós somos parecidos, temos os medos, as esperanças.”

Lygia é genial, reiteradamente genial. A mestria de nossa escritora nos presenteia com sua arte, sempre e neste momento de encontro, com a cumplicidade, com o desejo de transformar o sofrimento do outro, provocando, em nós, a reflexão e a esperança. O que fez de dona Zulu uma mulher capaz de tamanha perversidade? Quem semeou nela sentimentos tão inferiores? Qual é a melhor semeadura que nos compete em mais este Natal? A literatura é a inspiração. A simplicidade de Alonso e a alegria de Biruta são bons companheiros. E ler Lygia é um presente que podemos dar a nós mesmos. Salve Lygia e a generosidade natalina.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/12/2014

Lançamento do livro “Cozinhando com poesia”

No dia 28 de novembro, na livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis, Gabriel Chalita e a chef Eliane Carvalho lançarão o livro “Cozinhando com Poesia”, editado pela Companhia Editora Nacional. Poemas e reflexões escritas por Chalita dialogam com quarenta e nove receitas de carnes, peixes, entradas e sobremesas, elaboradas por Eliane Carvalho e inspiradas na culinária francesa.

Noite de autógrafo com Gabriel Chalita e Eliane Carvalho

“Cozinhando com poesia”

28 de novembro, das 18h30 às 21h30

Livraria da Vila – Shopping Pátio Higienópolis (piso Pacaembu)

Av. Higienópolis, 618 

 

Família e educação são temas de lançamentos de Gabriel Chalita na Bienal do Livro de São Paulo

Convivência, vínculo, aprendizagem e relações. Assuntos recorrentes tanto no ambiente familiar como em salas de aula, entre pais e filhos ou entre professores e seus alunos, dão o tom para a série de lançamentos de Gabriel Chalita na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que chegam às livrarias pela Cortez Editora. 

Em “Famílias que educam”, o autor propõe uma reflexão acerca da importância da boa convivência em família, onde o diálogo, o respeito e a amabilidade possam dar lugar aos conflitos de gerações e à violência, seja ela verbal ou física. Um dos exemplos citados na obra é o caso de um dos maiores escritores do século XX, Franz Kafka (1883-1924). A falta de comunicação com seu pai, que não aprovava a vocação literária do filho, resultou em um medo escuso e infindável.

Incentivar as crianças a despertar a curiosidade e a imaginação é um dos caminhos que sempre devem ser considerados pelos mestres da educação. É o que defende Chalita em “Semeadores da esperança”. Dedicado aos eternos e universais educadores brasileiros, o livro aborda a construção da ética, os desafios do conhecimento e os medos e os sonhos contemporâneos de quem dedica a vida ao ensino.

Já em “A escola dos nossos sonhos”, Chalita faz um panorama sobre a transformação da prática pedagógica ao longo da história. O autor lança mão de sua experiência como Secretário da Educação do Estado de São Paulo (2002-2006) para traçar um comparativo entre os métodos educacionais dos tempos do teocentrismo medieval e do antropocentrismo renascentista e as configurações contemporâneas, com programas pedagógicos mais amplos e completos. 

A convivência é assunto que comumente causa discussão em diversas áreas da vida. E não é diferente nas relações entre docentes e alunos. Esta é a temática de “Aprendendo com aprendizes”, livro que completa a série de lançamentos de Gabriel Chalita. Compromisso, partilha, renúncia, diálogo, consenso e respeito mútuo são algumas das considerações apontadas pelo volume para que se estabeleça um ambiente escolar harmonioso. 

Lançamento dos livros: 

Dia: 30 de agosto

Horário: 14h30

Local: Estande da Cortez Editora, na Bienal do Livro de São Paulo 

 

Fonte: Assessoria de imprensa | Cortez Editora

Entre livros e sonhos

Escrever é um ofício que me realiza. Não consigo imaginar um mundo sem palavras. São elas que se lançam para dar significado ao que sentimos. Pontes encantadas. E, quando necessário, muros. Sem agressividade. Mas com palavras certas.

Poetizamos pela palavra. Criamos personagens, inventamos situações, tecemos argumentos pela palavra. Gosto de escrever. E escrevo como profissão de fé na pessoa humana. Reescrever dá um pouco mais de trabalho. As rasuras nos lembram de que vamos corrigindo. De que a palavra talvez possa ser outra. De que os tempos fugidios exigem novos olhares.

Revisei quatro livros que serão lançados na Bienal: “Famílias que educam”, “A escola dos nossos sonhos”, “Semeadores da esperança” e “Aprendendo com os aprendizes”. Já faz algum tempo que os escrevi. Tratam da minha outra paixão, além da escrita: o nobre exercício do educar. Os livros falam de família, de escola, de professores e de alunos. Dos espaços sagrados em que nos deparamos com o exercício diário da generosidade. A convivência ganha significado na troca. Aprendemos, ensinamos, tornamo-nos cúmplices da boa nova, que é a educação. Formamos para o hoje e para todos os outros dias. Com exemplos e com textos. Mas, acima de tudo, com a convicção de que o que fazemos tem uma razão de ser.

Na Bienal, muitas outras palavras estarão aguardando os visitantes. Conversas com autores, autógrafos. Aproveito para convidar todos os leitores deste jornal para o lançamento dos meus livros no sábado, dia 30 de agosto, às 14h30, no estande da Editora Cortez, e para se deixarem seduzir por este universo de letras, de palavras, de pessoas.

Ao terminar a revisão desses livros, fiquei refletindo sobre quantas revisões devemos fazer sobre nossas escolhas. Que bom que a vida nos dá outras oportunidades.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/08/2014

Gabriel Chalita participa do 16º Salão FNLIJ para crianças e jovens

O professor Gabriel Chalita conversou com educadores e estudantes no 16º Salão FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), no Rio de Janeiro. Em meio a histórias e à frequente interação com as crianças, Chalita ressaltou a importância da leitura para uma formação escolar sólida e para a vida: “É preciso recuperar o valor da contação de histórias. Dos encontros, como este em que estamos.” E, dirigindo-se aos educadores presentes, completou: “Acerta quem permanece com os bons sentimentos de uma criança. Que a inocência não nos abandone.” 

O salão FNLIJ do livro para crianças e jovens já se tornou parte do calendário cultural do Rio de Janeiro. Esse projeto proporciona um importante diálogo entre escritores, ilustradores, professores e crianças para promover a educação e incentivar a leitura no Brasil. Além de bate-papos, o Salão do Livro disponibiliza bibliotecas, promove um seminário e uma premiação aos melhores livros do ano, de acordo com o júri da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. 

Fonte: assessoria de imprensa (5/6/2014)

Nova edição do livro “Mulheres de água”

Ao contrário de muitos homens, sem paciência para refletir sobre as angústias e os anseios mais íntimos das mulheres, Gabriel Chalita é um desbravador do universo feminino. Prova disso é seu livro “Mulheres de água”, reeditado pela Editora Planeta com novas histórias acerca da alma feminina. 

Com influência de ícones femininos da literatura, como Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, o autor de “Mulheres de água” joga luz a todas as angústias, anseios e devaneios daquelas que um dia cruzaram a sua vida. Aquelas que, assim como a água e seus mais diferentes formatos e dimensões, moldam-se a cada instante: intensas e compassivas, assediadas e rejeitadas, amorosas e espinhentas.

Dentre as complexas situações vividas pelas personagens, há a tímida jovem que floresceu e encontrou seu grande amor; a rejeitada à procura por atenção; a velhota ansiosa para ser cortejada e desencalhar; a traída e a quase virgem; a mãe e seus instintos compulsivos em proteger a cria; a intolerante que implicava com tudo. É um penetrar sútil e sensível na complexa e fascinante alma das mulheres. 

Fonte: Assessoria de imprensa | 10/2/2014