“Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído, é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.” Rubem Alves
Tenho vivido experiências intensas de escuta e de aprendizado nas diversas regiões desta imensa cidade de São Paulo. Encontros com educadores, pais e alunos têm aumentado minha fome de trabalho pela educação. O carinho e a confiança dessa gente aumentam a responsabilidade e a necessidade de prosseguir com coragem e com muita humildade. Humildade de quem aprende com as palavras, com os gestos e com as emoções que têm tornado tão ricos esses momentos. Em um desses encontros com a rede, ao chegar ao CEU Vila Curuçá, um aluno, Nathan Viana, de 13 anos, quis ler um poema seu. Atentamente, eu o ouvi declamar:
A vida é como lugares,
E esses lugares têm que ser bem utilizados.
O primeiro lugar é um jardim
Um jardim bem florido
Quem não aproveitou, errou.
O segundo é um túnel com dois caminhos
Certo e errado, muita gente seguiu o errado
Agora está soterrado.
O terceiro não tem jardim nem túnel
Ele é só trabalho, só trabalho…
Ele é o lugar para ver se você aproveitou os outros lugares.
E o quarto lugar é outro jardim,
Mas é de orquídeas que quando são tocadas fortemente
Suas pétalas caem,
Mas quando são tocadas suavemente se sentem emocionadas.
Devemos respeitar esses lugares e cuidar deles,
Porque eles são a nossa vida.
Deu-me o livro de presente, coordenado por duas educadoras, Maria Gorete Cordeiro e Rosmari Pereira de Oliveira. Li vários outros poemas nascidos, certamente, de várias outras experiências de vida. E alimentei-me de esperança. Saraus literários, contação de histórias, violeiros que iluminam as palavras com suas canções. Projetos nascidos da inspiração de professores, bibliotecários, alunos.
Olhei para o Nathan, tão menino e tão cheio de familiaridade com as palavras. Um jardim florido na infância de todos nós, celeiro dos frutos que daremos, dos fluxos que haveremos de viver. Fala o pequeno poeta em escolhas erradas, em trabalho, em suavidade.
Vi-me, ali, na minha infância, quando comecei a escrever. E, em pensamento, fui conduzido pelos versos do Príncipe dos Poetas, Paulo Bomfim.
EU SOU AQUELE MENINO
Eu sou aquele menino
Que o tempo foi devorando,
Travessura entardecida,
Pés inquietos silenciando
Na rotina dos sapatos,
Mãos afagando lembranças,
Olhos fitos no horizonte
À espera de outras manhãs
(…)
Que varandas me convidam
A ser criança de novo,
Que mulheres, só meninas,
Me tentam cabular
As aulas do dia a dia?
Eu sou aquele menino
Que cresceu por distração.
Nesses encontros, contemplo os talentos que se revelam e me preocupo em abrir as cortinas do palco da vida para que cada um desempenhe o seu papel. Que se tornem protagonistas da própria história, com um repertório ampliado que lhes possibilite escolher, com uma postura ética, que os ajude a perceber que conviver com respeito é o melhor caminho para a construção de uma sociedade de paz.
Há muitos que ainda estão à margem. Há muitos que padecem da ausência de afetos dentro das próprias casas. Há muitos que engatinham sem perspectivas de levantar porque lhes falta a mão necessária. O amanhã depende do hoje, dos alicerces que estamos levantando. É a educação a política pública garantidora das demais. Todo esforço é essencial para não deixar ninguém para trás.
Agradeço aos educadores e aos alunos desta rede imensa pela valentia de persistir, de realizar e de sonhar. E pelos jardins que plantam em minha alma.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/03/2015

“São glórias desta cidade
“Alguma coisa acontece no meu coração” (Sampa, Caetano Veloso)
José Maria Ferreira Brandão foi marceneiro, seleiro, barbeiro e delegado de polícia. Foi, também, avô de um dos maiores nomes da literatura contemporânea, Ignácio de Loyola Brandão.
Compaixão é ter a capacidade de se colocar no lugar do outro e de sentir a sua paixão, a sua dor. É compreender o estado emocional daquele que padece e, em outras palavras, enxergá-lo.
Lygia Fagundes Telles é, certamente, a grande dama da nossa literatura. Obras memoráveis fizeram-na uma das maiores contistas de todos os tempos. “Venha ver o pôr do sol” é uma aula de estranhamentos, ciúmes, loucura, morte; “O moço do saxofone” traz, com riqueza de detalhes, os cortiços da alma, as aceitações obrigadas de um amor injustificado. Há mais. Muito mais. “Antes do baile verde”, “Seminário dos ratos”, “A confissão de Leontina”, “A estrutura da bolha de sabão”. E muitos outros. Sem contar o consagrado romance “As meninas”. Quantas contradições em tempos de “guerra e de paz” tinham essas meninas. Lygia fala de outro menino, em um outro conto. Um triste conto de natal. De dor. De perversidade. O menino Alonso mora em um conto chamado “Biruta”.
Nosso poeta Manoel de Barros voou. Estamos comovidos, em silêncio, buscando ouvir o último ruflar de suas asas. Nosso poeta desejou tanto usar “palavras de ave para escrever”; mas cometeu muito mais do que isso: suas palavras se fizeram asas para além do voo. E permanecem no ar, ora soltas, ora em frases, desafiando-nos a capturá-las. O poeta, que nasceu menino, partiu menino. Fez de sua maturidade a sua segunda infância; uma vida em poesia. Fez de sua arte um brinquedo. Despojado de regras e convenções, desconstruiu a linguagem, poetizou a natureza e o mundo, vestiu de singeleza as palavras. Fez da vida sua arte de simplicidade. Dizia que sua poesia era difícil de ser compreendida, embora fosse feita com palavras simples. Muitos não entendiam essa declaração. Mas é preciso fazer-se criança para compreender. Admirar-se. Encantar-se. Desinventar-se.
Fui convidado para dar uma palestra na Feira de Frankfurt, a maior feira literária do mundo. Foram convidados pelos organizadores da Feira, apenas três brasileiros: Paulo Coelho, Walcyr Carrasco e eu.
A Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, é o maior evento literário do mundo. Todo ano, milhares de livreiros, editores, autores e leitores movimentam o universo da leitura e fomentam o diálogo cultural entre os países durante o encontro. Na edição deste ano, o professor Gabriel Chalita, membro da Academia Paulista de Letras, além de participar de apresentações culturais intermediadas pelos organizadores da Feira, ministrou uma palestra sobre “A semiótica na educação e o desafio da formação de novos leitores”. Inicialmente, Chalita destacou três elementos essenciais para que se alcance uma educação de excelência: a valorização do professor, o engajamento familiar na escola e a melhoria do currículo escolar.