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O jardim da infância, o palco da vida

“Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído, é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.” Rubem Alves

Tenho vivido experiências intensas de escuta e de aprendizado nas diversas regiões desta imensa cidade de São Paulo. Encontros com educadores, pais e alunos têm aumentado minha fome de trabalho pela educação. O carinho e a confiança dessa gente aumentam a responsabilidade e a necessidade de prosseguir com coragem e com muita humildade. Humildade de quem aprende com as palavras, com os gestos e com as emoções que têm tornado tão ricos esses momentos. Em um desses encontros com a rede, ao chegar ao CEU Vila Curuçá, um aluno, Nathan Viana, de 13 anos, quis ler um poema seu. Atentamente, eu o ouvi declamar: 

A vida é como lugares,

E esses lugares têm que ser bem utilizados.

 

O primeiro lugar é um jardim

Um jardim bem florido

Quem não aproveitou, errou.

 

O segundo é um túnel com dois caminhos

Certo e errado, muita gente seguiu o errado

Agora está soterrado.

 

O terceiro não tem jardim nem túnel

Ele é só trabalho, só trabalho…

Ele é o lugar para ver se você aproveitou os outros lugares.

 

E o quarto lugar é outro jardim,

Mas é de orquídeas que quando são tocadas fortemente

Suas pétalas caem,

Mas quando são tocadas suavemente se sentem emocionadas.

 

Devemos respeitar esses lugares e cuidar deles,

Porque eles são a nossa vida.

Deu-me o livro de presente, coordenado por duas educadoras, Maria Gorete Cordeiro e Rosmari Pereira de Oliveira. Li vários outros poemas nascidos, certamente, de várias outras experiências de vida. E alimentei-me de esperança. Saraus literários, contação de histórias, violeiros que iluminam as palavras com suas canções. Projetos nascidos da inspiração de professores, bibliotecários, alunos.

Olhei para o Nathan, tão menino e tão cheio de familiaridade com as palavras. Um jardim florido na infância de todos nós, celeiro dos frutos que daremos, dos fluxos que haveremos de viver. Fala o pequeno poeta em escolhas erradas, em trabalho, em suavidade.

Vi-me, ali, na minha infância, quando comecei a escrever. E, em pensamento, fui conduzido pelos versos do Príncipe dos Poetas, Paulo Bomfim. 

EU SOU AQUELE MENINO

Eu sou aquele menino

Que o tempo foi devorando,

Travessura entardecida,

Pés inquietos silenciando

Na rotina dos sapatos,

Mãos afagando lembranças,

Olhos fitos no horizonte

À espera de outras manhãs

(…)

Que varandas me convidam

A ser criança de novo,

Que mulheres, só meninas,

Me tentam cabular

As aulas do dia a dia?

Eu sou aquele menino

Que cresceu por distração.

Nesses encontros, contemplo os talentos que se revelam e me preocupo em abrir as cortinas do palco da vida  para que cada um desempenhe o seu papel. Que se tornem protagonistas da própria história, com um repertório ampliado que lhes possibilite escolher, com uma postura ética, que os ajude a perceber que conviver com respeito é o melhor caminho para a construção de uma sociedade de paz.

Há muitos que ainda estão à margem. Há muitos que padecem da ausência de afetos dentro das próprias casas. Há muitos que engatinham sem perspectivas de levantar porque lhes falta a mão necessária. O amanhã depende do hoje, dos alicerces que estamos levantando. É a educação a política pública garantidora das demais. Todo esforço é essencial para não deixar ninguém para trás. 

Agradeço aos educadores e aos alunos desta rede imensa pela valentia de persistir, de realizar e de sonhar. E pelos jardins que plantam em minha alma.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/03/2015 

Ode a Mário de Andrade

“São glórias desta cidade

Ver a arte contando história…” (Mário de Andrade)

Sem a beleza da senhora Palavra, as tardes de quinta-feira não seriam tão generosas comigo. Há uma década, tenho a honra de desfrutar, na Academia Paulista de Letras, espetáculos grandiosos de sabedoria. No tradicional encontro dos Acadêmicos, a prosa faz reverências às nossas origens com reflexões que resgatam o sentido primeiro das palavras, as vozes poetizam as verdades, as memórias são desveladas, ora com dor ora com amor, e a sabedoria faz-se dona dos momentos de leveza. Das horas de descuido, como diria Guimarães Rosa. Enlevo-me. Admiro. Aprendo. Ensino. A Academia vive, e seus moradores são artífices engenhosos e brilhantes de sua majestade, a Palavra. Representantes das Letras. Gigantes da generosidade. 

Neste enredo, como uma grande família, em nossa casa do Largo do Arouche, respiramos diversidade e convergência. Em cada cadeira que ocupamos, resgata-se uma história eternizada por enlaces culturais. Das diferenças, nasce o aprendizado. Aquele que permanece em nosso olhar. Filho mais novo, sinto-me privilegiado por renascer nessa fonte. Tão fecunda. E desafiado na função de gerenciar os sonhos dessa família. Ilustre. Digna. Amorosa.

Inicio essa jornada como presidente da Academia Paulista de Letras como intuito de multiplicar o que resgatamos desse convívio. Abrir as portas da Academia, do espaço que herdamos dos antigos confrades, das histórias vistas e vividas ali, tesouros à espera de curiosidades. A Academia dos paulistas, de todos os paulistas, inaugura o novo ano, em prosa e em poesia, para que todos possam vivenciar o que, há mais de 100 anos, nós, Acadêmicos, compartilhamos: cultura, conhecimento, amizade, encantamento. 

2015, um ano em homenagem a Mário de Andrade

Na próxima quinta-feira, dia 05 de fevereiro, inauguraremos o Ano Literário 2015. Para esse encontro, convidaremos para a prosa o Acadêmico Mário de Andrade e sua eterna vanguarda. Mário, nosso confrade, deixou-nos há 70 anos, mas a audácia e o espírito renovador de sua arte permanecem em seus livros, em sua história, em sua vida. Vida que Mário amava viver, conforme confessou a Drummond, “Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente.” 

Mário que já havia se imortalizado nas linhas das Pauliceias Desvairadas e nas geniais desventuras de Macunaíma passou a ocupar a cadeira no3 da Academia Paulista de Letras, em 1934. São inúmeros os artigos, nas edições da “Revista da Academia Paulista de Letras”, que delineiam as características desse homem audacioso, artista de muitas artes. Em uma dessas páginas, sua pluralidade. Em uma carta escrita em 1944, Mário revela ao confrade René Thiollier:” (…) você deve estar lembrado que já uma vez eu quis me retirar da Academia por me reconhecer incapaz dela. Eu não tomo posse. Por que não tomo? Porque não tomo. Não tenho jeito, sou infenso a academias, e cada vez estou mais bicho do mato, malcriado, aceitando mil convites e faltando a todos. Eu gosto da “nossa” Academia, isso gosto. Mas sou assim, me xingo, mas fico assim.” 

É esse nosso Mário de Andrade. Homem de genialidades, que ousa imaginar-se incapaz de ser acadêmico. Que rompe barreiras narrativas e lexicais. Que norteia, ainda, os que vivem da literatura. Professor a que tantos de nossos escritores submetiam seus fazeres literários: “É preciso colocar responsabilidade humana nos escritos”, alertava. Coerente na irreverência. O paulista e paulistano que distribuiu, em vida e em versos, partes de seu corpo a cada canto desta imensa e arlequinal cidade. São Paulo, comoção de sua vida. É esse Mário que estará presente em nossos encontros. Nos encontros dos Acadêmicos e nos encontros que a “casa” dos paulistas no Largo do Arouche, proporcionará a todos que se alimentam de cultura. Sigamos com seu espírito, Mário. Contestador. Transgressor do trânsito pacífico das artes. Das letras. Da vida. 

 

”Minha casa…

Tudo caiado de novo!

É tão grande a manhã!

É tão bom respirar!

É tão gostoso gostar da vida!…”

(Mário de Andrade)

 

Academia Paulista de Letras

Largo do Arouche, 312/ 324

República, São Paulo

Telefone: 3331.7222

www.academiapaulistadeletras.org.br

 

Principais obras de Mário de Andrade

Pauliceia Desvairada

Lira Paulistana

Amar, Verbo Intransitivo

Macunaíma

Contos Novos

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | 01/02/2015 | Foto: Jorge de Castro (divulgação)

São Paulo em palavra, em poesia

“Alguma coisa acontece no meu coração” (Sampa, Caetano Veloso)

Adoniran Barbosa, “dá licença de contá” a sua São Paulo. A nossa São Paulo. A cidade que há 461 anos, numa colina entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, nasceu para ensinar. Antes de ser cidade, São Paulo foi escola. E continua sendo. Não sobrevivemos ilesos aos seus paradoxos, tão cristalizados e dolorosos. Crescemos com eles. São José de Anchieta versificou as marcas de algumas de nossas injustiças em seu nascedouro. As mesmas que, tanto tempo depois, sobrevivem nos livros e nas ruas de Ferréz e seu Capão Redondo, “Capão pecado”.

Ah! São Paulo que desperta paixões. De poesia e poeira. De rimas e desencontros. A “São, São Paulo”, de Tom Zé. A cidade que vem “morrendo a todo vapor” em abismos culturais, econômicos, sociais. Em abismos viscerais. Palco das “Diretas Já” e de tantos desalentos. Da Semana de Arte Moderna e das crianças abandonadas à sorte. Mário de Andrade, escritor que protagonizou o movimento modernista, declara, em diversos fragmentos de sua obra, seu fascínio pela “Pauliceia desvairada”. Cidade colcha de retalhos. Que desperta risos e lágrimas. “Arlequinal”. Mas, em seu “Prefácio Interessantíssimo”, Mário adverte-nos: “versos não se escrevem para leitura de olhos mudos”. Cada nuance de sua musa inspiradora, a cidade de São Paulo, é revelada no dito e no não-dito de sua obra. E sua poesia lapida nosso olhar. Nas ruas e nos livros.

Ah! São Paulo, comoção da vida de Mário de Andrade, comove também o príncipe dos poetas, Paulo Bomfim, que declara: “Pelo crime de seres boa, pelo pecado de tua grandeza, pela loucura de teu progresso, pela chama de tua história – eu te amo, São Paulo!”. Novamente, a dualidade. O sentimento dual é reiteradamente (e encantadoramente) declarado por escritores, músicos e por todos nós que descortinamos sua verdade. Moramos em São Paulo e ela mora dentro de nós. Como canta Tom Zé, “com todo defeito/ Te carrego no meu peito/ São, São Paulo/ Meu amor”.

Fomos forjados pelo sangue de trabalhadores que não temeram nem a garoa nem o futuro. Acolhemos imigrantes, como retrata Alcântara Machado em “Brás, Bexiga e Barra Funda”; e por vezes, nos distanciamos de nós mesmos. São Paulo, uma cidade que não rejeita ninguém. Nesse barro, fomos criados. Com trabalho e lirismo; acolhimento e coragem. Em São Paulo, encontramos os becos do Brasil e as marcas mais valiosas de Milão. A São Paulo que puxa o “r” para explicar o “porquê” de tudo fala também todas as línguas. Aqui, vive um mundo. Pelo caminho, encontram-se os contrastes que compõem o nosso mosaico cotidiano. As histórias que vivem rentes à nossa pele. Como a de Carolina Maria de Jesus. Ela era negra, pobre, mãe solteira, catadora de papel e foi muito discriminada até descobrirem sua palavra, sua confidência. Sua história de vida sai da extinta favela do Canindé, “o quarto de despejo da cidade,” e chega às bibliotecas e estantes de vários países no livro “Quartos de despejo”. Seu calvário, igual ao de tantos outros. 

As astúcias poéticas que permeiam a história de nossa cidade e que cantam os versos do nosso dia a dia são inúmeras. São mais de 10 milhões de histórias que pulsam com encantamento e dor. A São Paulo de Adoniran, São José de Anchieta, Ferréz, Tom Zé, Mário de Andrade, Paulo Bomfim, Alcântara Machado e Carolina Maria de Jesus é tão minha quanto sua. É dos paulistas e de todo o mundo. Parabéns, São Paulo. 461 anos da capital da esperança.

 

Livros e músicas

“Sampa”, de Caetano Veloso

“Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa

“São, São Paulo”, de Tom Zé

“Capão pecado”, de Ferréz

“Pauliceia Desvairada”, Mário de Andrade

“Insólita metrópole”, de Paulo Bomfim 

“Brás, Bexiga e Barra Funda”, de Alcântara Machado

“Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus

 

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/01/2015

 

Ignácio de Loyola Brandão – o interior e seu menino

José Maria Ferreira Brandão foi marceneiro, seleiro, barbeiro e delegado de polícia. Foi, também, avô de um dos maiores nomes da literatura contemporânea, Ignácio de Loyola Brandão. 

Com mais de 40 livros publicados em diversas línguas, Ignácio, saído de sua querida Araraquara, ganhou o mundo. Morou fora do Brasil. E viaja muito. Vive de cidade em cidade cumprindo sua agenda com a palavra. Onde quer que esteja, leva consigo sua história. E ela começa em um lugar de onde ele nunca saiu. De um lugar que vive no tempo. Nas rodas de cadeira e de conversa que se espalhavam pelas calçadas. No cheiro do café e do bolo que se misturava às aventuras da infância na sua terra natal. Época em que via caminhão, casas e chafariz nos pedaços de madeira do barracão do avô, o José de tantos talentos. Pai de seu pai. 

Nesse “lugar mágico que cheirava a madeira”, havia de tudo. Lixas, porcas, lápis quadrado vermelho de marceneiro, alicates, limas, verniz. E lá no fundo, uma caixa vermelha. Vermelha, empoeirada. Coberta pela fuligem e repleta de memórias. Tantas e tão importantes que ninguém podia chegar perto. E isso era o bastante para despertar a curiosidade das crianças. Principalmente a do menino Ignácio, o preferido de seu avô. Em uma manhã, o velho José entrou na oficina, pegou a chave, abriu a caixa vermelha e gritou. A caixa estava vazia. Alguém a abrira e retirara de dentro “os olhos cegos dos cavalos loucos”, os olhos de vidro dos cavalos do carrossel. Um carrossel de madeira que girava pelas cidades e que trouxera alegria à vida de seu José. Das lembranças dos melhores anos vividos pelo avô, sobrara o que estava naquela caixa. Agora, só memórias. Agora, as majestosas memórias. E a vida toda para recordá-las. Memórias registradas nas histórias que Ignácio de Loyola Brandão, o menino e o escritor, compartilha conosco em seu novo livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos” (Moderna, 2014) e em tantos outros. 

O menino e seu interior

A infância é um terreno sempre fértil. Vive para sempre em nossa maneira de ver o mundo.  Em nosso olhar curioso de criança que quer sempre mais do mundo e dos homens. Passa o tempo, mas não se perde o que passou. São as memórias que nos mantêm vivas as sensações, as emoções e aqueles que se vão, sem nunca nos deixar. 

O menino Ignácio perdeu, em um jogo com os amigos, as bolinhas brancas, os olhos dos cavalos do carrossel. Entristeceu seu avô. Mas Ignácio, o escritor, publicou, neste livro, seu pedido de desculpas ao velho José. Mostrou o seu menino. A sua infância. O seu interior. Mundo de menino vivido e revivido pelo homem Ignácio, menino que nasceu com nome de santo.  Santificou e santifica a sua vida rendendo homenagens à sua excelência, como gostava de dizer Tatiana Belinky, a palavra. Sua prosa encanta crianças e adultos. Seu humor tributa a vida. E tudo nasceu no interior. No circo, na cerca, na roda de conversa.  “Do circo de cavalinhos de pau sobraram os olhos. E agora os olhos se foram. Se foram como todos nós vamos.” As memórias ficam. Do avô. De Ignácio. De todos nós.

 

Principais obras de Ignácio de Loyola Brandão

Bebel que a cidade comeu 

Zero 

Dentes ao sol 

Não verás país nenhum 

O verde violentou o muro

O beijo não vem pela boca 

O homem que odiava a segunda-feira

O anônimo célebre 

Veia bailarina

O menino que vendia palavras

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/01/2015 | Foto: André Brandão (divulgação)

 

Compaixão e generosidade, da literatura para a vida

Compaixão é ter a capacidade de se colocar no lugar do outro e de sentir a sua paixão, a sua dor. É compreender o estado emocional daquele que padece e, em outras palavras, enxergá-lo.

A generosidade é a virtude de acrescentar algo ao outro, de partilhar, de deixar um pouco de si para preencher o que falta na outra pessoa. São complementares. Filhas do amor. Irmãs da bondade. A literatura é rica em personagens que nos desconcertam pelo onírico concerto de afinar o mundo.

Um dos meus livros preferidos da literatura universal é “Os miseráveis”, de Victor Hugo. Uma obra recheada do melhor fermento de sonhos e canções de vida em um mundo destroçado por guerras, autoritarismos e violência.

A obra, composta de cinco volumes, foi publicada quando Victor Hugo tinha 60 anos, mas o fio da narrativa começa a germinar quando, aos 22 anos, o jovem escritor se incomoda com a situação dos prisioneiros da colônia penal de Toulon, de onde saíam os remadores para os trabalhos forçados nas galés, onde remavam com os pés atados em correntes. Tristes cenas. Restos humanos lambuzados de humilhações e dor.  

O tema social, a miséria dos excluídos, marcou a trajetória política e literária de Victor Hugo. Charles Dickens já havia mostrado uma Inglaterra diferente das cortes. Sua denúncia chegava aos que viviam invisivelmente nos submundos de Londres. 

Victor Hugo faz o mesmo em “Os miseráveis”. Dramas chocantes de mulheres e homens alijados de bens materiais e de amparos humanos.

A personagem central é Jean Valjean, órfão de pai e de mãe, que foi criado por uma irmã mais velha que tinha sete filhos. Quando ela enviuvou, o menino Jean passa a ser o homem da casa. Em um dia, desesperado, sem ter dinheiro para comprar pão para a irmã e para os seus filhos, Jean furta um pão, o que lhe rende dezenove anos de prisão (cinco pelo pão e quatorze por tentar fugir). Jean passa sua juventude na prisão.

Quando, enfim, deixa o cárcere, perambula por vilarejos em busca de trabalho. É humilhado e temido por ser considerado um bandido perigoso. As portas se fecham na frieza de uma sociedade que não tolera erros alheios, embora seja farta de erros próprios, escondidos. Na sarjeta do abandono, um homem o acolhe, o Monsenhor Bienvenu (que significa bem-vindo). Ele o retira das ruas e o traz para casa para que tenha uma refeição decente e uma cama limpa para dormir. Jean come como um bicho esfomeado e fica arredio. Não acredita que alguém pudesse ser, com ele, generoso. Compaixão, ele certamente só conhecera nos idos da infância quando a irmã o acolhera.

Durante a noite, resolve furtar o Monsenhor. Recolhe o que estava à vista e sai pelas ruas frias de uma noite angustiante. É preso e os soldados o trazem para a casa do Monsenhor para que devolva o que ele furtou. Jean sabia que ficaria o resto da sua vida na prisão. Seria agora um reincidente. Se já era considerado um homem perigoso por ter furtado um pão para alimentar os sobrinhos, imagine agora que teve a ousadia de furtar um homem que lhe dera abrigo, que lhe dera alimento e conforto. Um homem importante. 

Jean está apavorado, amarrado, humilhado pelos guardas quando chega a casa do Monsenhor. Percebendo a situação, o Monsenhor agradece o trabalho dos guardas, mas diz que a prataria que o homem carregava não fora objeto de furto, mas de um presente que ele havia lhe dado. Jean arregala os olhos, desconcertado com a bondade do Monsenhor que pega mais algumas peças que, supostamente, Jean havia “esquecido”. “Use a prata para se tornar um homem honesto”, foi o que Jean Valjean ouviu daquele homem e o que remoeu para sempre em sua consciência.

Aqui, nesse ato de compaixão, dá-se a transformação de muitas vidas. A de Jean Valjan e a de todos os que, posteriormente, foram abraçados por sua generosidade. 

 

Da compaixão, nasce uma nova história

 

A compaixão é um sentimento essencial da convivência. Olhos de ver. Paciência. Tempo de silêncio para que a voz do outro tenha alguém onde depositar sua necessidade. Tempo de fala para que o silêncio do outro não se transforme em solidão. Presença que ameniza ausências. É como estar no deserto da dor e ver surgir o cortejo da esperança.  

Foi assim que floresceu um novo homem. Quem é Jean Valjan? Depois de conhecer o Monsenhor, é um homem sempre pronto para revelar a nobreza dos sentimentos.

Há muitas outras personagens e tramas nesse enredo fantástico de Victor Hugo. E a generosidade de Jean permeia todos os núcleos dessa narrativa. Há uma mãe solteira, Fantine, que fora abandonada pelo homem que tanto amou e que confia a criação de sua filha a um casal que, aparentemente, proporcionaria mais conforto em sua criação. Ela trabalha para pagar esse casal. Para que cuidem bem de sua filha. Somente para isso. Imaginem o que era ser mãe solteira naquela época. A filha, Cosette, na verdade, vive frágil e assustada, porque é maltratada.  Mesmo assim, canta ela a canção da esperança. Quando Fantine morre, Cosette é criada por Jean Valjan até se casar com o idealista Marius Pontmercy, um jovem que sobrevive ao sonho e à utopia de destronar o rei. Aliás, a narrativa de “Os miseráveis” ocorre entre dois episódios históricos: a batalha de Waterloo e os motins de junho de 1832, em que jovens morreram sonhando com um mundo sem privilégios nem preconceitos.

A obra é extensa, mas há um filme recente, de 2012, dirigido por Tom Hooper, que é fiel a essa linda história. Um elenco de peso com atuação irretocável: Hugh Jackman, Russell Crowe, Amanda Seyfried, Samantha Barks, Anne Hathaway, Eddie Redmayne, entre outros. 

Outros filmes e peças de teatro no mundo inteiro mostraram a ousadia de Victor Hugo em revelar a miséria humana, o abandono, a saga dos invisíveis e, mesmo assim, alimentar-nos de esperança. No final, a canção de uma vitória que não cabe nesse mundo. 

Jean Valjan aprende com o lindo gesto do Monsenhor e transforma sua vida em uma vida capaz de cuidar de outras vidas. Até mesmo diante de seu maior perseguidor, o inspetor Javert, consegue ser generoso, compreende as amarras que o impedem de entender o verdadeiro sentido da justiça. Javert se desconcerta frente ao olhar compassivo do homem que ele perseguiu a vida toda. “Ninguém pode ser tão bom quanto Jean Valjan”, rumina ele. Pode sim, especialmente se tiver em seu caminho um Monsenhor Bienvenu.

Bem-vindas a compaixão e a generosidade neste início de mais um ano. Incomodemo-nos com o aprendizado que a literatura nos proporciona. E que mais livros nos aqueçam e ampliem o nosso repertório e a nossa capacidade de contemplar e de transformar o mundo. Feliz 2015.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/01/2015

 

Lygia e a generosidade natalina

Lygia Fagundes Telles é, certamente, a grande dama da nossa literatura. Obras memoráveis fizeram-na uma das maiores contistas de todos os tempos. “Venha ver o pôr do sol” é uma aula de estranhamentos, ciúmes, loucura, morte; “O moço do saxofone” traz, com riqueza de detalhes, os cortiços da alma, as aceitações obrigadas de um amor injustificado. Há mais. Muito mais. “Antes do baile verde”, “Seminário dos ratos”, “A confissão de Leontina”, “A estrutura da bolha de sabão”. E muitos outros. Sem contar o consagrado romance “As meninas”. Quantas contradições em tempos de “guerra e de paz” tinham essas meninas. Lygia fala de outro menino, em um outro conto. Um triste conto de natal. De dor. De perversidade. O menino Alonso mora em um conto chamado “Biruta”.

Biruta era um cãozinho que morava na casa de dona Zulu, uma dura senhora, que adotara o menino Alonso. Resgatara-o de um asilo de crianças, levando-o para um suposto lar. Mas ordenava-lhe trabalho. Não lhe ofertava amor. Biruta era o companheiro, o irmão, a família toda. Biruta era sua pouca, mas intensa e verdadeira alegria.

O fato é que, enquanto Alonso era obrigado a reprimir sua meninice para não zangar dona Zulu, Biruta vivia intensamente a arte de ser “criança”. Aprontava poucas e boas, fazendo com que Alonso ora pagasse por isso, ora escondesse os estragos para que seu grande amigo não tivesse que ser castigado. Implorava o menino ao seu cãozinho: “Só dona Zulu não entende que você é que nem uma criancinha. Ah Biruta, Biruta, cresça logo, pelo amor de Deus! Cresça logo e fique um cachorro sossegado”. Dona Zulu não gostava de crianças. O que parecia caridade era, na verdade, a maldade de exploração do trabalho de uma criança, confinada nos cômodos de serviço da casa, tendo a garagem fria como quarto. Mas Alonso era feliz. Biruta era toda a sua felicidade. Mas dona Zulu não queria “crianças” na casa. 

Era dia de Natal. E deu-se o desencontro dos sentimentos humanos. Dona Zulu entra na cozinha, surpreendentemente gentil, e diz ao menino: “Vou numa festa onde tem um menininho assim do seu tamanho. Ele adora cachorros. Então me lembrei de levar o Biruta emprestado só por esta noite. O pequeno está doente, vai ficar radiante, o pobrezinho. Você empresta só por hoje, não empresta? O automóvel já está na porta. Ponha ele lá que já estamos de saída.” Alonso não conseguia conter a alegria. Pelo menos o Biruta iria a uma festa de Natal. Parecia impossível que dona Zulu pudesse ser ainda mais cruel. Mas foi. E deu fim ao único laço de amor de Alonso. Biruta não voltaria mais.

Ao saber da verdade por Leduína, a empregada da casa que demonstra, nesse momento, um sentimento de compaixão pelo garoto, Alonso “deixou cair os braços ao longo do corpo. E arrastando os pés, num andar de velho, foi saindo para o quintal. Dirigiu-se à garagem. A porta de ferro estava erguida. A luz fria do luar chegava até a borda do colchão desmantelado. Alonso travou os olhos brilhantes num pedaço de osso roído, meio encoberto sob um rasgão do lençol. Ajoelhou-se. Estendeu a mão tateante. Tirou de baixo do travesseio uma bola de borracha.

– Biruta – chamou baixinho – Biruta… – E desta vez só os lábios se moveram e não saiu som algum.

Muito tempo ele ficou ali ajoelhado, segurando a bola. Depois apertou-a fortemente contra o coração.

A genialidade de Lygia, ao mesclar as questões sociais e humanas, vai construindo no leitor um sentimento de cumplicidade com a condição da criança abandonada. Há um misto de verdade e inventividade construído na narrativa fantástica da escritora que leva o leitor a se perder na ficção para se encontrar no sofrimento do outro. Este, sim, com referente concreto na nossa sociedade. A inversão das expectativas de um menino que, no asilo, recebia presente no Natal e que, no novo lar, é maltratado constrange e provoca. Lygia confessa: “O meu objetivo é a condição humana. A condição humana me apaixona muito, então eu tento me desembrulhar, desembrulhando meu próximo. Nesse ato de me desembrulhar, faço do próximo meu cúmplice, meu parceiro. Tenho vontade de trazer este leitor até onde estou e na realidade nós somos parecidos, temos os medos, as esperanças.”

Lygia é genial, reiteradamente genial. A mestria de nossa escritora nos presenteia com sua arte, sempre e neste momento de encontro, com a cumplicidade, com o desejo de transformar o sofrimento do outro, provocando, em nós, a reflexão e a esperança. O que fez de dona Zulu uma mulher capaz de tamanha perversidade? Quem semeou nela sentimentos tão inferiores? Qual é a melhor semeadura que nos compete em mais este Natal? A literatura é a inspiração. A simplicidade de Alonso e a alegria de Biruta são bons companheiros. E ler Lygia é um presente que podemos dar a nós mesmos. Salve Lygia e a generosidade natalina.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/12/2014

O último voo do poeta

Nosso poeta Manoel de Barros voou. Estamos comovidos, em silêncio, buscando ouvir o último ruflar de suas asas. Nosso poeta desejou tanto usar “palavras de ave para escrever”; mas cometeu muito mais do que isso: suas palavras se fizeram asas para além do voo. E permanecem no ar, ora soltas, ora em frases, desafiando-nos a capturá-las. O poeta, que nasceu menino, partiu menino. Fez de sua maturidade a sua segunda infância; uma vida em poesia. Fez de sua arte um brinquedo. Despojado de regras e convenções, desconstruiu a linguagem, poetizou a natureza e o mundo, vestiu de singeleza as palavras. Fez da vida sua arte de simplicidade. Dizia que sua poesia era difícil de ser compreendida, embora fosse feita com palavras simples. Muitos não entendiam essa declaração. Mas é preciso fazer-se criança para compreender. Admirar-se. Encantar-se. Desinventar-se. 

Manoel de Barros nasceu às margens de um rio, cresceu menino do mato e amigo do silêncio. A palavra sempre foi seu jogo predileto. Durante a semana, a escola ocupava seu tempo, mas, nos fins de semana, eram os jogos de futebol e os livros do padre Antônio Vieira que o envolviam. Mas antes de testar em versos os “seus deslimites”, estudou Direito, formou-se e passou por uma dezena de empregos. Não via prazer em nada daquilo. Queria mesmo era “usar palavras de ave para escrever”. Ter liberdade para redescobrir a vida em versos. A vida de amor ao lado de dona Stella, sua doce e cuidadosa ‘Dona Pássara’. Quando se conheceram, há mais de 60 anos, Manoel era vendedor de imóveis. Stella estava decidida a não se casar. Procurava um lugar para morar sozinha. Manoel, em vez de encontrar um apartamento para ela, abriu as portas de uma vida a dois. Foram para o Pantanal. Cultivaram a terra e seus frutos. Um deles, o tempo para a literatura. Manoel passava os dias em seu escritório. No seu “lugar de ser inútil”, como gostava de dizer. O desabrochar de seus poemas se dava nos blocos de papel que ele mesmo fazia. Passava horas para desenhar um verso. A lápis. Livre de qualquer paradigma. E, assim, voava observando pedras, sapos, galinhas e amanheceres. Coisas “desimportantes”, segundo ele.

Manoel de Barros colhia na natureza a singeleza da vida e a beleza de seus poemas. Desejava que um “passarinho escolhesse a sua voz para seus (meus) cantos”. Acreditava que “falar a partir de ninguém faz comunhão com as árvores/ Faz comunhão com as aves/ Faz comunhão com as chuvas (…)”. Ele olhava para o que poucos percebem. E assim aumentava o mundo e sua singeleza. Em seus versos, as coisas, a natureza e os homens se misturam em uma sinestesia de cores com cheiros, de olhares que falam. Depois de seus poemas, somos outros, alargamo-nos. Entramos riacho e saímos rio. Sua arte muda nosso jeito de ver. De sentir. De viver. Manoel era de sorriso largo. De esticar horizontes. Cresceu menino. E, menino, despediu-se de nós, na última quinta-feira, aos 97 anos. O poeta que nunca gostou que colocassem data na existência vive, para sempre, no quando.

Enquanto ele nos faz saudade, certamente, está dando boas risadas, “conversando sobre nada e passarinhos”, de olhos dados com seu grande e amado amigo Bernardo, personagem de tantos de seus escritos. O pássaro voltou ao ninho e, de lá, pousado em algum tronco de árvore, ainda nos ensina a compor silêncios com suas palavras.   

 

As bênçãos 

 

Não tenho a anatomia de uma garça pra receber

em mim os perfumes do azul.

Mas eu recebo.

É uma bênção.

Às vezes se tenho tristeza, as andorinhas me

namoram mais de perto.

Fico enamorado.

É uma bênção.

Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro

para que se tornem peregrinos do chão.

Eles se tornam.

É uma bênção.

Até alguém já chegou de me ver passar

a mão nos cabelos de Deus!

Eu só queria agradecer.

Manoel de Barros

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/11/2014 | Foto: Divulgação

 

Brasileiros na Feira do Livro de Frankfurt

Fui convidado para dar uma palestra na Feira de Frankfurt, a maior feira literária do mundo. Foram convidados pelos organizadores da Feira, apenas três brasileiros: Paulo Coelho, Walcyr Carrasco e eu.

Paulo Coelho ponderou sobre o futuro do livro e sobre a necessidade de o mercado editorial compreender melhor o mundo tecnológico e as novas possibilidades de leitura: os tabletes, os celulares, o livro em meio digital. Falou com a autoridade de um autor que já vendeu 165 milhões de exemplares em todo o mundo.

Walcyr Carrasco falou sobre a mente criativa do ficcionista. Discorreu sobre a gênese da personagem. Com muito humor, trouxe histórias do cotidiano que inspiram o escritor de ontem e de hoje. Trouxe Flaubert e Machado de Assis para explicar como os temas que agradam ao leitor se repetem e como a vida e a arte se misturam.

Eu palestrei sobre a semiótica na sala de aula e a formação dos novos leitores. Acredito, profundamente, que, apesar de todo o aparato tecnológico que nossos tempos oferecem, o livro sobreviva, assim como  a milenar arte da contação de histórias. Sobrevive o professor. Máquinas não têm alma. Professores têm. Alunos precisam de alma. De cumplicidade.

Falei de muitos autores brasileiros, mas aproveitei a oportunidade para usar Goethe, o gênio da literatura alemã, como exemplo. Goethe tinha uma mãe que lhe contava histórias antes de dormir. E que dele omitia os finais, deixando-o curioso para o dia seguinte. Como Sherazade fazia para amolecer o coração cheio de ódio de seu marido, o Sultão. Com um repertório incrível, durante mil e uma noites, ela emendava uma história na outra para prender a atenção de seu interlocutor e se manter viva.

Contadores de histórias alimentam almas e mentes. Os pais deveriam ser os primeiros contadores de histórias. De histórias nascidas da literatura universal e de histórias de suas próprias famílias. A voz da mãe, a voz do pai, enchem de futuro os seus filhos.

Preocupo-me com o excesso de tecnologia no processo educativo. Tudo o que é em excesso faz mal. O meio-termo aristotélico é sempre um bom aprendizado. Se os aprendizes têm novas possibilidades de pesquisa com a internet, têm, igualmente, necessidade de diálogos parecidos com o que o Sócrates tinha com seus discípulos, em épocas que nem lousas ou cadeiras faziam parte da relação de ensino-aprendizagem, quanto mais os computadores.

Sócrates contava histórias. Jesus Cristo contava histórias. Shakespeare contava histórias. Mandela, para convencer o seu povo a trocar a luta da segregação pela edificação do oráculo da paz, contava histórias.

Por que alguém compra um livro? “Para o entretenimento e para o conhecimento”, respondeu Paulo Coelho na Feira de Frankfurt. Entreter, conhecer, verbos que condizem com o nossa trajetória. Educar, também. Tudo educa. Até os exemplos ruins nos educam quando temos capacidade de discernir.

Há alguns que se preocupam muito com uma literatura que venha a agredir o que é considerado “politicamente correto”. É preciso ter prudência. O “politicamente correto” muda muito. A literatura, não. O que é descartável são os livros que têm por objetivo ajudar a resolver problemas pontuais. Os clássicos ficam. Quando Monteiro Lobato cria a sua “Negrinha”, não o faz para ajudar a propagar o preconceito, ao contrário, coloca-se como uma voz capaz de revelar o sofrimento dos negros, o horror do racismo que, muitas vezes, tenta se disfarçar de bondade, da mesma forma que Machado de Assis faz em “Pai contra mãe”.

Livros semeiam ideias, ampliam horizontes, fazem nascer desejos, acalentam solidões.

A Feira de Frankfurt é um mundo complexo e gigante. Países de todos os cantos do planeta mostram a face iluminada de sua literatura. Escritores, editores, ilustradores, livreiros, artistas de um fascinante universo conversam sobre o presente e o futuro do livro. Milhares de palestras e de eventos nos abrem a mente para o que cada um, em sua língua, em sua cultura, faz para que o livro tenha o destaque que merece.

Walcyr Carrasco, autor de dezenas de livros, mas também de novelas marcantes que quebraram tabus e abriram possibilidades de um mundo menos perverso com os diferentes (somos todos diferentes), insistiu na ficção que nasce da intenção amorosa de melhorar o mundo.

O Brasil foi o país homenageado na Feira de Frankfurt de 2013. Este ano, foi a Finlândia, país modelo em educação. Revelam eles, com orgulho, o quanto seus professores e alunos leem. O quanto a arte desenvolve a sensibilidade e a capacidade pessoal e profissional. Na educação, formamos o nosso futuro. Que seja menos violento, menos preconceituoso, menos injusto. Que os livros ajudem as pessoas a conviverem melhor. Essa é a verdade que tenho como escritor. Escrevo para revelar minha opção pela esperança. Escrevo porque acredito no ser humano. Quando um livro é lido, uma janela se abre. Vamos abrir as janelas da liberdade. Vamos abrir as janelas da generosidade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/10/2014

Chalita fala sobre educação e leitura na mais importante feira literária do mundo

A Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, é o maior evento literário do mundo. Todo ano, milhares de livreiros, editores, autores e leitores movimentam o universo da leitura e fomentam o diálogo cultural entre os países durante o encontro. Na edição deste ano, o professor Gabriel Chalita, membro da Academia Paulista de Letras, além de participar de apresentações culturais intermediadas pelos organizadores da Feira, ministrou uma palestra sobre “A semiótica na educação e o desafio da formação de novos leitores”. Inicialmente, Chalita destacou três elementos essenciais para que se alcance uma educação de excelência: a valorização do professor, o engajamento familiar na escola e a melhoria do currículo escolar.

Além disso, afirmou a importância da liderança do professor no processo efetivo de aprendizagem e no desenvolvimento das habilidades cognitivas, sociais e emocionais dos alunos. O professor é a alma da educação. Sua missão é gerenciar sonhos, lapidar diamantes. Segundo Chalita: “Educar é abrir as janelas de possibilidade. Educar é garantir, a cada estudante, o passaporte para o futuro, com autonomia e liberdade.” E se a escola deve preparar crianças e jovens para a vida e para a cidadania, é fundamental instigá-los e envolvê-los no universo do conhecimento, além de proporcionar uma atmosfera favorável a emoções e vivências positivas. Nesse contexto, os professores e a literatura ocupam um espaço essencial, porque “é o professor que fará, com dignidade e respeito, com que a educação se transforme em puro prazer de viver.”. De acordo com Chalita, contar histórias é uma das melhores estratégias para desenvolver nos alunos o gosto pela literatura. E a literatura é uma das melhores maneiras de desenvolver nos estudantes os valores fundamentais para construir uma vida feliz. “Medo, coragem, paixão, amor, sofrimento, honestidade, desonestidade, justiça e injustiça, crueldade e generosidade. Tudo isso pode ser vivido nas páginas dos livros.”

Juntamente com mais seis escritores brasileiros, Walcyr Carrasco, Paulo Coelho, Bernardo Kucinski, Eduardo Spohr, Ana Martins Marques e Edney Silvestre, Chalita segue acompanhando a programação da Feira de Frankfurt.

Fonte: Assessoria de Imprensa

Entre livros e sonhos

Escrever é um ofício que me realiza. Não consigo imaginar um mundo sem palavras. São elas que se lançam para dar significado ao que sentimos. Pontes encantadas. E, quando necessário, muros. Sem agressividade. Mas com palavras certas.

Poetizamos pela palavra. Criamos personagens, inventamos situações, tecemos argumentos pela palavra. Gosto de escrever. E escrevo como profissão de fé na pessoa humana. Reescrever dá um pouco mais de trabalho. As rasuras nos lembram de que vamos corrigindo. De que a palavra talvez possa ser outra. De que os tempos fugidios exigem novos olhares.

Revisei quatro livros que serão lançados na Bienal: “Famílias que educam”, “A escola dos nossos sonhos”, “Semeadores da esperança” e “Aprendendo com os aprendizes”. Já faz algum tempo que os escrevi. Tratam da minha outra paixão, além da escrita: o nobre exercício do educar. Os livros falam de família, de escola, de professores e de alunos. Dos espaços sagrados em que nos deparamos com o exercício diário da generosidade. A convivência ganha significado na troca. Aprendemos, ensinamos, tornamo-nos cúmplices da boa nova, que é a educação. Formamos para o hoje e para todos os outros dias. Com exemplos e com textos. Mas, acima de tudo, com a convicção de que o que fazemos tem uma razão de ser.

Na Bienal, muitas outras palavras estarão aguardando os visitantes. Conversas com autores, autógrafos. Aproveito para convidar todos os leitores deste jornal para o lançamento dos meus livros no sábado, dia 30 de agosto, às 14h30, no estande da Editora Cortez, e para se deixarem seduzir por este universo de letras, de palavras, de pessoas.

Ao terminar a revisão desses livros, fiquei refletindo sobre quantas revisões devemos fazer sobre nossas escolhas. Que bom que a vida nos dá outras oportunidades.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/08/2014