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Sobre o sorriso

Em visita ao Hospital A.C. Camargo, vi e senti, mais uma vez, o significado do verbo “cuidar”. Médicos, professores, funcionários, voluntários. Gente que entrega a vida a cuidar de gente. Ali, vivem, nas crianças, as dores da doença e os sonhos de vencê-la. O hospital dedica-se à pesquisa, à ciência e ao que há de mais sofisticado para salvar vidas. Os atendimentos impressionam em número e em qualidade. Conversei com alguns pais e vi a gratidão deles a essa gente que cuida e cuida bem de seus filhos. Os professores que ali trabalham tem um perfil todo especial. As aulas ocorrem nas salas ou nos quartos ou onde for necessário para roubar o sorriso de uma criança e ajudá-la a exercer a criatividade, a inteligência, nessa fase difícil. Brincam. Ensinam. Animam o ambiente. E fazem daquele espaço o altar do seu ofício.

 

Ser professor é irradiar vida mesmo em vidas abaladas por circunstâncias alheias à nossa vontade. Alguns estão lá há muito tempo. Há outros que chegam e precisam entender as especificidades do lugar. Confidenciou-me D.Genoveva, antiga voluntária do A.C. Camargo, que, ao entrar certa feita numa sala, viu uma jovem emburrada. Quis saber quem era, qual o seu problema. A moça respondeu que não havia problema algum e que era a nova professora. Então, D.Genoveva explicou: “Seja bem-vinda, minha filha. Mas, aqui, você tem que sorrir”. E deu as razões. Aprofundou-se no tema da vida. Algumas vidas se despedem ali. Outras são recuperadas para seguir. A medicina evoluiu muito e o potencial de crianças curadas é enorme. Mas, nessa fase da travessia, precisam elas de pessoas de fibra e capazes de sorrir.

Saí do hospital sorrindo e pensando no ensinamento daquela senhora. Algumas histórias me fizeram chorar. Um dia, vou partilhá-las. Fazem bem à nossa vida. Nossos problemas ficam menores. Crianças lindas aquelas. Fizeram minha caricatura. Escreveram sobre meus livros. Guardarei para sempre. Além dos presentes, ganhei ensinamentos. “Aqui, você tem que sorrir”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/09/2015

Amores partidos

Uma mulher escreveu para o meu programa de TV, na Rede Vida, falando sobre sua decisão de partir. Contou, com dignidade, sua história de amor e de recomeço. “Fiz tudo pelo meu namorado. Tudo. Vivi por ele. Cuidei dele. Imaginei um mundo lindo ao lado dele. Até a velhice. Mas acabou. A pedra que ele me atirou ainda dói. Mas sou decidida. Acabou, acabou!”. Esse é um trecho de uma longa narrativa. 

 Lembrei-me da antiga canção, composta por Herivelto Martins e David Nasser, que diz “Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem”. Pedras machucam. As reais e as imaginárias. Pedras causam perdas. Perdas nos tiram o que gostaríamos de ter. Pessoas. Momentos. Vida. Gosto de encontrar gente decidida. Mesmo na dor.

 

Histórias de amor chegam ao fim por várias circunstâncias. Morre-se um pouco quando morre a amada ou o amado. Despede-se do corpo sem vida que tanta vida trouxe. Vida que ganhou sabor, vida que reencontrou o significado por um amor. O luto é incomodativo. Entretanto, é definitivo. Cessam-se as possibilidades. E segue-se a vida. O tempo ajuda. A dor lancinante do amado que enterrou seu amor transforma-se em saudade, lembrança boa de tempos, de canções, de enternecimentos. Findam-se as histórias por outras razões, como a da mulher que me escreveu. O amado não foi capaz de respeitá-la, não soube valorizar os dias gastos, voluntariamente, em nome do amor. E atirou a pedra. E quebrou o telhado. E feriu, sem sobre isso antes refletir, quem não desperdiçou os momentos em atenção. Desatenção, teve ele. O tempo lhe ensinou alguma coisa. Tentou voltar. Manso. No lugar das pedras, as flores. Por que não as trouxe antes? Por que não romantizou os momentos enquanto estavam juntos? Por que brincou de conquistador compulsivo, necessitado de informar aos outros os feitos heroicos de macho? 

 E ela, no início, não acreditou. Esperou confirmação. Sofreu as notícias ditas por estranhos. Sim. Porque o íntimo era ele. O que recebia o seu devotado amor. Pensou ela em segui-lo. Não o fez. Teve dignidade. Por outros caminhos, reconheceu suas mentiras. É uma mulher, diz o texto, cultora da verdade. Vê a mentira como o lodo imundo da humanidade. Aprendeu a ser verdade. Decidiu seguir a aprendizagem. E isso lhe deu seguranças para decidir partir. Mesmo que partida. Mesmo que o amor não tenha dito a ele quanto tempo ainda há de permanecer remoendo seus sentidos. Não deixamos de pensar em alguém quando decidimos. Paciência. Não é a primeira nem será a última pessoa a sofrer de amor. Um dia, ela há de abrir as janelas, respirar fundo, e perceber que os incômodos da paixão indevida se foram. E aí a vida recomeça.

E é assim com todo mundo. Melhor isso do que não amar. Melhor a dor de uma paixão não correspondida ou a ferida de um amor que se foi do que a triste constatação de que as portas para o amor foram trancadas desde sempre. E a chave não está disponível para abri-la.

Vinicius de Moraes, o poeta que amou por decisão de vida, crê em uma eternidade no tempo do amor:

 

De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

(Soneto da Fidelidade)

 

A mulher que me escreveu inspirou-se nesse texto. Amanhã, ela estará melhor, certamente. E um outro amor haverá de fazer sua morada em uma casa já limpa, preparada para receber.

 

Atiraste uma pedra

No peito de quem

Só te fez tanto bem

E quebraste um telhado

Perdeste um abrigo

Feriste um amigo

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/08/2015

O sabor da Chef

Fui ao restaurante Tordesilhas no início desta semana. Comida maravilhosa. Brasileira. Gostos e temperos que valorizam a riqueza de nossa terra. Tudo muito caprichado. Atendimento carinhoso, gentil. A decoração é criativa. E há, na parede, um texto que fala sobre os 10 mandamentos da cozinha brasileira. O mandamento derradeiro e universal é este: bom apetite! Porque o mal nunca entra pela boca, o mal é o que sai da boca do homem.

Enquanto comia, pensava no que lia. E partilhava com os meus amigos. Como é bom almoçar com amigos. E prosear. E agradecer o privilégio dos sabores que nos alimentam. E celebrar a vida. No cotidiano. Nas ações que fazemos com que sejam especiais. Falamos sobre os dizeres. A inspiração está no Evangelho. O problema é o que sai de nossa boca. É a força do que falamos. É o estrago que somos capazes de causar aos outros. Por quê? Por que nos interessarmos tanto pela vida dos outros? Se fosse o interesse generoso da partilha, da ajuda amiga, da compreensão de que é melhor caminharmos juntos, seria bom. Mas não é. Estragamos a vida dos outros com o que sai da nossa boca. Desnecessariamente.

Quando já nos preparávamos para sair, encontramos a chef Mara Salles. Que mulher incrível! Falamos do sabor de sua comida. Ela agradeceu e começou a conversar sobre outros sabores. Sobre projetos sociais. De inclusão. De acolhimento de pessoas que, por alguma razão, ficaram à margem. O prazer de cozinhar talvez seja um bom aliado para recuperá-los para a vida. Sorria, enquanto dizia do sabor de viver, de fazer o que gosta, e de ajudar as pessoas. A prosa foi breve, mas revigorante. Saímos dizendo que nem tudo o que sai da boca do homem prejudica o homem. Há palavras de esperança. Há textos que narram contextos de gente que faz o bem. Almoço bom aquele. Depois do sabor da boa comida brasileira, o prazer de ouvir uma brasileira que não desiste de fazer o bem. E bem feito.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/08/2015

A medida do amor

A medida do amor é amar sem medida. O que queria Santo Agostinho com essa assertiva? Amar sem medida? O que é uma medida? O amor pode ser medido? Pode-se medir o amor de uma mãe que, generosa, faz da vida dos filhos a própria vida? Que, em noites indormidas, acalenta a dor dos seus rebentos? Que se multiplica para atender a avidez por respostas dos filhos inquietos? Pode-se medir o amor de um religioso que faz de sua vida uma entrega a Deus e ao seu próximo? Que repete o ensinamento de Madre Teresa de Calcutá, a peregrina do amor, que dizia que quem julga  as pessoas não tem tempo para amá-las? Pode-se medir o amor de um cidadão comprometido com a geração que virá depois e que, por isso, cuida da Casa Comum que é o planeta em que vivemos? Pode-se medir o amor de uma mulher ou de um homem apaixonado que resolve dividir o que tem, o que sabe, o que sonha com outro alguém que chegou por alguma razão que nem a razão imagina e que permaneceu? Renúncias e encontros. Amargores e sabores. Caminhadas apedregulhadas de surpresas. Mas juntos. Juntos por uma decisão de não medir o amor. O poeta Drummond nos ajuda a compreender as “Sem-razões do amor”: Eu te amo porque te amo, /Não precisas ser amante,/ e nem sempre sabes sê-lo./ Eu te amo porque te amo./ Amor é estado de graça e com amor não se paga.

Amigos também amam. Professores também. Médicos. Juízes. Atores e atrizes, senhores das emoções. Amam os que se põem a conhecer melhor os outros. Porque quem não conhece não é capaz de amar. E quem conhece, verdadeiramente, ama. Ama inclusive as imperfeições. Ama como resistência ao que é descartável ou medido. Não se mede o amor. Nem o descarta. Senão não é amor. Não é amar.

Sábio Santo Agostinho que, ainda sobre o amor, dizia: “ama e faz o quiseres”. Primeiramente, ame. O que virá depois não há como não ser bom, pois “Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/08/2015

Quem deve se envergonhar?

“Tenho vergonha de confessar que meu marido bate em mim”, disse-me uma mulher. “Vergonha do meu casamento fracassado. Vergonha de criar justificativas para as marcas que ele deixa no meu rosto e no meu corpo”.

Palavras fortes de um forte calvário. Vergonha, fracasso, violência. Será que é ela quem deve se envergonhar? Por que é tão difícil denunciar um companheiro?

Continuei ouvindo-a. Há duas crianças no enredo. O desfecho, diz ela, não é tão simples. Não quer que os filhos tenham um pai preso. Não quer que saibam do que ele é capaz, embora desconfiem. Certamente sabem, pensei eu. Sabem e também se incomodam, mas são muito pequenos para agir. Tentou conversar com a sogra que disse que também apanhou e que, agora, o marido já idoso não encosta mais nela. Aconselhou-a a ter paciência, um dia, ele também deixaria de agredi-la. Perguntei se gostaria de passar a vida apanhando à espera do envelhecimento. Ela chorou. Disse que fez promessas. Que orou. E que não adiantava. Falamos sobre oração e sobre ação humana. Difícil invadir o outro e decidir por ele. Mas impossível ficar passivo diante de um ato covarde, criminoso. Entre convicções e dúvidas, ora parecia decidida, ora apequenada em carências. Foi textual sua colocação: “Ele bate em mim, mas pelo menos me toca”. E prosseguiu falando de conhecidas que foram abandonadas por maridos que sequer as tocavam. Contei histórias de despedidas antecipadas, de mulheres assassinadas pelos companheiros, de vidas reduzidas a nada. E ainda há os filhos. Filhos do medo ou da esperança?

Essa é uma entre tantas mulheres que demoram a tomar consciência de que nenhum homem tem o direito de humilhá-las, agredi-las, violentá-las. Algumas decisões são dolorosas, mas as dores são necessárias à vida que virá depois. É assim no parto. E nos tumores que precisam ser arrancados para evitar a morte. Paciência tem limite. Vida também. Por isso, não se pode desperdiçá-la com quem não a dignifica.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/08/2015

 

Gostar de viver

Conheci Içami Tiba apresentado pelo seu filho André, meu aluno na PUC. Foi um almoço agradável. Falamos de temas recorrentes no complexo universo da educação. Tiba teve uma formação sólida. Era um cientista respeitado na universidade. Médico, formado pela USP, especializou-se em psiquiatria no Hospital das Clínicas-SP, onde foi professor.  Mas tinha  a preocupação de escrever e falar com simplicidade o que realmente importava nas relações humanas. Nesse almoço, falamos do texto que estudávamos em classe: “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles. Nicômaco era filho do filósofo e ganhou do pai um tratado sobre o “bem-viver”, “a ética”, “a felicidade”. Na obra, Aristóteles disserta sobre o conceito do “bem” e a importância da educação para que se encontre a aspiração da vida. A razão e a emoção compõem a tessitura que nos forma no dia a dia. O hábito nos molda. Aprendemos a tocar cítara tocando cítara. Aprendemos a ser honestos sendo honestos. Quantos séculos se passaram e continuamos desafiados a educar para o bem. A buscar o equilíbrio entre o “sim” e o “não”. Tiba insistia na tese de que é muito mais difícil, aos pais,  dizer “não” do que “sim”. Os filhos expressam os mais tenros olhares em busca do “sim”. Mas o “não” é essencial. Ouvir “não” é um aprendizado para toda a vida. Em muitos momentos, fará toda diferença dizermos “não”. “Não” ao que violenta a nós mesmos e ao outro. “Não” à mentira, mesmo a que nos leva a patamares superiores na escala do aplauso social. “Não” aos excessos, aos nossos rumores inquietos e a muitos de nossos desejos que podem nos roubar ou nos desviar das escolhas corretas rumo à nossa aspiração de vida.

A vida nos proporcionou muitos outros encontros em tantos eventos de educação por esse país afora. Tiba tinha um humor inteligente. Era um homem que, decididamente, gostava de viver. Disse-lhe isso, certa vez, e ele sorriu aprovando minha conclusão. “Como não gostar?” E prosseguiu: “Sou apaixonado por minha mulher, tenho um família linda, faço o que gosto e ainda ganho por isso”. Tem razão. Como não gostar de viver?

Tiba viveu ensinando vidas a gostarem da vida. Vidas inspiradoras de vidas. Dizia que não há um manual que organize todas as ações dos pais nas relações com os filhos, seu tema preferido. Há pistas. Há troca de experiências. Há caminhar juntos em um tema que não se esgota, em um mundo em que a mudança não se esgota. Cada tempo tem sua dificuldade e seu sabor. Os educadores, de hoje, debruçam-se sobre as novidades incorporadas ao cotidiano: novas formações familiares, novos mecanismos de acesso às informações, novas formas de relacionamento. Incorporar esse repertório nos ajuda a continuar a fremente aventura de curiosidade tão essencial a quem educa

Fui ao velório de Içami Tiba prestar minha homenagem. Abracei sua mulher que, entre lágrimas de saudade, confidenciou-me: “O que me conforta é saber que ele conseguiu o que sempre sonhou: contribuiu para melhorar o mundo”. Cada ser humano é um mundo de possibilidades. E nós, educadores, não podemos descansar enquanto não abrirmos as janelas do futuro a todos para que cada um desenvolva seu talento. O que propicia o protagonismo de alguns não é o fato de terem mais ou menos inteligência, tese ultrapassada; é o de terem mais ou menos possibilidades de desenvolvimento dessas inteligências. Afinal, se gostamos de viver, gostamos dos que vivem conosco e, como dizia o mestre, “quem ama educa”. Para o bem, para a felicidade. 

(Publicado na Folha de São Paulo, em 12/08/2015) 

 

 

 

A ternura de meu pai

Meu pai era um homem terno. Gostaria de estar com ele. Gostaria de ter tido o poder de prolongar o tempo. O tempo das prosas de tantos entardeceres. Juntos. Infância regada a exemplos. Gentileza natural nascida na crença de que o outro merece sempre o nosso melhor.

Calvários doloridos os de meu pai. Foi preso, injustamente, na época da ditadura Vargas. Trabalhou com afinco. Primeiramente, para ajudar os pais. Limpou escolas, plantou em hortas, vendeu na feira, trabalhou no comércio, virou comerciante, empresário, construtor. Não teve oportunidade de estudar. Estudou, entretanto, a alma humana, com tamanha delicadeza e paciência que se formou mestre na área complexa de compreender que o outro merece ser respeitado. 

Sofreu meu pai pela morte de dois filhos. Chorou a inversão da lógica. Um morreu aos 21 anos, acidente de carro. O outro de complicações no pulmão, aos 33. Tinha síndrome de Down. Era o centro da casa. Alegria contagiante de quem não tem economia em expressar os sentimentos.

Era profundamente religioso. Gostava do sagrado. Das celebrações eucarísticas. Da comunhão com os seus irmãos. Da reza silenciosa em sua cadeira de balanço. Esta é uma das lembranças mais lindas que tenho dele. Rezando. E eu, cheio da curiosidade de criança, queria saber o que ele pedia a Deus, em oração. Ele fazia segredos, sorria, dizia que eu fizesse o mesmo e que deixasse meu coração ir dizendo, apenas isso. “Deus escuta o nosso coração”, dizia-me ele, com um sorriso generoso. O coração é a metáfora do que se sente. De onde dói. Do que faz bem. Dos sonhos que servem de combustível para prosseguir.

Meu pai era um homem bom. Soube partilhar o seu dinheiro. Dizia que Deus fizera dele um velhinho rico e que era preciso cuidar dos velhinhos que não tiveram a mesma sorte. Ainda hoje, na minha amada terra natal, Cachoeira Paulista, há o Asilo dos Vicentinos que ele construiu.

Meu pai era um homem trabalhador. Com o tempo, comprou um sítio e, ali, plantava café. Gostava da terra. De plantar e de colher. Um dia me confidenciou que pedia a Deus que não o deixasse em uma cama enfermo, como seu irmão mais velho. Era triste demais viver sem trabalhar. E que queria morrer trabalhando. E, assim, ele foi. Depois de um casamento. Depois de uma festa. A partida. Dolorosa partida. Rápida como ele queria. Difícil para os que dele se alimentavam de sua ternura.

Falo de meu pai como exemplo de um amor que nos molda. Cada um tem sua história afetiva com seus próprios pais. Alguns sofreram mais com pais violentos ou ausentes ou, estranhamente, pouco amorosos. O amor é elo sem o qual a engrenagem familiar não funciona. Mas mesmo os que lamentam os erros dos pais, em algum momento, podem mergulhar nos seus acertos. Ninguém erra ou acerta o tempo todo. Conheço filhos que lastimam, o tempo todo, os erros dos pais. Que contam histórias de alcoolismo e de exemplos desagradáveis. Mas e os afetos?  E os bons momentos que, não raro, ocorreram? A memória não pode abandoná-los. Até mesmo o sentimento de falta do pai, no dia de hoje, que muitos devem estar sentindo, é um indício de que há o desejo de que, ao menos, “aquele momento” estivesse ainda presente. 

No dia dos pais, símbolo que nos ajuda a refletir, valem alguns dizeres aos pais que estão por perto. Se falta dinheiro para o presente, vale a presença de palavras que agradecem, que celebram, que reconhecem. Vale a presença de gestos de amor. Se eu pudesse, abraçaria longamente, meu pai, neste dia. Se eu pudesse deitaria em seu colo e brincaria com ele para ver qual das mãos é a maior: a dele ou a minha. Ele tinha mãos grandes. E eu dizia que, um dia, as minhas seriam maiores que as dele. E brincávamos de medi-las. Ele sempre ganhava. Na época de sua morte, repetimos emocionados “nossa” brincadeira e eu lhe disse que as dele continuavam maiores. Ele piscou, sorriu e disse que, há algum tempo, percebia que eu dobrava um pouco os dedos para que a mão dele continuasse maior. Mas que ele tinha muito orgulho de saber que as minhas mãos eram maiores que as dele. Que, para um pai, isso não era um problema. E que sonhava que eu continuasse crescendo. Nas mãos, no caráter, na vida e nos sonhos de construir um mundo melhor. De ser bom. De ser uma pessoa de bem.

Meu pai compreendia as minhas inquietudes. Ouvia os meus lamentos. Celebrava as minhas conquistas. Pai é assim. Presença que acalma e que alimenta de vida a vida dos seus filhos. Um filho que nega os pais é como árvore sem raiz. Nutrimo-nos do solo que nos gerou e devemos a ele voltar sempre na presença dos nossos pais ou na memória do que eles em nós plantaram.

Tento reproduzir a sua ternura. Sou ainda um aprendiz.

Feliz dia aos pais!

 

Ao meu pai José

Pai querido, é pena que já partiste

És saudade presente

Do tempo que, na minha mente,

Ainda existe

Os teus olhos tão vivos, tua mão, que suave

Conselhos constantes e os gestos marcantes

De quem ensina sem desanimar

Tua voz tão segura e plena de amor

Caminho infinito de quem, qual num rito

Toma cuidado para não deixar dor

Caminhas comigo, em cada momento

Vives ao meu lado em qualquer ação

Orienta meus passos teu ensinamento

Inteligência não vive sem o coração

Tu és simples sapiência, bondade, és motor

Princípios eternos, valores presentes

Prolongam no tempo o belo exemplo

O teu grande valor, sempre sem medida

Valor de oração, de trabalho diário

Suave encanto presente na vida

E teu romantismo : único amor

Exemplo de vida, marcante, constantes

Meu jamais esquecido, poeta sonhador

E teu romantismo : mamãe era rosa

Flor e princesa, único amor

Exemplo de vida, marcante, constante

Meu, jamais esquecido, poeta sonhador

E teu romantismo : mamãe era rosa

Flor e princesa, único amor

Exemplo de vida, marcante, constante

Meu, jamais esquecido, poeta construtor

Pai querido.

 

(Gabriel Chalita)

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/08/2015

Um menino, uma pomba, um destino

Domingo passado, fui almoçar na região da Paulista com alguns amigos. Em pleno inverno, o sol aquecia a cidade. Estávamos caminhando, quando vi uma cena triste. Um menino saiu de uma lanchonete e, ao ver uma pomba na calçada, não teve dúvidas, chutou com uma violência impressionante o assustado animal. Não conseguiu atingi-la. Pombos têm asas. Melhor assim. E o menino? Tem o quê? Que destino? Quem chuta uma pomba, hoje, chuta uma pessoa amanhã. Quem não tem sensibilidade com um animal, que nada fez nem o importunou nem estava no seu caminho, imagine o que poderá fazer com alguém que o incomodar? Dizia Tolstoi, acostumado a traduzir em palavras as angústias humanas, que “se um homem aspira a uma vida correta, seu primeiro ato de abstinência é o de ter compaixão pelos animais.”

 Sou educador e preocupo-me cada vez mais com o que vem acontecendo com as pessoas. A agressividade vem ganhando patamares impressionantes. Na vida real e na virtual. A ausência de paciência e de compaixão é cada vez mais evidente. Impaciência com o jeito do outro, com o tempo do outro, com as escolhas do outro. Compaixão como um dos mais nobres sentimentos humanos: a capacidade de sentir a dor do outro e fazer de tudo para não provocá-la ou, se for o caso, amenizá-la. A compaixão é a certeza de que habitamos a mesma moradia humana. E que o que o outro sofre eu também poderia sofrer.

Mas quero voltar ao menino. Quem educou esse menino? Quem lhe apresentou os valores mais significativos da vida? Quem o conduziu para ver e compreender as criaturas que compõem o universo? Almir Sater, em inspiração poética, canta: “Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”. Mas, no início, se não educarmos, as escolhas ficam mais difíceis, os destinos mais tristes, e um menino perde a capacidade de ver que, até nas pombas, há vida, há sentimento, há beleza.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/08/2015

 

Multiplicar o quê?

No domingo passado, ouvi atento à  homilia do padre explicando o milagre da multiplicação dos pães. A história é fácil de compreender. Os homens que seguiam Jesus eram muitos, mais de cinco mil. E chegou a hora de se alimentarem. Uns acharam que o melhor era fazê-los ir embora para que se virassem e comessem em suas próprias casas, ou arranjassem, de outra maneira, o próprio sustento. Jesus não concordou com essa lógica, embora fosse ela a mais fácil – deixar que cada um se virasse era melhor do que ter o trabalho de cuidar de todos. Jesus, com alguns peixes e poucos pedaços de pão, alimentou a todos e ainda sobrou. Além dos homens, serviram-se as mulheres e as crianças. E sobrou. A lição da partilha se repete em outras situações do cotidiano. Com coisas e com sentimentos. Poderíamos inverter a ordem. Partilhar sentimentos. Os melhores sentimentos. Fazê-los multiplicar. 

 

Quais são os melhores sentimentos? Um dia desses, uma senhora me disse que havia cansado de ser boa. Que ninguém respeita uma pessoa boa. Que não quer passar por tola. Que iria dar um basta. Já ouvi de outro homem que cansou de ser honesto e que, se há no mundo tanta gente desonesta, por que ele persistiria sem negligenciar os ensinamentos éticos que bebeu no chafariz do seu pai? É comum que o traído não acredite mais na confiança, que o usado duvide da sinceridade do amor. 

Há muita gente por aí multiplicando ódio. Discípulos da mentira fazem de tudo para mostrar que são todos iguais. Que a falsidade é matéria constituinte do que somos. Que o egoísmo nos leva longe. Longe onde? Certamente, longe de nós mesmos. Narciso olhou tanto para a própria imagem que perdeu os olhos e todo o resto. Os sentimentos egoicos nos enlameiam nos lagos toscos do falso poder. Multiplicarmos essas atitudes não nos leva aonde deveríamos estar.

Naquela relva, junto a Jesus, as pessoas confiaram no que haveriam de receber. O alimento da alma e do corpo. As histórias que ensinariam a escolher os caminhos corretos e o que comeriam. Sem pressa. Sem a tentação de acumular mais, porque poderia faltar depois. Apenas estavam ali, vivendo a multiplicação.

Sou daqueles que ainda acreditam nos exemplos, nos referenciais, nos que nos elevam por suas atitudes. Há mulheres e homens desconhecidos dos holofotes que multiplicam no seu cotidiano a bondade. Conheço líderes comunitários das periferias das grandes cidades que multiplicam a vida no cuidado das vidas que ninguém cuida. Chefes de famílias que são exemplos de retidão. Professoras e professores, cientes do poder de abrir as portas e apresentar o que há por vir, sem direcionar qual o caminho que devem seguir os seus aprendizes, preservando a autonomia. Respeitando a liberdade dos que têm o direito de protagonizar o próprio viver.

Conheço religiosas e religiosos que têm, na vida, uma inspiração de servir a Deus e ao seu próximo. Que encontram alegria nisso e que são livres multiplicando os dons para semear em terras nem sempre tão férteis. Mas prosseguem. Cantando a liberdade e agradecendo a escolha.

Conheço jovens que não se rendem ao prazer fácil, que prezam por suas vidas e que cultuam utopias. Enquanto há sonho, enquanto há indignação, a juventude não se esvai. Multiplicam eles as aspirações de mudar o mundo sem permitir que lhes abortem esses ideais.

Conheço gente que é gente e que gosta de gente. E, exatamente por isso, acreditam na travessia. Curta ou longa. Mas com significados. Multiplicam na vida a conjugação do verbo amar. E, exatamente por isso, são capazes de sentar nas relvas e aprender. Ouvir as lições do mestre e praticá-las. Ser também distribuidores dos alimentos que alimentam a vida e os viventes. Irmãos de caminhada.

Foi isso o que entendi daquela homilia e compartilho com vocês. Saibamos o que multiplicar. E não mudemos o rumo quando presenciarmos outros que, infelizmente, optaram por abandonar o belo e o bom, enfeando, com os exemplos e as palavras, esse pedaço do universo que nos foi dado de presente para construir a nossa morada. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/08/2015

Coragem para amar

Diz Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”. O filósofo escreveu sobre a conduta humana, sobre os erros e os acertos que cometemos em nossa trajetória. Confessou ele os dissabores que viveu. Falou de escolhas equivocadas. Dos males que a ausência de amor é capaz de causar. E nos iluminou com a esperança.

O olhar atento ao mundo talvez seja motivo para desacreditarmos do ser humano. As misérias humanas não nos surpreendem mais. Acostumamo-nos com a maldade, com a mentira, com a injustiça, o que é triste e demonstra que estamos negando nossa própria essência. Perdemos nossa capacidade de indignação. Acovardamo-nos diante da vida. Cada vez menos falamos de valores como generosidade,companheirismo, respeito e compaixão. Interesses pouco humanos estão transformando as nossas relações em palcos de guerra. Guerreamos contra o diferente ou contra o semelhante que pode ocupar o nosso espaço – tosca impressão, porque nada nos pertence. Partiremos, um dia, como chegamos: carregando apenas uma chama inapagável que se chama amor. É o amor que nos identifica, que nos retira da multidão, que nos faz únicos. Entretanto, com essas turbulências todas, é preciso coragem para amar, para não se deixar levar pelos equívocos de um aplauso rápido por ter atingido alguém com a pedra da crueldade. A vítima é um irmão meu. Um irmão é como uma parte de um mesmo corpo. Quando atingido, o corpo todo dói. Talvez por isso uma dor comum nos adoeça. Doentes ficamos todos quando não nos indignamos ao ver as injustiças contra o nosso irmão. Fechar os olhos não resolve a dor alheia nem a nossa.

Coragem. Se não temos o poder de mudar o mundo, mudemos o mundo que nos cerca. Comecemos uma silenciosa revolução no nosso entorno, mostrando que somos capazes de fazer as escolhas corretas. Com aquilo que fica para sempre: Amor, amar. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/07/2015