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Que horas ela volta?

Assisti ao filme de Anna Muylaert. Assisti com atenção à excelente trama que traz o universo cotidiano da casa brasileira – o universo de relações entre patrões e empregados. O filme traz uma profunda reflexão sobre preconceitos, solidão, sonhos, ética.

Uma empregada, Val, interpretada brilhantemente por Regina Casé, dedica a sua vida a cuidar da vida dos seus patrões. Faz de tudo. Esmera-se para fazê-los felizes. Percebe, sutilmente, as idiossincrasias de cada um deles, mas, com abnegação e respeito, fica no seu espaço, a cozinha. Espaços são bem tratados na trama. Qual é o espaço dos patrões? Qual o espaço dos empregados? Val parece ser tratada como alguém da família. O patrão não trabalha. É um pintor que perdeu a inspiração. Mas tem dinheiro. A patroa busca reconhecimento por seu estilo. E tem uma relação fria com o marido e o filho. O filho dos patrões busca os afetos no quarto da empregada. É ela a sua mãe de acolhimento. É ela que o incentiva a acreditar no seu talento. Os lugares dos afetos são o quarto da empregada e a cozinha. Ali, o menino se desmancha em vida. Ali, ele é ouvido e tem voz.

 Mas um fato muda a rotina da família. A filha de Val vem do Nordeste para prestar vestibular de arquitetura. E fica hospedada com a mãe na casa dos patrões. O conflito vai ganhando tom. O tom desafinado do desalinhamento do discurso inicial de permissão à prática de preconceito com a filha da empregada. A cena da limpeza da piscina é cheia de significados. A menina é jogada na piscina, em uma brincadeira. Brinca com o filho do patrão e com um amigo dele. A dona da casa chama um homem para esvaziar e desinfetar a piscina. A justificativa é que um rato foi encontrado naquele espaço que pertence apenas à família e aos seus convidados.

A linguagem trabalha com o não-dito. A escada interna da casa tem um significado que sugere várias possibilidades. O país mudou. A filha da empregada passa,  para assombro da patroa, no vestibular de arquitetura. O filho do patrão não passa. A filha da empregada tem um filho. E o deixa no Nordeste para fazer faculdade em São Paulo e, depois, voltar a cuidar dele. É como a história da mãe que deixou a filha e veio trabalhar por causa da filha. Laços que se rompem por razões sociais. Futuros que, para serem atingidos, dependem de presentes interrompidos. Mas a história não se repete. O desfecho é surpreendente. É preciso ver o filme para saber. É preciso ver o filme para refletir sobre os preconceitos disfarçados que continuam a desafinar as histórias entre empregados e patrões. É preciso ver o filme para aplaudir o cinema brasileiro. O talento de Anna Muylaert e de um elenco afinadíssimo.

Histórias do cotidiano são mais complexas de serem retratadas. Poderiam cair na vala comum dos exageros, dos apelos, da intenção maniqueísta de criar bruxas e princesas ou bandidos e mocinhos. Não se trata de maldade ou de bondade. Trata-se de ética. De comportamentos erráticos que fazem com que patrões não consigam enxergar os seus empregados. Cenas de famílias brasileiras ainda são chocantes. Empregados que cozinham para os seus patrões e não podem sequer experimentar o que preparam. Os patrões dão uma desculpa que julgam satisfatória: “O problema é que não estão acostumados a comer dessa comida”.  Separam os copos de bebida. Os espaços. Os problemas. Empregados com problemas familiares não agradam. Os patrões justificam: “Já tenho problemas demais para me preocupar com os outros”. “Os outros”, no caso, são pessoas que vivem na mesma casa, que preparam a comida, que lavam as roupas, que melhoram o ambiente, que cuidam diuturnamente para que o espaço esteja o mais agradável possível. Mas o espaço do empregado não é o do patrão. “Essa gente é folgada”, sugerem alguns. Qual gente? Há categorias de gente? Os que têm mais ou menos dinheiro? Os que têm mais ou menos instrução? O país está mudando. Quem nunca imaginou entrar numa universidade, hoje, faz mestrado e doutorado. Quem estava apartado começa a exigir fazer parte de um país que é de todos. Os anos horrendos da escravidão se findaram, mas ainda há, na alma de alguns brasileiros, resquícios daqueles tempos: casa grande e senzala.

Que bom sair do cinema refletindo. Sobre a postura dos outros. Sobre a nossa própria. “Que horas ela volta” é uma inspiração para dias melhores…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/10/2015

Crianças abandonadas

Mais uma criança recém-nascida é encontrada na rua. Em um saco qualquer, em um canto qualquer, abandonada por uma mulher. Já se sabe que era a mãe. Primeiramente, tal ato nos desperta questionamentos. Por quê? Por que abandonar crianças? Falta de vontade de cuidar? Medo? Ignorância por não saber que, se não se tem condições, é possível entregar para a adoção? O fato é que mais uma criança foi abandonada. Quantas crianças abandonadas ainda veremos por aí? Essa foi salva. Alguém a viu. Sentiu sua existência. Teve compaixão. Cuidou dela. Encaminhou para pessoas responsáveis com a responsabilidade de quem pode contribuir para não matar futuros, não deixar morrer crianças.

 Essa criança há de crescer. Outras não tiveram essa oportunidade. Essa criança há de superar o abandono – é o que sonhamos. Outras tantas são abandonadas e, se sobrevivem, carregam marcas desses tempos. Longe de mim justificar a ação da  mãe. Teria sido ela um dia abandonada? Faltou a ela instrução, esclarecimento, compaixão? Ela justifica como medo de perder o emprego, pois, certamente, a patroa não aceitaria a criança ali. Deu à luz no banheiro da casa dos patrões, silenciosa e solitária. Sufocando a dor. Movida pelo pavor de ser descoberta. Limpou a filha, cortou o cordão umbilical, alimentou-a e, por desespero – quem sabe? – abandonou-a num canto qualquer, numa noite de chuva.

Intenções. Ações. 

Mas um porteiro surgiu na vida dessa criança e repetiu a parábola do bom samaritano. Ele poderia ter seguido o seu caminho, estava indo à missa. Poderia ter fingido não ter ouvido o choro. Poderia ter tido a decisão de não se meter com problema dos outros. Mas o bom porteiro, outro Francisco de Assis, abriu as portas do futuro para essa criança.  Segurou a menina no colo. Embalou-a. Está radiante com a vida que salvou. Quer adotá-la. Trazê-la para o aconchego de sua família. Já escolheu o destino do bebê. Ser amado. Escolheu seu nome: Valentina. Que bom. Ainda há bondade no mundo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/10/2015

 

Um santo encontro

Imaginem um encontro entre Francisco de Assis e Terezinha do Menino Jesus. Hoje, é dia de São Francisco. Dia primeiro, foi dia de Santa Terezinha. 

Um encontro entre os dois, fisicamente, nas lindas histórias de vidas que viveram, não seria possível. Francisco nasceu na Itália, em 1182, e Terezinha na França, em 1873. De épocas e lugares diferentes, esses dois referenciais do amor absoluto a Deus e ao próximo continuam a nos inspirar. Mesmo entre aqueles que não são religiosos, mesmo entre os que não frequentam as Igrejas, os nomes de Terezinha do Menino Jesus ou de Francisco de Assis trazem alguma elevação. 

 

Pensamos na delicadeza de Terezinha. Na menina que quis ir cedo ao Carmelo, que escreveu lindos poemas de simplicidade, que cedo partiu para a eternidade, sorrindo, prometendo que mandaria do céu uma chuva de rosas para fazer o bem aos que na terra vivem. 

Francisco era irmão do Sol e da Lua, irmão dos pássaros e também dos lobos, noivo da dona pobreza, defensor da natureza como a casa comum, a casa de todos nós que merece ser cuidada.

Terezinha nos inspira a viver a delicadeza como uma decisão de vida. Francisco a nos comportarmos como irmãos, sem hierarquias, sem arrogâncias. Tudo é para todos. “Paz e bem!” – apenas isso. Um santo encontro entre esses dois jovens geraria conversas interessantes. “O que estão fazendo com a religião”? – perguntaria Terezinha. “Por que as pessoas continuam matando em nome de Deus? Deus é Amor. Julgam demais e amam de menos esses que se dizem tão religiosos. Pobres filhos de Deus que precisam fugir de suas terras porque os religiosos querem lhes cortar as cabeças. E, para onde querem ir, faltam religiosos acolhedores”. E Francisco, certamente, concordaria, explicando que o que falta é que se percebam como irmãos, que sintam o privilégio do dar sem querer nada em troca. Do movimento do amor. Do perdão. Do acolhimento. Das vidas que ganham significado quando compreendemos a lição do Mestre que cuidou, que nos falou sobre ter um coração de criança, que deu novo caminho à pecadora, que não fugiu dos que tinham lepra. Terezinha poderia cantar um cântico puro para Francisco, inspirado nele, inclusive. Ela poderia dizer aos irmãos que cantassem: “Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz”. E que cantassem a sequência dos lindos versos na própria vida. Nada de ódio. Tudo de amor. Nada de ofensa, de discórdia. Mas de perdão e de união. Cantemos o cântico da fé, da verdade, da esperança e da alegria. Diria Francisco a Terezinha, inspirado no poema da amorável menina, Viver de amor: “Viver de amor é compreender as dores dos calvários dessa vida, viver de amor é dar sem medida e sem buscar na vida a recompensa. Viver de amor é velejar sem descanso semeando nos corações a paz e a alegria. Viver de amor pode parecer uma estranha loucura. Sejamos loucos, Terezinha. Loucos apaixonados pela divina causa de cuidar do humano”. “Sejamos loucos, Francisco. Loucos comprometidos com cada irmão que, caído, espera, esperançosamente, uma chuva de rosas, de bênçãos para prosseguir”. “Prossigamos, Terezinha”.

E o encontro continuaria falando dos mais vulneráveis, dos injustiçados, das vítimas inocentes de tantos perversos. O que diriam eles sobre a perversidade, mal horrendo que revela uma face não humana dos humanos? O que diriam eles sobre uma segunda chance aos que erram? Como tratariam o tema da verdade, da autenticidade, da generosidade?

Santos encontros podem ocorrer nos nossos dias. Terezinha e Francisco continuam por aqui. Com outros nomes. Com outras faces. Pessoas que vão e que vêm e que, ao se reconhecerem irmãos, perceberão a delicadeza das rosas que caem sem que as vejamos. Sintamos o perfume da bondade em cada gesto em que reconhecemos o outro como nosso irmão.  Viver de amor como instrumentos de paz. 

Sejamos Terezinhas e Franciscos com a humildade de quem têm muito a aprender, mas com a esperança de que dias melhores poderão nascer.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/10/2015

Talentos desperdiçados

Já faz um tempo, o Papa Francisco, ao rezar uma missa na Praça São Pedro, disse aos jovens presentes: “Não enterrem seus talentos! Não tenham medo de sonhar grandes coisas”.

Ao exortar os jovens à perseguição de seus ideais, de seus temas de vida, o papa resumiu, com essas palavras, sua crença no humano jeito de ser um homem de Deus que cuida do povo. 

 Enterrar os talentos é uma menção a uma parábola de Jesus. E tem um significado claro. Cada um de nós recebe um quinhão de talentos. E é bom para nós e para o mundo que os multipliquemos. É bom para nós e para o mundo que coloquemos nossos talentos a serviço de boas causas. Todas as vezes que ouço histórias de jovens hackers, fico imaginando o tanto de inteligência que está sendo desperdiçado. Gastam tempo e talento a serviço de uma ação que nada contribui para si mesmos nem para o mundo. Ao contrário, ações que promovem, não raro, o mal. Há jovens que se lançam a mostrar a perícia em disputar rachas, com seus carros em alta velocidade, desafiando o medo e, infelizmente, pondo fim antecipadamente à vida de outros e às suas próprias. Por quê? Por que não usar o talento do domínio sobre o carro e sobre os medos de maneira nobre? Há jovens chefiando facções criminosas, mostrando disciplina e capacidade de trabalho e, por meio desses talentos que poderiam ser virtuosos, espalham o que há de pior na comunidade em que vivem: violência, exemplos equivocados, falta de apreço pela vida. Ausência de sonhos!

Sonhar grande, larguear os ideais, é o caminho, mas esse caminho só pode ser percorrido sobre os alicerces da ética, com a vivência comum, com sonhos comuns que trazem não apenas o prazer estranho que desvia a rota do comandante, mas a felicidade de uma vida plena de significados para toda a nau. Comandantes somos nós todos, quando não desperdiçamos nossos talentos, quando sonhamos o grande sonho de cuidar das pessoas e do mundo. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/10/2015

Começar de novo

Uma notícia muito positiva, nesses dias, merece nossa reflexão. Nove internos da Fundação Casa foram classificados para a 2ª prova das Olimpíadas de Matemática. Cada um deles teve, certamente, uma história de dor, de queda, de fracasso. Ao cometerem atos infracionais, tiveram sua liberdade privada, suas trajetórias interrompidas. Mudaram de lar, de escola, de espaço, de relacionamentos. Na Fundação Casa, precisaram buscar espaços para o reencontro com o que foi perdido. Na nossa sociedade, não é simples a reinserção social, nem do adolescente que frequentou uma unidade de internação nem do adulto que passou pelo sistema penitenciário. Erraram, certamente. Cometeram deslizes que prejudicaram a sociedade. Feriram pessoas e suas famílias. Mas e depois? Esses espaços consomem muito dinheiro público. E depois? Como deve ser a volta ao convívio social? Ficarão marcados para sempre pelos erros que cometeram? Mas, se cumpriram a lei, se tiveram direitos restringidos, não é necessário garantir a eles uma oportunidade para um novo começo? Até porque eles não terão muita escolha: ou isso ou o mundo do crime lhes estará de portas abertas.

 

Desse grupo de jovens, alguns já deixaram a fundação há poucos dias. Os outros três continuam cumprindo a internação. Ansiosos por contar às famílias suas conquistas no estudo. Sonham com uma vida melhor. Com um futuro diferente, de oportunidades.

“Se os outros conseguem, por que a gente não?”, perguntou um deles. E declarou, convicto: “Eu consigo ir além”. Esses jovens são tão inteligentes quanto os outros jovens que estudam em escolas públicas ou privadas. O que lhes falta, talvez, seja o exemplo, a educação correta, a inspiração que vale tudo na vida. Seus depoimentos servem de farol para uma sociedade que prefere descartar a corrigir, jogar fora a lapidar, dispensar a conclamar para um novo começo. Cuidemos das imperfeições para que vidas não sejam desperdiçadas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/09/2015

Lembranças e esquecimentos

Lembrar é uma das possibilidades da razão. Lembrar é revisitar o passado e encontrar significados no existir. Existimos instante a instante. Alguns revelam surpresas agradáveis, outros trazem dor. Instantes em que a vida é gerada. Instantes em que palavras de amor são proferidas. Instantes em que encontros marcam, para sempre, nossa trajetória. Quantas vezes agradecemos por ter conhecido alguém que nos ressignificou o sentido da palavra amar ou conviver ou cuidar ou partilhar a vida. Estávamos desprevenidos, distraídos, talvez, e alguém chegou. E mudou outros tantos instantes que se somaram e se somam à nossa vida.

 

Conquistas inesperadas. Portas que se abriram depois de outras que, subitamente, foram fechadas. Sem nossa autorização. Invasores dos nossos espaços nos fazem mal. Por que chegam? Por que incomodam tanto? Mas é assim. Não controlamos o outro nem suas flechadas. E, aí, vem a queda. A dor. A ferida aberta. Esquecer os que nos feriram? Esquecer as feridas? Não se trata de uma simples decisão. Trata-se de maturidade. Não é prudente recordar o tempo todo do tempo da dor. A dor ficou por um tempo e depois se foi. E agora há outro tempo. Outro instante.

Colecionadores de dores não prosseguem, não evoluem. As tristezas poetizam a vida e, portanto, têm razão de ser. Nesses instantes, recordamo-nos de nossas fragilidades e pedimos ajuda. A Deus. A um amigo. A um amor. Deitamos no colo materno e recebemos autorização para chorar. Licença para nos incomodar com o que nos incomoda, sabendo que aquele colo não nos expulsará antes do tempo. Mas há um tempo para o choro. Os exageros dramatizam demais a vida e prologam o desnecessário. Afinal, depois do instante de dor, vem o instante de algo novo. E outro algo novo. E assim, sucessivamente, em cada instante. É de amanhãs que o hoje está grávido. Os amanhãs nascerão. Dias se renovam. Pessoas, também. Dias se renovam com a lógica da natureza. Pessoas nem sempre. Se nos prendermos a lembranças ruins, as novas não poderão chegar. Se nos trancarmos, quem haverá de nos descobrir?

Colecionadores de dores não prosseguem, repito. E é preciso prosseguir. Independentemente do tamanho da ferida que se abriu. Um dia, no tempo do aconchego, podemos relembrá-la, mas a lembrança não causará o mesmo estrago. Será um outro tempo. E teremos esquecido parte do que deveria ter sido esquecido.

Um dia, ouvi de uma mãe de 4 filhos, todos eles nascidos de parto normal, sobre o milagre que é a lembrança do nascimento dos filhos sem a lembrança da dor imensa que os trouxe à vida. A vida nova chegou com tanta força que os sofrimentos ficaram intimidados de prosseguir sendo lembrados. É assim, também, nos sofrimentos que preparam o atleta, na disciplina que exaure o bailarino. Mas os ensaios ganham significado quando a arte nasce. E nasce com tamanha força que os esforços exagerados dos treinos dão lugar às lembranças das comemorações.

Lembrar é vital. Alimenta-nos. Recordar o que fomos e o que somos nos ajuda a continuar. Mas esquecer também é essencial. Que fiquem as cicatrizes, mas que não ganhem de nós mais atenção do que necessário. Se sofremos, não somos os únicos. O sofrimento não é um privilégio de alguns. Se sofremos injustamente, outros também beberam do cálice da injustiça. Mas também amamos e fomos amados. Também plantamos e colhemos. Também sorrimos, o sorriso bom dos instantes que nos surpreenderam com gestos e palavras de amor.

Lembranças e esquecimentos. Celebrar e relevar. Porque os instantes merecem ser vividos. Revividos. E relevados. Releve as sujeiras que enfearam instantes do seu caminho. E prossiga celebrando as limpezas. As belezas. Há beleza por toda parte, a todo instante. Disso, é bom não se esquecer. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/09/2015

Quem somos nós?

Alguns professores tiravam foto comigo, quando uma criança me olhou nos olhos e perguntou: “Quem é você?”. “Meu nome é Gabriel, sou professor”, respondi. E a criança prosseguiu: “Mas quem é você?”. “Eu cuido da educação, cuido de você”. “Cuida de mim?! Ah, bom!”, foi a resposta que o acalentou.

 

Quem somos nós? Cuidadores de outras pessoas? Seres capazes do caminhar coletivo, do pensar coletivo? Feitos da matéria-prima do encontro? Do amor que emancipa, que eleva, que faz brotar o riso bom da felicidade? Certamente que sim. Mas também somos capazes de outras atitudes. Menos nobres. Menos humanas. Fotografias de um mundo em desconstrução circulam por aí. Imagens reais de abandono, de perversidade, de egoísmo. Quem somos nós? Operários de que causa? Obreiros e poetas da esperança, sim, porque o fazer e o sonhar se encontram no amálgama propício das edificações. Mas também somos o oposto. Nossas misturas, por vezes, são explosivas. Corroemos os outros e nós mesmos com atitudes impensáveis para quem têm a virtude do pensamento. Ausências de reflexão sobre “quem somos” são presságios de derrota. O vitorioso não é aquele que tem mais, mas aquele que sabe mais sobre quem é. Conhecermos a nós mesmos é um dos impulsos vitais da filosofia. Sócrates, o pensador grego, instigava os seus interlocutores a irem além das aparências, a permitirem o nascimento das próprias ideias. Ideias, ideais. Alicerçava sua filosofia no autoconhecimento, na nossa relação com o mundo e com os outros. Como dita a máxima de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Mas quem somos nós?

Aquela criança insistiu. Não ficou satisfeita com o meu nome nem com a minha profissão. Queria mais. Queria entender a intenção da minha vida. Meu nome não foi escolha minha. Minha profissão, sim. “Mas para que serve tudo isso?”, indagou ele sem receios. “Para cuidar de você”. “Então, prossiga. Continue a fazer o que deve ser feito”. Autorizou-me ele com seus olhos de amanhã. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/09/2015

O brilho de Torloni

Christiane Torloni é Maria Callas.

Exatamente. Maria Callas, uma das maiores cantoras de todos os tempos. A menina que – nascida em Nova York, mas criada em Atenas – ia todos os dias ao conservatório viver da música em tempos de guerra. Ali, ela encontrava paz. Ali, ela encontrava uma razão de viver. A menina gordinha foi ganhando espaço e conquistando o mundo. Sua interpretação de “Norma”, de Bellini, em Florença, deu início a tantas outras que calavam as plateias atônitas por uma voz divina. Chamada de “A Diva”, Callas resolveu emagrecer. Queria ser uma mulher bonita. Conseguiu. Queria viver a intensidade da paixão. Conseguiu. Mas, dessa paixão, também foi vítima. Arruinou-se por amor. Sofreu o abandono mesmo sendo amada por todo o mundo. No palco, o aplauso, a multidão. No quarto, a carência da ausência, a solidão. Callas marcou a história. Genial e geniosa. Disciplinada. Ciente de seu ofício de subir em um palco e viver sua arte.

 

Em São Paulo, podemos ver um pedaço da vida de Callas na vida de Christiane Torloni. A peça “Master Class”, de Terrence Mcnally, traz uma época em que Callas não cantava. A tristeza, talvez, tenha roubado sua voz. Mas o mito persistia vivo. E alunos se candidatavam para participar de suas aulas. Queriam ser observados por ela. Ensinados. Impulsionados, talvez.

Callas variava de uma mulher profundamente crítica, demolidora até, para uma mulher que, generosamente, se emocionava e abria as portas dos amanhãs para aqueles jovens cantores. No texto, as lembranças de dias gloriosos e de dias tristes. Seus maridos. Suas separações. O filho que não chegou a nascer. A dor de ser trocada. De ser desprezada.

Esse texto já foi encenado, no Brasil, com a genial Marília Pêra. Eu tive a honra de assistir várias vezes. Gloriosa interpretação. Torloni é corajosa. Assumiu para si a responsabilidade de ser Callas. A mulher Torloni já sofreu muitas perdas na vida. Dolorosas. Inesquecíveis. Mas não se apequenou. Fez da sua arte uma redenção. É única em cada personagem. É inteira. Valente e disciplinada, arranca até o último suspiro de inspiração para cada gesto de cada pessoa a que dá vida. Já a vi muitas vezes em cena. E não me surpreendi com sua interpretação impecável, com seu brilho!

Torloni é Callas entrando em cena. É Callas arrumando os óculos, a roupa, o copo com água. É Callas cobrando profissionalismo. Recordando os dias que se foram. Chorando o choro amargo das ausências do seu amor. Torloni é Callas andando, sentando, olhando. Era apenas a estreia, e ela já estava inteira em cena. O movimento das mãos. O olhar. Surpreende ao se fazer surpreendida com os alunos que ora a temem, ora a tentam desafiar. Bom de ver. Bom de aplaudir.

Gosto de usar este espaço para escrever algumas linhas sobre pessoas e sentimentos. Sobre referenciais que nos ajudam a compreender as escolhas que precisamos fazer todos os dias. Escolhi escrever sobre Callas e Torloni por duas razões. A primeira é que vidas dedicadas à arte sempre nos inspiram, principalmente quando essa dedicação é o tema de uma vida inteira. A segunda razão é para incentivar os meus leitores que frequentem mais os teatros. A cultura é nossa identidade. Emoções desfilam nos palcos, desafiando os desfiles da nossa vida. Enxergamo-nos nas dores e levantamo-nos nas vitórias. Vivemos a vida dos outros um pouco quando ali estamos sentados. E saímos incomodados quando a peça é boa. O bom incômodo do desafio que a vida deve nos oferecer. Viver. Sem concessões. Viver apaixonadamente mesmo quando a paixão nos rouba momentos de paz. Talvez sejam eles importantes para não nos esquecermos da força do amor. Da força que temos que ter, pois o texto de todos os dias não foi escrito por nenhum autor. O Autor maior nos deu a vida, a inteligência, as emoções, o resto depende de nós. Sem ensaios. E todo dia é dia de existir.

Os cantores, o maestro e o funcionário que traz humor ao drama, estão todos muito afinados. Direção do genial José Possi Neto.

Viva a arte!

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/09/2015

Estúpidas escolhas

Não conheço Walter Palmer, o dentista que ficou famoso por postar fotos nas redes sociais com os animais que conseguiu matar. Não o conheço e não gostaria de conhecê-lo. Não costumo escrever artigos criticando pessoas. Há muitos que fazem isso. Prefiro percorrer outros caminhos. Mas, no meu caminho, surgiu esse senhor. Li com decepção as reportagens que mostram o perfil desse homem que ganha dinheiro arrumando dentes e gasta dinheiro desarrumando vidas. Cecil foi morto sem razão alguma. Um leão famoso na África. Conhecido. Querido. Poderia ser outro leão não tão famoso. Poderia ser um elefante. O dentista também queria caçar um elefante e exibi-lo, morto, para os seus amigos nas redes sociais. Quem são os amigos de Walter? Não há ninguém que o ajude a recobrar o juízo e fazer escolhas menos estúpidas? Ele já foi multado por caçar um urso e processado por assédio sexual. Mente confusa. 

Repito. Não gosto de escrever criticando pessoas até porque só sabemos delas pelo que se noticiou e nem sempre as notícias são verdadeiras. E Walter não é o único caçador de leões e de outros animais de grande porte. Há muitos milionários que fazem isso. Que pagam para entrar em uma fazenda na África e matar pelo prazer de se sentir viril, talvez. Alguns dirão que é cultural. Querem cultura? Por que não uma peça de teatro, uma ópera, um livro, uma exposição? Outros dirão que caçam por esporte. Querem esporte? Por que não uma corrida, um jogo de futebol ou de basquete ou de tênis?

A ausência de compaixão com os animais se reflete na relação que temos com os seres humanos. Ou temos sensibilidade ou não temos. Com pessoas e animais. Gostei muito da cena do filme que retrata a rainha Elizabeth espantando um lindo alce fêmea que corria o risco de ser morto por caçadores britânicos. Ainda sonho com tempos em que os animais sejam tratados de outra maneira e que as nossas diversões não destruam ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/09/2015

Amanhã, é dia da Pátria

Amanhã, é dia 7 de setembro. Dia da pátria. Dia da independência. Dia da liberdade. E o que mais? E por que amanhã? A resposta rápida é porque, em 1822, Dom Pedro I proclamou nossa Independência. E isso merece comemoração. Mas insistamos um pouco mais: por que amanhã? Amanhã, eu começo a me esforçar para ser livre. Amanhã, eu vou parar de mentir. Amanhã, eu vou fazer o que já decidi: mudar de vida, mudar de humor, mudar de atitude, mudar qualquer coisa que hoje me incomoda. Mas o incômodo não é hoje? Por que esperar amanhã?

Que pátria queremos? A que abraça todos os seus filhos ou a que privilegia alguns? A que reduz as desigualdades ou a que deixa para amanhã a edificação de um país mais justo? A que combate todas as formas de discriminação ou a que não enxerga uma parte dos seus negligenciando ajuda aos que mais precisam? A pátria dos perversos ou dos cordiais? Amanhã, é o dia de uma boa lembrança de um dia importante de nossa história. Mas o hoje existe. E é no hoje que devemos fazer o que deve ser feito para que a “casa” onde nascemos seja a pátria que sonhamos.

 

Sonhamos quando? Ontem ou hoje? Quais foram os sonhos que embalaram os nossos dias de preparação para o hoje? O que aprendemos nas escolas em que frequentamos? Somos “um povo heroico” capaz de um “brado retumbante”?

Nos meus tempos de escola, quando ainda não havia decorado o Hino Nacional, criei uma forma de não confundir a primeira com a segunda parte. A confusão vinha depois de “O pátria amada, idolatrada, salve! salve”! Fiz a seguinte relação. Primeiramente, vem o sonho. “Brasil, um sonho intenso…”. Depois vem o amor. “Brasil, de amor eterno…”. Primeiro vem o sonho de uma gente que se prepara para assumir o comando. Depois vem o amor que é o sonho em ação. O amor pela pátria e por todas as pessoas que nela habitam. Conceitualmente, é isso. O amor é responsável, não é excludente, não tem preconceito, não desiste de ninguém. É livre. E nasce de algum sonho bom. E, sem sonho, é difícil que o amor venha. É o sonho que alimenta o amor. O amor pelo amado, amada ou por um tema. A pátria.

Amanhã, é o dia da pátria. Mas hoje também. Amanhã, é apenas uma comemoração. Hoje, é ação. É sonho que se faz amor quando não nos acomodamos à espera de um amanhã. O amanhã existe, e essa certeza nos é muito cara. Saber que o tempo prossegue. Que as paisagens mudam. Que as pessoas amadurecem. Mas, hoje, quero falar do hoje. A pátria que queremos depende dos que estão no comando dos poderes constituídos, mas depende, também, dos comandantes das próprias vidas. Vidas que se somam; afinal, estamos falando de pátria. Pátria é coletivo. É somatório de forças individuais em busca do bem comum. Isso é também a ética. E a ética não é obrigação apenas dos que têm alguma visibilidade. A ética é barro que nos molda no cotidiano de nossas construções. Vamos nos fazendo dia a dia. E nos refazendo quando necessário. É desse barro que nascem os políticos, os magistrados, os pensadores. Não caem de outro planeta. Nascem das gentes. Da nossa gente. É por isso que temos que nos educar. Hoje. Não apenas amanhã. É hoje o dia de optarmos pela verdade, pelo correto, pelo decente, pelo digno, pelo amoroso. É hoje que temos de decidir pela coerência. Cobrar do outro quando erra e esconder o nosso erro em algum canto é não compreender o canto coletivo do hino que diz: “E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria nesse instante”. O instante da liberdade é amanhã? Também. Mas é hoje. É hoje que, para sermos livres, temos de ser verdadeiros. A hipocrisia é uma praga que destrói as pátrias. A incoerência também. Cobremos a honestidade, temos esse direito. Sejamos honestos, temos esse dever. Hoje.

Diante de tantos pessimismos, não nos iludamos, não será fácil combater o erro e prosseguir. Não há ingenuidade em falar de sonho e de amor. Há esperança. Não do verbo “esperar”, mas esperançar. Esperar fica para amanhã. Esperançar é hoje. É agora. Quando temos forças para corrigir rotas e comandar a embarcação da qual todos nós fazemos parte. E temos o direito e o dever de sermos protagonistas. Cada qual em sua posição. Fazendo o que precisa ser feito todo dia. Das pequenas rotinas às grandes decisões. É assim que se constrói uma pátria – território e povo – espaço e valentia.

 Sejamos valentes para que nosso brado retumbe de fato. Não pela altura da voz, pelo grito, mas pelo som contagiante de quem sonha e ama, de quem é justo, enfim. Comemoremos amanhã, façamos hoje e amanhã e depois de amanhã o que precisa ser feito para que a pátria seja nossa. Livremente nossa. De todos os que aqui têm o privilégio de viver. Conviver. Brasil!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/09/2015