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Bom domingo

Desde criança, ouço histórias de que o domingo, no final do dia, é sempre um pouco melancólico. “É um entardecer estranho!”, dizia uma jovem que sonhava com casamento e que morava na minha cidade. “É solitário, é como se a semana estivesse acabando e, com ela, acabassem as chances de algumas coisas novas acontecerem”, lamentava ela. Eu argumentava, dizendo que a semana acabava no sábado. Domingo era o início. E todo início nasce com alguma possibilidade. Lembro-me de um padre que falava sobre isso. Que dizia que era bom, depois da missa, ter retreta para alegrar a noite de domingo. Coisas do interior.

Ouvi gente dizendo que a melancolia do domingo vem da consciência de que o fim de semana acabou e de que tudo recomeça na segunda-feira. Ficava pensando eu, “Mas quando se trabalha no que se gosta, isso não é um problema”. O tempo foi passando, e eu fiquei com a impressão de que essa melancolia era coisa do interior. E de que, nas grandes cidades, com mais opções, o domingo era uma festa. Teatro, cinema, shopping, shows musicais, encontros interessantes. Foi quando, numa roda de amigos, ouvi alguns desabafos semelhantes àqueles da cidade de onde vim. Final de domingo é melancólico, final de domingo é quase uma dor.

“Dor”?! Perguntei um pouco chocado. “Dor do quê? Dor, por quê?” Ficaram se entreolhando e talvez imaginando que a minha pergunta não fizesse muito sentido. Que era óbvio que essa tristeza do crepúsculo dominical vinha sem ser convidada. Insisti. E eles ainda em silêncio. Então, uma amiga disse: “Vamos fazer compras?”, e outra retrucou: “Prefiro um cinema, o tempo passa mais rapidamente”.

Querer que o tempo passe mais rapidamente é não compreender sua grandeza. Cada tempo é tempo de existir sem descrenças, sem desistências. Sejam domingos sem luar ou quintas-feiras promissoras. Não importa. Reinventar as ações é prova de compreensão da vida. Cada dia tem o seu tempero.

Fiquei lembrando quantas pessoas que conheço e que aproveitam o domingo para fazer algum trabalho voluntário. Visitas a hospitais, asilos, abrigos, comunidades carentes. Contadores de histórias, fazedores de bolos ou de outras comidas. Operários das boas ações. Boas ações fazem aqueles que visitam amigos que, por alguma razão, sentem fome de gente e para quem só a solidão é presença frequente.

Para muitos, o domingo é um dia santo. Rezar nos preenche dos melhores sentimentos. Ajuda-nos a refletir sobre o que fizemos e sobre o que necessitamos para que nossa ventura na vida tenha um sentido. Muitos sentidos. Rezar ajuda-nos a ficar um pouco com as nossas feridas e com as lembranças de futuros com que sonhamos. 

Não é proibido sonhar aos domingos. Nem nos outros dias.

Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos, no início de seu poema “Tabacaria” surpreende-nos com dizeres benditos:

Não sou nada. Nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

À primeira vista, lendo esses versos, invade-nos uma sensação de vazio, de angústia, de descrença. Mais atentamente, percebemos que o eu poético confessa que pode não ser nada, mas pode ter sonhos. Só o que possui são muitos sonhos. Todos os sonhos do mundo! Que grandeza! Que bênção poder sonhar! É a presença que supre todas as ausências. É um mistério que o domingo ou qualquer outro dia pode não ver, se não desejar ver.

Que os pensamentos que vestem de tédio alguns domingos arrisquem momentos ricos de reflexão. A reflexão que agrega e não a que deprime. A reflexão de que a vida é útil, de que cada instante é precioso e de que os futuros são sempre bem-vindos. E nos desperte, também, “a sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro”. Quem sonha tudo pode. Até mesmo colorir de alegria todos os momentos de todos os dias. Não desperdicemos a vida, não apressemos o tempo, com lamúrias e queixumes. 

Bom domingo a todos! Recebamos felizes a chance de mais um início.

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Domingo

Veja, meu bem

Que hoje é domingo

Domingo eu não choro

Domingo eu não sofro

Domingo eu sou de paz

E alegria

Tristeza, hoje eu não estou

Saudade, volte outro dia

Domingo eu não sou boa

Companhia

(…)

Domingo a minha vida é o circo 

Eu sou a trapezista 

Alguém avise à dor 

Que não insista 

Tristeza, hoje eu não estou 

Saudade, volte outro dia. 

(Maria Bethânia/ Roque Ferreira)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/05/2015

 

Maria e os pequenos

Dia 13 de maio, como acontece todos os anos, foi o dia em que cristãos de várias partes do mundo celebraram a festa de Nossa Senhora de Fátima. Ocorre que, em 13 de maio de 1917, Nossa Senhora apareceu a três crianças que pastoreavam um rebanho – Lúcia, Francisco e Jacinta -, na Cova da Iria, um bairro da freguesia de Fátima, em Portugal. E continuou a aparecer nos meses seguintes. Sempre no dia 13, com exceção do mês de agosto porque as crianças estavam presas. Nesse mês, ela apareceu no dia 19. Os homens da época desconfiaram das crianças. Por que Nossa Senhora escolheria crianças para trazer sua mensagem? E crianças pobres? Por que não revelaria seus segredos aos doutos das leis? Por que não falaria diretamente àqueles que tinham o poder de acabar com a guerra? A guerra que, em qualquer tempo, dilacera pessoas e sentimentos. A guerra que demonstra a incapacidade de solucionar conflitos com a inteligência. A guerra que apresenta nossa covardia. Quantas guerras se sucedem nas violentas relações entre as pessoas, inclusive dentro dos lares? Somos nós, adultos, que toleramos menos os nossos semelhantes. Nós, preenchidos por preconceitos e por pouca compaixão.

Maria escolheu os pequenos. As crianças, puras e verdadeiras. Os que não estavam viciados pelo poder. Os que tinham olhos de ver e mentes abertas para a luz que os iluminou. O clarão talvez cegasse os olhos céticos dos que se sentem acima do bem e do mal, senhores da razão. Os pequenos brincavam na terra. Riam. Corriam. E preenchiam-se uns dos outros, sem nenhuma preocupação em nada receber. Receberam a linda mensagem. Entraram para a história. Simples. Anunciadores de um anúncio. 

É preciso rezar mais e guerrear menos. Amar mais, compreender mais, para experimentar, já aqui, as delícias do Céu. Que é abertura e não fechamento. Abertos pela simplicidade, as crianças acolheram Nossa Senhora e sua mensagem. Os pequenos têm muito a nos ensinar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/05/2015

Mulheres fortes

“Meu marido teve que escolher: a bebida ou eu”, disse-me uma mulher em um evento na periferia de São Paulo. “Expliquei para ele: Deus te deu uma mulher maravilhosa. Eu sou maravilhosa, mas se você acha que vou de bar em bar para te buscar, esqueça”. Tudo isso ao lado do marido, que concordava mexendo a cabeça. A mulher prosseguia explicando que, quando namoravam, já suspeitava que ele tinha umas atitudes inadequadas. Ela ameaçou não casar. Ele melhorou. Depois do casamento, voltou ao erro. “Comigo não pode sair da linha”. E o marido olhava com olhos apaixonados para a mulher que falava pelos dois. 

Uma outra senhora explicou que não tinha mais filhos nem netos na creche, mas como gostava muito do bairro, passava de vez em quando nas creches para ver se algo estava fora do lugar. “Está tudo em ordem. Se não tivesse, eu falaria. Eu tomaria providências”. Uma outra falou sobre o sistema de saúde. Disse o que funcionava e o que faltava. E assim, as líderes comunitárias foram desfilando suas opiniões, com uma autoridade impressionante. Havia homens na conversa, mas eram elas, as mulheres fortes da periferia, que falavam mais, que apontavam problemas e apresentavam soluções. Soluções de quem ama o lugar em que vive, de quem não admite violência, de quem busca fazer de cada canto da cidade um canto bom para se viver. Bem informadas. Guerreiras. Cientes de que o mundo mudou. São elas que chefiam as famílias e que protagonizam as mudanças necessárias para que a cidade não deixe ninguém para trás. Confiam na educação como o caminho mais eficaz para que os filhos tenham uma vida digna. Enfrentam as adversidades com valentia. Não querem ser Amélias. São as mulheres de verdade que assumem o comando da própria vida e avisam ao medo que “sexo frágil” é um termo que não existe em seus dicionários. 

Saio revigorado desses encontros. Aprendo muito. Admiro quem não se entrega. Quem luta por suas convicções e faz história. Fiquei imaginando a luta daquele homem para não perder seu grande amor. Como diz a canção: “Aquilo sim é que era mulher”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/05/2015

 

Dia do trabalho

Uma mulher me respondeu com um sorriso contagiante quando eu lhe dei um simples “tudo bem?”. A resposta foi intensa: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Ela trabalha na limpeza da escola. Não mora tão perto. Acorda bem cedo. Pega mais de uma condução. Quando chega em casa, tem outra jornada com o marido e os filhos. E é feliz.

Tenho muito respeito pelos funcionários das escolas. Os que limpam os espaços em que educamos, os que preparam o alimento das crianças, os que cuidam para que tudo esteja em ordem para nós, professores, realizarmos nosso ofício. Sou muito feliz por ser professor. E escritor. E sempre que converso com jovens sobre profissões, tento ajudá-los a perceber que a melhor escolha é fazer aquilo que nos realize, que nos faça perceber que podemos ser úteis à sociedade. Não há profissões superiores ou inferiores. Todo trabalho é digno, quando feito honestamente. Mas é preciso ir além. É preciso ter o entusiasmo daquela mulher que encontrou naquela escola o seu canto de realização. Podemos lutar por nossos direitos, buscar melhores condições de trabalho. O papa Francisco disse, nesta semana, que é escandaloso mulheres ganharem menos que homens para exercer a mesma função.

Há ainda um longo caminho para valorizar as pessoas e as profissões, para dar dignidade a todos e acabar com preconceitos. Mas há um outro fator, de extrema importância, também, que é o encontro com nossa própria vocação, com o que, de fato, nos diga se estamos ou não no lugar certo. Como é ruim encontrar pessoas que detestam o próprio trabalho, que detestam o que fazem e que não encontram disposição para buscar novos caminhos. Vidas desperdiçadas. Sem sermos felizes naquilo que fazemos, dificilmente faremos algo de bom para outras pessoas. Com gestos amargurados, contaminamos o ambiente e a nós mesmos. Sempre é tempo de ressignificar nosso trabalho, de redescobrir a chama que nos faz iluminar pessoas com simples respostas como esta: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Feliz dia do trabalho.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/05/2015

Tempos estranhos

Vivemos tempos estranhos. Essa frase talvez tenha sido dita, inclusive, em outros tempos, quando também houve estranhamentos na ação humana. Mas é sobre os tempos de hoje que escrevo, que lamento, que me preocupo.

Tempos descartáveis. Jogamos fora pessoas e suas biografias. Descompromissados com a verdade, buscamos o poder a qualquer custo. Atacamos o outro, desprovidos de um dos mais nobres sentimentos, a compaixão.

Tempos violentos. As mortes de cristãos na Líbia representam os horrores dos fanatismos religiosos que se sucedem em tantas outras partes do planeta.

A violência também está dentro das casas. Violência simbólica e física. Mulheres continuam sendo espancadas, violentadas, agredidas em sua dignidade. Assim também as crianças que têm a inocência roubada por usurpadores de futuro.

Tempos barulhentos. Gostamos dos mais diversos sons, menos do som do pensamento. Ouvimos barulhos de todos os lados. Desligamo-nos da realidade. Ligamos ou nos comunicamos com os outros pelas mais distintas maneiras e não nos comunicamos com nós mesmos. A ausência de pensamento nos leva a errar muito mais.

Zygmunt Bauman, contemporâneo sociólogo polonês, alerta-nos sobre os laços humanos que se deterioram em função das novas tecnologias: preferimos investir nossas esperanças em ‘redes’ em vez de parcerias, esperando que em uma rede sempre haja celulares disponíveis para enviar e receber mensagens de lealdade.

Tempos hipócritas. Representamos papéis. Fingimos ser o que não somos para angariar alguma simpatia. Usamos máscaras para que outras pessoas nos aplaudam. Fazemos não o que é correto, mas o que parece agradar mais gente. Mudamos de discurso de acordo com a plateia. Alteramos o tom de voz dependendo de quem está por perto.

Tempos interesseiros. Aproximamo-nos das pessoas quando elas têm algo a nos oferecer. Adulamos, se necessário for, para ganhar o que almejamos. Nada desperdiçamos com quem nada tem a nos oferecer.

Tempos egoicos. Pensamos pouco ou quase nada nos outros. Mergulhamos em nossos desejos mais primitivos e nos esquecemos de que somos seres de convivência, animais sociais, de que dependemos uns dos outros. A avareza é um dos piores vícios que pode ter um ser humano. Trancafiarmo-nos em nós mesmos com receio de que levem algo de nós é um desperdício de tempo e de intenção.

“O direito do Outro à sua estranheza é a única maneira pela qual meu próprio direito pode expressar-se, estabelecer-se e defender-se. É pelo direito do Outro que meu direito se coloca. “Ser responsável pelo outro” e “ser responsável por si mesmo” vêm a ser a mesma coisa.” (Bauman)

Em outros tempos, constatações como essas devem ter sido feitas, mas nos nossos tempos há um agravante, a sociedade do espetáculo tem um ampliador de resultados. Comunicamo-nos com maior facilidade e, com maior facilidade, somos capazes de espalhar mentira, de arruinar pessoas e pensamentos.

Se as brincadeiras toscas contra crianças inocentes já eram danosas, imagine o que acontece com o cyberbulying? Se as fofocas de antigamente causavam dor, o que não causam os milhares ou milhões de acessos de vídeos ou textos produzidos para destruir alguém?

A inteligência nos levou a atingir patamares inimagináveis. E o que fazemos com essas conquistas?

Tempos de respeito é o que precisamos. De compreensão do nosso poder de construir ou de destruir. 

Tempos de delicadeza, de cordialidade, de convivência pacífica com os nossos desejos e com as nossas ações.

O que nos faz bem? A perversidade ou a generosidade? O ódio ou o amor?

Prefiro o sabor das utopias ao amargor de conspirações contra o outro. Ninguém sai dessas ações impunemente.

“As relações humanas não são mais espaços de certeza, tranquilidade e conforto espiritual. Em vez disso, transformaram-se numa fonte prolífica de ansiedade. Em lugar de oferecerem o ambicionado repouso, prometem uma ansiedade perpétua e uma vida em estado de alerta. Os sinais de aflição nunca vão parar de piscar, os toques de alarme nunca vão parar de soar.” (Bauman)

Tempos de reflexão. É o que precisamos. Ou tempos de inquietação diante do quanto teremos que fazer para construir os tempos de paz.

Tempos de paz. Não podemos desistir nunca. Mesmo que pareçamos ir na direção contrária. Os tempos de amanhã dependem dos resistentes, dos apaixonados, de nós.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/04/2015 

 

Faz diferença, sim!

Gosto de correr na rua, em São Paulo. Gosto de cumprimentar as pessoas e de, ao final da corrida, gastar algum tempo com alguma prosa não combinada. 

Domingo passado, corri no Minhocão e depois subi um pedaço da Consolação até chegar à Maria Antônia, rua de tantas lembranças para nossa democracia. Foi quando uma senhora bem vestida, acompanhada de outra também muito elegante, abordou-me dizendo que eu precisava avisar o prefeito de que a cidade estava muito suja. Como eu estava correndo, diminuí o ritmo, dei alguma atenção e prossegui. Ela falou algo que não ouvi, e eu virei para ver se era comigo que continuava a falar. De repente, vi a senhora que clamava pela limpeza da cidade jogando no chão a embalagem de uma barrinha de cereais. Não tive dúvidas. Voltei e peguei o lixo, fazendo algum barulho para que ela notasse. Ela me viu abaixando e foi logo justificando: “Eu só joguei no chão, porque a cidade está suja, se não, não jogaria, mas um papelzinho não faz diferença”. Eu não quis ser grosseiro. Achei que ela já ficara suficientemente constrangida pela falta de educação. Respondi, educado: “Faz, sim”. E continuei correndo. E pensando em como é difícil fazer com que as pessoas reflitam sobre suas ações. Exigir do poder público é mais fácil do que agir corretamente. Criticar. Falar em ética. Em cidadania. Em respeito aos espaços públicos. Parece simples. Dar o exemplo no dia a dia é um pouco mais complicado. Mas é disto que precisamos. Fazer com que esse clamor pela ética, pela honestidade, converta-se em atos concretos. A educação tem um papel fundamental nessa mudança de comportamento. Querer levar vantagem, mentir, tentar dar um jeitinho na solução de um problema, tentar corromper, furar fila, jogar papel no chão… tudo isso faz diferença, sim!

A cidade gasta 1 bilhão por ano para recolher o lixo que jogamos nas ruas. Há cidades no mundo que nem lixeira têm. Nem lixo. Cada um leva o que produziu no bolso ou numa sacola e deposita no local certo, sabendo que é preciso cuidar da casa em que vivemos. Para nós e para os que virão.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/04/2015 

 

Urgente é amar

Uma mulher me disse de sua tristeza ao saber que estava com câncer no seio. Entre lágrimas, explicou-me: “Como é bom abrir um exame e ver que a gente não tem nada. Que temos saúde de ferro! Terei que operar com urgência. O caroço não é tão pequeno”. Ouvi e tentei ajudá-la. Disse-lhe que as possibilidades de cura, hoje, são muito grandes. A medicina evoluiu. As cirurgias são menos invasivas. E lhe contei o caso de minha tia. Ela também soube que estava com câncer e que teria que operar o seio direito. O médico disse que era um tumor maligno que deveria ser retirado imediatamente. Ela me ligou chorando. Reclamou do médico, pois ele nem a examinara. Apenas olhara os exames. A consulta foi rapidíssima, e o doloroso diagnóstico foi dado friamente. Fomos a outro médico. Ela tremia de medo e tristeza. Mas ele logo a acalmou. “É um pequeno tumor! Não se preocupe. A cirurgia será simples e, quem sabe, a senhora até encontre algum enfermeiro bonitão, já que é viúva?”, brincou. Ela sorriu, disse que não queria saber de homem e contou a história do falecido marido. Queria apenas saber se a cirurgia era urgente. O médico disse que não. Que poderia ser quando ela quisesse. E continuou a conversa sem pressa. Aos poucos, sugeriu: “Hoje é segunda, a senhora já fez os exames, que tal operarmos na quarta? Assim, no domingo, a senhora já estará em casa, poderá fazer um delicioso almoço árabe e me convidar. E já tira isso da cabeça!”. Ela me olhou e disse: “Embora não seja urgente, é melhor fazer logo, você não acha”?

Hoje, ela está bem. Isso foi há alguns anos e, quando me lembro de que os dois médicos disseram a mesma coisa de formas diferentes, entendo que, em qualquer circunstância, o urgente é amar. Mulheres com câncer de mama, há todos os dias. O ofício da medicina exige conhecimento e amor. As dores na alma também nos fazem mal. Abracei a mulher com carinho. Ela sorriu com um olhar de esperança. Essas pedras que surgem em nossa travessia nos machucam muito. Mas elas existem. O importante é prosseguir.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/04/2015

 

Chacrinha, o musical! Genial!

“O Velho Guerreiro” marcou a história da televisão brasileira. Sua irreverência, criatividade, ousadia fizeram dele um dos maiores comunicadores do nosso tempo. Frases suas eram repetidas (e ainda são) no cotidiano das pessoas. “Quem não se comunica se trumbica”. Comunicou ao Brasil os novos talentos que desfilavam em seu programa. Artistas que ainda hoje fazem sucesso emocionam-se ao lembrar a primeira chance, o primeiro contato com a massa pela magia da televisão.

“Vocês querem bacalhau?” E o bacalhau se esgotava nas prateleiras dos supermercados. Gênio do marketing, ele dizia: “Eu não vim para explicar, eu vim para confundir”. 

José Abelardo Barbosa de Medeiros ou Abelardo Barbosa ou Chacrinha nasceu em Surubim, em 30 de setembro de 1917, e morreu em 30 de junho de 1988, no Rio de Janeiro. O musical que está em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo, narra sua trajetória de fantasias e dores. O texto é de Pedro Bial e Rodrigo Nogueira. A trilha sonora, com arranjos e direção de Delia Fischer, reúne mais de 60 grandes sucessos da nossa música. A direção é de Andrucha Waddington. 

Os atores, bailarinos cantores, estão impecáveis, mas é preciso uma menção especial, honrosa, a dois brilhantes atores de gerações diferentes que encarnam Chacrinha. O primeiro é Leo Bahia que faz o menino Abelardo Barbosa. Leo começou a chamar a atenção por seu talento na Casa de Cultura Julieta de Serpa, no Rio de Janeiro. Interpretando cantores e canções de épocas e estilos diferentes foi ganhando visibilidade. Na UNIRIO, levava a plateia ao delírio no excelente musical The Book of Mormon. Aos 23 anos, Leo Bahia vive a personagem com uma carga dramática invejável. Faz rir e faz pensar. No primeiro ato, é ele quem interpreta as peripécias do menino pobre de Surubim, Pernambuco, em seus devaneios provocados por um vulcão que os artistas do interior geravam em seu interior. O pai faliu. A mãe o incentivou. Quis ser médico. Encantou-se com o rádio. Quis ser músico. Quis comunicar. E foi tudo isso do seu jeito. 

O Chacrinha adulto é vivido por Stepan Nercessian. Genial ator brasileiro que conseguiu encarnar brilhantemente cada gesto do Velho Guerreiro. O final do primeiro ato, quando Stepan deixa de ser o artista inspirador do menino Abelardo para ser Chacrinha, é mágico. No segundo ato, vem a lembrança dos programas de auditório. “Stepan é o meu pai”, dizia emocionado o filho de Chacrinha, Leleco Barbosa. “Ele anda como meu pai, ele senta como meu pai, ele fica parado como meu pai, ele ri e se entristece como meu pai”. Esse é o maior prêmio que um ator pode receber. Generosamente, morre o ator para nascer a personagem.

Abelardo, na vida pessoal, não era tão feliz quanto na televisão. Seus medos o sufocavam. Suas dúvidas o preenchiam e roubavam dele a alegria. Cobrava a si mesmo uma perfeição difícil de alcançar. Queria audiência, mas queria mais do que isso, queria a compreensão das pessoas pelas escolhas que fez na vida. Traumas pessoais acompanham a todos nós e com ele não foi diferente. Dores dos filhos. Brigas com os que mandavam na televisão. Inseguranças. Chacrinha era humano como todos nós. E o enredo traz esse cotidiano que destoa um pouco da irreverência e da alegria na cena da televisão. Isso tudo sem apelos, sem exagero. Afinal, qual ser humano não fica nu diante das dores impossíveis de serem esquecidas na vida? Somos paixão e desilusão. Festa e solidão. Entusiasmo e medo. Brincar de viver é algo sério, e ninguém passa impune a essa ventura. Mostrar o artista – e mostrar também o homem – é uma feliz escolha da narrativa do espetáculo.

As músicas muito bem interpretadas fazem uma viagem ao nosso baú de afetos. Roberto Carlos, Ney Matogrosso, Rosana, Ritchie, Lilian, Gretchen, Gilberto Gil, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Sidney Magal, Fábio Júnior, Clara Nunes, Dorival Caymmi, Wanderléa entre outros, desfilam em seu Cassino ou Discoteca. Na estreia, em São Paulo, Fábio Júnior fez uma participação especial. Seu olhar para Stepan era quase de espanto, de admiração profunda, de recordação de um tempo em que o Velho Guerreiro abriu para ele e tantos outros as janelas dos sonhos possíveis, daqueles que nos fazem voar nas asas dos nossos talentos, mas que se não descobertos ficam para sempre adormecidos.

Encontrei, ao final do espetáculo, uma ex-chacrete que chorou muito lembrando os seus tempos ao lado dele, o homem mito, o que foi chamado pelo filósofo francês Egdar Morin de “fenômeno da comunicação em massa”. Na época, desabafou Chacrinha: “Quero ver o que vão dizer agora os críticos brasileiros que me chamam de débil mental”?

Fica a dica. Assistir “Chacrinha, o Musical”. E aplaudir o talento do artista brasileiro.

Abelardo Barbosa

Está com tudo e não está prosa

Menino levado da breca

Chacrinha faz chacrinha

Na buzina e discoteca

Ó Terezinha, ó Terezinha

é um barato o cassino do Chacrinha

Ó Terezinha, ó Terezinha

é um barato o cassino do Chacrinha!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/04/2015

 

 

A lente do medo

A guerra sempre nos mostra a face embrutecida da humanidade. Pretensos líderes que se acham conhecedores do “bem e do mal”. Comeram eles a árvore do fruto proibido, como narra o Gênesis. Alguns imaginam que a proibição de Deus para Adão e Eva era para roubar-lhes a liberdade. Não era. Comer o tal fruto proibido significaria comer um ao outro com os dentes do ódio, com a boca da destruição, com a intenção do apequenamento. Assim nasceu o pecado. O homem e a mulher podem tudo, menos destruir o outro ou a si mesmo, porque isso nos desumaniza. No texto bíblico, ficaram eles envergonhados depois de comer o que a serpente ofereceu. Envergonhados por saberem-se ávidos pela destruição do outro. Envergonhados deveríamos ficar cada um de nós com esses mesmos pecados de destruição que nos acometem.

Uma cena chocante correu mundo afora. Comoveu, revoltou, indignou. Um fotógrafo, Osman Sagirli, estava na Síria, a 10 km da fronteira com a Turquia, no local em que milhares de refugiados, amedrontados pela sombra da destruição, buscavam sobrevivência.  Seu objetivo era registrar rostos comuns, de adultos e crianças que se perdiam naquela multidão. Foi quando, ao tentar fotografar uma menina de quatro anos, a pequena Hudea, percebeu sua estranha reação. A menina levantou as mãos pensando ser a câmera uma arma. Mordeu os lábios de pavor. Olhou tão assustada que ele teve o ímpeto de abraçá-la, de aconchegar a dureza de sua trajetória. Tão menina e tão cheia de marcas. Sangues jorram naquela região há muito tempo. Famílias destruídas. Túmulos que não dão conta dos tantos que perderam o direito ao futuro.

Como corrigir isso? Como voltar ao paraíso e encontrar mulheres e homens vivendo em harmonia? Cenas assim são comuns nas guerras que sabemos e nas outras que, no escuro dos lares, roubam a inocência de crianças. Exatamente daqueles que deveriam ser os mais cuidados, os mais protegidos, os mais amados.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Foto: Osman Sagirli Data: 10/04/2015

 

Páscoa, passagem

Páscoa é passagem. Passagem da morte para a vida. Passagem da escravidão para a libertação. Passagem para um novo começo. Momento de renovação. Na Páscoa antiga, celebrava-se o fim dos tempos duros no Egito e o início de uma nova caminhada sem a opressão de dono algum. Moisés conduziu o povo com a fé no amanhã, com a esperança dos novos ventos. E o mar se abriu diante daquela gente valente que trocou as correntes pelo desconhecido. Na Páscoa nova, a ressurreição de Cristo, a força que rasga a morte, inaugura um tempo novo para aqueles que compreendem que mal algum supera o Bem. Na madrugada do domingo, a esperança se reacende, após o período da escuridão gerado por homens mal informados, mal formados, mal amados. O calvário de Cristo se repete ainda hoje. Cruzes são carregadas por mulheres e homens de todos os cantos que aguardam um canto novo para viver. 

Em sua mensagem de Quaresma, papa Francisco nos alerta: “Fortalecei os vossos corações”. Vivamos este momento como o tempo de formação de nossos corações, tomando por inspiração o amor humilde derramado por Cristo sobre nós. “Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador, mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro”.

Façamos esse percurso, hoje, no dia da Páscoa, tempo de celebração da vida. Recusemos as atitudes individualistas anunciadas pela temerosa globalização da indiferença. Persigamos as sendas do amor ao próximo, aos mais necessitados que nos revelam quão frágil é a vida. Somos todos irmãos. Cada vida cuidada sinaliza nossa presença, nossa intervenção na humanidade. Nossa ação de fé.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas”, é essa a promessa do Filho de Deus. É a fé que nos abre as portas dos Céus. Temos inseguranças diante da morte: medo, lamentação. O útero materno que nos acolheu durante nossa gestação foi nosso primeiro espaço seguro. Dele partimos para onde estamos hoje. Choramos a insegurança diante do novo. O mundo em que vivemos é um novo útero que, apesar dos solavancos todos, nos acolhe. E, desse útero, iremos para onde não sabemos, assim como foi com o nosso nascimento. A crença na ressurreição nos anima a não nos desesperarmos. 

A Páscoa tem símbolos que expressam todos esses significados. O ovo é sinal de vida. Vida que se renova quando se compreende, quando se sente. Ressignificar a própria vida nos ajuda a ser mais doces. Ovos de chocolate. A docilidade diante do outro, a bondade, a generosidade, a compreensão de que nossas relações podem fertilizar uma terra melhor, sem as escravidões contemporâneas. Fertilidade é o símbolo do coelho. Capaz de gerar vidas. Geramos vida não apenas no nascimento de novas pessoas, mas no nascedouro de ideias que combatem a escravidão. O ódio é uma forma de escravidão, a apatia também. As drogas que interrompem a vida jovem é uma escravidão. As lícitas e as ilícitas. O amargor é uma escravidão assim como o é a ausência de sonhos. 

O povo que saiu do Egito significa muito. Sair do comodismo, da alienação, da mentira, da corrupção. E acreditar no novo. Acreditar em um tema que alimente de vida a nossa vida. Os profetas antigos serviam para manter aceso esse tema. Os profetas de hoje nos inspiram com seus atos. Fazem-nos continuar acreditando no ser humano, apesar dos deslizes. Recobram-nos o barro de que fomos feitos. Francisco, o líder católico, alimenta-nos: “Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.” Que o domingo de Páscoa seja a renovação de nossa força, de nossa fé, de nosso amor. Feliz Páscoa!

 

Renova-te.

Renasce em ti mesmo. 

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado, 

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro. Mas sempre alto.

Sempre longe. E dentro de tudo.

Cecília Meireles

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/04/2015