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O mal existe?

A existência do mal foi um dos problemas filosóficos enfrentados por um dos mais importantes pensadores do cristianismo, Santo Agostinho. Agostinho abordou o tema dentro de uma lógica de premissas, para ele,  incontestáveis. As duas primeiras são: “Deus criou todas as coisas” e “Deus é plenamente bom”. Diante dessas assertivas, como encaixar a existência do mal? Se Deus é plenamente bom, não poderia ter criado o mal. Se Deus criou todas as coisas, nem o homem nem ninguém poderia ter criado o mal. Então, o mal não existe?

O mal essencial, talvez, não exista. Na perspectiva agostiniana, o mal é a ausência do bem, é a ignorância diante do que nos faz felizes ou não, como queria outro pensador chamado Aristóteles. Ignorar a bondade nos faz pessoas perversas. Ignorar a beleza da verdade nos faz pessoas despreocupadas com o uso da mentira. Ignorar o respeito ao outro nos faz insensíveis. E assim por diante. Na prática, o mal existe. E é fruto da liberdade do homem em fazer o correto ou se deixar levar por algo que, aparentemente, lhe traga alguma vantagem. O corrupto pratica um mal porque pega o que não lhe pertence. Sua ação é danosa à sociedade. O mentiroso também pratica um mal porque espalha inverdades que visam destruir pessoas ou conceitos. O que trai, o que dá mau exemplo, o que desconstrói histórias de vida, igualmente, pratica o mal.

Imaginemos um jornalista comprometido com o erro, com a mentira, com a injustiça, quanto de estrago ele é capaz de fazer! Assim, também, um pai de família que opta pela violência e não pelo afeto. Ou um motorista que dirija embriagado. Ou um promotor de justiça movido pelo ódio e não pela defesa da sociedade. Na vida, encontraremos pessoas assim. Os bons e os que desconhecem a felicidade serena dos que acreditam no amor. Tenho repetido que nunca vi um perverso ser feliz. São pessoas atormentadas que fazem da vida um tormento para si e para os outros. Gosto de Santo Agostinho e me inspiro nele. Vale a pena ser bom!  

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/06/2015

 

Deus e a ciência

Certa vez, uma jovem estudante enviou uma questão para um dos mais famosos cientistas de todos os tempos, Albert Einstein. A pergunta era direta: “Cientistas rezam”? E ela explicava que se tratava de uma curiosidade que os instigava, ela e o grupo de estudantes do qual fazia parte. Queriam saber se é possível, ao mesmo tempo, acreditar na ciência e na religião.

Einstein respondeu, também diretamente, sem rodeios. Explicou que os cientistas acreditam que tudo o que ocorre no que nós conhecemos, incluindo os fatos da vida humana, deve-se às leis da natureza. Os nossos sentidos são capazes de apreender sobre esses fatos. Entretanto, admite Einstein, o nosso conhecimento dessas forças é imperfeito. Por mais que a ciência evolua, ou quanto mais ela assim o faz, os cientistas que se dedicam seriamente ao seu estudo acabam se convencendo de que um Espírito infinitamente superior se manifesta nas leis do universo. O trabalho científico, conclui ele na carta, leva a um tipo especial de sentimento religioso. Que nada tem de ingênuo.

Com alguma frequência, vejo alguns intelectuais tentando demonstrar que a crença em Deus significa a ausência da real inteligência do homem. Que se trata de uma necessidade de criar Deus para justificar o injustificável e que, com todo o conhecimento disponível, com tudo o que a evolução foi capaz de nos trazer, torna-se desnecessária a existência de Deus.

O papa Francisco, recentemente, falou sobre a convivência entre as teorias científicas e a fé. Buscar explicações para a evolução do mundo não significa desacreditar em uma Força Superior capaz de originar e de gerar a vida. Até hoje, a ciência não conseguiu chegar às razões primeiras de todas as coisas. Há um aspecto a ser considerado entre os ativistas ateus. O tanto que eles falam sobre Deus tentando fazer com que as pessoas deixem de acreditar. Se para eles, Deus não existe, por que gastar tanto tempo com Ele, então? Se alguns ateus criticam os fundamentalistas religiosos – e talvez tenham razão em fazê-lo –, precisam refletir se não estão se tornando fundamentalistas do ateísmo. Os radicalismos, os desrespeitos às crenças diferentes nos separam desnecessariamente. É possível e necessário conviver com as diferenças e aprender com esses convívios.

Desde muito cedo, afeiçoei-me às ciências sociais. Sou um leitor compulsivo. Gosto de estudar os clássicos e de reler teorias sobre temas que me instigam. A fé é um deles. Por um lado, há um caminho interessante a ser percorrido pelos filósofos e teólogos que gastaram a vida para nos dar explicações sobre a nossa presença no mundo. De onde viemos? O que fazemos por aqui? E para onde vamos? Por outro lado, enche-nos de esperança olharmos a fé das outras pessoas. A fé nascida na simplicidade e na experiência com a Bondade Infinita que nos ouve as dores e nos surpreende com milagres cotidianos. A experiência do homem com a natureza, a observação da vida nas suas mais variadas formas, o belo se manifestando em amanheceres e entardeceres frios ou quentes. E o agir humano. A manifesta caridade em mulheres e homens que, alimentados de fé, alimentam os seus irmãos.

É fato que há pessoas que não frequentam nenhuma religião e que praticam a caridade. Mas é fato, também, que a inspiração do que vem de Deus independe das religiões. As religiões deveriam nos religar ao Sagrado. Deveriam nos ajudar na ressignificação do que somos. A nossa relação com Deus repercute na nossa relação com os irmãos nossos.

Quão linda a prática e a oração de Madre Tereza de Calcutá. A mulher que nos ensinou que “quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”. Ou Francisco de Assis que assim orou: “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”.

Os livros nos abrem horizontes, a ciência nos garante mais segurança, autonomia. Retira-nos véus de ignorância sobre os mais variados temas. E é bom saber que os estudos nos trazem novidades constantes. E, ratificando ou retificando verdades, a ciência vai evoluindo. 

Mas, voltando a Einstein, o nosso conhecimento é pequeno demais para compreender a grandeza do universo e de tudo o que existe além do que conhecemos. É preciso humildade para ser cientista e para se ter fé.

Acreditar em Deus não é desacreditar no homem, é – ao contrário – valorizá-lo como a inteligência criada pelo Artista para dar continuidade à obra, livremente, respeitando apenas os limites do amor, como nos ensina Agostinho de Hipona.

Ciência e religião podem, sim, conviver, caminhar em harmonia. Uma ou outra despertam, invariavelmente, em nós, a esperança. O prazer da descoberta. A importância da busca. Einstein, cientista e homem comum, fez das pesquisas e das descobertas a sua fé: “Quando abro a porta de uma nova descoberta já encontro Deus lá dentro.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/06/2015

Inveja

Tenho um programa de televisão, todas as quintas-feiras, na Rede Vida. Chama-se “Caminhos” e vai ao ar às 23h. O tema desta semana foi “inveja”. Parte do programa é feito com os comentários, acerca do tema escolhido, de meus seguidores no Facebook. As participações são sempre muitas. Mas fiquei impressionado ao ler, em minha fan page, a quantidade de depoimentos sobre este horrendo vício que é a inveja. Pessoas que tiveram suas vidas destruídas. Perderam emprego. Adoeceram. Viram a família sendo arruinada por atitudes inexplicáveis de quem se dizia próximo, amigo.

Gostei de uma mulher, em especial, que deu uma explicação interessante sobre a diferença entre a inveja e a cobiça. A inveja, disse ela, é ainda pior do que a cobiça. A cobiça é desejar algo do outro para mim. A inveja é desejar destruir algo do outro. Ou destruir o outro. Na cobiça, eu quero o lugar dele, o que já não é correto. Na inveja, eu quero acabar com ele, mesmo que eu não possa ter o seu lugar. O que me incomoda é vê-lo feliz. Costumo dizer que o amigo verdadeiro não é apenas aquele que o ajuda nos momentos em que você mais precisa. Talvez isso seja fácil. O amigo verdadeiro é aquele que vibra com suas vitórias, porque não as inveja. A inveja é um caso sério de desamor, por si mesmo e pelos outros. O invejoso é, sem dúvida, atormentado. É mal resolvido. É ausente dos melhores sentimentos. Quem é generoso, paciente, bondoso, definitivamente, não é invejoso.

Diz São Paulo sobre o amor a que ele chama de caridade:  “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade”. Evidentemente a inveja dos outros nos incomoda, mas vale a pena refletir, se, vez ou outra, esse mal sentimento não nos toma de surpresa. Errar é parte da caminhada. Corrigir e prosseguir, também.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/06/2015

 

O menino da porteira

Histórias da nossa infância ajudam a compor o que somos. Revisitar o passado é abrir as portas de emoções que permaneceram e tentar compreendê-las. Tentar, porque as emoções são tinhosas, arredias até. Controlar as emoções é tarefa quase impossível. Talvez consigamos conviver com elas e decidir o que fazer depois que elas vêm. Mas impedi-las de vir, não sei se temos esse poder. O medo, a tristeza, a euforia, a paixão, a raiva, a alegria, esses e outros convivas do nosso sentir vêm. O depois depende da nossa razão, das nossas escolhas, da nossa maturidade. Sentir raiva independe de mim. Não permitir que a raiva faça com que eu destrua o outro depende de mim. Sentir medo não depende de mim. Permitir que o medo me paralise depende. A paixão surge como surge a capacidade de refletir sobre o outro, sobre o amanhã com o outro que agora me toma. Somos assim, frágeis e, ao mesmo tempo, detentores de algum poder que nos leva a não nos deixar dominar por uma parte do que somos. Se não podemos negar nossas emoções, talvez o melhor a fazer seja conviver com elas. Aproveitarmo-nos delas para construir relações saudáveis e abandonar as doentias.

Eu era menino ainda quando fui assistir ao filme “O menino da porteira”. Morávamos em Cachoeira Paulista, interior de São Paulo, e lá não havia cinema. Tínhamos uma casa em Caraguatatuba. Íamos nas férias. Era uma casa simples que tinha apenas um quarto grande, uma cozinha, uma varanda e dois banheiros. Dormíamos todos juntos. Meus pais, eu, meus três irmãos e a Rosa, uma mulher que ajudou a nos criar. Algumas vezes, iam também meus avós e tia Leila. Não sei como cabia todo mundo. Sei que era uma festa, desde os preparos para pegar a estrada até a chegada à praia. Minha mãe passava a noite cozinhando. Levávamos comida na praia. Eu nem dormia na véspera da viagem. Empolgação de criança. A casa ficava na rua do cinema. E foi a primeira vez que fui assistir a um filme.

Assisti a “O menino da porteira”, um dos maiores sucessos da bilheteria da época. Um filme baseado em uma canção. Uma linda canção de Tedy Vieira:
 
Toda vez que eu viajava pela estrada de ouro fino


De longe eu avistava a figura de um menino


Que corria abrir a porteira depois vinha me pedindo


“toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo


Quando a boiada passava e a poeira ia baixando


Eu jogava uma moeda e ele saía pulando

”

obrigado boiadeiro que Deus vá lhe acompanhando”


Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando (….)

Olhos fitos na tela, vivi profundas emoções. A beleza da tela grande. Do som. Das personagens. Da canção. Da história daquele boiadeiro. Tudo aquilo foi tomando conta de mim. Até o final do filme. Voltei para casa triste. Chorei. Fiquei deitado pensando nas despedidas. Não me lembro muito bem dos detalhes do que pensei, lembro que fiquei triste. E resolvi ir novamente ao cinema no dia seguinte e no outro e também no outro. Fui ver seguidas vezes o mesmo filme. E voltava chorando. Era um menino, já disse.

Quando minha mãe quis entender por que eu ia todos os dias, já que todos os dias eu voltava chorando, respondi algo de que me lembro bem: “Será que sempre o menino morre no final”? Minha mãe ainda se lembra dessa história. E de tentar me explicar que era apenas um filme. E que os filmes tinham sempre o mesmo final, independentemente da nossa vontade. A canção que inspirou o filme determinou este desfecho:

Pros caminhos desta vida muito espinho eu encontrei


Mas nenhum calor mais fundo do que isto que eu passei


Na minha viagem de volta, qualquer coisa eu cismei


Vendo a porteira fechada o menino não avistei



Apeei do meu cavalo num ranchinho à beira chão


Vi uma mulher chorando quis saber qual é a razão
”boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão


Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”

Revisitando esses tempos de inocência, penso em quanto é importante para as crianças os cenários imaginativos das várias linguagens da arte. O cinema, a contação de histórias, as conversas, o território sagrado do brincar e do conviver. Os espinhos todos, nós encontramos e encontraremos na vida. Eles nos causam emoções doídas. Mas se tivermos a oportunidade de uma educação que nos ajude a compreender nossa trajetória e nos ajude a sermos dela protagonistas essas dores nos farão mais bem do que mal. Conhecermos o sofrimento nos ajuda a compreender o sofrimento dos outros e a termos compaixão. Vez ou outra, lembro as dores que já me incomodaram. Irmãos meus que morreram. Meu pai. Amigos que se foram. Dores da injustiça – como doem as injustiças! E me lembro desse filme e daquele menino que eu gostaria que tivesse sobrevivido àquela boiada. A homenagem do boiadeiro ao amigo que partiu, prematuramente, foi o respeito em não mais tocar o berrante naquelas bandas:

Lá pras banda de ouro fino levando gado selvagem


Quando passo na porteira até vejo a sua imagem


O seu rangido tão triste mais parece uma mensagem


Daquele rosto trigueiro desejando-me “boa viagem!”



A cruzinha no estradão do pensamento não sai


Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais


Nem que o meu gado estoure que eu precise ir atrás


Neste pedaço de chão berrante eu não toco mais.

A homenagem que tento fazer aos sofrimentos que vivi é tentar compreender os sofrimentos do outro e ajudar o outro a prosseguir. Em outras palavras, é combater, a todo custo, a indiferença. Sou profundamente grato à família que tive e tenho. Aos amigos que fui acumulando. Aos que me estenderam a mão e compreenderam minhas imperfeições. E assim tento agir com os outros que encontro por aí e que de mim precisam. Que as nossas emoções infantis, as ingênuas, as puras, as dolorosas e as alegres nos ajudem a ressignificar nossa vida. O hoje se alimenta do ontem e nos ajuda a escrever o amanhã.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/06/2015

O hábito de ser cidadão

Uma senhora de 89 anos está no metrô. Em pé. Segura-se com dificuldade. Há espaço reservado para idosos. A lei garante e a placa sinaliza. Dois jovens estão sentados nesses espaços e fingem estar dormindo. Assim, a consciência pesa menos. Um homem abre o vidro de seu carro, em uma grande avenida, e joga na rua algum lixo que o incomoda. Fecha o vidro e prossegue.  E o pior. Há uma criança no carro. Sentada no banco da frente. Tudo errado. Um casal chega a um restaurante onde há uma fila de espera. O homem saca, discretamente, uma nota de vinte reais do bolso e entrega ao maitre para que providencie rapidamente uma mesa. Não gostam de esperar. Nem de respeitar os outros. Uma mãe para o carro em fila dupla esperando o filho sair da escola. Fala ao celular enquanto disfarça o estrago que faz no trânsito. Ignora as buzinas e o olhar atravessado dos outros motoristas. Um motorista fecha o cruzamento atrapalhando uma fila de carros. Buzinam de raiva. Ele finge que não é com ele. Tem pressa. E é folgado.

Quantos outros fatos do cotidiano poderíamos citar que demonstram o quanto estamos longe de exercer o hábito de ser cidadão? Cidadania não é um conceito distante. É prático. Trata de direitos e deveres. Trata do sagrado direito de ser respeitado e de respeitar. Com alguma frequência, lascamos frases como “Este país não tem jeito”, “Eita povo mal educado”, “O que falta é ética, é vergonha na cara”. Frases que dizem alguma coisa quando são coerentes com quem as diz.

Há um ditado antigo que reza: “As palavras comovem, mas os exemplos arrastam”. A construção da cidadania depende do exemplo cotidiano. De todos. Ou isso ou seremos uma sociedade hipócrita que exige do outro o que não é capaz de fazer. E mais ainda, será difícil formar uma geração cidadã com exemplos tão erráticos. Não se colhe laranjas de um abacateiro.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/06/2015

O amor na Festa de São Vito

No domingo passado, fui à festa de São Vito. A festa, já tradicional no calendário da cidade de São Paulo, acontece no bairro do Brás.

Músicas incríveis: cantores se revezam no palco, com canções conhecidas do repertório italiano. Temos muito em comum com a Itália. Nossos gestos durante a fala, nossa irreverência nos comentários, nosso jeito brincalhão de viver a vida. Bailarinos também se apresentam. E muita, mas muita comida.

Comi um macarrão delicioso. E uma Ficazza de entrada. E uma outra entrada com berinjelas e cebolas muito bem temperadas. E também uma deliciosa Ficazzella. Ah, ia me esquecendo de que comi, ainda, polenta com queijo. Vou deixar a sobremesa para contar em uma outra ocasião. Mas não foram poucos os deliciosos doces que ornaram nossa mesa.

Andei um pouco pela festa e conversei com muitas pessoas que estavam ali, em família, para aproveitar a alegria, o prazer da convivência. Conheci muitos voluntários que todos os finais de semana deixam seus afazeres para trabalhar na festa que tem, também, como finalidade ajudar uma creche cuidada com muito carinho por professores e voluntários da comunidade.

Dentre as tantas histórias que lá ouvi, uma foi especial pelo tempo de um amor que foi se transformando e permanecendo. É a história da Neide e do Modesto. Casados há 56 anos, namoraram outros seis. E continuam contando histórias um sobre o outro. Em um determinado momento, ele me disse de uma viagem que fizeram à cidade de Polignano, na Itália. Contou da emoção, das lágrimas que brotaram dos olhos em um amanhecer repleto de gratidão de sua amada. Ela contou histórias sobre ele e sobre o quanto ele gosta de contar histórias. Um falava delicadamente do outro. Quase que em segredo. “É a melhor companheira que a vida podia ter me dado”, “É um homem bom, maravilhoso”. Perguntei sobre brigas. Disfarçaram quase que me explicando que essas coisas não contam. Ficaram no tempo os estranhamentos. Sobreviveram a eles. E chegaram aos tempos da cumplicidade. Fiquei fascinado com os dois. Quanta história! Quantas lágrimas regando cicatrizes e acalmando os dias que ainda viriam! E vieram. E os afetos foram amadurecendo e decidindo que o melhor era permanecer.

Casais assim servem de exemplo em tempos em que o descarte parece mais fácil do que os encaixes. Pessoas perfeitas não existem. Existe a complementaridade. O respeito. Os dois, Neide e Modesto, mais de uma vez, falaram em respeito. E muitas vezes em amor.

Esqueci-me de dizer que comi um delicioso Riccitelli. Saí de lá bem alimentado. De deliciosas iguarias. De histórias de amor.

Fica a sugestão para visitar a festa de São Vito que vai até o dia 5 de julho. Há 97 anos, nossos irmãos italianos reúnem-se em torno da Paróquia de São Vito, santo de muitos devotos na Itália, protetor dos jovens, dos artistas e daqueles que, por um acidente de percurso, tornaram-se dependentes de droga. Santo conhecido por acudir aqueles que padecem de doenças nervosas. Tradição trazida pela comunidade italiana de nossa cidade que se mobiliza todos os anos para a grande festa. Festa alegre! Colorida!

Vale a pena saborear as comidas preparadas pelas “mammas” de São Vito, senhoras de cabelos brancos e largo sorriso, que comandam as enormes panelas fumegantes. Mulheres incríveis que sorvem o prazer do cozer, do fazer, do conviver.

E quem sabe você consiga encontrar o adorável casal de que falei ou algum outro ou ouvir alguma história de uma das “mammas”.

No dia seguinte, tive que dobrar o tempo da corrida para gastar as calorias. Mas o melhor é que, até hoje, estou revivendo o que vivi. Viva São Vito! 

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97ª Festa de São Vito

Quando: De 23 de maio até 5 de julho de 2015.

Todos os sábados e domingos, a partir das 19h

Onde: Praça de alimentação – Rua Polignano A Mare, 255, Brás

Cantina – Rua Fernandes Silva, 96, Brás

Quanto: Praça de alimentação – R$ 5 couvert artístico

Cantina – Sábado R$ 65; Domingo R$ 30

Mais informações: www.associacaosaovito.com.br

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/05/2015

 

Lembra de mim?

Ouço com alguma frequência esta pergunta: “Lembra de mim?”.  Às vezes, lembro. Às vezes, não, como todo mundo. Fico um pouco preocupado em responder que não lembro. Acho deselegante, afinal, a pessoa vem com tanta expectativa que não me parece correto desapontá-la. Mas também não gosto de mentir. Então, fico revirando minha caixa de memórias para tentar identificar o meu interlocutor. Exatamente como na divertida crônica de Luis Fernando Veríssimo: O grande Edgar. Só que, nessa história, a confusão era ainda maior, pois o interpelado não era quem o interpelador pensava que fosse.

De qualquer forma, quando sou surpreendido com a fatal pergunta, costumo sorrir, esperando  que a pessoa diga, naturalmente, de onde nos conhecemos. Algumas me salvam nessas embaraçosas situações, dizendo: “Lembra de mim? Fui seu aluno na PUC!”.  Ufa, fica mais fácil.

Dia desses, um homem me abordou e demorou a dizer de onde nos conhecíamos. Ele falou: “Professor, não tem como o senhor se lembrar de mim. Fui seu aluno no Colégio Friburgo, em Santo Amaro, há mais de 20 anos. Eu era um adolescente e nunca mais me esqueci de suas aulas”. Contou-me algumas histórias que eu contava, lembrou-me de alguns projetos. Fiquei comovido. Disse-me ele que tinha muitos medos e que eu fui significativo em sua transformação.

Sou muito grato por esse ofício de ser professor. Não sei com quantos alunos, em todos esses anos, tive a honra de conviver. Sei do poder que temos quando entramos em uma sala de aula e nos deparamos com mulheres e homens carentes de espaços e de orientação para que protagonizem a própria história. Lembro-me de professores inesquecíveis que me alimentaram de futuro e que me ajudaram a compreender que eu poderia fazer escolhas corretas. Ao final da conversa, agradeci o carinho e disse-lhe que, agora, seria eu a não me esquecer de sua gratidão. Coisas da vida. Como diria Guimarães Rosa, “Mestre não é aquele que ensina, mas quem de repente aprende”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/05/2015

Chaplin, o musical, a inspiração, o talento

Estreou, no Theatro Net São Paulo, “Chaplin, o musical”.  Só essa notícia já mereceria uma comemoração. Musicais ajudam a cidade a solidificar, cada vez mais, sua vocação como Capital da Cultura. São Paulo, que já foi considerada a locomotiva do Brasil pela sua indústria, vai se firmando, hoje, em outras áreas. A cultura é uma delas. Peças de teatro, cinemas, museus, exposições, saraus literários em todos os cantos da cidade, e tantas outras manifestações culturais, agradam os paulistanos e atraem turistas de dentro e fora do Brasil. Mas a estreia de “Chaplin” tem outros ingredientes que merecem ser degustados com prazer.

Chaplin é um dos maiores artistas de todos os tempos. Fazia emocionar sem nada falar. Na delicadeza dos seus gestos, dizia o que era necessário. Brincava com o cotidiano. Cotidiano duro teve o menino que nasceu em Londres, que viu o pai humilhar a mãe, que viu a mãe se acabando, que foi criado em um reformatório, que fugiu da polícia e assim segue o seu doloroso início. Sobrevivente dos solavancos, estreou no cinema e foi construindo uma carreira que conquistou o mundo. Ator, diretor, produtor, homem carente de dizeres que melhorassem o mundo. Errou, certamente, como erramos todos nós. Seus erros, entretanto, exilaram-no, roubaram dele o que o fez ser amado. E todos esses percursos surgem de forma correta neste musical. Em “O Grande Ditador” Chaplin, enfim, fala. O cinema estava mudando. E o seu texto traz para o contexto daqueles tempos um alento de esperança:

“Desculpem-me, mas eu não quero ser um Imperador, esse não é o meu objetivo. Eu não pretendo governar ou conquistar ninguém.

Gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos.

O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho. 

A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue.

Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados:

As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria.

O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos céticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis.

Pensamos em demasia e sentimos bem pouco:

Mais do que máquinas, precisamos de humanidade;

Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.

Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

Trecho do filme “O grande ditador”, de Charles Chaplin. Tradução: Fernando Barroso.

A outra notícia boa é que a montagem brasileira de “Chaplin, o musical” é simplesmente genial. Jarbas Homem de Mello é Chaplin. Que perfeição! É o ator se entregando à personagem. E emocionando. O elenco todo está muito bem. Direção, direção musical, coreografia, figurino, cenografia. Enfim, aplausos ao talento do artista brasileiro e à coragem e determinação dos produtores. Este musical é produzido por Claudia Raia e Sandro Chaim.

Quem puder vá ao teatro. Esta peça é uma homenagem não só ao genial Charles Chaplin, mas à genialidade do que somos capazes de fazer por aqui.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/05/2015

 

 

 

Onde anda a verdade?

Bons tempos os nossos em que as mídias sociais surgiram para democratizar a informação e aproximar as pessoas. Com alguns toques, podemos divulgar uma ideia, um evento, um chamamento a uma causa. Em pouco tempo, milhões de pessoas poderão se conectar com o que se quer apresentar. De lançamento de livros a defesa de conceitos. Desde a mobilização para uma caminhada em defesa de algum ideal até a venda de móveis ou imóveis. E tantas outras benesses. Podemos pesquisar sobre pessoas com as quais vamos nos encontrar. Sobre temas. É muita mudança em pouco tempo. Esse é o lado bom. Mas há um outro lado e, sobre esse, é preciso nos debruçarmos com alguma frequência, pois se refere a um valor que é essencial para a vida em sociedade: a verdade.

Onde anda a verdade nestes tempos virtuais? Quantas histórias absurdas são acessadas por pessoas, de todos os cantos, que acreditam no que é absolutamente mentiroso? Desde o erro até a perversidade. O erro pode ser um texto atribuído a Clarice Lispector, por exemplo, e que ela nunca tenha escrito. E de um em um, a mentira vai ficando verdadeira. Pode ser que o primeiro a afirmar tenha feito não por maldade, mas por descuido. E há o perverso. Aquele que quer destruir a imagem de alguém e que cria histórias mentirosas para que os que sofrem com a ausência de senso crítico as divulguem. Tenho escutado as mais absurdas histórias de pessoas que leram no Facebook ou no Twitter, ou em algum blog, alguma informação sobre alguém e resolveram acreditar e decidiram espalhar. Cenários ruins para quem preza a verdade.  

Podemos criticar, opinar, convergir ou divergir; tudo isso enriquece a democracia. Mas inventar é tosco, desonesto e só colabora para que o erro se sobreponha ao correto. Antes de espalhar o que se lê, não custa um pouco de cuidado. Estamos falando de vidas humanas e de seus ideais. De pessoas e de biografias que têm sentimentos e serviços prestados a uma causa. Um pouco de cuidado não faz mal a ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/05/2015

 

Entrevista concedida por Gabriel Chalita ao “The Guardian”

Education in Brazil: Laying the foundations for change

Q&A Gabriel Chalita – Education Secretary for the City of Sao Paulo

Born and raised in the state of Sao Paulo, Gabriel Chalita was named the city’s education secretary in January 2015. A prolific writer, professor, lawyer and politician, Chalita’s experience in the field of education made him the ideal candidate to steer the huge and diverse metropolis towards lasting reform in the sector. Fully behind the recently-published National Education Plan, recognition of the value of teachers is at the heart of his thinking. The Report Company met with him to find out more.

The Report Company: What is your assessment of the progress being made in education in Brazil?

Gabriel Chalita: Education in Brazil has improved a lot conceptually and the country now knows that we have to educate all children. That is a very important idea. We have also improved legislation, and I presided over the education commission in Congress. We now have a National Education Plan. This is a major achievement for the ideas of inclusion, diversity, of educating all children, of providing services for children between 0 and 3 years of age – which no one spoke of before – and of providing education for everyone, youths and adults alike. Until very recently, daycare centres were not considered a part of educational policy. Today, however, we are aware that children need to be educated from the outset.

Now that we have put all the children in school, built a lot of new schools and changed the financing of education, our great challenge is quality. How can we make them learn?

I believe we have a number of obstacles. Firstly, we have to invest more in the teaching career. Teachers need to be valued in their hearts, minds and wallets. That means improved, continuous training, helping them to give better classes, listening to teachers, telling them how important the teaching profession is and a salary policy that communicates to young people that a teaching career is financially attractive. The latter improved a little with the new minimum wage for teachers, but it is still a long way from being realistic.

Secondly, we have to increase the time children spend in school, which means developing full-time education. I had the experience of building 500 schools when I was the state secretary of education, but we also need a more encompassing, more intelligent curriculum which unites theory and practice. I got to know schools in places like China, Korea and Finland and it is amazing how music education has come back today. Sports are also extremely important. Can you imagine a child these days sitting in a chair listening to teachers speak for a whole day? Finally, families need to participate more in order to complement the work taking place in school.

TRC: What do you see as the timeline for change in Brazil’s education sector?

GC: The National Education Plan is to be applied over a period of ten years. If everything that was put forward is realised, there will be a significant improvement in education in ten years. There are very objective, realistic assumptions and goals there: 50 percent of schools in a full-time regimen, at least 25 percent of students in a full-time regimen, and a percentage of teachers that need to have masters and doctorates. We have established very clear goals but the plan is not mandatory. There is no penalty. If the country gets behind it, though, we can easily have a very different educational reality in ten years’ time.

What I achieved at state level and what I will try to replicate here is training teachers as trainers. Educational consultants – who often only have experience at university – have no idea what teachers have to deal with in the classroom. The other day, I was talking to a teacher who told me, “of course I agree with inclusive education, but I have no idea what to do when a student with a disability I’m not familiar with arrives in my class”. Inclusion is a complex problem and people need to be involved in the process. Keeping close to the teachers is crucial.

TRC: On a more regional level, what is Sao Paulo’s education plan for the coming years?

GC: Our biggest priority at the municipal level is not leaving children behind. When I said that all children are in school today, I meant in basic education, not pre-school. Sao Paulo has more than 100,000 children waiting for a place at a daycare centre. We have to address that by building new daycare centres, and there are many under construction. Secondly, there are a lot of institutions that are associated with us and that we will expand. Thirdly we have a plan to invite the private sector to donate around 100 daycare centres to us. This is a much faster and more straightforward route than the public process which needs to go through project planning, purchasing of the land, expropriation procedure if necessary, getting the approval for the project and so forth.

The second challenge is getting the children to learn. It makes no sense for children to go to school, finish a full cycle and come out the other end still not able to read or write. We want to invest heavily in teachers that provide literacy training; this is the first bottleneck. Improving things early makes it easier from then on. The problem comes when children go through years accumulating these losses. So we want to invest in the teachers at the earliest stages, who were not given their proper value. People thought that they were not important because they were just teaching small children. But the world sees it differently now – the earlier your effect, the more essential your work is.

TRC: How can you and your schools change people’s perceptions of education?

GC: What makes one school better than another is the people behind it; the head teacher, the participation of the families. At a meeting with school heads, I told them that they needed to be leaders, that is, they needed to be able to notice deficiencies and problems with students, with classrooms, with teachers and address them. We have radio, photography, dance programmes in schools. We are going to expand the cultural curriculum greatly. We already have very significant models. The challenge is expanding them; getting good experiences, good practices and replicating them elsewhere.

Sao Paulo has been through a water shortage. One very important issue is using crises like that to educate, in order for people to ration their use of water, for instance, and to be more aware of its value. Educating about that is one of the roles schools have to play. Some people think that schools should focus on teaching languages and maths. Yes, this is part of it, but participating in a school play will also help. We have to seek alternatives for the learning process.

Moreover, you need to evaluate learning all the time. Brazil has improved a lot in that respect. I don’t see it as punishment, but as diagnosis. Using that information, you can ask yourself: “why are these students having trouble in maths? What are we doing wrong? Why are they doing better in one region than another?”

Schools are not a place for teachers to simply throw knowledge at students; that is not the case anymore. Teachers are not learning facilitators nowadays, they are knowledge encouragers. They stimulate students to look for and develop their taste for knowledge. Students need to want to research, to look for information.

TRC: The private sector has also noticed the importance of education as an investment in the future of the country. What has been your experience there?

GC: When I was in the state ministry, Viviane Senna and I developed the Family School project, which opened schools on weekends for culture and sports. The project received awards from the UN and the whole world came to see it, because what we did was amazing. During these weekends, we addressed four elements of the educational process: arts, sports, health and income generation. Based on that, schools could choose what they wanted to do, together with university students.

We also developed the Partners of Education project with Jair Ribeiro and other entrepreneurs which was akin to schools being adopted. When I was in charge of Fundacao Casa, a correctional institute for troubled minors, the Bradesco Foundation also developed a project to train these youths. We even visited penitentiaries in London, because the idea behind them is very different there. At the time, we learned about several different educational systems and I believe a lot in these kinds of partnerships. There is a lot of good will out there; there are very serious people that really want to help.

TRC: How would you define your management style and what defines your administration?

GC: Dialogue and respect. As I get to know people from the system, I bring them closer. I have been working with the idea for some time that educators need to be educated. You may very well fight for your goals and ideals, but let us all be educated and polite. Show your employees, your students that you are polite. This attitude is fundamental to my administration.

Brazil is a very large country with a large population that mostly doesn’t speak English. It is evident that there are great prospects for growth, even if the government expands considerably its efforts in higher education, there is still a lot of room for private universities to flourish. I have no issue with that; this dialogue is very important. We have to praise private companies that invest in education, alongside public efforts. We need to be open. It would be wrong to want all education to be public, and there are excellent private universities today backed by listed companies that have grown and expanded. There are opportunities for growth in Brazil; we’re the land of hospitality.

Por: Gabriel Chalita (fonte: The Guardian) | Data: 19/05/2015