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Domingo de Páscoa

A vida venceu a morte, a liberdade venceu a escravidão, o bem venceu o mal. A Páscoa é a mais importante festa do calendário cristão. Ela reacende as chamas da nossa esperança. Há um sinal que merece ser revisitado. O túmulo está vazio. A vida se apresenta apresentando a paz.

Os barulhos horrendos que tão mal fizeram não foram suficientemente fortes para estancar o som prazeroso do amanhecer único. Era um domingo. Era um dia de festa. Lembravam eles da saída do Egito, do povo que ousou deixar de lado a ração medida da escravidão e partir em busca do incerto. O certo é que acreditavam em uma terra prometida, onde jorrariam alegrias e liberdade. Essa é a Páscoa dos Judeus. A passagem de uma situação para a outra. Seguindo a inspiração de Moisés, não temeram o Mar Vermelho nem o que viria depois.

Jesus morreu um pouco antes dessa festa. Os homens preferiram soltar um criminoso confesso, Barrabás, a libertar o semeador do amor.

Dias difíceis. Judas, o que caminhava com ele, o traiu. Preferiu algum dinheiro e o traiu. Ou talvez tenha se frustrado ao ver que o poder que ele queria não era o mesmo que Jesus pregava. Pedro, o amigo, o discípulo, negou-o três vezes. Fingiu que não o conhecia. Teve medo, certamente. E os outros que o aclamavam tantas vezes se afastaram. Não havia o que fazer. As mulheres, as discriminadas, foram as que acompanharam os seus últimos passos. A cruz e o seu peso. As quedas. A dor. A humilhação. Mas tudo isso foi antes de hoje.

Hoje é Páscoa. A morte já não domina. Ele está vivo. E a sua vida é um convite a que vençamos a morte também. Que morram os orgulhos e as arrogâncias, que morram as avarezas e os pretensões, que morram os julgamentos sem amor. É domingo de Páscoa.

O túmulo já não guarda o seu corpo. Foi pequeno demais. O Amor é grande. Alguns apressados queriam que a vitória ocorresse no Gólgota, o local da crucificação. Imaginavam que com o poder que Jesus tinha de fazer milagres, de curar leprosos, de devolver a vida a Lázaro, de caminhar sobre as águas, de multiplicar os pães, entre tantos outros, Ele poderia soprar e destruir aqueles homens que o matavam.

Destruir? Não! Ele veio para construir. Foi fiel à sua missão até o fim. Bebeu do cálice amargo. Amargou a solidão. E morreu. Morreu para nos ensinar a morrer. E venceu a morte para nos ensinar a, também, vencê-la.

É Páscoa. A vida está de volta. Há esperança, sim. A ponte foi construída. Basta enfrentarmos a sua travessia. Mesmo que calvários cruzem o nosso caminho, serão apenas trechos de uma jornada maior. Não nos acovardemos diante deles. É preciso prosseguir. As feridas só doem por um tempo. A pele tem o poder da recuperação. Na alma, é assim também. Não cultivemos as traições e as chibatadas. Elas ficaram para o ontem e para os dias que o antecederam.

Hoje é Páscoa. Amanhã, também. E, também, depois de amanhã.

Afinal,a vida venceu a morte, a liberdade venceu a escravidão, o bem venceu o mal. Celebremos, pois!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/03/2016

É quase Natal

Mais um aniversário para o Menino Jesus. Mais uma oportunidade para olhar para a manjedoura e ressignificar a vida. Vida brotada de um sopro de amor do Criador. Vida nascida de águas santas que jorram a esperança de um curso mais limpo. A natureza é prova disso. Das nascentes, prova-se água pura;  no percurso, os entulhos, as poluições, os pedaços de insanidades, vão deformando a pureza do que, antes, se bebia.

Com os homens, também é assim. Nascem as crianças e os seus entornos cuidam de roubar delas os futuros bons. Mas é mais um Natal que se aproxima. Quem sabe das lamas bolorentas de tantos ódios jorrados sem compaixão brotem algumas nascentes, miraculosas nascentes com o intuito de limpar o rio. Quem sabe nos ressignificados possíveis olhemos sem pressa para a manjedoura e nos afeiçoemos com a imagem do Amor feito menino. Menino que riu, que chorou, que surpreendeu, que se assustou, que se inspirou na carpintaria do mundo pelas mãos habilidosas de seu pai. Um bom José.

 Menino feito homem que ouviu de sua mãe, Maria, que havia acabado vinho naquela festa. Que havia acabado alegria. Sabia ela que, tudo guardava no coração, que sua missão era restabelecer a alegria. Ele fez o que devia ter feito. E surpreendeu.

Que o natal nos surpreenda. Não nas expectativas do que os outros possam trazer para as nossas vidas. Não nas esperas de milagres que limpem as águas cujas nascentes eram belas, como dissemos. Que o natal nos surpreenda pela nossa capacidade de compreender o poder que temos de dar às nossas vidas o verdadeiro sentido do natal. Uma vida que surge e que surpreende um mundo marcado por guerras, ódios, intolerâncias, perversidade. Era assim no tempo de Jesus. É assim nos nossos tempos.

Mulheres eram apedrejadas. Mulheres são apedrejadas. Mentiras eram espalhadas. Mentiras são espalhadas. Ausências de amor traziam dor. Ausências de amor trazem dor. E o mundo não compreendeu Jesus. Alguns queriam vê-Lo no poder. No tipo de poder que acreditavam. Outros O desprezaram quando mentiras foram espalhadas sobre Ele. Outros apenas assistiram sem entender o real significado da compaixão.

É mais um Natal. Tempo da alegria. Tempo do nascimento. Tempo de presentes que trazem significado. Tempo de ser presente nas ausências e de dar ao menino o presente que ele merece. 

Razões há para o pessimismo, o curso está sujo;  razões há para o desânimo, mulheres e homens não se cuidam mutuamente e o rio segue distante da nascente. Mas é Natal. Deixemos de lado o que causou estranheza e prossigamos. Lembrando a pureza da nascente, da vida brotada do Sopro do Criador, do Menino rindo e chorando, nascendo. É aniversário do Menino Jesus. Deixemos que Sua simplicidade inspire o encontro. Exageros não combinam com a manjedoura. Na receita da ceia, não pode faltar ternura; o resto é menos importante. 

Renasçamos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/12/2015

Maria e as Bodas de Caná

No dia 12 último, celebramos a festa da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Romeiros de cantos diversos foram à casa da Mãe para cantar a simplicidade e sonhar com dias melhores. Festa da fé. No dia anterior, em Belém do Pará, uma multidão veio de cantos diversos para caminhar com a imagem da Virgem de Nazaré. Não há competição entre uma ou outra. Trata-se da mesma Maria, da mãe de Jesus, que é lembrada com nomes diversos por razões diversas. Nossa Senhora de Fátima ou de Lourdes ou da Piedade ou de Guadalupe ou da Glória é a mesma que a de Aparecida ou Nazaré. É a mãe do Filho de Deus. É a intercessora junto ao Mediador.

No dia da Padroeira, dia 12, o evangelho da celebração traz o que é considerado o primeiro milagre de Jesus. As Bodas de Caná.

Maria estava na festa com seu filho. Festa de casamento. Maria não tinha responsabilidade nenhuma por aquele casamento. Nem pela comida. Nem pela bebida. Nem pelos convidados. Era ela convidada. Poderia estar apenas se divertindo como tantos outros. Poderia estar desligada – isso acontece com frequência em festas dos outros. Maria percebeu, entretanto, que o vinho havia acabado. As festas de casamento, na época, duravam uma semana. Cabia aos anfitriões oferecer boa comida e boa bebida a seus convidados. E o vinho era essencial para a celebração da alegria em torno do casal. As pessoas estavam aflitas e não sabiam o que fazer. E, assim, Maria intercede a Jesus para que resolva aquela tristeza.

 Há vários significados para essa passagem evangélica. Optemos por um. O vinho simboliza, nesse contexto, a alegria. A alegria dos esposos que, ali, comemoravam com seus convidados o amor.

Naquela festa, havia acabado a alegria. Na festa das Bodas de Caná, acabou a alegria. Em uma festa, em uma família, acabou a alegria. O símbolo de uma união bem sucedida estava em risco.

A imagem da festa e daquelas pessoas frente a uma dificuldade assemelha-se à vida de uma família dentro de um lar. As preocupações do dia a dia, a importância da crença na intercessão de algo ou alguém cujo desejo maior seja a restauração da alegria, da paz, da harmonia. Assim foi a ação de Maria ao pedir a seu filho que a alegria voltasse. Porque uma vida sem alegria não tem o sabor que merecemos. Maria poderia não estar atenta, mas estava. Maria poderia não ter tido compaixão, mas teve. Maria poderia ter ficado inerte, mas agiu. E a alegria voltou.

Há tanto aprendizado nessa narrativa. Um mundo com desatentos e descompromissados com a ausência de alegria dos outros é um mundo que nos diminui. Maria nos amplia, nos eleva, nos inspira. Faz-nos crer que há saídas, soluções para nossos dramas, nossos desapontamentos. Basta esperar. Basta acreditar. Em cada aparição de Nossa Senhora, uma razão especial, uma mensagem especial para resgatar a alegria. É a mãe dizendo ao Filho: “Ajude-os, meu filho! A alegria deles acabou”. A atenção de Maria, sua sensibilidade e amor, evitaram que a alegria se transformasse em tristeza e a festa que selava uma união fracassasse.

Onde está nossa alegria? Talvez o caminho para recuperarmos a nossa alegria seja refletir sobre o que ela disse àqueles homens que trabalhavam naquela festa: “Façam tudo o que meu Filho vos disser”.

O que Jesus nos diz hoje? O mesmo que disse ontem. E o mesmo que dirá amanhã: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Apenas isso. E a alegria estará de volta. A nossa e a dos outros. Porque sozinhos não há festa, não há vida, não há alegria.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/10/2015