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Criança infeliz

É de Francisco Alves uma canção que embalou muitas infâncias:

“Criança feliz, que vive a cantar/ alegre embalar seu sonho infantil”. A cena de uma criança feliz é contagiante. A ausência de preocupações ou vícios. A confiança nos adultos que, decerto, derramam amor sem economias. Os cuidados todos. Os aplausos para as conquistas de todos os dias. O engatinhar, o andar, o pronunciar das primeiras palavras. Os risos. Os choros. Os dizeres que, com algum esforço, vão expressando sentimentos, desejos. É assim que quer a canção. É assim que se espera de quem resolveu trazer vida nova ao mundo. Mas os cotidianos estão cheios de infelicidades. 

Nesta semana, conheci Karla Jacinto, escravizada desde a infeliz infância para serviços sexuais. Karla era usada por uma média de 30 homens por dia. Porque era um serviço rápido. Eles queriam apenas “dar uma aliviada”, em seus próprios dizeres. Rápido e doloroso. Demorado e doloroso. Aos 12, 13, 14, 15 anos, foi sendo trocada por algum dinheiro. E via outras meninas no mesmo calvário. Algumas levadas pelos próprios pais. Covardes os que roubam a infância, a inocência, o futuro de uma criança. 

Karla, hoje, vive testemunhando sua dor para tentar acabar com essa chaga que adoece o mundo. O mundo de hoje. O que nós vivemos. Histórias de violência sexual contra crianças são mais comuns do que possamos imaginar. Dentro de casa, inclusive. Culpa-se o álcool, as outras drogas. Culpa-se alguma demência da mente ou da alma. Culpa-se a desestruturação familiar. Talvez todos nós tenhamos um pouco de culpa, quando não enxergamos o que está ao lado, preocupados que estamos com nossos próprios afazeres. Cuidar uns dos outros é a nossa constituição humana, é o nosso respirar comum. Há muito de poluição por aí. Infelizes seres indefesos que sorvem a dor dos desequilíbrios adultos. Que a poesia inspire a vida, reza o compositor: “Crianças com alegria qual um bando de andorinhas viram Jesus que dizia: Vinde a mim as criancinhas!”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/07/2015

 

 

O dom das lágrimas

Dia desses, ouvi uma mãe explicando ao filho que “homem não chora”. O menino de três ou quatro anos fazia de tudo para não chorar, mas não conseguia. Passava os bracinhos miúdos sobre os olhos que insistiam em gotejar, tentava limpar o nariz, que também participava da dor, e nada. E a mãe agia com mais vigor, alertando : “você é um homem. E homem não chora!”.

Quem será que criou essa teoria?  Quem separou o gênero humano entre aqueles que podem e aqueles que não podem chorar? Homem chora, sim! Homem é razão e emoção como a mulher. Homem chora de dor,  de saudade, de felicidade. Homem chora as dores da alma,  é um direito inegável a qualquer ser humano. Jesus chorou diante do sofrimento da família de Lázaro. Sabia que tinha o poder de ressuscitá-lo, mas a situação daquelas irmãs inconsoláveis diante da perda o emocionou, e ele chorou. Uniu-se à nossa humanidade e chorou. 

Na educação dos filhos, não poucas vezes, as famílias cobram de uma criança a postura de um adulto. Criança é criança. Tem inseguranças próprias de criança. O adulto tem as suas. Os medos talvez sejam diferentes. Mas todos têm medo. Meninas e meninos também têm diferenças como as mulheres e os homens. Mas têm muito em comum: choram, emocionam-se, amam. É para isso que fomos criados. 

Fiquei imaginando por que aquele menino estava chorando. E fiquei pensando nos erros que algumas mães e pais cometem quando querem transformar os seus filhos em heróis. Os pais não são heróis. Por que os filhos haveriam de ser? 

Vez ou outra, é necessário sentar-se diante de um filho e chorar com ele. Pai ou mãe. Contar alguma história das tantas pedras que surgiram no seu caminho. Mostrar os fracassos e as possibilidades de superação. Porque os seus filhos passarão por histórias de fracassos, também. Todos passam. E o problema não será a queda, será a ausência da aprendizagem de que quem está caído pode se levantar. E pode chorar quando da queda. E pode chorar quando da superação da queda.

Meu pai chorava muito de emoção. Ele se foi. Minha mãe ainda chora. E eu choro também. De dor, de tristeza, de alegria. Em casa, nunca tivemos constrangimento em chorar. Nas partidas ou nas chegadas. Como é bom viver sem máscaras. Como é bom ter uma família que nos ajude a viver sem ter medo das nossas emoções. Na minha casa, sempre fomos muito unidos. Em todas as situações. Meus pais me ensinaram a ter compromisso com a verdade. Não havia mentira entre nós. Se algo de ruim acontecesse, chorávamos todos juntos.

É essa a referência de “família” que permeia minha vida, minhas ações. Minha força. Meus sentimentos. Talvez por isso a reação daquela mãe tenha me causado estranhamento. Talvez por isso tenha escrito este artigo. Precisamos nos respeitar.  Somos todos passíveis de erros. Quem determinou que precisamos ser perfeitos e fortes o tempo todo? Fraquejar é humano. Chorar, também. Vamos nos permitir – como defende Clarice Lispector. Afinal, foi-nos dado um dom. O dom das lágrimas.

Respeito Muito o Homem que Chora

Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar. 
                                                                                

Clarice Lispector (1967)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/07/2015

O menino da porteira

Histórias da nossa infância ajudam a compor o que somos. Revisitar o passado é abrir as portas de emoções que permaneceram e tentar compreendê-las. Tentar, porque as emoções são tinhosas, arredias até. Controlar as emoções é tarefa quase impossível. Talvez consigamos conviver com elas e decidir o que fazer depois que elas vêm. Mas impedi-las de vir, não sei se temos esse poder. O medo, a tristeza, a euforia, a paixão, a raiva, a alegria, esses e outros convivas do nosso sentir vêm. O depois depende da nossa razão, das nossas escolhas, da nossa maturidade. Sentir raiva independe de mim. Não permitir que a raiva faça com que eu destrua o outro depende de mim. Sentir medo não depende de mim. Permitir que o medo me paralise depende. A paixão surge como surge a capacidade de refletir sobre o outro, sobre o amanhã com o outro que agora me toma. Somos assim, frágeis e, ao mesmo tempo, detentores de algum poder que nos leva a não nos deixar dominar por uma parte do que somos. Se não podemos negar nossas emoções, talvez o melhor a fazer seja conviver com elas. Aproveitarmo-nos delas para construir relações saudáveis e abandonar as doentias.

Eu era menino ainda quando fui assistir ao filme “O menino da porteira”. Morávamos em Cachoeira Paulista, interior de São Paulo, e lá não havia cinema. Tínhamos uma casa em Caraguatatuba. Íamos nas férias. Era uma casa simples que tinha apenas um quarto grande, uma cozinha, uma varanda e dois banheiros. Dormíamos todos juntos. Meus pais, eu, meus três irmãos e a Rosa, uma mulher que ajudou a nos criar. Algumas vezes, iam também meus avós e tia Leila. Não sei como cabia todo mundo. Sei que era uma festa, desde os preparos para pegar a estrada até a chegada à praia. Minha mãe passava a noite cozinhando. Levávamos comida na praia. Eu nem dormia na véspera da viagem. Empolgação de criança. A casa ficava na rua do cinema. E foi a primeira vez que fui assistir a um filme.

Assisti a “O menino da porteira”, um dos maiores sucessos da bilheteria da época. Um filme baseado em uma canção. Uma linda canção de Tedy Vieira:
 
Toda vez que eu viajava pela estrada de ouro fino


De longe eu avistava a figura de um menino


Que corria abrir a porteira depois vinha me pedindo


“toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo


Quando a boiada passava e a poeira ia baixando


Eu jogava uma moeda e ele saía pulando

”

obrigado boiadeiro que Deus vá lhe acompanhando”


Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando (….)

Olhos fitos na tela, vivi profundas emoções. A beleza da tela grande. Do som. Das personagens. Da canção. Da história daquele boiadeiro. Tudo aquilo foi tomando conta de mim. Até o final do filme. Voltei para casa triste. Chorei. Fiquei deitado pensando nas despedidas. Não me lembro muito bem dos detalhes do que pensei, lembro que fiquei triste. E resolvi ir novamente ao cinema no dia seguinte e no outro e também no outro. Fui ver seguidas vezes o mesmo filme. E voltava chorando. Era um menino, já disse.

Quando minha mãe quis entender por que eu ia todos os dias, já que todos os dias eu voltava chorando, respondi algo de que me lembro bem: “Será que sempre o menino morre no final”? Minha mãe ainda se lembra dessa história. E de tentar me explicar que era apenas um filme. E que os filmes tinham sempre o mesmo final, independentemente da nossa vontade. A canção que inspirou o filme determinou este desfecho:

Pros caminhos desta vida muito espinho eu encontrei


Mas nenhum calor mais fundo do que isto que eu passei


Na minha viagem de volta, qualquer coisa eu cismei


Vendo a porteira fechada o menino não avistei



Apeei do meu cavalo num ranchinho à beira chão


Vi uma mulher chorando quis saber qual é a razão
”boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão


Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”

Revisitando esses tempos de inocência, penso em quanto é importante para as crianças os cenários imaginativos das várias linguagens da arte. O cinema, a contação de histórias, as conversas, o território sagrado do brincar e do conviver. Os espinhos todos, nós encontramos e encontraremos na vida. Eles nos causam emoções doídas. Mas se tivermos a oportunidade de uma educação que nos ajude a compreender nossa trajetória e nos ajude a sermos dela protagonistas essas dores nos farão mais bem do que mal. Conhecermos o sofrimento nos ajuda a compreender o sofrimento dos outros e a termos compaixão. Vez ou outra, lembro as dores que já me incomodaram. Irmãos meus que morreram. Meu pai. Amigos que se foram. Dores da injustiça – como doem as injustiças! E me lembro desse filme e daquele menino que eu gostaria que tivesse sobrevivido àquela boiada. A homenagem do boiadeiro ao amigo que partiu, prematuramente, foi o respeito em não mais tocar o berrante naquelas bandas:

Lá pras banda de ouro fino levando gado selvagem


Quando passo na porteira até vejo a sua imagem


O seu rangido tão triste mais parece uma mensagem


Daquele rosto trigueiro desejando-me “boa viagem!”



A cruzinha no estradão do pensamento não sai


Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais


Nem que o meu gado estoure que eu precise ir atrás


Neste pedaço de chão berrante eu não toco mais.

A homenagem que tento fazer aos sofrimentos que vivi é tentar compreender os sofrimentos do outro e ajudar o outro a prosseguir. Em outras palavras, é combater, a todo custo, a indiferença. Sou profundamente grato à família que tive e tenho. Aos amigos que fui acumulando. Aos que me estenderam a mão e compreenderam minhas imperfeições. E assim tento agir com os outros que encontro por aí e que de mim precisam. Que as nossas emoções infantis, as ingênuas, as puras, as dolorosas e as alegres nos ajudem a ressignificar nossa vida. O hoje se alimenta do ontem e nos ajuda a escrever o amanhã.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/06/2015

O jardim da infância, o palco da vida

“Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído, é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.” Rubem Alves

Tenho vivido experiências intensas de escuta e de aprendizado nas diversas regiões desta imensa cidade de São Paulo. Encontros com educadores, pais e alunos têm aumentado minha fome de trabalho pela educação. O carinho e a confiança dessa gente aumentam a responsabilidade e a necessidade de prosseguir com coragem e com muita humildade. Humildade de quem aprende com as palavras, com os gestos e com as emoções que têm tornado tão ricos esses momentos. Em um desses encontros com a rede, ao chegar ao CEU Vila Curuçá, um aluno, Nathan Viana, de 13 anos, quis ler um poema seu. Atentamente, eu o ouvi declamar: 

A vida é como lugares,

E esses lugares têm que ser bem utilizados.

 

O primeiro lugar é um jardim

Um jardim bem florido

Quem não aproveitou, errou.

 

O segundo é um túnel com dois caminhos

Certo e errado, muita gente seguiu o errado

Agora está soterrado.

 

O terceiro não tem jardim nem túnel

Ele é só trabalho, só trabalho…

Ele é o lugar para ver se você aproveitou os outros lugares.

 

E o quarto lugar é outro jardim,

Mas é de orquídeas que quando são tocadas fortemente

Suas pétalas caem,

Mas quando são tocadas suavemente se sentem emocionadas.

 

Devemos respeitar esses lugares e cuidar deles,

Porque eles são a nossa vida.

Deu-me o livro de presente, coordenado por duas educadoras, Maria Gorete Cordeiro e Rosmari Pereira de Oliveira. Li vários outros poemas nascidos, certamente, de várias outras experiências de vida. E alimentei-me de esperança. Saraus literários, contação de histórias, violeiros que iluminam as palavras com suas canções. Projetos nascidos da inspiração de professores, bibliotecários, alunos.

Olhei para o Nathan, tão menino e tão cheio de familiaridade com as palavras. Um jardim florido na infância de todos nós, celeiro dos frutos que daremos, dos fluxos que haveremos de viver. Fala o pequeno poeta em escolhas erradas, em trabalho, em suavidade.

Vi-me, ali, na minha infância, quando comecei a escrever. E, em pensamento, fui conduzido pelos versos do Príncipe dos Poetas, Paulo Bomfim. 

EU SOU AQUELE MENINO

Eu sou aquele menino

Que o tempo foi devorando,

Travessura entardecida,

Pés inquietos silenciando

Na rotina dos sapatos,

Mãos afagando lembranças,

Olhos fitos no horizonte

À espera de outras manhãs

(…)

Que varandas me convidam

A ser criança de novo,

Que mulheres, só meninas,

Me tentam cabular

As aulas do dia a dia?

Eu sou aquele menino

Que cresceu por distração.

Nesses encontros, contemplo os talentos que se revelam e me preocupo em abrir as cortinas do palco da vida  para que cada um desempenhe o seu papel. Que se tornem protagonistas da própria história, com um repertório ampliado que lhes possibilite escolher, com uma postura ética, que os ajude a perceber que conviver com respeito é o melhor caminho para a construção de uma sociedade de paz.

Há muitos que ainda estão à margem. Há muitos que padecem da ausência de afetos dentro das próprias casas. Há muitos que engatinham sem perspectivas de levantar porque lhes falta a mão necessária. O amanhã depende do hoje, dos alicerces que estamos levantando. É a educação a política pública garantidora das demais. Todo esforço é essencial para não deixar ninguém para trás. 

Agradeço aos educadores e aos alunos desta rede imensa pela valentia de persistir, de realizar e de sonhar. E pelos jardins que plantam em minha alma.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/03/2015 

Gabriel Chalita participa da Jornada Mundial de Direitos Humanos

Gabriel Chalita participou, no dia 16 de setembro, da Jornada Mundial de Direitos Humanos, promovida pela Escola Paulista de Magistratura e pelo Grupo do Capitalismo Humanista da PUC. Juntamente com juristas e outros professores, Chalita ressaltou a importância de assegurar os direitos humanos no período da infância e da juventude: “Uma criança consumida pela ausência de possibilidades é um crime contra a dignidade humana.”

Durante o debate, os mais abrangentes aspectos da proteção aos direitos humanos também foram discutidos. Esse encontro marcou mais uma data importante para a Jornada Mundial de Direitos Humanos, que começou em 6 de agosto, dia em que Hiroshima foi atacada por bombas nucleares, e termina em 10 de dezembro, aniversário da Declaração dos Direitos Humanos.

Fonte: assessoria de imprensa | Data: 17/9/2013