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É quase natal

Todo natal traz um clima diferente para a cidade. Alguns gostam muito. E ficam felizes com os enfeites, as músicas, a correria para as compras. Outros ficam tristes. Lembram-se de outros natais em que a vida era diferente. A vida é sempre diferente. O que pode significar esse clima diferente?

Nos cartões enviados, sempre há alguma frase de esperança. Algum dizer de felicidade. Algum sonho compartilhado de que os valores mais caros à humanidade merecem ser resgatados. E as ações? São as ações que podem fazer com que o natal não seja triste.

O natal é a festa do nascimento do Menino Jesus. O que se pode dar ao aniversariante? Quando crescido, Ele ensinou que toda a Lei e todos os ensinamentos se resumem a este: “Amar a Deus e amar ao próximo”. Quem é o próximo que poderia ser amado neste natal? Pode ser alguém que viva em um asilo ou que viva em um abrigo ou que esteja em algum hospital. Há muitas ações generosas a serem realizadas sempre, mas, em especial, nesse período. Mas o próximo pode ser também quem é da família e com quem se está brigado. Pode ser um vizinho com quem há anos relações foram cortadas. Pode ser um parente distante que aguarda um telefonema.

Uma ação de amor em um natal ganha um significado completamente diferente. Diferente, porque vem carregado de esperança. De novidade. De nova vida. Seja um gesto de ajuda ou de perdão. Um olhar para aquele que estava invisível, um cuidar para aquele que estava abandonado. Uma canção para alegrar corações entristecidos. Ou um gesto delicado de tornar-se um escrevedor de cartões a parentes distantes, ajudando aqueles a quem faltam palavras escritas, mas abundam amor e saudade. O “bom samaritano” pode se multiplicar nas ações mais singelas de cada natal. Aí a manjedoura estará preparada para o Menino que quer chegar. Mas que precisa ser convidado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/12/2016

Saber Viver – 60! Década de Arromba – doc musical!

A canção “É preciso saber viver” encerra um lindo musical que está em cartaz, no Rio de Janeiro, no Teatro NET. Depois se apresentará em São Paulo.

Não vivi a década de 60. Mas vivi as suas canções e as suas personagens. Frederico Reder que idealizou, escreveu (ao lado de Marcos Nauer) e dirigiu o espetáculo falou sobre os sonhos de menino e as escolhas que fez na vida para chegar onde chegou – nada de ilusão ou solidão. Ação.

No palco, um desfile de atrizes e atores impecáveis. Todos afinadíssimos. Arranjos muito bem feitos.

Na vida, é preciso que seja assim. Se se desafina em ensaios, corrige-se, aprende-se e se lança a viver corretamente. Os arranjos também são escolhas que fazemos. E quando as escolhas nos permitem olhar para trás e agradecê-las, soubemos viver. Enquanto as músicas nos embalavam no palco – as roupas, as imagens, as lembranças de fatos que alguns ali viveram, que outros souberam -, eu olhava para a plateia e via quem eu via na televisão nos idos da minha infância.

Perto de mim, estava Ângela Maria. A rainha. A cantora que conquistou o Brasil. Um pouco atrás, Erasmo Carlos. Do outro lado, Wanderley Cardoso, Jerry Adriane. Eu os olhava como olhando para os tempos da inocência.

Na televisão da minha casa, assistíamos a Silvio Santos. Desafiávamos a vencer o “Qual é a música?”. Torcíamos para esse ou aquele cantor por razões que nem entendíamos. Emocionávamo-nos com “A porta da esperança”. Víamos “Almoço com as estrelas”. Uma vez me perguntaram na escola o que eu queria ser quando crescesse. Eu respondi: “Airton Rodrigues”. Nem sei por que dei essa reposta, talvez porque eu quisesse estar casado com Lolita Rodrigues. Talvez porque eu gostasse de ver aquele almoço e ouvir aquelas canções. Ríamos, em casa, das irreverências do Chacrinha. Do seu bacalhau. Não sabíamos quem era a sua Terezinha. E, vez em quando, eu usava o meu quadro negro, presente de algum natal, para dar aulas para minha avó. E ralhava com ela por conta de alguma desatenção. Ia nascendo ali minha vocação para o magistério.

Voltando ao teatro, cantei junto várias músicas. Lembrei-me de tantos que se foram. Meu avós, meu pai, tios, irmãos. Músicas que nos embalaram. Têm esse poder as músicas. O poder transportador. O poder que revela o quanto somos acumuladores. Acumulamos lembranças, sentimentos, vida.

As participações de Wanderléa foram muito bem pensadas. Desde sua chegada ao palco cantando “Ternura”, a Ternurinha mostra quanto está linda aos 70 anos de idade. “Foi assim” trouxe nostalgia a tantos que estavam ali. A vida vai sendo. Os instantes vão se sucedendo. E os que partem não voltam. Mas, quando as escolhas são corretas, mesmo as pedras que o poeta nos ensinou que sempre estariam no meio do caminho se abrem. E delas surgem caminhos tantos para prosseguir. Em qualquer idade.

A vida é um conjunto de instantes. Que não aceitam permanecer mais do que o combinado. Do que o decidido. Há tempos em que, se pudéssemos, parávamos o tempo. Há outros que gostaríamos de sugerir que passassem mais apressadamente. Podemos até sugerir mas, decidido, ele não nos obedecerá. O tempo tem o seu tempo. Viver da nostalgia nem sempre é bom. Lembranças nos fortalecem se soubermos viver o presente. Comigo estava o professor Serpa, um menino que já passou dos 70. Via em seus olhos os dois tempos. O tempo do passado em que ele se emocionava com o que via. E o tempo do presente em que ele, à frente da CESGRANRIO, é um dos homens que mais investem em cultura nos nossos dias. Generosa presença na vida de tantos jovens. Artistas que estão começando a sua viagem.

Lembranças nos proporcionam viagens. Viajei para o interior. O meu e o da minha cidade. Lembrei-me do único televisor que tínhamos e de uma tela que era colocada na frente dele para dar alguma cor. Lembrei-me de subir pela janela e girar a antena para sintonizar um ou outro canal. Eram poucos, naturalmente. E isso não faz tanto tempo assim. Lembrei-me de que naquela fotografia estávamos juntos. Faltam muitos. Onde estarão agora? Essa é uma outra conversa. Mas naquelas conversas havia quintal, havia plantação, havia brincadeira na chuva, havia alegria. Hoje, também há alegria.

É preciso saber viver. Assim terminava o espetáculo. Assim continuava a vida.

“É preciso ter cuidado pra mais tarde não sofrer”. Escolhas. Mais uma vez fiquei pensando nas escolhas certas que fizeram esses cantores. Escolheram cantar a Jovem Guarda. Guardar nossos domingos de frios inesperados, aquecer nossa memória de bons tempos.

A arte tem esse poder. Um poder de aquecimento. Fazia calor naquela estreia. Me vi menino. Muitos se viram assim. E saí preparado para alguns invernos. Eles sempre vêm. Mas vão.

Parabéns, Frederico Reder, pelas suas escolhas. Inspiracionais. “É preciso saber viver”.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Pauloe O Dia- RJ) | Data: 18/12/2016

Escolas e youtubers

Há uma febre entre adolescentes e jovens querendo fazer sucesso nas redes sociais. Tornar-se celebridade na internet parece mais simples, mais barato, mais rápido.

Há youtubers de vários estilos arregimentando milhões de seguidores.

Vídeos com humor. Vídeos que despertam curiosidade. Vídeos com dicas de beleza, saúde, elegância, alimentação etc. Cada um vai construindo o próprio estilo. Há aqueles que promovem suas músicas, sua arte.

E o que isso tem a ver com a educação formal?

Há escolas que já perceberam que o processo de ensino e aprendizagem é facilitado quando o aluno compreende a razão pela qual está aprendendo.

Há uma fase na vida em que a maturidade cognitiva admite diletantismos intelectuais. Abstrações. Elegâncias que fazem bem à alma. Sem essa maturidade, entretanto, é preciso que o aprendiz entenda a razão pela qual ele está aprendendo. Aprender a ser um youtuber envolve vários processos do conhecimento. Aprende-se a falar, a se comunicar com clareza, a ter um estilo. Só aí já vale o longo percurso. Falar corretamente é desafiador. Aprende-se a pesquisar. Quem quer escrever, dirigir ou apresentar vídeos sobre nutrição tem que aprender a escolher onde e como pesquisar, tem que saber relacionar e sintetizar. Aprender a construir um texto. Próprio. Autêntico. Seja no humor ou no jornalismo. Na arte de divertir ou na arte de transformar.

Há uma outra questão fundamental nas escolas que ensinam a ser um youtuber. Os alunos têm um problema para resolver, um vídeo para produzir. E precisam, para isso, percorrer todo o processo de execução. E chegam a um produto final.

Escolas preparam para a vida e se valem da vida para se reinventarem.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/12/2016

Medo de falar em público

Ela voltou para a escola. Para a faculdade. Faculdade de Direito. Na mesma sala em que o filho. No início, teve algum receio. Seria a mais velha da turma? Conseguiria conviver com os demais? E o filho? Acharia estranho ter a mãe na carteira ao lado? Rompeu essas incertezas e iniciou uma nova fase da vida. Filho e mãe iam juntos e estudavam juntos. Ela, viúva, teve de dar conta da criação deste e dos outros três filhos. Não teve como estudar antes. Mas sempre quis fazer faculdade de Direito. Gostava de falar sobre o exercício da cidadania, sobre os direitos e os deveres, sobre a justiça. Sempre teve horror a injustiças. Viveu isso na pele. Sofreu calvários intermináveis com a saúde precária do nosso país. Fez de tudo para que o marido fosse atendido com dignidade, não foi fácil, Teve de brigar com planos de saúde. A família fazia uma economia enorme para pagar, todo mês, o plano. E quando precisaram…mas o marido se foi. A dor da separação era confrontada com a certeza de que havia feito tudo o que estava ao seu alcance e que o marido também tinha o direito de descansar em paz.

E lá estava ela, agora, em uma nova fase da vida. Nas provas, ia muito bem. Estudava mais do que o filho. Tinha receios de, com a idade, ter mais dificuldade para memorizar o necessário. Não era isso que se mostrava, entretanto. Enquanto o filho frequentava algumas festas, ela frequentava o abajur e os óculos grossos para ler e reler a matéria, para estudar, para não ficar sem o conhecimento necessário.

Eis que nos conhecemos. Em uma palestra. Mãe e filho. Eis que ela me contou a sua história e detalhou as suas superações. Mas havia algo que a incomodava muito. O medo de falar em público. “Minhas mãos ficam suadas, eu ensaio uma coisa e sai outra, seguro o microfone longe da boca, coloco um ‘né?’ depois de cada frase, me perco, não sei como terminar e, quando acabo, sinto que não me saí bem”. O filho discorda da mãe. Diz que ela está melhorando, que tem que vencer a insegurança. Ela volta ao tema e diz que, às vezes, sente que não tem o dom de falar em público.

Eu tento jogar alguma luz. “Dom? Falar em público se aprende. O medo é natural. Medos são enfrentados quando há uma causa maior. Fazer justiça é uma causa nobre. É um fim nobilitante. Ter uma causa é ter o conteúdo. Falar é a forma de levar esse conteúdo”.

E prosseguimos na conversa. Ela quis saber da minha história. De como eu havia aprendido a falar. Viajei um pouco no tempo. Contei dos meus medos, das minhas inseguranças, dos meus equívocos. Ela foi prestando atenção a cada detalhe da narrativa. Seus olhos foram ganhando mais brilho. “Então, você também tem medo de falar em público?” Respondi positivamente. Expliquei que, se esse medo não paralisasse, não era ruim. Que o medo nos tornava mais cuidadosos. Que nos dava a humildade e a responsabilidade necessárias para sabermos que era preciso preparar cada fala, inclusive em respeito às pessoas que estavam ali para nos ouvir.

Outros alunos vieram participar da conversa. Ela foi vendo que, de fato, esse é um medo mais comum do que se imagina. Mas é possível conviver com ele. E usar dele para aprimorarmos nosso poder de convencimento. As técnicas ajudam, mas o essencial é a causa que nos move, é a verdade que faz com que queiramos ajudar nossos interlocutores a melhorarem a si mesmos e ao mundo. As utopias sempre foram aliadas dos grandes oradores. Mandela tinha uma causa clara que ultrapassava todo o mal que lhe fizeram. Seu povo, sua pátria, o movia para falar cada vez melhor. Assim foi com Martin Luther King e com Gandhi. Assim a multidão se ajeitava para ouvir as parábolas de Jesus. A mãe me olhava concordando. “Mandela era bem mais velho do que eu e queria mudar o mundo, não é? Eu também posso”. Líderes são inspiradores. Carecemos deles. Ela vai ser a oradora da turma. Tenho certeza de que fará um lindo discurso. E o filho estará lá. E os outros alunos também. Inspirando-se em quem soube recomeçar, em quem luta para transmutar as injustiças sofridas em um sonho de com elas acabar. Oxalá todos os profissionais que atuam com o Direito tivessem esta “causa”. A causa da justiça.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 11/12/2016

Falta “um sonho”

Dia desses, entrei em um táxi e fui em direção a uma palestra em uma universidade de São Paulo. O rádio estava ligado, sintonizado em uma emissora cujos comentaristas tentavam decifrar os imbróglios do momento atual da política. O taxista que já havia me cumprimentado com muita gentileza, ouvia atento aos comentários, e resolveu dar a sua opinião. “Sabe o que está faltando na política? Um sonho. Falta um sonho”, insistiu ele.

Dei margem à conversa. Quis entender melhor. “O que seria um sonho?”. E ele prosseguiu: “Cada um pensa em si. Ninguém se preocupa com ninguém. Um é mais ambicioso do que o outro. Quem é deputado não quer deixar de ser. Não vai apoiar reforma política que coloque em risco a sua reeleição. Então, não vai ter reforma política”. Eu ia concordando e dando espaço para que ele prosseguisse: “O sujeito ganha para prefeito e não está satisfeito. Já quer ser governador. Ganha para governador e só pensa em ser presidente. É muita ambição e nenhum sonho”.

Fiquei refletindo sobre aquelas palavras. Sobre o descrédito da população em relação aos políticos. E concordando com a ausência de sonhos. O que leva alguém a entrar para a política? O que faz com que uma pessoa tenha um discurso antes e tenha outro depois da eleição? O que é o poder? Um projeto pessoal? Uma vaidade? Uma loucura? Uma forma de se dar bem na vida? Ou um sonho de melhorar o mundo? Como fazer com que as pessoas consigam discernir, consigam separar uns dos outros, como se separa o joio do trigo? Há tanta mentira. Há tanta dissimulação. E falta “um sonho”.

Saí do táxi agradecido. Quanta sabedoria havia naquelas palavras. Saí alimentado pela verdade e discernimento da opinião daquele senhor que circula com o seu carro pela cidade, conduzindo as pessoas e acreditando que um sonho muda muita coisa.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/12/2016

Sobre as esperas

Esperar é um verbo que, necessariamente, é conjugado por todas as pessoas. Por toda a vida.

A espera pode ser agradável como pode ser penosa. A espera de um amor que vem ao longe, acenando, trazido por uma maré boa.

A espera de um filho. O tempo do peso. O tempo da dor. O tempo das incertezas há de ser recompensado com uma vida nova que surge. Quantas esperas se sucederão por esse mesmo filho. Noites indormidas em intermináveis adolescências. E o barulho da chegada avisa à espera que volte em uma outra ocasião. Sono bom quando o filho descansa ao lado. A espera de um amigo. Afetos amenizam ausências e acalmam ansiedades. Os ansiosos sofrem mais com as esperas. Querem, para hoje, o que só o amanhã pode resolver. Brigam com o tempo. Brigas inglórias. O tempo é que decide o tempo de decidir.

Feridas têm o seu tempo de cicatrização. Dores de amor, também. Um amigo chorava, há alguns dias, pela mulher que resolveu partir. “Como viver sem ela? Como mudar o rumo de tudo? E os projetos em comum? E os sonhos compartilhados? E os entardeceres prometidos?”, Chorou dias e noites. Poucos, penso eu. E eis que subitamente surgiu um novo amor. “Dará certo?” – perguntava-me ele. “Comece, espere para ver o que acontece. Tente não comparar, tente usufruir da brisa nova, desconhecida”. Um amor novo traz sentimentos contraditórios. Há uma avidez para que tudo dê certo. Há um medo pelo recomeço. Tudo de novo. Tudo diferente.

A espera de um encontro. Um encontro desses encontrados em maneiras antigas ou novas. Em uma esquina ou em uma página. Em um olhar ou em um revelar. Quem somos nós que buscamos sempre? Que carecemos sempre? Que nos acotovelamos para ver quem passa na avenida? Quantas avenidas presenciaram desfiles de presenças aguardadas. Nas janelas, debruçavam-se sonhos, esperanças, espera.

A queda de um avião é dor horrenda. Que ousadia é essa da morte de levar o meu amor? O amor da outra, do outro. O pai, a mãe, o filho, a filha, o amigo, o jogador, o torcedor. Torcemos para que o nosso amor seja protegido. Para que fique. Para sempre.

Não há como ficar para sempre. Depois do adeus, o luto, a dor. Depois, a espera de dias melhores. O inverno não dura para sempre. O frio cobra seu preço e depois vai. É preciso viver as outras estações.

A espera da idade certa para se sentir livre. Um dia se saberá que a liberdade é muito mais complexa do que poder fazer o que se quer. A liberdade é exigente, é caprichosa. Ela nos desafia todos os dias. E quem não sabe esperar jamais será livre.

A espera da vez em uma fila qualquer. A espera no carro para que o sinal se abra. Quantos sinais fechados surgem sem que compreendamos que é melhor esperar. É um erro dar a partida sem esperar que o sinal abra. Acidentes podem ocorrer. O correto é permanecer o tempo certo e, depois, ir em frente com um pouco mais de segurança.

A espera do amanhecer. A noite pode bagunçar a visão. Pode nos confundir. Opções erradas nos trarão dor. O amanhecer há de clarear muita coisa. A maré revolta também passa. Ir adiante não demonstra coragem, mas temeridade. É melhor esperar o convite do mar e só assim a ele se lançar.

As árvores esperam o tempo certo de oferecer os seus frutos.

Os ramos que enfeitarão com suas flores também sabem disso.

E por que nós, os chamados racionais, queremos para ontem o que pertence ao amanhã? Por que brigarmos por antecipações?

Tempo bom aquele em que cartas eram esperadas.

Românticas cartas de amor. Chegavam no tempo que queriam.

Ouvi de um pai, irritado com o filho, gritos anunciando que ele não era mais criança. Imaginei a mente em ebulição daquele menino de 6 anos.

Seria o quê, então?

Antecipar a maturidade é um poder que não temos. Como também não temos o poder de segurar as estações nem as idades nem os bons momentos de euforia. O rio tem seu curso. A vida também.

Esperar que o rio pare é não compreender a essência do rio. Serve para a vida. Serve para a boa calmaria. Tão necessária nas relações. Por que dizer com pressa sobre o ódio que nos domina? Por que falar do que não se tem certeza? Por que atacar quem amamos? Por que essa verborragia agressiva? Se esperássemos um pouco mais, diríamos sem o tom cortante, sem as palavras bagunçadas, sem as expressões erráticas.

Quantos afetos fogem depois de dizeres apressados. Desperdício. Afetos são conquistas que vieram para permanecer. Inclusive no tempo das esperas. Para perfumar, quem sabe.

Só sei que esperar é um verbo que, necessariamente, é conjugado. Então, aprende – outro necessário verbo.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O dia – RJ) | Data: 04/12/2016

A alegria final

Quem entende a morte?

Quem entende sua pressa?

Quem entende a necessidade de interrupções prematuras? Vidas cheias de vidas que se vão.

No meio da dor, um vídeo circulava. A alegria daqueles jovens. Os ditos sobre o futuro. As brincadeiras. A irreverência. Jogaram juntos tantas vezes. Venceram. Perderam. Comemoraram. Lamentaram. Estranharam-se, certamente, pela falta de garra em uma outra partida. Abraçaram-se em jogadas certeiras. Choraram em vitórias. Falaram sobre erros. No campo e fora dele. Reclamaram da não escalação. Na escalada da vida, foram companheiros. Gratos, certamente, pela intensidade com que viveram. A gratidão, inclusive, por estarem juntos naquele voo.

Era a alegria final. Pouco depois, o voo voava em outra direção.

A fé nos aquece nesses dias frios. Ilumina-nos na escuridão das perguntas sem respostas.

Todos os dias há chegadas e há partidas. Pessoas nascem. Pessoas morrem. Deveríamos nos acostumar a isso? Como? Como convencer a nossa dor? A nossa tristeza? Nem a fé tem o poder de enxugar as lágrimas. Mas a alegria daquele vídeo diz algo. Foram vitoriosos para uma outra partida. Partiram os que aqui ficaram. Familiares. Amigos. Todos nós, cuja matéria-prima é a sensibilidade.

Partiram? Ficaram. Em um misterioso ficar. Porque é nisso que acreditamos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/12/2016

E a verdade?

A conversa discorria sobre a importância de se falar bem em público.

Há, falavam os interlocutores, muitas técnicas de convencimento. O olhar. O movimento das mãos. As pausas. O tom da voz.

Falavam alto. Era possível compreender cada pequeno detalhe.

E era possível perceber a preocupação que tinham com o tal do convencimento.

Diziam que alguns se negavam a fazer o tal treinamento. Que se sentiam suficientemente seguros. Que sabiam, inclusive, enganar.

Foi aí que a prosa degringolou. As tais técnicas tinham uma finalidade: fazer parecer verdade o que verdade não era. Era quase que um curso sobre “a mentira” ou sobre “o engodo”.

Comentaram sobre um deles, um político, que foi tão enfático na entrevista, que venceu. Que soube olhar, movimentar as mãos, dar a pausa correta, usar o correto timbre de voz, que ninguém mais o perturbaria com aquela história. Riram os dois da ardilosidade do companheiro. “Ele chorou na hora certa”, vibrou um dos dois. “É importante, sensibiliza as pessoas”, concordou o outro. “Tem que saber despertar o sentimento de pena adormecido”. E riram e riam ainda mais falando quão ignorante são as pessoas. Qualquer coisa as leva para um lado ou para outro.

Ora, vejam. A oratória é uma arte antiga. Sobre ela se debruçaram muitos pensadores. Platão critica os que se valem de artifícios da linguagem para o convencimento. Aristóteles discorda do mestre e valoriza a retórica como uma arte de dizer bem o bem. Forma e conteúdo. É preciso verdade, queria o filósofo, para que o que deve ser dito seja dito e convença.

Não há problemas em se estudar como falar bem em público. Para plateias ou para os que assistem pelos meios eletrônicos. Saber convencer. Saber utilizar a linguagem corporal. Saber como se inicia, como se desenvolve e como se conclui uma oração. A retórica se ocupa disso. E traz com ela outros elementos, como a hermenêutica, que trata da compreensão, da interpretação; e a heurística, que trata do compromisso com a verdade.

E é sobre a verdade que eu quis perguntar àqueles dois. Chorar é possível desde que haja razões para tanto. Ir e vir com palavras e gestos. Tudo isso é possível e é preciso.

Mas a pergunta fundamental é: e a verdade? Não precisa um político ou um pregador ou um jornalista ou um palestrante ou quem quer que se disponha a convencer pessoas ter um compromisso com a verdade?

Decorar fórmulas para enganar é desprezível.

Um dos piores problemas da política é a mentira e seus outros nomes, a dissimulação, a enganação, a hipocrisia.

Fala-se não a verdade, mas o que deve ser falado para minimizar danos. O maior dano é precisar mentir. Depois do malfeito, o ensaio para criar uma história e sair-se ileso.

Tristes prosas em que os risos nascem do aplauso ao que soube mentir com mais categoria porque dominava algumas técnicas.

Proseemos sobre outras canções. A canção da verdade, da sinceridade. Errar é parte do caminhar. Mas compete aos caminhantes um arrependimento sincero, uma correção necessária, um dizer verdadeiro a si e aos outros. A mentira também está presente quando o auditório é o próprio falante. Convenço-me a mim mesmo de que o erro não é tão errado assim. E por isso persisto enlameado.

Depois dessa conversa, ouvi uma professora falando sobre uma aluna com síndrome de Down em sua sala de aula. Da sua evolução. Da riqueza de sua convivência com os outros alunos. Vi tanta verdade naquela emoção, que agradeci.

Há esperança.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia (RJ)) | Data: 27/11/2016

Alimento da alma

Recebi um pedido de uma professora, Neilce,do interior do Rio de Janeiro.

O pedido era simples. Pedia que eu fizesse um pequeno texto para ler para os seus alunos. Eles haviam lido “A Ética do Rei Menino” e estavam trabalhando, principalmente, o Livro VIII que trata sobre a importância da amizade.

Rapidamente, aceitei. É um privilégio para um escritor saber que seus textos são lidos, refletidos, trabalhados, ainda mais por crianças.

Fiquei imaginando a cena daquela sala e de tantas outras salas em que professores instigam seus alunos a acreditar que terão dias em que precisarão viver a liberdade, os valores, as conquistas.

Ela disse que ficaria honrada se eu pudesse atender o pedido. Honrado fiquei eu, um pedido desses é um alimento para alma. Do professor. Do escritor.

A amizade é um perfume que nos alivia diante de odores indesejáveis de egoísmos e de arrogâncias. A amizade é uma ponte que nos transporta para espaços iluminados e nos retira do breu da insensibilidade. A amizade é um presente que o Criador entregou aos seus para que, na pureza das intenções, pudéssemos compreender um pouco do mistério de estarmos aqui.

Os amigos são amigos desinteressadamente. O interesse reside apenas no enlace, no aconchego, no caminhar de mãos dadas.

Aqueles alunos estão no início de uma jornada. Que será necessariamente penosa. Que trará dissabores. Que apresentará o sofrimento como condição essencial da própria existência. Mas que, ao mesmo tempo, abrirá os olhos para cenários encantados, para pessoas encantadas, para sentimentos que cantam a beleza da vida.

Vida que se alimenta de cotidianos, de encontros simples, de pedidos como esses que eu recebi.

No turbilhão de tantas notícias ruins, não nos afastemos dos problemas, mas, vez em quando, nos alimentemos do que permanece.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/11/2016

Sobre a inocência

Era menina ainda quando disse que gostaria de ser freira ou médica ou professora. Um dia, mudou de ideia e afirmou que seria bailarina. Foi em uma festa, em um final de ano, em uma escola, em algum canto por aí. Cantaram, também, alguns meninos. Um coral preparado com esmero por uma professora que sorria ao seu piano vendo seus pupilos brilharem. Estavam todos uniformizados. Até os cabelos. Até o jeito de mexerem os braços e agradecerem os aplausos.

Era uma escola pública. E o público composto, majoritariamente, pelos familiares vibrava com os seus. A menina, a que já quis ser tanta coisa, procurava os pais. Como fazem as meninas e os meninos nessas apresentações. Há muitas pessoas, mas o olhar mais doce é revelado, primeiramente, aos pais.

Ela os encontrou. Estava vestida com a roupa de bailarina. A mãe não se continha de emoção. Era a única filha. A outra se fora prematuramente. Atropelada por um trem. Isso mesmo. Estavam alguns amigos atravessando a linha de ferro. Ela teve medo e parou. Eles insistiram, e ela foi. Foi, titubeante, e aconteceu o horror. Um corpo sem vida esmagado por um trem.

A irmã nunca se esqueceu disso. Ela não estava junto. Era muito pequena. Mas ouviu tantas vezes os relatos, viu tantas lágrimas e gritos de dor de sua mãe, de seu pai, que a história a frequentava desde sempre. Mas, ali, o sorriso dos pais parecia uma pausa à dor que viveram. Uma se foi. A outra brilhava.

O tempo foi passando e a menina foi crescendo. Sempre muito religiosa. Sempre muito prestativa com os seus. Achava-se responsável por trazer alegria. E fazia sua parte. A menina virou mulher. Casou. Teve filhos. O primeiro recebeu o nome da irmã. O segundo, o do marido. Teve o privilégio de se casar com o homem dos seus sonhos. No dia em que foi bailarina, ele foi cantor. E se olharam, ainda sem saber o que seriam. O terceiro filho também veio.

Ele não tinha mãe. Apenas o pai e ninguém mais. A mãe morrera em um acidente de carro em que o pai era o motorista. Não teve culpa. Sentiu-se culpado. Acreditava ele ser o responsável por trazer alegria ao seu pai.

Ele formou-se médico. Ela professora. Escolheu preencher os seus dias preenchendo vidas de significados. Lembra-se ainda do primeiro dia em que pôde entrar em uma sala de aula e ensinar. Dos olhos das crianças. Das suas dúvidas – das crianças e das dela. Do medo de tropeçar. Tropeçou, talvez, algumas vezes. Mas prosseguiu. A filha que recebeu o nome da irmã que se fora resolveu ser freira. O filho com o nome do pai é bailarino. E o terceiro é também professor.

Quando se lembra dessas histórias, lembra-se de um tempo que se foi. De uma inocência difícil de ser reinventada. Lembra-se do primeiro dia em que ela e o marido deram as mãos. Eram adolescentes, apenas. Ele a pediu em casamento. Ela disse que perguntaria à mãe. Ele disse que não era para aquele momento, mas que já queria selar um secreto compromisso de amor. Ela sorriu. Achou bonito. Ele a beijou no rosto. Ela ficou corada. E se despediram. Só começaram a namorar quando estavam na faculdade. Casaram-se depois da formatura dela e um pouco antes da formatura dele. Os pais estavam presentes.

O padre pediu para que os dois improvisassem algum dizer de amor. Ele disse que se apaixonou por ela quando a viu de bailarina. Ela apenas sorriu e, timidamente, disse que se apaixonou por ele no mesmo dia.

Os pais dos dois já não mais estão com eles. Foram encontrar os que já se foram. Há os filhos. Há lembranças de ontem e muitas vontades a serem realizadas. Nos dois, há um sentimento que permaneceu das dores que viveram. Têm eles a consciência de que nasceram para trazer alegria. Aos pais. A eles mesmos. Aos alunos e pacientes. Aos que encontram por aí.

Quando veem alguma fumaça, lembram-se dos tempos da claridade. Na idade de hoje, são capazes de viver as idades que se foram. Sabem que não são perfeitos. Estranhamentos há em toda família. Mas há algo que os mantém inteiros. Inocentemente, continuam a se amar.