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Feliz idade

Uma amiga completou 80 anos. Uma festa agradável. Pessoas das mais diferentes idades circulavam. Entre bebidas e comidas, conversas. Falavam sobre a aniversariante e sobre o seu pacto com a felicidade. Em qualquer idade.

Perdeu ela um filho. Sofreu a inversão da lógica da vida ao ver, sem vida, o fruto do seu amor. Enterrou com dor e tentou compreender a despedida. Fácil não foi, mas ela prosseguiu.

Perdeu o marido. O companheiro que aplainou seus invernos. Que compreendeu suas mudanças. Que acolheu seu estilo livre de ser. Perdeu, certamente, muitos amigos. Alguns mestres que abriram a ela bibliotecas de ensinamentos que a ajudaram a ser quem é. Mas estava ali. Roupa nova. Cabelo feito. Maquiagem adequada. Passeando entre os seus. Dizeres bonitos. De vidas que se encontram e se renovam quando somos fortes.

Viver a felicidade em qualquer idade é desafio para os fortes. É isso. Para aqueles que compreendem a efemeridade da vida e o devir. O prosseguir. O curso das coisas. Encontros e despedidas. Mudanças. Os passos se tornam mais vagarosos, mas a mente se torna mais profunda. Há algo de nobre na maturidade. As ansiedades se acomodam um pouco. Há que se aprender com as experiências. As dores se repetem, mas já as conhecemos. Quando chegam, nós as recebemos com menos surpresas e aguardamos que partam. Que partam sem nos partir.

Houve um momento de discursos. A aniversariante gosta da palavra. Pediu que alguns amigos falassem. Falaram. Não pouparam elogios. Ela os recebeu com alguma parcimônia. Deu os descontos necessários, mas sobre eles quis discorrer.

Falou da beleza de completar 80 anos. De ter resistido tanto. De ter superado doenças, medos, mortes. De estar ali. Na feliz idade. Falou sobre os que se foram. Rapidamente. Sem ressentimentos. Sem mágoa do destino. Falou apenas celebrando a saudade. Falou dos que estavam ali. Do quanto valorizava os afetos. Os afetos desinteressados que recebem o nome de amizade. A amizade é o melhor alimento para a sobrevivência. São laços protetores que nos envolvem contra as mudanças abruptas de temperatura, de temperamento.

Cantamos celebrando. E partilhamos o doce que havia ali. Sobre ele, as velas que só deveriam ser apagadas ali. A luz da aniversariante prosseguirá. Certamente. Ela não tem pressa alguma de partir.

Saí da festa pensando nas idades. Brigar com elas é prova de pouca sabedoria. Não decidimos a idade que queremos ter. Decidimos ser felizes em cada idade. Decisão árdua, mas necessária. Quero chegar aos 80. Resistir às intempéries que me roubam a paz. Sentimentos teimosos os meus que boicotam momentos felizes. Não sei por que, vez ou outra, opto pelo complicado e abandono o simples. Depois aprendo e tento reescrever o que ficou faltando de mim. Por alguma razão, perco-me apenas para agradar. O tempo me ensina o contrário. Encontrando-me é que compreendo o que devo fazer, inclusive com e para o outro. A amizade, o amor, só robustecem na autenticidade.

Olhava aquelas pessoas e ficava imaginando, principalmente, as que eu não conhecia, o que elas já passaram e como resistiram. Ali, estavam se alimentando do doce. Da doce festa da vida. Ali, rendiam-se ao prazer do estar. Estarão sozinhas depois com os seus sentimentos e as suas lembranças. Mas se compreenderam a magia que há em cada mutante paisagem, compreenderão que prosseguiremos. Sempre.

Não sei quantos anos tinha o mais velho daquela festa. Não sei os remédios que tomam nem os problemas que carregam. Sei que dali saí com vontade de viver mais. Para lembrar. Para sonhar.

A aniversariante encerrou a fala dizendo que não iria falar dos seus sonhos. Porque eram tantos. Que talvez o tempo de que eles ali dispunham não seria suficiente. Brindemos à vida, então.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 29/01/2017

Onde está Deus?

Era uma criança, apenas. Disse-me, com autoridade, que fará 4 anos. Brevemente.

Estávamos em uma igreja. Missa dominical. Ela, no meu colo. Foi quando ela soltou: “Onde está Deus?”

Eu a abracei forte. Carinhosamente.

Antes da resposta, ela prosseguiu: “Deus está ali. Os homens malvados fizeram isso com ele”. Ela me mostrou uma cruz. E Cristo pregado na cruz.

Eu quis saber quem havia dito isso a ela. Ela disse que o pai explicou e que foi além. Quando os homens são maus, eles continuam pregando Deus na cruz. E prosseguiu me dizendo que agora eu já sabia, já que ela havia me explicado onde estava Deus.

Eu apenas sorri e a abracei. E disse baixinho: “Se, quando os homens são maus, eles continuam pregando o Filho de Deus na cruz, quando eles abraçam – assim como nós -, eles tiram o Filho Dele da cruz”.

“Então vamos ficar sempre abraçados”, ela disse, sem demora. E emendou: “O que mais faz com que Ele fique feliz”?

“O que você acha, já que você que me explicou onde Ele está?”

“Quando a gente ama, ué”, falou a criança como se fosse simples compreender.

A ausência de amor é a responsável por irmãos nossos que continuam sendo crucificados.

A ausência de amor gera a guerra, gera o preconceito, gera a segregação, gera a miséria.

Miseráveis somos nós por não compreendermos a simplicidade da mensagem do Filho de Deus. O amor. O amor incondicional. O amor sem exigências. O amor edificante. Uma criança se comove ao ver Cristo pregado na cruz. Mesmo sendo uma imagem. A insensibilidade humana faz com que não nos comovamos ao ver, nos nossos tempos, os calvários se multiplicando. Descarto o outro como se fosse uma coisa. Um incômodo. Vejo e não vejo o que sofre. Ouço e não ouço o que grita suplicando ajuda. Falo de mim e ouço pouco as vozes que me clamam compaixão.

Olho aquela criança e imagino as crianças órfãs, vítimas de matanças cruéis. As crianças que vivem em região de conflito e que não têm o sono embalado com cantigas de paz. As crianças que ainda não tiveram o privilégio de viver a paz.

Olho aquela criança e imagino as que não têm um pai que lhe explique a bondade, mas – ao contrário – há tantos que, com rudeza de ações, roubam a sua sensibilidade. Os horrores das crianças violentadas sexualmente. Crianças que aprendem a odiar. Desde sempre. O que lhes restará no futuro?

Os homens que mataram o Filho de Deus continuam matando. Ele não desce da cruz para ser um sinal de até onde podemos chegar quando o amor está ausente.

A missa prosseguiu. No momento da consagração, ajoelhei-me. Ela quis saber o porquê. Eu disse que Deus estava naquele pão. Ela confirmou com a cabeça como se tivesse entendido. Eu já imaginava ter que buscar alguma explicação, mas foi ela quem me explicou: “É para nos alimentar de amor”.

O Filho de Deus se faz pão para nos alimentar de amor. E amando é possível que voltemos a ter a limpeza da criança.

Aqueles olhinhos azuis ainda estão em mim com suas teológicas verdades. Quando nos despedimos ela teve tempo de dizer: “Agora que você se alimentou, tudo vai ficar mais fácil, né?”

Onde está Deus? Deus está naquela criança que me faz continuar acreditando…

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 22/01/2017

A voz da Televisão

Apresentador de televisão comete crime ao usar palavras ofensivas contra uma mulher. É demitido. Desta vez. E as outras? E as irresponsabilidades que são ditas por apresentadores que entram na casa das pessoas? E as inverdades? Há uma busca enlouquecida por audiência. E há uma crença de que quanto mais se exibem tragédias mais pessoas ficam presas ao aparelho de TV. Tragédias precisam ser mostradas. Com responsabilidade. Sem exageros. Expor as pessoas é uma forma pouco ética de se apresentar programas ou fazer jornalismo.

Os jornalismos televisivos eram mais cuidadosos. Hoje, além do claro comprometimento ideológico de um ou de outro lado, há o pouco caso com a vida do outro, com a biografia do outro. Coloca-se no ar e depois se confere se é verdade ou não. Respeito com a vida do outro? Imagine! Essa palavra e esse valor andam em desuso. No âmbito da política, é preciso que se mostre o malfeito, a corrupção, a demagogia. Mas com cuidado. Como se coloca todo mundo no mesmo balaio, o resultado é que muitas pessoas que poderiam estar na vida pública, que dariam uma grande contribuição ao país, preferem ficar de fora. Temem a imprensa. Não por fazerem algo de errado. Mas pelos erros que a imprensa comete. Erros que ficam marcados na alma de quem age com seriedade. Generalizações são sempre injustas. Da mesma forma que não se pode colocar todos os políticos no mesmo balaio, também não se pode fazer isso com jornalistas. Há muitos jornalistas sérios, que não se deixam levar pelo “furo” fácil, pelo dito sem compromisso com a verdade, pelo cuidado essencial de quem tem nas mãos um grande poder: o poder de edificar com a verdade ou de destruir com as tantas formas de corrupção.

Voltando ao início. O racismo é um horror. É a prova de que ainda há muito para se evoluir. Os preconceitos pintam a imagem mais feia do ser humano. Prefiro as outras. A da tolerância, a da convivência, a do respeito.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/01/2017

Os gestos de Obama

A Casa Branca terá uma nova família.

O casal Obama e suas filhas se despedem da residência oficial de quem preside os EUA.

Chegaram há não muito tempo. O tempo passa soberano. Depois de eleito e antes da posse, Obama fez algumas incursões em alguns países para levar a bandeira que gostaria de ver tremulando nos mastros do mundo. Em uma dessas viagens, falou aos alemães usando uma metáfora que serviria como marca de sua administração. O mundo precisa de pontes, não de muros.

Há muito a se dizer sobre a gestão Obama. Há os que o criticam. Há os que o reconhecem como um grande estadista. Mas vamos aos gestos que ficam desse homem que ousou enfrentar os preconceitos e entrar para a história.

Nos dias finais de Casa Branca, a família Obama serviu os funcionários que durante 8 anos os serviram. Gesto simples de gratidão. Gesto nobre de mostrar que, apesar de desempenharmos papéis diferentes, temos todos a mesma importância. Gesto afetuoso de quem enxerga o outro. De quem sabe seus nomes. De quem interpreta os seus sonhos.

As filhas de Obama sempre fizeram trabalho voluntário.

A mulher de Obama, Michele, abraçou causas sociais de grande envergadura.

A postura do casal foi a de compreender que, em um mundo carente de referenciais, era preciso dizer com gestos o que era necessário resgatar.

Em 8 anos de gestão Obama, nada de escândalos de corrupção. Seu nome se manteve limpo. Mesmo em uma política capaz de chamuscar, inclusive, os corretos. Ele passou ao longe. Não se viram demonstrações de autoritarismos, de ameaças, de exibicionismos de poder. Seus gestos foram de acolhimento. Ações que visavam diminuir os preconceitos – e como eles existem!

A nação americana protagonizou horrores contra os negros. Cenas sangrentas que mancharam um país que gosta de se dizer o mais democrático do mundo. No país de Luther King, coube a Obama assumir o protagonismo de mostrar o que queria o pregador. Que o valor de uma pessoa não viesse da cor de sua pele, mas da nobreza de seu caráter. O olhar aos imigrantes, às minorias, aos discriminados. O dizer ao povo que ficava à margem. O agir criando as tais pontes. Gestos que ficam.

Mas e agora?

Agora, o mundo parece querer outra coisa. O discurso de Donald Trump é o oposto. Insiste no tal muro da fronteira com o México.Faz ouvidos moucos à pregação de um papa conciliador e visionário como Francisco: “Onde há um muro, há fechamento de coração”. O papa tem razão. Mais uma vez. O novo presidente fala dos imigrantes com desdém. Já chegou a diminuir as pessoas com deficiência, já desmereceu as mulheres. E foi eleito.

Não vou além nas reflexões sobre Trump. Permitamos ao tempo que nos mostre quem ele é.

Voltemos a Obama. Seus gestos ultrapassam o hoje. A história dará a ele um papel de destaque. Certamente. E a Michele. E às filhas. E a esse jeito de compreender que o maior poder é o de servir.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 15/01/2017

Surtos de civilidade

Há sempre, em períodos de verão, uma preocupação maior com possíveis surtos que podem surgir e fazer mal à população.Campanhas tentam impedir, por exemplo, a proliferação do mosquito que gera a dengue, a zika, e a chikungunya. O surto ocorre quando há um aumento repentino do número de casos de uma doença. Apesar do significado da palavra surto não remeter, necessariamente, a algo negativo, costuma-se empregá-la para definir um excesso de fúria, um momento de inlucidez, uma crise. Lembra-me o escritor Machado de Assis, em sua fina ironia, que nos diverte, em sua obra “O alienista”, ao narrar um momento em que o protagonista, o médico Simão Bacamarte, tem um surt o surpreendente e resolve que os honestos e os justos eram também loucos e deveriam ser internados no hospício! Surpreendente e insensato como os surtos parecem ser.

Então, imaginem um surto ao contrário. Um excesso de bom senso, de lucidez, de civilidade. Imaginem um aumento repentino de pessoas que resolveram não mais jogar lixo no chão. Que tiveram uma crise de consciência em saber que o dinheiro público é jogado fora para limpar as sujeiras tantas que se jogam fora por aí. Vejam os rios. O que há neles? Quem os polui? Vejam quanto se joga pelas janelas de um carro. Ou das mãos de alguém que passa pelas ruas. A cidade é do cidadão. Se essa consciência não for atingida, não haverá quem dê jeito na falta de educação das pessoas. Vejam as praias. Plenas de beleza e de lixo. Quem os produziu? Vejam as represas. E os lixos que ficam quando os seres racionais vão em bora . Racionais? Interessante, os irracionais não produzem lixo. Vejam as praças. Os parques. As ruas.

Um surto de civilidade nos faria muito bem. Isso para ficar apenas no exemplo do lixo. Poderíamos falar do trânsito e dos inlúcidos ao dirigirem seus carros. Os que fazem da sua direção um extravasamento de sua fúria. Como seria bom um surto de boas maneiras.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/01/2017

Fazer o possível

Era uma cidade do interior. No interior, é comum as pessoas se conhecerem. Há menos gente. Menos famílias. É comum, inclusive, a pergunta: “Você é filho de quem?”. Nas cidades grandes, dificilmente alguém se arvorará nesse diapasão.

Era uma cidade do interior. No interior das pessoas, sempre há sonhos. E isso é bom.

Foi com um desses sonhos que um homem entrou em um salão de cabeleireiro e foi logo mostrando uma foto. E dizendo sem o menor constrangimento: “Quero que o meu cabelo fique assim”. E deu continuidade ao desejo, “Aliás, quero ficar assim. Igual a esse homem da foto”.

O dono do salão, com a tesoura e o pente na mão, parou o corte que estava fazendo e, gentilmente, pediu a ele que aguardasse. Que já conversariam. O do sonho disse que aguardaria se ele garantisse que ficaria igual ao homem da foto. O dono olhou novamente para a foto e para o jovem e pediu, mais uma vez, que conversassem depois, que estava terminando um corte de cabelo. O jovem, um pouco menos paciente, disse que se não recebesse a resposta imediatamente iria ao concorrente daquele salão.

Era uma cidade pequena do interior. Dois salões apenas disputavam a clientela. O homem que estava tendo o seu cabelo cortado cochichou com o cabeleireiro, “Diga que vai ficar igualzinho”. O cabeleireiro, filho de uma professora conhecida na cidade, um homem reconhecidamente correto, titubeou em dizer o que não acreditava.

O homem que estava tendo o seu cabelo cortado continuou o cochicho, “É melhor você dizer o que ele quer ouvir, não apenas para não perder o cliente, mas para não deixá-lo chateado”. O cabeleireiro, com a tesoura na mão – o pente, ele já havia deixado na mesinha -, ficou ainda mais reflexivo. “Mentir, iludir, para não deixar alguém chateado”- falou consigo mesmo.

O jovem não entendeu a demora: “Vamos, trata-se de uma pergunta objetiva. Você me deixa com a cara dele ou não?”. “Claro que deixa. Ele faz coisas impossíveis. Pode sentar-se aí e esperar. Você vai ficar igualzinho ao galã da foto”. O cabeleireiro, que era de pouca prosa, pensava com ele mesmo, “Só posso fazer o possível”. “Então, está bem”, disse o jovem, “Vou sentar e esperar”. E sorrindo prosseguiu: “Estou muito satisfeito, queria ficar igual a ele e vou ficar”. “Vai, sim. Certamente!”, disse, entre sorrisos, o que estava tendo o cabelo cortado.

O cabeleireiro ficou pensando na frase: “Estou muito satisfeito”. O que é a satisfação? Era evidente que ali só havia mentiras. Do que queria ficar igual e do que dizia que ele ficaria igual. Mas o cabeleireiro não era mentiroso. Não poderia compactuar com aquele jogo. Mas o jovem estava sorridente. Sem a apreensão inicial. É melhor permitir que a mentira persista? Persistirá pouco, entretanto. A não ser que o jovem esteja tão desfigurado das suas sensações que seja capaz de acreditar que, depois de qualquer corte, ficará com uma cara que não tem.

Pensou o cabeleireiro no tanto que sua vida o ensinara sobre os “sim” e os “não”. Em como é melhor abraçar a verdade a permitir que a mentira abale as nossas relações. O mentiroso sempre tem que mudar de rua. Porque no interior se percebe logo quem mente, e ele tem que fugir o tempo todo. Não. Ele não haveria de mentir. É bom as pessoas sonharem. Mas há limites. Ter uma cara que não se tem não é um sonho. É uma obsessão. É um desvio. Não, o filho da professora não poderia deixar essa história ir adiante.

O jovem, então, se levantou, enquanto o cabeleireiro terminava o corte do cabelo do que tanto disse naquela tarde.

O jovem olhou. Olhou novamente. De um lado. De outro lado. E decidiu. “Mudei de ideia. Quero ficar com a cara dele”. Dá para cortar o meu cabelo igual ao dele?”. Antes de qualquer intervenção, o cabeleireiro soltou: “Vou fazer o possível”. “Vai fazer o possível? Ele disse que você faria o impossível. Não. Eu vou ao outro salão. Não fico aqui nem mais um minuto”.

O cabeleireiro suspirou aliviado. O que estava tendo o cabelo cortado o repreendeu: “Era tão simples, ele só queria que você falasse o que ele queria ouvir”.

Nisso, entrou a mãe do cabeleireiro com duas amigas. Deu um beijo no filho. Cheia de orgulho. O filho olhou para a mãe, para as amigas, para o homem que o repreendeu e agora estava saindo, para os outros clientes que estavam ali e agradeceu de viver no interior e de ouvir o seu interior. Sonhos quase sempre fazem bem. Quase sempre.

A tarde já ia embora. Ele teve tempo de olhar o sol se despedindo. Sempre gostou de ver as montanhas do seu vale. Tenta aprender com a natureza para compreender as pessoas. Faz o possível.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 08/01/2017

Massacres sem fim

O massacre ocorrido no Amazonas é mais uma demonstração da falência do sistema penitenciário. Há quem não se preocupe tanto com isso, haja vista o massacre do Carandiru e outros fatos frequentes de mortes em penitenciárias, cadeias e delegacias país afora. Os que não se preocupam têm a infeliz conclusão de que lá não há nenhum santo. Podem não ser santos. Como nós, aliás. Mas são cidadãos. Como nós. Com os direitos dos cidadãos, exceto aquele, o de ir e vir, retirado pela supressão momentânea da liberdade. Suprime-se a liberdade, mas não a dignidade. Mas é digno estarem amontoados? Sem condições mínimas de recuperação? Há uma enorme hipocrisia no discurso de que o sistema penitenciário é, antes de tudo, uma possibilidade de reinserção social. Aquele que cometeu um crime cumpre a pena e se põe a progredir para que possa sair melhor do que entrou. Melhor? Como? Com quais atividades? E quando de lá saem? Quem vai querer abrir os braços e receber alguém que passou parte de sua vida na prisão? Então, a condenação é perpétua? Um tempo preso e outro tempo aprisionado no mal que fez.

Qual a solução para o problema, então? Há quem diga que o correto é investir na prevenção. Que, se educarmos hoje, não precisaremos punir amanhã. Concordo. Mas e os que já erraram? O que fazer? Não há uma resposta mágica. É preciso cuidar da entrada e da saída do infrator. Se ele souber que terá outra chance, seu comportamento será diferente no sistema. Há uma luz. Um caminho. Se ele imaginar que todas as portas estarão fechadas, o que lhe restará? O país não pode debruçar-se sobre esses assuntos somente diante de tragédias. Sabe-se o caos que é o sistema e finge-se que, aos poucos, as coisas se arrumam. Não, as coisas só se arrumam quando há líderes que querem arrumá-las. E líderes que acreditam nisso. Mas carecemos de líderes. Enquanto isso, os massacres continuam. Em espaços que poderiam gerar cidadãos que jamais compactuassem com o crime. Não por medo. Mas por acreditarem que a convivência humana depende de regras que existem para serem cumpridas.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 06/01/2016

Esperança

Esperança era seu nome.

O segundo nome. O primeiro era Maria. Maria Esperança. E, depois, o nome de família.

Qual teria sido a intenção dos seus pais de chamá-la assim?

Quiseram dar a ela uma responsabilidade desde sempre? Um encargo? Um peso?

Ou vaticinaram que, ali, naquela nova vida, nasceria, como em todas as novas vidas, uma possibilidade de um mundo melhor.

Qual seria sua profissão? Teriam seus pais debatido sobre isso antes da escolha do nome? Certamente, não. Mas quem carrega no nome o nome de

Esperança fará a diferença em qualquer profissão.

E seus irmãos? E seus filhos? Como se chamariam os filhos da Esperança?

Moraria ela em uma grande cidade ou em uma pequena vila do interior? Como seria o seu interior?

Pensaram sobre isso os seus pais? Tiveram tempo de olhar para os amanhãs?

Ou escolheram o nome apenas por uma inspiração.

Quem os teria inspirado?

Quem inspira a escolha da Esperança?

O que vem antes? O que virá depois?

Antes, sofrimentos e prazeres, certamente, alternaram-se. Antes, dúvidas preencheram os que haveriam de decidir se a Esperança mereceria nascer. Ouviram opiniões decisivas contra o que sonhavam. É comum encontrar quem desencoraje. Por tantas razões que não caberiam aqui. Por inveja. Por medo. Por não terem tido possibilidades. Por não suportarem ver os outros decididos a gerar a Esperança.

Os que desacreditam de vidas novas partem a tentar convencer os outros. Querem sepultar pensamentos diferentes. Chamam-nos de utópicos, lunáticos. Mas sabem eles a delícia de um contemplar diante da lua. Lua nova. Lua cheia. Lua crescendo ou diminuindo. Sempre lua.

Os que decidiram gerar a Esperança tiveram que pensar.

Não o pensar que atrasa o agir. Mas o pensar que o valoriza. Que o protege. Que o envia.

O envio é uma decisão dos sábios.

Dos que acreditam que há, em todas as partes, seres sedentos por ação nascida de pensamento.

É assim em um novo ano.

Há guerras em tantos lugares. Inclusive aqui. Guerras horrendas que destroem vidas e espaços. Guerras perversas nos esconderijos de vidas sem vida, de infâncias sem infância, de mulheres sem paz. Quanto ódio em agressores incorrigíveis! Mortes lá. Mortes aqui.

A que se chama Esperança não compactua com essas perversidades. E não fica esperando. Não. Ela age. A Esperança sabe da importância do agir. Do agir nascido do pensamento. Seus pais pensaram antes de decidir. Por isso, ela vive. E tem esse nome.

Quem a encontra se encontra.

Quem a encontra se encanta com tudo o que poderá surgir desse encontro.

E é bom encontrá-la no início. Ou melhor, nos inícios.

No início de um namoro. No início de uma amizade. No início de um trabalho. No início de um ano.

É bom saber que ela é inspiradora.

A Esperança é mulher. Tem o poder de gestar e de fazer nascer vida, vidas.

Tem o poder da continuidade e da novidade.

Carrega consigo o que já foi. E que permaneceu. E antecipa o que ainda há de ser. E é bom que seja.

Porque as guerras, as de lá e as de cá, têm que cessar.

E, nos inícios, é essencial que ousemos fazer diferente.

Nas canções ou nas orações que nos ensinaram.

Nos trajetos que já percorreram por nós. E nos outros que teremos de desbravar.

A Esperança é mansa e é brava. Não é agressiva. Não é irritadiça. É brava. Brava de valente. Brava de decidida.

Maria Esperança, cujo sobrenome aqui não se faz necessário, é professora.

Professa que as sementes dependem do solo e do cuidado. Não acredita ela que algumas nasçam desprovidas do crescer, do florescer, do abastecer de perfume e beleza o universo.

Dos universos de cada lugar e do lugar comum em que vivemos.

Do universo espaço, onde nascemos, ao universo que compõe o ontem, o hoje e o amanhã. Cada qual pode fazer o que deve ser feito. E ficará. É nisso que acredita a Esperança. É por isso que ela, todos os dias, inspira confiança e prepara o amanhã.

Quem não a conhece aproveite esse início de ano e a procure. Não é difícil encontrá-la. Quem já a encontrou, nem preciso dizer – mas vamos lá!, espalhe a notícia de que ela existe. Que tem um primeiro nome comum. Lindo, mas comum. E que está disposta a esperançar, a explicar que é nos inícios que se aproveita para fazer o certo, o bom, o belo.

Em 2017, muita coisa poderá mudar. E será bom se mudar. Nada de esperar. Esperançar.

Obrigado, Maria Esperança, pelo prazer de conhecê-la.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia (RJ)) | Data: 01/01/2017

Faxina de fim de ano

Antes das festas do reveillon, é prudente que se faxine a casa.

Receber as pessoas com a casa suja é sinal de desleixo.

Não importa que a comida e a bebida estejam boas. Nem que os enfeites colocados, ainda no Natal, sejam de bom gosto. A casa precisa estar limpa. Precisam estar limpos, também, os donos da casa. É desagradável chegar à casa de alguém e perceber que estão sujos. Parece que chegamos antes. Que não demos tempo para se limparem, se prepararem.

É prudente que se limpem os sentimentos e que se limpem também as atitudes. Sentir e agir têm uma conexão necessária.

Há muita coisa sendo limpa em nosso país. E é preciso mais.

Limpar a corrupção e limpar a hipocrisia.

Limpar a injustiça e limpar a mentira.

Limpar as arrogâncias, as avarezas e os outros pecados todos.

Pecar é desconsiderar o outro e nós mesmos. É desperdiçar o bem que é abundante e é limpo e optar pelas sujeiras da maldade.

Não caiamos no erro dos maniqueístas, dos que separam, de um lado, os que julgam bons e, do outro lado, os que julgam maus. Aliás, tomemos cuidado com os julgamentos. Os excessos invariavelmente são injustos.

Limpemos os dissabores rotineiros. Um banho de razoabilidade, de tolerância, de compaixão nos fará muito bem.

Aí sim poderemos convidar os outros para a festa de um novo ano, de um novo ciclo, de uma nova possibilidade que se abre.

Limpos. Os enfeites disfarçam por um tempo a sujeira. Depois se nota. Triste mal da dissimulação.

Que bom seria que limpos fôssemos verdadeiros. Que verdadeiros pudéssemos compreender as escolhas dos outros e respeitá-las. Que respeitosos trabalhássemos por um mundo sem tantas sujeiras.

O mundo nasceu limpo. Acreditar nisso ajuda a fazer o que tem que ser feito.

Boas festas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/12/2016

Canção de Natal

Cantarolava ininterruptamente. Olhava para o seu bichinho, presente de algum outro natal, e cantarolava, Colocava o bichinho de pelúcia em posição de quem adverte que é bom estar atento à canção. E dançava guiado pelo ritmo que emprestava à sua canção. Os outros estavam atarefados. Havia conversa e trabalho na cozinha. Palpites e ação. Mudanças de rumo. Pratos que precisavam estar prontos para que a ceia pudesse agradar. Era mais de uma cozinha. Uma tinha fogão a lenha, e outra, a gás.

Na sala, um presépio. Papel comprado em papelaria. Amassado. Tentando ser uma gruta. As personagens, os animais, cada qual no seu espaço. Deixavam apenas de fora o Menino Jesus. Ele deveria chegar à meia-noite. E a árvore de natal, montada com badulaques de muitos natais. Tudo ia se acumulando. Algumas crianças, as menores, ainda acreditavam em papai noel. Os adultos se dividiam em dizer ou não dizer que quem presenteava eram os pais de verdade.

A verdade é que não paravam. As mulheres ainda tinham horário no salão de beleza. Pés, mãos, cabelo, maquiagem. Os homens cuidavam da bebida. E jogavam prosa, enquanto esperavam. Alguns trabalhavam na véspera. E ficavam afoitos para encerrar logo e estar ali. Em família. E ele era imune a todas essas preocupações. Cuidava apenas de cantarolar. Sons mais altos. Sons mais baixos. Risos entremeando as músicas. Não havia dizeres em suas canções. Desconhecia dizeres o menino cantador. Eram sons apenas. Afinados pelo tempo ou pelo amor de quem os ouvia. Certamente ganharia presente. Mas não havia pedido nada. Não sabia pedir. Apenas olhava. E ria. E cantarolava.

Vez ou outra, algum adulto que recebia um telefonema de cumprimentos de algum parente de alguma outra cidade fazia um barulho sério para que ele diminuísse o som. E ele ria. Não fazia cara de aborrecimentos nem de contrariedade. Não sabia o que era isso. Sabia o que era sorrir. O que era dançar no centro da sala. O que era cantarolar para seu bichinho de pelúcia. O que era abraçar quando quisesse. Ah, abraço ele pedia. Vinha correndo e se jogava. E não era pequeno. Era preciso força para compreender a sinceridade de tanto amor. O riso e o abraço eram fáceis de compreender, mas a dor não. Via-se apenas que a música cessara e que as lágrimas caíam e caíam. Alguma parte estava doendo. Como saber qual? A cabeça? O estômago? As costas? Os dentes? Como saber? O que fazer para curá-lo? O amor conhecia os seus caminhos. E ele, de novo, estava no centro da sala.

Preparavam-se para a missa. Ele não iria. Não ficaria quieto sem as suas canções e sua dança durante tanto tempo. Havia uma Rosa que ficaria com ele. Havia Deus que estaria na missa e também lá naquela sala, contemplando a beleza da Sua criação.

Na hora dos presentes, ele haveria de abri-los e, logo depois, olhar e, logo depois, voltar a cantar.

Comeria o que lhe dessem. Sem reclamações. Comeria tudo. E não pediria por mais nada. Apenas que estivessem por ali. Com ele. Ouvindo sua canção. E rindo quando tivessem vontade de rir. Dormiria quando alguém o levasse. Brincaria um pouco mais em sua cama. Olharia com gratidão por compreenderem o que, talvez, ele não pudesse compreender. Abraçaria algum bichinho, algum travesseiro, algum paninho e sonharia com o que não saberíamos traduzir. E, no dia seguinte, levantaria para viver a alegria, novamente. A singela alegria de uma criança que resolveu se eternizar naquele menino.

Nas brigas entre os outros, apenas olhava. Nos reencontros, olhava também. É como se soubesse, de alguma maneira, que todas aquelas angústias e ansiedades haveriam de ir embora. O seu tempo era todo dedicado à alegria. Nas canções. Nas danças. Na despreocupação com o amanhã.

Amava, do seu jeito. Era amado, do nosso jeito.

Um dia, partiu. Cedo demais. Foi cantar em algum lugar preparado pelo milagre do amor. Deve estar cantando e dançando agora, enquanto escrevo e penso nele. Meu irmão, meu irmão Junior, que não passa mais os natais entre nós. Passa, sim. Em algum lugar, passa, sim.