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Sinfonia do encontro

Um olhar. Apenas um olhar e a quietude. E o coral de vozes não mais a amedrontou.

Era uma menina. Ainda nos tempos da infância. E era tímida. E tinha os medos todos comuns à infância e a todas as idades.

Os pais moravam longe um do outro. Optaram por tentar outras escolhas. Filha única a menina. Era a mãe quem a preparava para ir à escola. O pai a visitava quando podia. Sentia falta do pai a menina, mas ressentia não conseguir dizer o que sentia. Ensaiava pedir alguma atenção. Chegava a pronunciar para si mesma o que haveria de dizer. Não dizia.

A mãe estava sempre em busca de algo que a menina não compreendia. Sobressaltada com a vida. Com as buscas. Com os fracassos.

A menina tinha medo do fracasso. Alguém disse que ela não cantava bem. Brincadeira estúpida, talvez. Mas a incomodou. E como! Quis sair do coral, mas não conseguiu dizer. E por lá ficou. O medo, nesse caso, foi-lhe companheiro.

Era o dia da apresentação. Mulheres e homens estavam no teatro. Entraram as crianças. A menina tinha o coração acelerado. Resolveu cantar baixo para não incomodar. Talvez assim não percebessem os erros da sua voz. Temia esquecer a canção. Temia ter alguma tontura. E o medo roubava dela o prazer de estar ali. Resolveu ficar um pouco escondida. Melhor que não a vissem. Com olhos baixos, teve um súbito de coragem e olhou. Um olhar. Depois de tantos que nada viram. Um olhar e o encontro com os olhos da mãe. Um sorriso. Um alívio. E mais um desejo.

O pai estava entrando. Ela viu ao longe. E não precisou de mais nada. Esqueceu-se de tudo. E cantou. E participou daquela sinfonia. Naquele tempo em que o tempo ainda não dizia quanto é apressado.

A menina cresceu. Os pais se foram. Amores vieram para participar da sua vida. Os medos ainda a incomodam. Ora fazem mal, ora fazem bem. Fazem mal quando retiram dela possibilidades incríveis. Fazem bem quando a ajudam a permanecer atenta para, na vida, não desafinar.

A menina virou cantora. Canta como necessidade vital. Canta e permanece nos que a ouvem. Ganhou confiança. Sabe que saem de casa para vê-la. Sabe que silenciam os murmúrios para ouvi-la. Vez em quando, lembra-se de como tudo começou. Naqueles desencontros, encontrou, mesmo que distantes um do outro, os olhares de que necessitava. Estavam ali a dizer algo. E a sinfonia iniciou a sua jornada.

Encontros. Cantores ou construtores. Julgadores ou auxiliares. Motoristas ou doutores. Professores ou professadores de qualquer crença. Estão todos tentando encontrar o tom da própria vida. Nos inícios, a dificuldade é talvez maior. A menina, feita mulher, ainda é tímida. Ainda economiza nos ditos. Gosta do palco porque se sente segura. No canto, encontrou o segredo de dizer o que não conseguia dizer, o que talvez ainda não consiga. Sofreu de amores que se foram, mas prosseguiu cantando. Entusiasmou-se com outros que ofereciam eternidades, mas não deixou de cantar.

Na sinfonia da vida, foi percebendo que é preciso ser forte. Que a dependência de olhares não faz bem. Naquele dia, os pais foram. Poderiam não ter ido. Poderia ter sido tudo mais difícil. Mas eles foram. Alquebrados de necessidades, ansiosos por outros encontros, frios um com o outro, mas, com tudo isso, foram. Algum Maestro os inspirou a perceber que a menina era maior do que as suas pausas, que a menina iniciava na sinfonia da vida os seus primeiros acordes. E precisava deles. Indubitavelmente, precisava deles. Se soubessem o poder que têm sobre o amanhã dos seus filhos, os pais seriam um pouco mais atenciosos. Venceriam, certamente, outros certames, para estar onde devem estar. Entrecruzando olhares, expulsando medos, sorrindo.

A menina-mulher hoje canta o amor. Acredita no amor. Fala dos pais com os olhos marejados. Eles se foram tão cedo. Os mesmos olhos que os viram. Uma, um pouco à frente; o outro, chegando apressado. Mas estavam ali. Antes de partirem, puderam vê-la consagrada. Tiveram orgulho da menina tímida. Cantaram as suas canções. Encontraram-se muitas vezes. Sem os ressentimentos do início da separação. Maduros compreenderam que o tempo do amor foi capaz de gerar amor. E que melhor do que lamentar pelo que poderia ter sido era celebrar o que foi. Também eles, um dia, fizeram parte de uma mesma sinfonia que, como toda sinfonia, um dia chega ao fim. Acabou antes de terminar? Talvez, sim. Mas existiu. E a menina continua existindo. Seus olhos olham outros olhos. Mas aqueles continuam vivendo na menina e a fazendo cantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 26/03/2017

Brasil joga fora excelentes iniciativas em educação

A Política, na teoria das Ciências Sociais, é arte e é ciência. É, no dizer de pensadores clássicos, como Aristóteles, a consciência de que somos animais sociais e de que dependemos uns dos outros para o nosso desenvolvimento. É, ainda, a mais alta forma de caridade, em uma interpretação do pensamento de Santo Agostinho. O cuidar coletivo, o deixar de lado interesses individuais em prol do bem comum. A justa medida. O fazer o certo, da maneira certa, no momento certo, com as pessoas certas.

O ser humano, ainda relembrando Aristóteles, deverá ser verdadeiramente bom e irrepreensivelmente tetragonal, que significa 4 X honesto ou 4 X perfeito (ideia de totalidade). Se tiver a excelência moral e a intelectual agirá sempre em prol da felicidade comum o que incorrerá na felicidade individual. Ninguém é feliz fazendo infeliz o outro.

E a educação? Segundo Platão e Aristóteles, é a melhor medida para se aprender a gostar das coisas certas e a desgostar das coisas erradas. Segundo Kant, nós somos o que a educação faz de nós. É a educação que nos possibilita, inclusive, conhecer a felicidade proporcionada pela boa política.

Então, na teoria, a política possibilita a construção da melhor educação para que a educação construa a melhor política. Com o conhecimento, com as informações, com a capacidade de reflexão, fica mais fácil distinguir o joio do trigo, separar o verdadeiro do engodo, o que faz bem para a comunidade e o que é desvio de caráter.

Há muitos analistas que tentam entender por que o Brasil continua em patamares sofríveis nas principais avaliações internacionais ou internas no tema da educação. Há estatísticas para todos os gostos. O fato é que não estamos bem. O analfabetismo funcional é preocupante, a produção de conhecimentos mais ainda. A dificuldade com as ciências da matemática pode ser constatada nas mais diversas avaliações.

As crianças brasileira são, porventura, menos inteligentes do que as crianças de outros países? Onde está o erro?

O erro está na política. Não na política aristotélica, mas na política brasileira. Na visão tacanha dos que não conseguem perceber o que fazem quando desfazem projetos que são bons para o coletividade.

Em termos educacionais, jogamos fora excelentes iniciativas. A começar do que foi feito por Anísio Teixeira em 1940, a primeira experiência de escola de tempo integral no Brasil –a Escola Parque de Salvador. Lembrando Darcy Ribeiro e Paulo Freire, apenas para ficar em alguns exemplos mais conhecidos, educadores estudados e respeitados em várias partes do planeta. Por aqui, os políticos apressaram-se em destruir o que eles fizeram.

Há outras tantas experiências desperdiçadas. Sempre chega alguém com uma fórmula mágica para revolucionar a educação. Alguém que venceu as eleições e quer deixar sua marca. Ora, mas isso é o oposto da política. Daquela da teoria. A marca tem que ser o bem comum. Fórmulas mágicas para educação? Não há. Basta analisar os países mais bem colocados em uma das avaliações internacionais, o PISA. O que eles têm em comum? Fiquemos em 3 pontos: valorização dos professores, ampliação da jornada com um currículo que dialogue teoria e prática, participação familiar. O que queriam Anísio, Darcy e Freire? Uma escola para todos, em tempo integral, com educadores valorizados e com inserção social para que, em cada comunidade, houvesse uma escola que a transformasse e fosse por ela transformada.

Quando vejo novos planos desconectados da realidade, projetos que excluem de sua formulação quem terá de executá-los, os educadores, pressinto novos fracassos. É preciso que se respeite o chão da escola, o dia a dia daqueles que, em detrimento de tantas mudanças desnecessárias, persistem tentando educar, com que o tem, os seus aprendizes.

Vale a pena analisar com vagar alguns casos de sucesso. Sobral, no Ceará, é um deles. O que dá certo é um projeto com continuidade. Além da valorização dos professores, ampliação do currículo e da participação familiar, destacam-se o investimento na gestão democrática da escola com um diretor líder e uma comunidade atuante, respeito à liderança do diretor e envolvimento comunitário. Aliás, o estado do Ceará tem vários exemplos assim. 77 das 100 melhores escolas brasileiras, segundo o IDEB, estão lá. Por quê? Porque sucessivos governos resolveram deixar de lado suas idiossincrasias e respeitar os educadores.

Há um Plano Nacional da Educação em vigor. Com metas claras. Com um caminho seguro para a melhoria da educação. Quem sabe seja um caminho. Quem sabe os nossos políticos gastem um pouco de tempo lendo Platão e Aristóteles e deixando o que está bom continuar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Poder 360) | Data: 22/03/2017

Não sou dono do amanhã

Minha mulher tem câncer. Um câncer que não tem cura. O diagnóstico foi o pior possível. Pouco tempo de vida.

Quando soubemos, olhamo-nos e ficamos algum tempo em silêncio. São quase 40 anos de vida comum. Nos nossos silêncios, filmes nos percorreram. Sei, pelo tempo que estamos juntos, o que ela pensou. Sabe ela o que eu pensei. Os médicos de hoje são pouco econômicos em tergiversações. Vão direto. Não sei decidir se é bom ou ruim.

Depois do silêncio, tentei algum dizer. Lembrei-me de tantos que se curam. A medicina evoluiu, e sei de muitos que enfrentaram cirurgias ou sessões de quimio e de radioterapia. E ficaram curados. E ganharam outro significado no viver. O médico não deu margens às minhas ilusões. Disse logo que não era o caso dela.

Permaneceu ela em silêncio. Saímos daquele lugar e fomos para casa. Olhávamo-nos. Ela andou pelos cantos que guardam nossas memórias e depois resolveu cozinhar. Fiquei com ela na cozinha. Ela fez comentários sobre a massa, o ponto do cozimento, o cortar da cebola e do tomate, o tempero.

Durante o almoço, eu disse que deveríamos ir a outro médico. Sempre é bom ter outras opiniões. Ela consentiu rapidamente e comentou sobre o vinho que estávamos bebendo. Sobre o prazer de estarmos ali. Olhou-me como nos tempos de juventude. Olhou-me com alguma malícia, até. Sorriu. Estávamos juntos. Deitamo-nos depois e nos amamos. Sem pensar no amanhã. Era uma sexta feira. Passamos o final de semana namorando. Nada de assuntos outros.

Fomos a outro médico e a outro. Tratamentos paliativos, apenas. O diagnóstico estava certo. Contamos aos nossos filhos. Não foi fácil. Abraços, choros, ditos de amor. Explicações. Irritações. Revolta, até. Por que tanta gente má vive muito e gente que só faz o bem é escolhida para partir? A revolta deles não era a da minha mulher. Ela surpreendia-me pela serenidade. Nada de brigas com o destino. O tempo por aqui é limitado. Minha mulher tem muita fé. E tem uma linda certeza sobre o que virá depois. Eu ora acredito, ora desanimo. Tentava, contudo, viver cada momento. Dizia a mim mesmo que não há ninguém com o poder sobre a vida e a morte. Eu poderia morrer primeiro. Já vi casos assim. Enquanto um estava aguardando a partida, alertado por alguma enfermidade, o outro partiu vítima de um entre tantos acidentes que há por aí.

Começamos a namorar mais do que de costume. Resolvemos marcar uma viagem. Só os dois. Vez ou outra, ela dizia sobre algum detalhe do tratamento. Rapidamente. O tempo que tínhamos não poderia ser desperdiçado. Fizemos uma linda ceia de natal. Sem despedidas. Quem sabe o que há de acontecer amanhã? Comemoramos juntos o ano novo. Ela olhou-me como sempre e brindou as nossas escolhas de vida. Estávamos em família. Filhos. Netos. Estávamos apenas nós. Nossos olhos se entrecruzaram. O mundo poderia terminar ali. No alto, os fogos explodiam. Barulhos por todo o canto. E estávamos sós. Nas férias, resolvemos voltar ao hotel em que fizemos nossa lua de mel. Os momentos de dor não eram esquecidos, naturalmente. Ela surpreendeu-me algumas vezes com os olhos marejados. Enxugava-os com cuidado. E me beijava. Dançamos no quarto em que, pela primeira vez, nos amamos. Na época, era assim. Esperávamos o dia do casamento.

Voltemos ao hoje.

Trabalho pensando na volta para casa. Compro alguma lembrança para roubar um sorriso dela. Nem seria necessário, mas me faz bem. Surpreendê-la me faz bem. Aproveitamos cada feriado. Desde o primeiro diagnóstico, provamos ao médico que o tempo de vida não se mede em exames.

Lembro-me quando perguntei sobre uma primeira viagem que estávamos programando. Ele disse, sem rodeios, que era muito tempo. Que eu não me animasse. Fui forte e desobedeci. E outras viagens se sucederam.

Estamos fazendo planos para a Páscoa. Que a morte virá não nos restam dúvidas. Para ela e para mim, inclusive. Mas saberá, a morte, que não perdemos tempo aguardando a sua chegada. Venha quando tiver de vir. Enquanto isso, viveremos o tempo do amor. Quantos casais têm essa felicidade? Naturalmente, a paixão enlouquecida dos primeiros tempos sobreviveu aos primeiros tempos apenas. Depois, outros sentimentos nos preencheram. O companheirismo, a cumplicidade, o cuidado mútuo, o amor. Hoje nos amamos. E como nos amamos! Sei disso porque os melhores momentos da minha vida são os que eu estou com ela. As minhas vitórias profissionais ganham novo sabor quando sei que ela está por perto. E as dela, também. Um olhar e adivinhamos o que o outro sente.

Se brigamos? Sim! Longe de nós a perfeição. Se desejamos nos separar? Várias vezes. Se olhamos para o lado? Certamente. Quem manda nos desejos? Mas quando olhamos para nós mesmos, percebemos que era melhor permanecer. Que decisão acertada!

Talvez viajemos na páscoa. Praia? Campo? Interior? Capital? Ou talvez fiquemos em casa. Ainda não decidimos. Decidimos estar juntos. Vivendo juntos a dor. Vivendo juntos o amor. Também gosto de cozinhar. Para ela. Gosto quando ela elogia apenas pelo cheiro. Antes, inclusive, de provar. Gosto quando ela me cobre antes de dormir. E me dá um último beijo. Não sou dono do amanhã.

Hoje?

Vou surpreender, mais uma vez, o meu amor.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/03/2017

Encanto ou espanto?

O fato ocorreu em um vagão de metrô. De um lado, um casal com o seu filho. Do outro, também. Um outro casal e uma outra criança.

No início da viagem, as crianças pareciam sem muito empolgação. Quietas. Os adultos falavam. De um e de outro lado. Falavam sobre coisas que nada significavam para as crianças. Mas as crianças estavam ali. Naquele vagão. Naquela viagem. Foi quando o pai disse ao filho: “Você é um encanto”. Não sei muito bem o que o filho havia feito para receber esse afeto. O filho sorriu. Meneou sua cabeça no colo da mãe. E, do colo da mãe, via o pai. E assim prosseguiram.

Enquanto prestava atenção à cena, ouvi um outro dito que me pareceu o mesmo. Agora do outro lado. “Você é um encanto”. Vi a criança chorando. A mãe dando de ombros. E o pai prosseguindo o seu dito de adulto. Não. A frase fora outra. Talvez empolgado pelo que ouvi e vi, imaginei se tratar do mesmo afago. O pai disse ao filho: “Você é um espanto”. Não sei o que fez o menino para ouvir essa sentença.

O que é um espanto? Espanto pode ser surpresa, admiração. Mas pode ser assombro. E o filho chorou. E o choro foi tido como rotina, e os pais prosseguiram entre eles.

Encanto não tem duplo significado. Encanta quem agrada, quem tem qualidades, quem desperta bons sentimentos. Uma criança chorava, a outra ria. Uma criança participava do enlace entre os pais. A outra estava à parte. Uma parte que espantava.

Todos em um vagão de metrô. Todos no movimento. Todos vindo de algum lugar e indo para algum lugar. Não sei de onde vinham nem para onde iam. Não sei quando haveriam de descer. Nem as razões que levavam ao encanto ou ao espanto. Sei que crianças dependem de vínculos. Dependem de dizeres e de atenção. Para o riso ou para o choro. Para a paz ou para o desassossego.

Falavam entre eles, os adultos, na viagem que faziam. E os filhos? Longe de mim decidir motivos, razões, vidas. Apenas nos vimos na viagem. Vejo, na viagem da vida, muitas crianças e seus pais. Ouço vozes de incentivo, palavras de amor. Ouço vozes de desprezo, palavras dor.

O que será dessas crianças? Encanto? Espanto? Quem decide o que seremos? De quantos ontens é feito o hoje. De quantos hojes se fará o amanhã? A semântica tem poder. Dizer a um filho, “você é um encanto”, tem poder. Dizer a um filho, “você é um espanto”, tem poder.

Lembrei-me de Guimarães Rosa e de seu Miguilim. E da importância do olhar dos adultos com as crianças. Miguilim era menino que via sem ver. Menino que nos ensina que ver bem, não raro, também vem de dentro. Tinha olhar de espanto para o mundo que o rodeava no sertão, mas de um espanto que provocava encanto. Certo dia, um cavalo trouxe um homem. Movimento simples, mas que agitava a vida pacata do Mutum. Miguilim, com espanto, notou que o homem era grande, claro, tinha óculos e chapéu diferente. O olhar do homem sobre Miguilim espantou-se porque o menino, para vê-lo, apertava os olhos. O desconhecido pediu para ir ter com a mãe. O doutor do cavalo e do chapéu emprestou-lhe os próprios óculos. O olhar de Miguilim encantou-se. Não podia acreditar. Tudo mudara. Tudo era mais lindo. O invisível se fez grande: o grão de areia, as pedrinhas, os detalhes caprichosos da natureza. E tudo era tão claro. A mãe incentivou: “Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai.”. E Miguilim foi. Partiu com o doutor para novo encanto. O encanto da cidade. Um olhar, um cuidado, uma atenção, um gesto. E um novo futuro descortinou-se para aquela criança.

O vagão chacoalhava. Interrompeu meus pensamentos. Os balanços nos levam um pouco mais a um lado ou a outro. É preciso aprender a se segurar. É preciso aprender a levantar, se porventura cair. Quem são os ensinadores? Que palavras devem ser usadas para ensinar? E os gestos? Lindo o gesto do menino com a cabeça no colo da mãe olhando para o pai.

O outro casal estava ocupado demais para ver o filho. O choro do filho. O espanto do filho. Talvez estivesse mesmo espantado. Espanto com a ausência da palavra encanto. Quem sabe no movimento do vagão, da vida, o menino encontre outros dizeres. Quem sabe. O que se sabe é que palavras têm poder. O poder de espantar. O poder de encantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 12/03/2017

Cinzas

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. Quem foi à celebração da quarta-feira de cinzas ouviu essa frase ou uma outra que fala de conversão.

As cinzas têm uma carga de simbolismo desde o Antigo Testamento. Jó, o homem que ousou resistir ao sofrimento, vestiu-se de cinzas. Mardoqueu, no Livro de Ester, veste-se de cinzas, em defesa de seu povo. As cinzas são resultantes do fogo, por exemplo. Ou do que é pelo fogo consumido. Na “fogueira das vaidades”, na Florença dos tempos de Savonarola, depois de tudo o que era queimado, ficavam as cinzas.

A quarta-feira de cinzas marca o início da quaresma. São quarenta dias que preparam a Páscoa, maior festa do cristianismo. A quaresma é um tempo de penitência. Um tempo de pensar no tempo. E as cinzas nos ajudam, também, a pensar no tempo. E no que fazemos com ele.

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. Ou, em outras palavras, esqueça a arrogância, as vaidades, a avareza. Nada te pertence. Nem as coisas. Nem as pessoas. Nem o tempo. Tudo tem um curso. Um tempo de existir. Um tombo, apenas. Uma queda. Uma batida. E voltamos a ser pó. Uma doença. Um acidente. Uma disfunção. E voltamos a ser pó.

E, ao voltarmos, o que levamos? Os acúmulos? As glórias? Os aplausos? Os bens que trancafiamos como propriedade eterna? Nada. Absolutamente nada. Mas, então, para que produzirmos? Para que trabalharmos? Para que estudarmos alimentados pelo sonho de vencer na vida? Fernando Pessoa, no início de sua “Tabacaria”, nos dá uma pista. “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

O início do dizer poético é quase que uma explicação das cinzas, uma lembrança de que somos pó. De que nada somos. A fragilidade da vida atesta sua assertiva. Nada somos. Mas o que vem a seguir é animador. “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”. São os meus sonhos que me dão identidade. São os meus sonhos que me retiram da crueza do tempo. Os tempos duros passarão. As mágoas, as paixões, os desejos, passarão. As frustrações de hoje serão esquecidas, certamente. As derrotas de hoje só me incomodarão amanhã se eu permitir. Elas só têm significado quando a elas eu dou significado. Assim, também, um dizer de alguém que me feriu. Posso ampliá-lo ou reduzi-lo. Mudar o meu comportamento pelo comportamento errático de alguém é celebrar o erro. Prosseguir fazendo o certo é compreender o tempo.

Há vitórias que o tempo mostrará que não foram vitórias. Há derrotas que serão, com o tempo, comemoradas. Porque tenho em mim todos os sonhos do mundo. Todos os sonhos do mundo significam que os meus sonhos se agigantam quando sonho coletivamente. Que os meus sonhos para serem sonhos não podem ser mesquinhos. O mundo cabe em mim quando eu sonho em melhorar o mundo. Mas não sou nada. Sou pó. Sou um em bilhões. Mas os meus sonhos são diferentes de todos os outros. Também a minha digital. Também a minha identidade. Mas até a minha digital, que é única, voltará a ser pó. Antes disso, onde ela terá tocado? Midas transformava tudo o que tocava em ouro. Nos meus sonhos, no que gostaria de transformar tudo o que toco? Enquanto puder tocar. Os acúmulos se vão. Mas há algo que permanece. Há algo que permaneceu de muito, gente que já virou pó. Francisco de Assis também voltou a ser pó. Mas o que dele permaneceu? O que permaneceu de Castro Alves? Ou de Irmã Dulce? Ou de alguém que vivia na minha rua e que ninguém ouviu falar, mas que eu sei que melhorou o mundo.

Os sonhos coletivos. As cinzas, a efemeridade das coisas, os ajudaram a compreender onde deveriam deixar a digital, a marca, a vitória. Nos sonhos coletivos. No ajudar como uma escola de humanidades, no acolher como uma pedagogia do encontro, no viver como uma missão que transcende o ter. O que tivermos perecerá. O que deixarmos ficará.

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. Essa oração diz muito. Nada de superioridades ou arrogâncias. Nada de apegos exagerados. Nada de mesquinharias. Tudo passa. O prazer ou a dor. O desejo ou a apatia. Passa.

As cinzas, resultado do que se é queimado, também significa que essas coisas passageiras podem ser queimadas dentro de nós mesmos. Para que caibam todos os sonhos do mundo. Esses não passam porque me fazem ter a certeza de que, embora um em bilhões, faço parte da melhoria desse mundo. Onde nasci. Pó. E de onde um dia vou me despedir. Pó.

Tenho em mim todos os sonhos do mundo. Para quem crê que o que vem é muito melhor, depois que voltarmos ao pó, o sonho coletivo é ainda mais necessário. O amor permanece. O amar nos faz permanecer. Depois da quaresma, a páscoa. O partir é um transformar. O fogo também gera luz. O pó haverá de ser o que nem em todos os sonhos deste mundo cabe. Vida.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O dia – RJ) | Data: 05/03/2017

O dia da alegria

E é de novo carnaval.

E é o dia da alegria. Há sambas e marchas e canções que evocam que é hora da tristeza ir embora e da alegria chegar. A festa foi se agigantando país afora. Ritmos e estilos diferentes foram ganhando adeptos. Escolas de samba, blocos de rua, frevos, axé, clubes, salões, bares, botequins. Cada um encontra o seu jeito de viver a festa.

A festa passa. Como dura pouco, já inventaram antecipações e prorrogações. Já criaram carnaval fora de época. Tudo isso para que a alegria possa reinar? Mas o reino da alegria só se dá no carnaval?

Há alguns que extravasam. Rompem suas durezas e se lançam a alimentar fantasias impróprias para outros dias. Há os que bebem em exaustão. Há os que pedem férias de amores duradouros para aproveitar o reinado de Momo com novos acompanhantes. Há os que se vestem do que gostariam de ser, mas não têm coragem nos dias comuns. E há os que desprezam os dias comuns, porque neles não há carnaval.

As despedidas são sentidas. Agora, só no ano que vem. Agora, vêm os dias comuns.

Nada contra o carnaval. Há espetáculos belíssimos que merecem ser contemplados. Há esforço de comunidades inteiras para contar uma história na avenida. Há amigos que saem para brincar e que brincam com os cuidados necessários de quem sabe que amanhã é um dia comum.

Mas se nada tenho contra o carnaval, nada tenho também contra o dia comum. Pois, durante o ano , tem mais dias comuns do que dias de carnaval. E eleger o dia da alegria, apenas no carnaval, é desperdiçar a alegria que está contida em cada dia comum.

Uma vez ouvi um folião dizer a outro: “Beba, beba para relaxar, beba para ser livre, beba para ser feliz!”. O outro folião, decidido, respondeu: “Já nasci relaxado, livre e feliz.”

Há muitas formas de viver a alegria. O carnaval é uma delas. Ou uma viagem. Há alguns que, nesses tempos de barulho, preferem o silêncio do campo, preferem escalar uma montanha, preferem namorar em casa, um amor romântico ao som de qualquer canção.

Dias de feriado são bons para que pausas necessárias nos recobrem, inclusive, o prazer de estudar, de trabalhar. Dias de feriado nos ajudam a encontrar aqueles que, nos desencontros em que nos metemos, ficam distantes. Dias de feriado são mais escassos do que os dias comuns.

Eleger os dias de feriado como os dias da alegria também não parece ser a melhor escolha.O dia da alegria é, definitivamente, o dia comum. O que acordamos e nos vestimos para viver. E encontramos os mesmos encontros exigindo de nós alguma nova disposição. Amores não envelhecem. Amadurecem. Amizades perdem a curiosidade da novidade e ganham a notoriedade da permanência. Permanecer amigo de alguém é aceitar as misturas que dão sabor ao existir. E a amizade não é assunto apenas de carnaval ou de feriado. É de todo dia.

Quem não encontra a alegria no dia comum não encontrará no carnaval. Quando muito se dopará de uma falsa sensação. E se obrigará a transmitir o que não vive. E se vestirá de uma máscara com tempo curto. Melhor viver o carnaval como se vive um outro dia. Com os cuidados e os desejos necessários. Com os encontros que não causem arrependimentos. Com as danças ousadas e sóbrias. Com explosões que não machuquem ninguém.

O dia comum é um mistério a ser desvendado. A beleza da rotina me faz ver as roupas estendidas no varal e gostar de vê-las. Me faz saborear uma refeição matinal planejando um dia bom que está por vir. Me faz beijar a pessoa que amo amando amar alguém. Como é difícil encontrar um amor! Quem encontrou cuide. Cuidar é um verbo bom de conjugar. No carnaval e nos dias comuns.

O dia comum é um texto leve se o vivo com leveza. Se compreendo que é nessa repetição que a novidade me fascina. Abrir uma porta. Fechá-la. Abrir uma janela. E as cortinas, quando há. Limpar o pó que veio da rua. Ir à rua com o mesmo prazer de chegar em casa. Encontrar na própria casa um canto sagrado, ou mais de um, ou fazer da casa um sagrado aconchego para os dias comuns. Os dias comuns são enfeitados por pessoas comuns. Pessoas comuns são extraordinárias pelo simples fato de serem pessoas. Não se repetem. Nunca. Nem nos dias comuns.

E é de novo carnaval. Que bom! E que bom que, depois do carnaval, vem o dia comum. O dia da alegria.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 26/02/2017

A ‘Pós-verdade’ e a verdade

“Pós-verdade”, como conhecemos hoje, é uma palavra, que foi usada pela primeira vez em 1992, pelo dramaturgo Steve Tesich. De lá para cá, ela ficou restrita a alguns grupos que tentavam compreender o sentido do pouco apreço pela verdade. Ou da “preguiça de pensar” sobre o que se tenta vender como verdade.

Foi no ano passado, entretanto, que a “pós-verdade” ganhou força. Tamanha força que a Oxford Dictionaries a elegeu a palavra do ano de 2016.

Donald Trump vendeu que estava sendo apoiado pelo Papa Francisco, vendeu que Barack Obama era um dos fundadores do Estado Islâmico. Vendeu que, proibindo os estrangeiros, garantiria emprego a todos os americanos. Sem a tal “preguiça de pensar”, esses produtos não seriam comprados. Trump venceu as eleições. Venceu prometendo ser a voz dos americanos, venceu prometendo destruir pontes e criar muros – o oposto de seu antecessor.

A Grã-Bretanha decidiu deixar a União Europeia. A venda deu certo. O discurso de que o custo para os ingleses era exorbitante fez eco.

Por aqui, muitos políticos venderam que não eram políticos e ganharam as eleições em importantes cidades. O eleitor comprou. Os que têm o poder de investigar defendem a ideia de que precisam falar muito sobre suas investigações para que tenham apoio popular. A mídia compra essa ideia. E se apressa em criar mitos e destruir biografias. A “preguiça de pensar” diminuiu a possibilidade de uma reflexão mais profunda sobre o papel de quem tem o poder de investigar. E o povo acompanha o desenrolar de casos e mais casos de corrupção. Não sabe muito bem dos detalhes –”preguiça de pensar”–, mas divulga-se pelos meios disponíveis o que dos meios disponíveis recebe. Combater a corrupção é um dever de governantes e de governados. É lutar contra uma praga que há muito rouba direitos de quem mais precisa. Mas há que se atentar para os que se valem desse discurso com fins pouco corretos. Ou dos que, com “preguiça de pensar”, generalizam o mal feito.

Frequentemente, vejo alguém comentando uma verdade recebida pelo Facebook ou pelo Whatsapp. Frequentemente, vejo a própria pessoa que acabou de comentar a tal da verdade pensando sobre ser a sua verdade inverossímil. Pensou um pouco e percebeu que o que foi vendido como verdade não poderia ser comprado. Mas sem esse pensamento, as máquinas de divulgação vão registrando os compradores desses boatos. As crenças pessoais, os preconceitos, os egoísmos vencem os fatos objetivos.

É certo que as novas formas de comunicação têm sido um canal dessas não-verdades. Mas os meios tradicionais de notícias também vêm sendo pouco criteriosos no trato com a verdade. Justiça seja feita, há excelente jornalistas, mulheres e homens ciosos do seu ofício e do seu poder. Mas há também o outro lado. A busca pelo furo jornalístico, ou outras razões pouco éticas, faz com que a verdade seja menos importante do que alguma fonte que garanta que, pelo menos, há alguma fumaça para que o noticioso fogo ganhe espaço. Se no dia seguinte se descobrir que a fumaça era de pó de estrada e não de lenha de floresta, escreve-se sobre outra coisa. Admitir o erro é exceção no mundo da imprensa.

Mas se é fato que vivemos a “pós-verdade”, o que fazer para virar a página? O que fazer para escrever um outro texto? Mais elaborado. Com mais cuidado. A verdade é uma utopia? A verdade é relativa? É possível se chegar à verdade? Essa discussão não é nova! Desde Sócrates e dos sofistas, trava-se essa batalha. Sócrates queria a verdade. Os sofistas não se preocupavam com ela, mas com a aparência da verdade. Como não acreditavam na verdade, queriam o que parecesse ser a verdade, talvez para agradar, talvez para receber o vaidoso aplauso. Sócrates não se preocupava em agradar. Preocupava-se em chegar até a verdade, demorasse o tempo que fosse necessário. Como dizer isso a um jornal de televisão ou de rádio? Ninguém tem tempo. A notícia vendida por alguém é comprada por outro alguém e vendida para milhares ou milhões de pessoas. Mas e a verdade? E os danos provocados pela ausência da verdade? Ausência que pode vir da pressa ou da má fé. As audiências dos telejornais têm caído. O número de leitores de jornais e revistas, também. Há uma nova geração descrente das informações que a mídia tradicional passa. Mas crentes no que leem em seus círculos digitais. O cenário é bastante estranho. Mas há saída. E a saída é a educação. Do povo e dos jornalistas. Do povo e dos que devem promover a justiça. Do povo e dos marqueteiros das eleições. Do povo e dos políticos. Parece utópico, mas, se combatermos a “preguiça de pensar”, o ciclo da “pós-verdade” pode causar menos estragos e ser menor.

Entre Sócrates e os sofistas, a humanidade optou por Sócrates. Na teoria.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Poder 360) | Data: 22/02/2017

Meus dois mundos

Moram em mim dois mundos.

Um me eleva. O outro, não.

Um me apresenta o dia como um canteiro de felicidades. O outro me faz desconfiar.

Um me traz pessoas e suas histórias para que eu possa compreender. O outro me esconde com medo dessa compreensão.

Um me elege para vencer obstáculos. O outro me coloca uma lente estranha que faz os obstáculos serem maiores do que de fato são.

Um me relembra o ontem para que as emoções me aqueçam. O outro me relembra o ontem para que eu saiba que nunca mais terei a força que tive.

Um me mostra o amanhã repleto de cenários que vão se modificando a cada ação minha. O outro mostra os mesmos cenários, cheios de feiuras, de doenças, de dependências.

Um me faz livre. O outro me escraviza.

Há tempos, convivo com os dois. Não me lembro, aliás, se houve algum tempo em que apenas um deles existisse. Se houve, eu ainda não era eu. Ou, se já era, não sabia. Há circunstâncias que me fazem alimentar o mundo que me alimenta e há outras em que alimento aquele que não me alimenta. Tento compreender as diferenças. As minhas diferenças. De vez em quando, deixo um ou outro mais forte dentro de mim. Nem sempre é simples.

Há momentos em que um vazio me preenche. Vazios não preenchem ninguém. Sim, mas o mundo que me diminui me traz um vazio com o qual fica difícil receber outros visitantes. E eu permito. E me lanço a pensar no que não me faz bem. E o vazio aumenta. E as minhas reações são diferentes daquelas que eu teria se tivesse alimentado o mundo que me alimenta. O que me alimenta me traz a generosidade, a fraternidade, a compreensão. Nada disso convive com o tal do vazio. O mundo que me faz egoísta, se eu pensasse um pouco, não me faria. Se eu pensasse que, depois de uma ação egoísta, nunca vem a felicidade, eu agiria de uma outra maneira. Mas, no vazio, o pensamento fica preguiçoso. E não percebo o que deveria perceber.

O mundo generoso não usa a tal lente estranha. Pelo contrário. Retira-a. Para que eu veja com os meus próprios olhos. Para que os meus olhos alimentem os meus sentimentos. Para que os meus sentimentos não briguem com os meus pensamentos. Para que os meus pensamentos sejam repletos de boas intenções. Para que as minhas boas intenções me levem a ações que me façam generoso.

A carência em demasia me faz exagerar. Exagerar no ciúme, na possessão, na vaidade. Esqueço o outro. E vivo em função das minhas idiossincrasias. Quero o aplauso, o reconhecimento, o elogio. Quero como um ser dependente. Quero como se me frustrasse, definitivamente, por não ser o centro das atenções. E, por isso, me diminuo. Soberbamente, me diminuo.

O mundo que me eleva também sabe das carências. Mas me faz supri-las de outras maneiras. Abraçar-me a mim mesmo nunca me satisfará. É o outro que me completa. Não como resultado da minha projeção. Mas como ouvinte de uma mesma canção que se dá no tempo do encontro. Nossos olhares ora se cruzam, ora contemplam o que o mundo generoso tem a nos oferecer. O mundo mesquinho me faz querer tudo. Ganancioso, vou me perdendo. O mundo generoso me faz encontrar as razões da partilha. Vou compreendendo que nada me pertence. Nem mesmo as pessoas que amo. Elas, um dia, partirão, e eu teria de, depois da despedida, agradecer pelo tempo do convívio. Se imaginar que algo ou alguém me pertence, terei, além de ter cometido um ledo engano, proporcionado a mim mesmo uma imensa frustração.

Os dois mundos moram em mim. Não sei se há como expulsar um dos dois. Se há, ainda não descobri. Mas estou aprendendo como deixar o que me fortifica mais forte, o que me alimenta mais alimentado, o que me eleva, maior.

Acordo pensando nisso. E nos momentos em que terei a oportunidade de fazer o que decidi. Vez ou outra me perco. Por alguma distração. Por algum alimento que dei, sem perceber, para o mundo que me diminui. Quando isso acontece, tento voltar ao que me alimenta, lembrar o que estou perdendo e, novamente, ganhar. Ganhar a luta renhida contra o que me apequena. E crescer. Com a maturidade necessária para escolher a escolha correta. E prosseguir.

Hoje, é domingo. Dia de alimentar o mundo bom. Amanhã, também. E, também, o dia que virá depois de amanhã. A tarefa é diária. Mas com ela se chega ao fim do dia muito melhor. No fim do dia, é o mundo generoso que tem o poder de me conferir um sono bom. O outro mundo me mantém acordado com um barulho incessante de desperdícios. Gosto de dormir bem. E gosto de acordar com vontade de viver!

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 19/02/2017

Mudei de profissão

Dias desses, conheci um cantor. Um cantor que canta com a alma da gente do interior. Que gosta dos compositores que compõem as canções contando uma história. A história “de uma casa no campo” em que eu possa dizer, inclusive, que “eu quero o silêncio das línguas cansadas” e “a esperança de óculos”. Que cada um entenderá do seu jeito. Que desafiará algum pensamento. Um cantor que canta sobre o boi e a boiada. Sobre a palmeira na beira da estrada “onde foi cravado muito coração”.

Pois bem, esse cantor era zootecnista. Trabalhava no campo e admirava as pessoas do campo. E as coisas do campo. Um dia, ele mudou de profissão. Agradeceu o que viveu e partiu em busca do barulho do seu coração. Foi ser cantor. Foi ser cantador. Foi cravar em muitos corações a beleza da sua voz.

Cláudio Lacerda é seu nome. O que viveu serviu de acúmulo e de inspiração. O que deixou serviu de desafio para novas buscas. A vida aprecia quem a aprecia. Quem tem a coragem de mudar. Quem tem o discernimento de saber onde fincar suas bandeiras.

Há que se inspirar novos bandeirantes. Descobridores do que realiza. Do que perfuma a vida. A deles própria e a dos outros. Quem está realizado faz melhor o seu trabalho. Trabalha porque compreende o que pode ser transformado. Uma canção transforma muita gente. Um remédio, também. Um livro. Uma condução. Uma viagem. Uma obra. As profissões se multiplicam. Os lugares em que trabalhamos, também. Os desejos e as necessidades vão se ampliando e lá surgem outras coisas para fazer. O que não se compreende é a aceitação passiva do que não se realiza. Há um dentista que resolveu virar designer de interiores e, hoje, espalha seu bom gosto dando gosto à vida de muita gente. Há um advogado que resolveu montar um restaurante e saborear sua nova função na companhia de gente alimentada pelo seu sabor. Há uma secretária que continuou secretária, porque gosta de ser secretária. Apenas mudou de emprego. No emprego anterior, não havia respeito. Não havia gratidão. E trabalhar onde não se sente bem é um desperdício de tempo e dos próprios talentos. Quantas pessoas se sentem diminuídas, impotentes até. Sentem-se incapazes de executar um bom papel. E mudam. E, miraculosamente, começam a perceber que podem mais. Não. Não é milagre. É coragem. Coragem, como dizia,

Fernando Pessoa, de abandonar as roupas velhas e vestir algo novo. Ouço vozes confusas que lamentam ou a profissão ou o local em que trabalham. Evidentemente, não se pode jogar tudo para o alto sem planejamento. Há degraus a serem vencidos para que se chegue onde se deve chegar. Mas é preciso ir. Mesmo enfrentando o cansaço. Melhor o cansaço do que a paralisia. Melhor o medo do novo do que a apatia do velho. Melhor a mudança do que a inexplicável permanência. Permanecer não é ruim. Explico logo. Desde que se sinta útil. Desde que o acordar seja um prazer pelo prazer de saber que o que se faz dá prazer. Há muitos que, durante anos e anos, realizam as mesmas ações. E são felizes. As mesmas ações são sempre diferentes quando se vive o que se faz. Fazer pelo burocratismo. Fazer pela falta de opção. Fazer para passar o tempo é perder o precioso tempo de compreender que o tempo passa. É melhor renovar as roupas. Mas deixar que outros usem as que, um dia, usamos. Para delas nos despedirmos. O acúmulo de passados não nos faz bem. Há alguns que mudam de emprego, mas que vivem o que já passou. Até com alguma raiva. Até com algum desejo de vingança. Porque foram demitidos. Porque foram substituídos.

Roupas novas. É disso que precisam. Uma postura nova. Uma esquina nova para novas conversas. O cantor que inspirou esta reflexão também canta “Disparada”. A canção que empatou com “A Banda”, naqueles antigos festivais. Jovens apaixonados eram aqueles. Que brigavam pela liberdade e por um lugar no palco da vida. Boa lembrança. Preparemos o nosso coração para as coisas que ainda vão acontecer… se tivermos coragem de mudar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 12/01/2017

Bem-vindo, professor!

As aulas estão recomeçando. Novos alunos. Novos desafios. Novas possibilidades.

Escolas se preparam para esses recomeços. Há eventos de formação de professores. Há reuniões, planejamentos. Há um fazer coletivo na expectativa de que tudo comece bem.

Gosto de viver essas experiências. Há anos tenho o privilégio de exercer o sagrado ofício do magistério. Gosto de conviver com professores. De ouvi-los, de trocar impressões, de – modestamente – motivá-los.

Foi em um desses eventos que ouvi dois relatos elucidativos. “Mais um ano, não é? Nossa, como as férias voaram! Já estou contando os dias para que tudo se acabe. É muito difícil, sabe, enfrentar uma sala de aula. Os alunos estão cada vez piores. Não há respeito algum. Nossa profissão está muito desvalorizada”. A fala prosseguiu nesse tom. O desprazer de entrar em uma sala de aula e de, rotineiramente, fazer a mesma coisa. A falta de conexão com os alunos e com os seus sonhos. “Sonhos? Será? Eles não têm sonho nenhum. Têm é um vazio enorme, um desrespeito. Tenho pena deles. Aliás, tenho pena de mim por ter de enfrentá-los”. Há alguma verdade nessas afirmações. É fato que se percebem alunos despreparados e desrespeitosos. Há muitos que vivem uma profunda alienação. Têm atitudes ora apáticas, ora agressivas. O dia a dia de um professor, certamente, não é tarefa das mais simples.

O outro relato ia na direção oposta. “Que ótimo. Fico sempre ansiosa quando as aulas vão começar. Como serão os alunos desse ano? Eu nasci para isso, sabe? Para estar em uma sala de aula, para organizar as informações desencontradas que eles trazem. Para ajudá-los a perceber o quanto podem, o quão longe podem ir”. E os olhos brilhavam. E a professora prosseguia. E falava de um ou outro aluno. Um professor se mostrou estupefato. “Você lembra o nome deles?”. Ela prosseguiu. “Para falar a verdade, não de todos, foram muitos, mas de muitos deles, lembro, sim. E lembro o que aprontamos juntos”. O mais desanimado perguntou. “Mas você não acha trabalhoso esse ofício?” Ela foi rápida. “Evidentemente. É difícil nos reinventarmos. É difícil conseguirmos a atenção deles, o entusiasmo. Mas é possível. E é mágico quando sabemos que significamos alguma coisa na vida deles. É disso que nos alimentamos. Do bem que fazemos”.

Eu ainda não havia começado a palestra. Apenas observava aqueles diálogos enquanto alguns conversavam comigo.

A professora, que já trabalhava há algum tempo naquela escola, levantava-se cada vez que um professor entrava e dizia: “bem-vindo, professor”. E dizia o nome. E sorria com a certeza de que era bom estar ali.

Dei a palestra inspirado naquelas atitudes. Não usei o exemplo do desanimado. Mas falei sobre superação, sobre reinvenção. E brinquei com aquela dama. Eles concordaram com os meus elogios e disseram que ela era uma inspiração.

Lembrei-lhes uma qualidade essencial que todos nós, educadores, precisamos ter: gostar de viver. Quem não gosta de viver dificilmente conseguirá oferecer a ajuda necessária a um aprendiz. Dificilmente perceberá que o que ensinamos é, antes de tudo, a capacidade de nos percebermos humanos, de nos respeitarmos, de nos amarmos nas nossas diferenças. Os laços de convivência não podem ser substituídos por intransigências, por preconceitos, por violência. Há de se valorizar o que se pereniza: os momentos. Há de se perceber que os momentos podem dar magnitude à vida. Cada momento é sagrado. Há uma pedagogia a ser implementada em todas as salas de aula: a pedagogia do encontro. É preciso que saibamos partir. Partir para encontrar. Repartir para servir. Servir para compreender o amar. Servir a uma causa. Ter uma causa. Servir a um sonho. Ter um sonho. Servir a um tema de vida. Ter um tema para viver. São esses os aprendizados que permanecem. Não se pode negligenciar os conhecimentos, naturalmente. Mas eles virão se soubermos instigar os nossos alunos a buscá-los. Com humildade. Com a responsabilidade necessária de quem tem um caminho a ser percorrido.

No futuro, exercerão sua profissão com os conhecimentos, mas, sobretudo, com atitudes corretas. Como aquela professora. Que há mais de 40 anos reinventa o seu agir no mundo fascinante da educação.

Aos professores que iniciam mais uma jornada: coragem. Lutemos a luta justa pela valorização do nosso ofício. Mas é preciso ir além. Até onde nos levam os sonhos que nos embalaram quando abraçamos essa profissão, e os sonhos que nascem, hoje, de sermos melhores a cada dia, de não desperdiçarmos os sagrados momentos de estarmos em uma sala de aula.

Bendito aquele que semeia valores e que, vez ou outra, tem a possibilidade de contemplar a colheita.

Bem-vindo, professor!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/02/2017