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A verdade e as suas delicadezas

Paulo é um dos milhões de desempregados que vivem a cotidiana angústia da procura e da espera. Sai cedo. Banho tomado. Cabelo arrumado. Barba feita. Faz as entrevistas que consegue. Fala com algumas pessoas. Envia currículos. Pesquisa aqui e ali.

Paulo decidiu não ficar parado. Conhece alguns que apenas aguardam que a sorte os empurre para outra oportunidade. Conhece outros que despencam em balcão de bar em busca de uma sensação melhor que os alivie da triste realidade. E outros ainda que vivem a ilusão de que tem os mesmos recursos de outros tempos.

Paulo tem dois filhos. Um tem 9 anos e o outro acabou de nascer. Sua mulher ainda goza da licença-maternidade. O que ela ganha mal garante o alimento da casa. Paulo nunca foi perdulário. Sempre guardou algum dinheiro para a eventualidade de dias difíceis. Os dias difíceis de Paulo foram virando semanas e meses. Os recursos findando. As esperanças lutando contra os tantos nãos que se multiplicaram.

É triste voltar para casa e encontrar o Júnior, seu filho, perguntando: “Então, papai, arrumou alguma coisa”. Como Paulo gostaria de dizer que ´sim´. De abraçar o filho com todo o entusiasmo do mundo e dizer ´sim´. E de sorrir um sorriso demorado. E de brincar de felicidade novamente. Mas esse dia ainda não chegou.

A mulher o incentiva. Há amor na casa de Paulo e de Valéria. Júnior está na escola. Paulo conseguiu algum desconto e alguma dilação de prazo de dívidas acumuladas. O filho quer muito continuar na mesma escola. Foi quando se deu esse diálogo:

“Pai, vai ter a viagem da escola para Foz de Iguaçu. Dizem que é muito lindo, pai. Eu quero muito ir. Toda a minha turma vai. Eu quero ir, pai. Por favor. Por favor”.

Foi um dia difícil. Havia uma possibilidade em uma boa indústria que estava contratando. Ele fez mais de uma entrevista. Animou-se. Teve a certeza de que daria certo. Não deu. A resposta veio exatamente no dia em que o filho falava da excursão.

Como seria bom dizer que ´sim´. Como seria bom compartilhar a efusividade do filho. “Claro, meu filho. As Cataras do Iguaçu são lindas. Você merece. Você é um filho maravilhoso. Um filho amado”. Não. Não podia dizer isso. Não teria como pagar. Já estava devendo a escola. Já havia vendido o carro. Já comiam com menos fartura. Já reduziram o plano de saúde.

A mãe estava na sala amamentando Leandro, o segundo filho. Ela olhou para o marido. Abaixou a cabeça. Escondeu alguma expressão de tristeza e se concentrou no que estava fazendo. Paulo pediu ao filho que se sentasse mais perto. Deu um sorriso lindo. Disse que faria qualquer coisa para fazê-lo feliz. Que o amava muito. O filho começou a pular de alegria. Pressentia o ´sim´. Paulo pediu que ele se acalmasse. E, delicadamente, prosseguiu: “Filho, tenho que ser verdadeiro com você. Você merece essa viagem. Mas eu não tenho dinheiro para pagar. Gostaria de ter. Mas não tenho. Não sei quando vou arrumar um outro emprego”. Júnior insistiu um pouco, argumentando que todos os seus colegas iam. O que ele iria dizer para se justificar? O pai prosseguiu: “A verdade, filho, a verdade”. O filho ficou olhando: “Diga que seu pai perdeu o emprego, que está buscando outro e que, nesses tempos difíceis, não dá para gastar o que não se tem”. Paulo abraçou o filho. Choraram juntos. Paulo não estava chorando apenas pela excursão. Aproveitou para chorar as tantas negativas. Os que o abandonaram. Os ventos amargos das portas que se fecharam.

“Filho, eu tenho uma ideia. Durante os dias em que eles estiverem viajando, vamos ficar mais juntos. Vamos pesquisar histórias bem legais. Sua mãe e eu vamos contar para você. E vamos ter paciência. As coisas vão melhorar. E nós iremos juntos para muitas viagens”. E contou do avô de Júnior. De tempos também difíceis e de como foi importante ter um pai que sempre falou a verdade. Lembrou-se de outros que buscavam aparentar o que não tinham. De um que dava tudo ao filho, que queria a aparência de riqueza e que acabaram todos sem nada. Na simplicidade, Paulo aprendeu com o pai o que era essencial. E o essencial tentava passar ao filho.

A mãe terminou de amamentar e olhou para os seus homens. Sorriu. Orgulhosa. Feliz pela escolha que teve. As tempestades independem dos marinheiros. Mas bons marinheiros conduzem as embarcações com muito mais segurança. Leandro ainda não entendia o que se passava, mas se entregava em confiança depois do peito generoso. E sorria prenunciando dias bons para aquela família.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 25/06/2017

A despedida do meu filho

Era um velório. Um velório de um jovem. De um jovem negro. Numa região pobre de uma grande cidade.

O mapa da violência no Brasil é estarrecedor. Desperdiçamos vidas. O número de mortos é superior a regiões de guerra. Entre 2011 e 2015, a sangrenta batalha na Síria levou 256.124 vidas. No Brasil, no mesmo período, a sangrenta batalha do dia a dia levou 278.839 vidas. 1 pessoa é assassinada no Brasil a cada 9 minutos. São 160 mortos por dia.

Era o velório do filho de Aurora. Aurora é um lindo nome. Significa amanhecer. Mas o amanhecer daquele dia foi doloroso. Tão doloroso quanto o amanhecer de tantas mães que veem seus filhos prematuramente partindo.

Aurora é professora. Paulo era o seu único filho. Aurora teve uma vida sofrida. Não conheceu o pai. A mãe, entre bebidas e lucidez, criou-a com algum cuidado. Com o que conseguiu. Ela teve garra. Ousou enfrentar o destino e se destinou a uma vida melhor. Estudou com afinco. Mulher, negra, pobre, a salvação estava no livro. Decidiu ela. Formou-se professora. Professa todos os dias a crença de que há de salvar, do fim antecipado, os seus alunos. Entristece-se quando vai ao cemitério do seu bairro. Quando lê nas lápides dos túmulos a data de nascimento e a de falecimento dos que ali foram deixados. Jovens.

Aurora sempre teve a consciência de que não se combate violência com violência. Mas com inteligência. Não acredita em fórmulas mágicas, em promessas de políticos inconsistentes. Acredita no trabalho. E no amor. É com amor que ela vai todos os dias para a sua escola e olha para aqueles moços cheios de certeza de que ela pode fazer a diferença em suas vidas.

Mas, hoje, Aurora está triste. O filho foi vítima de uma das tantas balas perdidas que encontram pessoas. E lá está em um caixão o filho de Aurora.

Ele sonhava ser engenheiro. Sempre gostou de matemática. Gostava de ver as construções. Dizia que gostaria de construir casas populares. Casas para quem não tem. Para quem sonha. Era um sonhador o filho de Aurora.

A mãe olha para o filho e nem tenta entender. Apenas sentir. Aperta o peito com as mãos. Chora silenciosamente. Pensa no depois. Na casa vazia. Nos livros com as anotações dos estudos. Nas fotos. No quarto com suas lembranças. Nas promessas de que seria ele a cuidar dela quando ela envelhecesse. Na injusta vida que inverteu a ordem de tudo. Quem é responsável por essa dor? Não. Ela não está pensando apenas no que disparou o tiro. Está pensando em todos que fazem isso. Está pensando nas mães dos outros que, naquele dia, também estão chorando. O que o homem está fazendo com o homem? O que a humanidade está fazendo com a humanidade. Como se combater o foco que gera a violência?

Ensina ela literatura. Gosta de falar das personagens que amam e que sofrem. Explica que a literatura é a história dos sentimentos. E que os sentimentos, geralmente, são bons. Que há muitos que sofrem por uma fotografia no passado. E o passado é filme e não fotografia.

Quando se olha o todo, há mais para celebrar do que para lamentar. Mas e agora? A foto diante do caixão vai transformar o filme da sua vida? Como voltar a sorrir? Como sair de casa normalmente e ir trabalhar? Como voltar depois? Como esperar os fins de semana com algum bom programa com o filho? É dor doída demais.

Aurora é guerreira. A tristeza não será fácil de ser superada. Mas haverá outros amanheceres. Outras famílias precisando de quem não desista. De exemplos de superação. De dedicação.

Amanhã, será um outro dia triste para Aurora. Para outras mães. Para outras famílias. A guerra continua. A violência desafiando os que sonham com a paz. Com a paz no mundo. Com a paz nas mentes. Inclusive daqueles que não pegam em arma, mas se armam para odiar.

Amanhã, será um outro dia para Aurora se lembrar, chorar e levantar. Em decisão de melhorar o mundo. É isso que ela pensa. O seu filho se foi. Os filhos dos outros ainda precisam dela.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 11/06/2017

A vida de nós dois

Ela estava chegando. Eles estavam chegando. Foi o que ele me disse.

Ela é a mulher. Eles, a mulher e o filho que vai se formando dia a dia dentro dela.

Ele, o que me disse, é o pai. Um pai feliz.

Estão juntos há alguns anos. Ela já tem uma filha, fruto de uma outra história. Ele a cria, como se filha fosse. São felizes os três. E os gatos que vivem no apartamento deles. E, depois de muitos anos, vem ela com a notícia de que terão um filho.

A mãe dele já começou a costurar o que haverá de agasalhar o menino. Sim, já sabem que é um menino. Ele, que é flamenguista, está grávido das histórias que haverão de viver juntos. Dos jogos de futebol. Das corridas na praia. Dos passeios em família. Fala com os olhos acompanhando a voz. Fala da mulher que está chegando e me diz, com romantismos aos montes, que ela é linda, muito linda. Ela chega e nos cumprimenta. Disse que engordou muito. Ele sorri. Fica quase sem texto de tanta paixão. Não sei se é invenção minha, mas percebi os seus olhos marejados. Ela disse quanto engordou. Disse que não estava enjoando mais. Disse que a filha é quem havia decidido o nome do irmão. José Pedro. Disse que passou alguns dias em repouso. Ela foi dizendo e dizendo. E ele, com aqueles olhos, fitando a amada. Grávidos os dois, certamente. Ela voltou a falar em gordura. Foi quando ele protestou com delicadeza. Confessou ali que ela era a mulher mais linda do mundo. E que “a vida de nós dois” estava fazendo dos dois o casal mais feliz do mundo. Ela sorriu. Ele abaixou e acariciou a barriga. Conversou com o filho. Teve a certeza de que ele estava ouvindo. Ela acariciou o cabelo do marido, enquanto olhava para baixo e contemplava a conversa entre seus dois amores. Explicou que agora serão quatro. E mais os gatos.

Disse ele que tiveram tempos difíceis. A crise financeira é grave. Contas não esperam a maré baixar. Desânimos de negócios que não se concretizam. “Mas tudo mudou”, explicou o pai. Para nós. Para os meus pais. “Você não sabe quanto estamos trabalhando a mais”, falou ele. “Quanto queremos melhorar este mundo para esse menino que está chegando”. Abraçaram-se os dois. Beijaram-se com delicadeza. Ela se foi. E ele continuou falando de suas histórias.

Fiquei ouvindo. Fiquei comungando daquele sagrado enlace. Fiquei sonhando com que outras histórias pudessem ser assim.

As vidas em formação no ventre de uma mulher sentem as ausências e as ternuras, a violência e os beijos, os gritos e as palavras de boas-vindas. As mulheres grávidas vivem as carências naturais de um corpo em transformação. Mas quando encontram companheirismo, permanência, amor, as carências compreendem que há algo mais profundo pedindo para nascer. Monteiro Lobato, em determinado momento da vida, cansado dos cansaços provocados pela perversidade dos homens, resolveu escrever para as crianças.

Os homens agridem, insultam, mentem, violentam a própria essência. O que os leva a isso? O que os leva a dessacralizar o sagrado sentimento do amor? Mulheres grávidas também são espancadas ou esquecidas. Crianças recebem os ódios dos adultos. Desperdiçam os adultos a suavidade de um beijo em uma barriga que cresce e cresce, com uma vida que trará a outras vidas, vida. É do poeta indiano Tagore a mensagem de que “cada criança que nasce nos traz a mensagem de que Deus não perdeu a esperança nos homens”.

Despedimo-nos. Ele ainda teve tempo de dizer que faria, naquela noite, uma surpresa para sua mulher. Surpreendemo-nos com essas histórias, recheadas de humanidade. É isso o que somos. A perversidade não faz parte de nós. Chega por alguma razão. Fica. E espanta o que de fato somos.

Qual o surpresa que ele fará para sua mulher? Pouco importa. O que importa é o sorriso nos olhos, quando ele diz isso, e pensa que a noite será deles.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 04/06/2017

Mãe, o milagre do encontro

O encontro se deu entre o espermatozoide e o óvulo. E a vida foi encontrando sua forma. Pedaço por pedaço. Detalhe por detalhe.

Coração transmutou-se em corações. Os dois ritmando a vida. Uma chegando, e a outra autorizando. E o cordão, enfim, cortou-se. Apenas o cordão. O resto permaneceu.

Os corações jamais se distanciaram. E, nas pequenas quedas, no engatinhar, no caminhar, no chorar, o encontro aliviante. Nos cortes que doem, o poder cicatrizante dela. Da mãe. No seu colo, o recobrar de forças. Crianças ou adultos descansam ali. Choram ali. Realimentam ali os seus sonhos. Enquanto dormem o sonho bom, encontram o aconchego. E se valem do direito de estar ali. Tendo errado ou não. O amor de mãe suplanta erros e acertos. Não que não devam elas consertar o que se quebrou. Mas com jeito. Almas alquebradas precisam de algum cuidado. Elas têm.

Nos inícios, os choros são mais previsíveis. Depois, há razões para o debulhar que, talvez, elas desconheçam. A vida é cheia de paisagens. E de becos. E de lamas. E de água para a limpeza. Os sofrimentos virão sempre. Quem os teme desperdiça um sagrado aprendizado. Os erros também são companheiros desde sempre. Tolos os que apontam os erros dos outros. Como se fossem imunes. As mães sabem como soprar alívios. Primeiro, o abraço; depois, o dizer que educa. E as exigências de que melhoremos. Inverter a ordem nos enfraquece. Se o filho sobe na mesa e cai e se corta, primeiro elas cuidam do curativo, depois repreendem pelo abuso.

As mães, um dia, partem. E o milagre do encontro? Prossegue. Partem na sua forma física. Levam pedaços de nossa história. Deixam tristeza. Mas o encontro que se deu, desde os inícios, permanece. No que somos, elas estão. Onde estamos, elas são. Dos traços físicos aos recônditos da memória. Da criação à personalidade que fomos moldando. Elas sempre estão. São.

Já vi filho lamentar pelo amor economizado antes da partida da mãe. Já vi filho arrependido do dito e do não-dito. Das brigas que trouxeram dor. Das ausências que roubaram momentos preciosos. O que passou, passou. Talvez sirva de aprendizado aos que podem ter sua mãe por perto. Os que podem dizer. Os que podem ouvir. A mãe não é um ser perfeito. Perfeição não é matéria-prima dos humanos. Mas é nela que encontramos a raiz que nos ajuda a buscar o sulco vital. A memória do que viemos fazer por aqui. E o material onírico que nos faz prosseguir.

Gordas ou magras, altas ou pequenas, falantes ou tímidas, com cabelos encaracolados ou lisos, com muito ou pouco estudo, com muitas posses ou necessitadas, mãe é mãe.

Lembro-me do interior onde morava. Do chegar da escola. Subia as escadas e encontrava o seu sorriso. E o beijo sem pressa. E o abraço. E a atenção para ouvir tudo enquanto preparava o almoço. E, depois, ficávamos juntos. Lembro-me do dia que deixei o interior para estudar. Dos seus preparos, das suas lágrimas, da sua compreensão para os amanhãs que precisavam ser construídos.

Construiu em mim, ela, o amor. Dores ela teve e tem. Mas foi além. Bebeu de uma fonte reservada especialmente para as mães. A fonte que renova sua força. Para continuar alimentando os seus rebentos. Perdeu minha mãe dois filhos. Muitas mães se partem nessa dor. E choram o mais doído choro do mundo. Lá se vão os que deveriam ficar.

Uma amiga escritora perdeu seu único filho. Abraçou-me com tanta entrega que entreguei a ela o que podia, minha fé. As árvores parecem mortas no alto inverno. Parecem. Na primavera, elas ressurgem e surpreendem. Seria a morte a primavera da alma?

Falemos um pouco mais da vida. E do encontro. Químico. Biológico. Histórico. Matemático. E os outros todos. Em todas as matérias do concreto do existir, o que carregamos tem ela, a mãe. Aos que têm sua mãe, por aqui, vale um encontro especial. Aos que as têm nas lembranças, vale uma oração, uma homenagem silenciosa na necessária conversa que fazemos conosco. Vale até um “eu te amo” em pensamento. Ela há de sorrir, onde estiver. E o poder que ela continua tendo há de fazer você também sorrir. Lembra que no início um coração se fez dois? Os dois continuam sabendo que podem se encontrar…

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 14/05/2017

Os inícios em Maio

Solange soube, desde cedo, que o mês de maio é o mês das noivas. Na cidade onde mora, nas vozes que escuta sobre o assunto, nas mulheres mais velhas que se acotovelam na pressa de não desperdiçar o mês. Para iniciar um namoro. Para prosseguir até o ano seguinte. Tempo suficiente para conhecer e decidir. E casar.

Uma tia experiente de Solange, que se casou mais de uma vez, não sem antes ter chorado o luto de mais de uma viuvez, sempre iniciou os namoros no mês de maio. E, um ano depois, exatamente no mês de maio, fazia no altar as novas juras de amor eterno. Solange chegou a inquirir a tia se não era pouco tempo um namoro de apenas um ano. A tia, sabida, explicou que, se para o nascimento era preciso apenas 9 meses,… E silenciou. Solange tentou fazer a ligação de uma coisa com outra. Era mais difícil uma criança inteira ganhar forma do que um amor mostrar que já se formou. Que já estava pronto. Seria isso? Ela não sabia. Sabia que era mais um mês de maio. Nos meses que antecederam, ela fez um sério regime. Deixou para os derradeiros dias de abril a mudança de penteado. Soube, de uma e de outra, as promessas que costumavam não falhar. O santo mais acionado era Santo Antônio. Por sinal, padroeiro da sua cidade.

Solange não buscava um homem perfeito. Longe disso. Queria apenas alguém com quem pudesse dividir os afetos mais sinceros. Alguém que a respeitasse. Alguém que dissesse palavras doces em uma vida de tanto amargor. Se fosse bonito, melhor. Se não fosse, beleza é passageira, dizia ela para si mesma. Queria o permanente. Não era dessas que aceitavam um aqui e outro ali. Queria a paz de ir conhecendo cada detalhe das linhas das mãos do seu amor. Leu no salão de beleza que cada linha tem um significado. Interessou-se pela linha da vida. A que define se viveremos mais ou menos. Será que sua tia reparava nas mãos dos maridos? Bobagem. Não acreditou muito. Mas gostou de saber que as linhas não estão à toa nas mãos. Nada é por acaso. Nada é fruto do acaso. Nem as mãos. Solange queria um amor. Que estivesse distraído em alguma esquina e a visse passar. E a olhasse com algum desejo. E reparasse que ela estava pronta para um início, no início de mais um mês de maio. Não se atiraria rapidamente porque o recato é uma qualidade que lhe parece necessária. Por outro lado, não se faria insincera, dificultando uma prosa que poderia ter continuidade.

A mãe de Solange enviuvou cedo. E não quis saber de outra história. Dizia que amar dava muito trabalho. Que preferia permanecer nas lembranças. Solange não concordava. Respeitava, mas não concordava. “Viver dá trabalho”, dizia ela para si mesma. Frase de algum escritor famoso de quem ela não se lembrava. Mas, no trabalho do viver, o amor é uma brisa boa que nos perfuma de novidade. De uma eterna novidade. Solange vivia perfumada. Era melhor assim. Sem exageros para não enjoar o tal do distraído parado em alguma esquina.

Parado? Não. Era melhor encontrar um homem em movimento. O amor é movimento. Movimentamo-nos para cuidar, para surpreender, para elevar quem amamos. Se a beleza não era a condição primeira para o enlace, a admiração era. Quem ama admira. Um ao outro. Nas ações diferentes e nos tempos diferentes. Nada de anulações. Mas de encontros. Cada um prosseguirá tendo a própria história. E, juntos, uma história comum. Quem se anula um dia cobra. Quem ama não admite anulações. É como as asas de um pássaro qualquer. Não sabe Solange porque se lembrou de um pássaro. Talvez porque tenha duas asas, e as duas precisam estar inteiras para o voo certeiro. Talvez.

A vocação do amor é o alto. Se se prende a detalhes menores, não há voo. São cúmplices as asas. Os amantes. Os sonhos.

Solange sonha com esse mês de maio. Não que esteja em apuros. Se não encontrar, há de esperar mais um pouco. Não há de estragar os novelos com uma blusa que não aqueça. Solange gosta das tardes em que acompanha a despedida do sol com as agulhas de tricô e o tecer de mais um agasalho.

O mês de maio é um mês bonito. Nem muito quente. Nem muito frio. A paixão é apressada, ansiosa. O amor é paciente, tranquilo. Há muitas esquinas na cidade de Solange. Não é preciso se precipitar no primeiro encontro. Se o que amou não correspondeu, nada de mendigar. Migalhas não satisfazem uma vida. A paixão se satisfaz com migalhas. Depois se irrita. Depois quer mais. Depois desiste. Depois volta. Depois chora. Depois agride. Depois jura que nunca mais. Depois desiste do que jurou. O amor, não. Ou é pleno ou não é. O amor cuida como exigência própria de sua existência. Nada de agressões nem de ausências. Olhares. Mãos. Cheiros. Beijos. Tudo calmo e tudo intenso. E admiração. Daí é que nasce o respeito. O gosto de ver. E de ver de novo. De ouvir. E de ouvir de novo. E de não se cansar. Cansaços fazem parte do trabalho, da lida, não do amor. Quem se cansa de uma brisa leve? Que nunca incomoda? Quem se cansa da água que nos alimenta de vida? Quem se cansa das mãos, com todas as suas linhas, que estão prontas para acariciar?

Ainda estamos no início do mês de maio. Solange tem algum tempo para o início. Hoje, ela saiu especialmente feliz. Teve um lindo sonho. Em tempo, sonhos ajudam a encontrar um amor.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 07/05/2017

Motorista de ônibus

Paterson é um motorista de ônibus que vive a rotina de um motorista de ônibus. Sua cidade e sua linha de ônibus têm o mesmo nome que o seu, Paterson. Ele é casado com Laura, uma mulher que passa os dias pintando cortinas e tapetes na companhia de seu cachorro. Sonha ela em ser doceira, ou melhor, fabricadora de cupcakes ou quem sabe uma cantora country.

Paterson tem uma rotina comum. Acorda quase sempre no mesmo horário. Beija sua mulher. Come alguma coisa. E vai trabalhar caminhando. Nos mesmos trajetos, consegue inspiração e tempo para escrever poemas. Escreve-os em um caderno secreto. A mulher gosta quando ele os lê. Ela o admira profundamente. Quer que o mundo conheça os seus escritos. É mais ou menos essa a narrativa de um filme de Jim Jarmusch que está em cartaz nos cinemas. O filme é uma celebração à poética do cotidiano.

Ezequiel é um motorista de um ônibus que vive em uma grande cidade que não leva o seu nome, em um grande país chamado Brasil. Ele é casado com Laura, uma professora apaixonada por crianças e por seu marido. Moram em uma casa simples. Acordam muito cedo. Fazem amor quase que cotidianamente e saem para trabalhar. Ezequiel gosta dos finais dos dias, quando toca violão para Laura. Ela escreve silenciosamente seus poemas de amor em um caderno qualquer.

As duas Lauras sonham muito. E gostam de falar sobre os seus sonhos. As duas Lauras admiram os seus maridos. Paterson e Ezequiel orgulham-se de terem feito a escolha correta. Dirigir. Os ônibus e suas vidas. Dirigir sem solavancos. Felizes pelos cotidianos. Nada de velocidade exagerada para não precisar de freadas incômodas. Há que se ter atenção. Há perigos por todos os lados. Há desavisados que tentam entrar na frente e causar acidente. Às vezes, propositadamente; outras, por descuido. Comentários infelizes sobre vidas felizes podem causar estragos.

A Laura do filme sonhou que teriam eles filhos gêmeos. A Laura de Ezequiel está grávida. De gêmeos.

Ficção e realidade se encontram em narrativas comoventes de vidas humanas. Há tanta história para ser contada. Poetas se valem do que veem, do que ouvem, do que experimentam, do que sentem, do que imaginam. A poesia é democrática. Nasce dos que se dedicam às palavras como ofício de vida e nasce dos que conduzem ônibus ou educam crianças. A poesia é livre. Não a detém apenas os que ampliaram o repertório estudando tratados e enciclopédias. A vida também é uma escola. Uma escola poética.

Certamente, haverá aqueles que dirão que motoristas de ônibus sofrem muito, ganham pouco, trabalham exaustivamente. Que professores ou fabricadores de cupcakes não têm tempo nem para respirar, quanto mais para amar. Conclusões apressadas. O amor é soberano. Sobrevive ao tempo e às ausências. Empresta perfume ao suor cotidiano. Lava o que é necessário. E alimenta as ruas que precisam ser percorridas.

A rota de Paterson e de Ezequiel é sempre a mesma. Mas é diferente. Um texto de uma música country é sempre o mesmo. Mas é diferente. As crianças que estão na sala de aula com a professora Laura são as mesmas. Mas são diferentes. E o sabor da diferença é uma experiência necessária.

Ousar outras vidas, mudar de profissão ou atividade, experimentar uma nova história, tudo isso é possível e, às vezes, imperativo. Quando não se está feliz em uma rota, urge lembrar que há outras.

Paterson e Ezequiel preferem permanecer. Querem continuar assim. Conduzindo e sendo conduzidos. Experimentando as diferenças das estações. Acompanhando uma conversa aqui outra lá, não por intentos de espalhar segredos, mas por encantamento. Vidas humanas trazem encantos quando se compreende. Arrogantes desperdiçam essas oportunidades.

O filme e a vida nos ensinam que a humildade é uma companheira e tanto. Como Laura. Como as Lauras. As que amam. As que sonham.

Em suas rotinas, parece não haver muitos recursos para gastos extraordinários. Não querem comprar o que veem nos anúncios. Seus sonhos são outros. Como trabalham muito, o pouco tempo que resta é dedicado ao amor e à poesia. Conduzem a vida dos outros sem delas se valer para comentários maldosos. Não. Isso não lhes cabe. Como só sabem de trechos de conversas, não se dão o direito de conclusões. Preferem concluir o dia com canções e com o direito de dormirem juntos. Porque amanhã tem mais.

Quem tiver oportunidade assista ao filme. Quem tiver oportunidade preste atenção a um motorista de ônibus e a como ele conduz sua vida. Quem sabe você encontre um Ezequiel por aí. Se encontrar, mande lembranças para Laura, ele há de agradecer.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 30/04/2017

Viver a vida

Os desajustes de hoje desaparecerão amanhã. Os embates tão apaixonados darão lugar a outros. As dores também serão substituídas. Problemas que parecem montanhas intransponíveis serão reduzidos a areias inofensivas. É esse o poder cicatrizante do tempo.

Pense em uma discussão de trânsito. Que significado terá ela para uma vida? Por que tanta efusividade com o que passa no abrir de um sinal? Uma escolha para onde ir em um entre tantos finais de semana? Brigas? Por quê? Porque o time fez um gol? Outros jogos nos preencherão, outros gol poderão ser defendidos ou marcados.

Um vaso se quebrou? Que o tempo da varredura seja o mesmo que o tempo da chateação. E nada mais. E prosseguir.

Um machucado? Algumas lágrimas. E nada mais. Um aparelho que se quebrou. Uma encomenda que não chegou. Um projeto que falhou. Sucessões de “nãos” nos incomodarão, mas nos ensinarão, também, a dizer os “nãos” necessários. Que hão de nos proteger.

Uma doença chega e nos ensina. Ensina-nos a valorizar o que poderíamos perder.

Uma amiga, que venceu uma doença que parecia invencível, um dia me disse: “É preciso ‘viver a vida’, porque a vida que passa não volta e a que ainda haverá de vir talvez não venha.

Desperdiçamos tanto tempo maculando o sagrado tempo do amor, da amizade, dos encontros. Precisamos inaugurar uma pedagogia do encontro. Do encontro com os sonhos que restaram em nós. Que sobrevivam! Do encontro com mãos que ainda acreditam no caminhar juntos. Do encontro com os amores imperfeitos que conseguimos amealhar. Não esperem amores perfeitos. Ainda não foram inventados. Nem pessoas perfeitas. Basta que nos olhemos no espelho da consciência e percebamos que em nós também mora a imperfeição.

Certo amigo disse ao outro: “Te perdoo pelos seus erros”. O outro apenas sorriu. Sorriu o sorriso da compreensão. Quem não erra?

Quando vejo dois idosos caminhantes, fico imaginando o meu amanhã. Acompanhado. De amores. De amigos.

O tempo há de nos presentear com alguma lucidez. Menos desperdícios com o efêmero e mais celebração com o eterno. O que gostaria de eternizar nos meus gestos? A arrogância ou a compreensão? A avareza ou a generosidade? O orgulho ou a delicadeza?

Hoje, é plantio. Amanhã, é colheita. Hoje, é colheita. Amanhã, é plantio. Plantamos e colhemos sem pausas. O que falamos expressa e constrói o que sentimos. O que sentimos se materializa no que falamos e somos. Por isso, é preciso “viver a vida”. Sem concessões. Em qualquer idade. Diante de qualquer enfermidade. No enfrentamento de qualquer dor. Viver a vida como um decisão inegociável. Aproveitar cada instante para a reinvenção. Se o que foi, foi, então, é viver o que fica. Se um movimento se perdeu, há outros que merecem atenção. Se um amigo nos decepcionou, há alguém, logo adiante, aguardando um olhar amoroso.

Se não há dinheiro para uma longa viagem de celebração, celebre o pôr do sol. Em alguma esquina. Mas acompanhado. Sempre há alguém – não necessariamente quem teimamos desejar – disposto a assistir ao espetáculo.

O sol se põe. E o sol nasce. E novamente se põe. E novamente nasce. Os ciclos são um convite a separarmos o bom do que passa rápido. O que é bom permanece. Como obra humana inspirada e inspiradora. O que é bom permanece nos oferecendo sorrisos gratuitos. Basta uma prosa, em um dia qualquer, e a alma se alimenta.

Ao contrário do grito, do xingamento, das rasuras. Eles assustam a alma. E ela encolhe. E, pequena, já não vê a sucessão de belezas que compõem a nossa vida.

Em um velório, presenciei o adeus de uma mulher ao marido amado. O choro da saudade e a gratidão do amor sem economias. Palavras lindas de quem encontrou alguém para costurar os sentimentos e cuidar como decisão e necessidade.

Todos os dias chegam vidas e todos os dias vidas partem. A sabedoria está em compreender as chegadas e as partidas e viver o tempo que temos sem complicações.

Vez ou outra, eu me pego lembrando do tempo ao qual gostaria de voltar. Acabo voltando às caixas tantas que armazenam o bem que vivi. Volto onde estou com vontade de prosseguir. Sabendo que sou capaz de enfrentar as tormentas com o depósito de amor que meus pais e tantos que amei, por mim, passaram.

Plantios e colheitas. Colheitas e plantios. Vida que segue… de preferência com bagagem leve. Para que não nos descuidemos de quem precisa de nós.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 23/04/2017

Páscoa, o amanhecer da vida

Amanheceu.

O túmulo está aberto. Os que conseguiram chegar perceberam que a morte já havia sido vencida. A noite demorada não resistiu. A luz chegou.

É um novo dia de novos dias que se sucederão. Os esforços dos senhores do poder deram em nada. Nada é mais forte do que o amor.

A Páscoa é a celebração do amor. Do amor que vence o ódio. Da vida que vence a morte. Da liberdade que vence a escravidão.

Os que odeiam são escravos do próprio ódio. Os que oprimem são escravos da própria opressão. Os que condenam são escravos da própria condenação.

Julgaram Jesus. Condenaram-no a deixar este mundo. Primeiro a cruz, depois o túmulo. A cruz persiste como sinal do que houve. O túmulo está vazio. Era pequeno demais para caber tanta vida. A morte nos inquieta. Certamente. Há um mistério entre o que vemos e o que gostaríamos de ver. Se pudéssemos saber o que acontecerá depois… Fiquemos no que está ao nosso alcance. Olhar para o que aconteceu e aprender com o acontecido. E prosseguir.

Na Páscoa antiga ,a coragem de Moisés. Nem os exércitos nem as águas foram capazes de deter o seu sonho. Era um povo escravo que merecia a liberdade. Na Páscoa nova, é a vida de Cristo que renova a nossa. Um povo carente de um sinal. Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há crianças aprendendo a serem suicidas, há outras chorando os pais, mortos “em nome de Deus”, há outras vitimadas pelas violências tantas. E Jesus ensinou que cuidássemos delas.

Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há famílias destroçadas pela violência, há guerras dentro das casas, lares que se transformam em palcos de morte. Apedrejadores em posição de alerta. E Jesus nos olhou com compaixão.

Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há alguém ao nosso lado, esperando um gesto de amor, um reconhecimento, um cuidar que alivia o cargo pesado que mora em nosso destino. E Jesus nos deixou o mandamento do amor, do amor a Deus e ao próximo. Quem é o meu próximo? Passo ao longe e tenho pena ou desço de onde estou para cuidar de suas feridas?

Mundo ferido o nosso. Feridas abertas que precisam de um poder cicatrizador. Quem há de pegar a essência que ficou no amanhecer daquele túmulo para perfumar os ambientes e aliviar as dores? Os professores? Os médicos? Os artistas? Os pais? Os amigos? O próximo?

Quem é o meu próximo? Quem precisa de mim hoje? Se conseguíssemos responder a essa pergunta e encontrássemos esse irmão, celebraríamos uma Páscoa muito mais significativa. Seríamos menos escravos, menos trancafiados em nossos túmulos. Tristes de nós quando nos afeiçoamos aos túmulos e nos negamos a ver que estamos vivos e que o dia já amanheceu.

Tristes de nós quando fechamos os olhos fingindo que é bom estar onde estamos, no lugar dos mortos, dos que desistiram. Tristes de nós quando – avarentos de atitudes e de sentimentos – somos incapazes de abraçar a generosidade.

Páscoa é alegria. É esperança. Mesmo àqueles que passam ao longe das religiões vale um olhar para a história. Por que um filho de carpinteiro marcou a história da humanidade? Que carpintaria de alma é essa? Que poder é esse que atravessa os tempo e continua a fascinar? O seu fascínio está além das religiões. Está além do que conseguimos ver ou compreender. Seu legado é simples. Amar. Sem barreiras nem fronteiras. Sem muros. Sem nada que impeça de estender as mãos e cuidar. Do próximo. Do distante. De qualquer um cujos olhos se encontram com os nossos.

Páscoa é passagem. Barreiras, muros e túmulos tentam interromper o curso das vidas. E há quem defenda isso. Deixemos, por ora, essas escuridões de lado.

Amanheceu. E a esperança voltou a nos fazer companhia.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 16/04/2017

Domingo de Ramos

Quem eram aqueles que aclamavam Jesus na entrada de Jerusalém? Aqueles que, com os seus ramos de oliveira, gritavam “Hosana, hosana ao filho de Davi”? Quem eram os que festejavam sua história? O Nazareno que falava sobre o amor, que não tinha preconceitos, que conversava com as crianças, que acolhia as mulheres, que não tinha nojo dos leprosos? Aquele que ensinava em parábolas?

Havia razões para comemorar a sua chegada. Ele desassossegava as pessoas com sua capacidade de ensinar o amor e seus afluentes. Do rio precioso, saíam outros necessários como o perdão, a misericórdia, a compaixão.

Teve Jesus compaixão por aquela mulher que, por pouco, não fora apedrejada. Chorou com os choros das irmãs de Lázaro. Compreendeu a dor da viúva de Naim. Era um cortejo de lágrimas que saía da cidade quando ele chegava com o cortejo da esperança. E a mãe pôde abraçar novamente o seu filho. Devolveu alegria aos noivos de Caná da Galiléia. Explicou que os humilhados serão exaltados e que os humilhadores não encontrarão a paz.

Entrava esse homem em Jerusalém e o povo tinha razões de sobra para aplaudi-lo. Mas o que houve depois? O mesmo homem foi humilhado, açoitado, despido de sua dignidade em um calvário de abandonos. Os gritos eram outros. Queriam o seu fim. Não toleravam mais a presença de alguém tão bom. Era preciso jogar sobre ele todos os ódios que estavam acumulados.

Ele representava algum perigo? Decidiram que “sim”. Em uma guerra de comunicação, convenceram os que o receberam com aplausos a cerrar os punhos e lançar sobre Jesus suas ausências. Nada de misericórdia ou compaixão. Nem a dor da mãe que encontra o filho ensanguentado parecia comovê-los. Até os amigos tiveram medo e o negaram. A cruz seria o seu destino. Antes um governante lavou as mãos. Antes uns religiosos justificaram os horrores em nome de Deus.

Usar o nome de Deus para matar é correto? Quem decide o que é o correto? Mas e o povo? O povo que o aclamava com alegria? Mudou de lado. Um cisco entrou em seus olhos e já não mais enxergavam. O ódio tem esse poder. O poder de não nos deixar ver. E o pregador do amor caminhava para ser pregado na cruz.

E a história se repete. É o início de mais uma Semana Santa. As cerimônias são plenas de ensinamentos e instigações. Quem estamos crucificando hoje? Quem estamos abandonando? Ontem, os entusiasmos diante da possibilidade do poder. Hoje, o abandono.

O jovem pregador do amor não reagiu aos odientos ataques. Não era esse o seu tema de vida. Seguiu ciente de que o tempo haveria de rasgar o véu da ignorância que cegou aquela gente.

O que nos cega hoje? Dizeres malditos que nos convencem a matar? A morte na cruz não está prevista em nosso sistema jurídico. Mas e as cruzes que obrigamos o outro a carregar? Houve justiça com Jesus? Justiça injusta aquela. Filha da mentira divulgada. Filha do medo de um amor revelador.

Políticos e religiosos, legalistas e moralistas estavam todos do mesmo lado. Divulgadores de falsidades, também. E, do lado certo, estava Ele. Entrando em Jerusalém. Partilhando o pão. Lavando os pés dos Seus amigos. Orando por paz.

Os nomes dos que gritavam pedindo Sua morte não ficaram registrados nas história. O Dele ficou. O menino de Nazaré, o filho de Maria e do carpinteiro José, o inaugurador de uma nova forma de falar com Deus, de falar de Deus.

Que essa semana nos santifique. Os ciclos se repetem. Os de ódio e os de amor.

Quando olhamos os ódios do passado, os tiranos, os injustos, os mentirosos, certamente, lamentamos. Mas e quando reproduzimos esses mal comportamentos? Há alguns que tiveram o poder e mataram milhares ou milhões. Há outros que matam esperanças dentro de casa, que desperdiçam infâncias, que agridem mulheres, que roubam a alegria. Que tiram a paz dos que encontram nas tantas esquinas que há por aí. Há os que crucificam na primeira informação e há os que conversam com o tempo para compreender.

No domingo que vem, é Páscoa. Um outro dia. Um outro artigo. Um outro raio de esperança a nos dizer que é a vida a vitoriosa.

Que seja uma semana de vida, para todos nós, imperfeitos, errantes, ávidos por alguma luz. A luz está na cruz, mas sairá dela para viver nas consciências que se abrirem, como se abriu aquele túmulo, mostrando que a morte não poderia matar o amor.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 09/04/2017

Sujos e malvados

Uma mulher estava limpando a rua. Muitas mulheres e homens limpam as ruas, todos os dias, nas pequenas e nas grandes cidades. Com seu uniforme, a mulher, gari, limpava a rua.

Um homem chegou para entrar em seu carro e começou a xingar a mulher. Falava alto. Gesticulava. Ameaçava. A mulher tentava explicar. O homem não estava disposto a ouvir. Eram frases tão soltas, tão desconectadas, tão agressivas que ficava difícil entender tamanha chateação em uma manhã ensolarada.

O dia estava apenas começando. O homem saiu com o carro em alta velocidade, sem desperdiçar, entretanto, a oportunidade de mais algum xingamento. Com o vidro aberto, mandou que ela sujasse a mãe e ainda disse que estava com o nome dela e que ela aguardasse para ver o que haveria de acontecer. Gritando e olhando para trás, quase atropelou uma criança com roupa de escola.

A mulher parou um pouco, colocou as duas mãos sobre a vassoura em pé, abaixou o queixo para acomodá-lo sobre as mãos e respirou calmamente para que as batidas apressadas do coração voltassem a ser o que eram antes do ocorrido.

Chorou aquela mulher. Lembrou-se da mãe, de quem ela cuidou até morrer. Sujar a mãe? Nunca. Limpou-a muitas vezes, quando a doença roubou sua autonomia. Acordou cedo, cedíssimo, para trabalhar. O pouco salário nunca foi desculpa para algum descuido. Se alguma poeira atingiu aquele homem, não foi proposital. Ela estava de costas quando ele chegou. O carro estava estacionado em frente a uma igreja. Certamente, ele não estaria saindo da igreja, pensava a mulher. Se estivesse saindo, se estivesse ido rezar, não agiria daquela forma.

O homem pediu o seu nome. Ela, imediatamente, deu. Com a língua presa, pronunciou um nome comum. Não entendeu a razão. Ligaria ele para algum conhecido poderoso e pediria que ela fosse demitida? O homem parecia decidido a mostrar que mandava.

Pensamentos tantos ocuparam a cabeça da mulher. O cansaço. A diabetes. A preocupação em não ficar nervosa. A pressão alta. Os filhos que dependiam dela. O marido, que gritava de forma parecida à do homem do carro, havia ido embora. Estava tudo nas mãos dela. Limpar a cidade e cuidar dos seus. E, agora, numa manhã ensolarada, num dia ainda espreguiçando, a chateação dos maus tratos.

O homem estava bem vestido. Parecia limpo. Parecia. Não. Não era a poeira saída das ruas que haveria de sujá-lo. Estava sujo o homem.

Lembrei-me do filme de Ettore Scola, “Feios, sujos e malvados”. O filme é uma provocação. Comportamentos desprovidos de ética moravam naquelas personagens que misturavam estilos, tragédia shakespeariana e comédia italiana. Tragédia e comédia. Dores e risos. Pessoas bondosas que amanhecem conosco, e pessoas que almejam roubar nossos amanheceres.

O homem do carro não tinha nenhum estilo. Não sei dizer se era feio. Não deu para reparar. Mas era malvado. Era uma manhã ensolarada. A folha do novo dia estava quase em branco. Aguardando textos. Começar com uma rasura demonstra descuido maior do que o da mulher, se descuido houve. O que ela sujou? Ele? O carro? Com alguma poeira?

Covardias são comuns em pessoas sujas e malvadas. E feias. A beleza não mora em detalhes objetivos e explícitos. Brota de uma luz que todo o ser humano é capaz de irradiar. Parecida com a luz daquela manhã ensolarada. O homem teria outros motivos para estar daquele jeito? Não. Não há justificativas para ações assim.

A criança que quase foi atropelada, um pouco adiante, ajudou uma senhora idosa a atravessar a rua. Aprendeu esses bons modos em algum lugar. Que bom. Há esperança!

O homem saiu dali para ir a algum lugar. Sei quase nada dele para dizer algo a mais. Sei que o que vi é feio. Abracei aquela mulher, suada de nervosismos e da lida, preocupada com o amanhã, ciosa de que teria que prosseguir, de que havia muito a ser limpo naquela cidade.

Cenas cotidianas nos inspiram. Falou-me um pouco do seu calvário aquela mulher. Tinha medo de gritaria. Conviveu com um pai assim e com um marido assim. Gostava da vida. De acordar cedo. De ter um trabalho. De deixar a cidade mais bonita. De encontrar pessoas educadas que, com naturalidade, a cumprimentavam. Sorriso bonito o daquela mulher. Passado o susto, ela estava novamente limpando. Fui saindo e reparando que os seus lábios se movimentavam. Não sei se ela estava conversando com ela mesma e dizendo que não se importasse ou se estava cantando. Se estivesse cantando, certamente seria uma canção bonita. O sorriso dos olhos revelava isso.

Disse a mim mesmo que não fosse descuidado. Que nunca agisse como aquele homem em frente à igreja. Disse a mim mesmo que cultivasse a beleza e a bondade daquela mulher.

A criança, ao longe, ia para a escola. Deve ter ela bons professores.

Era uma manhã ensolarada. Era um dia ainda começando. Quantas outras mulheres bonitas e bondosas ainda haveriam de se encontrar com homens sujos e malvados?!

Não que não haja mulheres malvadas e homens bondosos. Mas, naquela manhã ensolarada, foi o que eu vi, foi o que me aqueceu.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 02/04/2017