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E a guerra continua

É inexplicável o que está acontecendo na faixa da Gaza. Inexplicável! Toda justificativa dada só mostra uma coisa: o fracasso das relações humanas. As cenas das crianças mortas são horrendas. Com elas, morre o futuro, a esperança, a possibilidade de um novo tempo. Tempo difícil este. As crianças que não morrem são ensinadas a odiar. Odeiam quem não conhecem. Odeiam por fazerem parte de outro povo, de outra religião, de uma gente que mata a sua gente.

A faixa de Gaza é uma estreita faixa de terra localizada no Oriente Médio, fronteira com Egito e Israel. Grande parte de sua população é formada por palestinos que ali se refugiaram após a guerra árabe-israelense de 1948. Quantas tentativas de paz, quantos tratados assinados, quanta oração – aliás, os que matam se dizem religiosos. E colocam Deus para justificar essas atrocidades. Religião é religação, o que fazem é um desligamento. Por trás do discurso religioso, há outros interesses. Interesses econômicos são legítimos, desde que obedeçam minimamente à ética das relações humanas. Quando lemos sobre atrocidades cometidas em tantos momentos da história, perguntamos: como tratavam a mulher dessa maneira? Como faziam isso com os negros? E com os índios? Quanta crueldade naquelas arenas de violência. O triste é que parece que não evoluímos. O que estamos assistindo é tão feio, tão perverso, tão medonho como naquele tempo em que se jogavam cristãos nas arenas para serem comidos por animais. Os animais estavam famintos, por isso atacavam.

Que fome têm os animais racionais de hoje? Que valor orienta suas ações? É de causar tristeza e indignação. Falo das crianças sem futuro, mas também da horrível cena de mulheres e homens com vidas findadas pelo ódio e pela ganância de alguns líderes. Líderes? Líderes verdadeiros não agem assim. O nosso poder é apenas o da indignação, o da tristeza, o da oração. Que Deus, tão usado por aqueles que odeiam, nos inspire a amar. É essa a nossa redenção.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/08/2014

Shakespeare, Juca, Lear

Que Shakespeare é um genial leitor da alma humana, capaz de transformar em textos intrigas, dramas – vícios e virtudes do ser humano –, ninguém duvida. Que Juca de Oliveira é um mestre dos palcos e das telas, um ator que se reinventa a cada personagem para cumprir o compromisso com a essência de sua vida – ser operário da arte – é mais do que sabido.

E Lear, o Rei? Texto desafiador. Parece que foi escrito ontem. Trata de temas que nos incomodam hoje. Uma luta em que os vícios da vaidade, da ingratidão, do egoísmo parecem suplantar a virtude da sabedoria. Mas talvez o intento de Shakespeare seja exatamente o oposto. Mostrar o quanto erramos quando “envelhecemos sem ficarmos sábios”. O Rei comunica às três filhas que quer se aposentar. E que vai dividir o poderoso reino entre elas; para isso, quer ouvir as melhores declarações de reconhecimento de sua grandeza. Quer alimentar sua vaidade. Duas filhas fazem o jogo do pai e o engordam de elogios. A mais nova, a sincera, a que o amava de verdade não aceita fazer parte da trama. O pai, furioso, a renega e a expulsa. Divide o reino apenas com as duas que, depois de terem o poder, se cansam do velho pai. É a filha mais nova que vem salvá-lo. Assim segue a história. E Juca opta pela esperança no desenlace da trama.

A vaidade é um vício que emburrece. Perdemos o senso de nós mesmos. Acreditamos no poder que não temos. Permitimos aos aduladores a façanha do engodo. E nos esquecemos da transitoriedade da vida. “Somos pó e ao pó haveremos de voltar”. É esta a arma contra a vaidade: a sabedoria. Aristóteles ensina que o último degrau da sabedoria é a humildade. Virtudes que nos alimentam do que somos, que nos nutrem de felicidade e nos ensinam a viver. No cotidiano das escolhas corretas, no valor aos afetos desinteressados, no exercício nobre do pensar. Ver Juca interpretando vários personagens de Lear, em um monólogo surpreendente, nos comove e nos move. O futuro existe.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/7/2014

 

Elza e as rosas de Lupicínio

Fui ao show de Elza Soares. Uma guerreira que transformou sofrimento em trabalho e que faz, de sua arte, uma vitória contra o derrotismo. Elza casou-se aos 12 anos. Nascida na favela, sofreu todo tipo de preconceito. Foi mãe aos 13. Perdeu um filho. Teve que doar outro. E perdeu mais um, o de Garrincha – homem a quem amou profundamente, mesmo incompreendida, humilhada por uma sociedade influenciada por dizeres falsos. Persistiu. Nunca renunciou ao amor. Que sentido teria a vida se o fizesse?

Elza canta o amor com o brilhantismo de uma voz afinadíssima, única. No show, canções de Lupicínio. Outro gênio que não renunciou ao amor. Sofreu. E revelou sua dor: “Esses moços, pobres moços/Ah, se soubessem o que eu sei/Não amavam, não passavam/Aquilo que já passei”. Elza fala do dia em que Lupicínio foi vê-la em um show. Elegante, com os olhos fitos nela. “Olhos de paixão”, imaginou. “Olhos de segundas intenções”. Quando ele se aproximou, disse: “rosas para uma rosa”. Elza, na defensiva, respondeu: “não me chamo Rosa e detesto rosas”. Quando ele, sorrindo, identificou-se, Elza, desculpando-se, disse que amava rosas e que tinha apenas medo. Afinal, ferira-se com muitos espinhos em sua vida. Ficaram amigos. O primeiro grande sucesso da cantora foi a música de Lupicínio: “Se acaso você chegasse”.

Ao final do show, lotado, tive a honra de conversar com ela. Uma dama. Saiu de uma cirurgia na coluna, tem dificuldade para andar. Mas, na sua voz, não há espaço para lamúrias ou queixumes. Na sua voz, há arte da melhor qualidade. Na sua voz, há um fluxo de histórias tantas de dor, de saudade, de perdas e de vitórias. Bom conhecer pessoas assim, que nos alimentam de futuro e de autenticidade. É também de Lupícinio a obra-prima com que encerra o show: “Felicidade foi se embora/E a saudade no meu peito ainda mora/E é por isso que eu gosto lá de fora/Porque sei que a falsidade não vigora”. Onde a falsidade vigora é melhor pular fora.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/7/2014

Viajar com bagagem leve

Dizem que os viajantes mais experientes levam malas menores, mais leves, mais fáceis de serem transportadas. São mais prudentes do que aqueles que levam malas pesadas, que aumentam as dificuldades. É um problema colocá-las no bagageiro ou mesmo andar pela cidade até o local em que se vai hospedar. 

A vida é, também, uma viagem. Igualmente, temos nossas bagagens que vão acumulando com o tempo.

Algumas pessoas acumulam tanto peso que vivem perturbadas. E, acostumadas com a perturbação, não conseguem se livrar. Não conseguem mais se lembrar do que é viver com leveza, com liberdade.

Há acúmulos materiais. Pessoas que não conseguem doar roupas, livros, CDs, móveis etc. E, como não param de comprar, suas casas ficam abarrotadas do que não usam, do que não necessitam. Em tempos de campanha do agasalho, faz muito bem experimentar a generosidade e ajudar quem precisa.

Há outras bagagens que pesam a nossa existência, com as quais, infelizmente, nos acostumamos e não conseguimos nos livrar. O peso do ódio, do espírito de vingança, da mesquinhez, da arrogância, da ausência de compaixão. O amor não correspondido. A traição. Os malfeitos que nos fizeram. Atos que, evidentemente, nos despertaram tristeza e dor. Mas há o tempo da dor, e o tempo de, dela, libertar-se. Há o tempo da tristeza e o da superação. E a viagem precisa seguir seu curso.

Acumular esses mesquinhos sentimentos é fazer com que nossa trajetória seja pesada, é correr o risco de não ter forças para prosseguir com dignidade, é cair com facilidade. Assim como acontece com as malas de viagem, as exageradas.

Acumular o que não se usa requer mais espaço e mais trabalho, além de gerar mais problemas. E é desnecessário. Acumular sentimentos menores é ainda pior. É fazer com que nossa vocação para a liberdade, para a leveza, seja comprometida com estranhamentos de ontem. Vivamos o hoje com os olhos para o amanhã. E com pouca bagagem. Ou melhor, com a bagagem essencial.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/6/2014

A cultura do encontro

Desde que o mundo conheceu o novo papa, somos todos – católicos ou não – surpreendidos por sua sabedoria e simplicidade. Francisco é um homem de palavras exatas. De reflexões singelas e provocativas. Ocupa-se, incansavelmente, de nos atentar para as evidências que, na velocidade da vida moderna, deixamos de enxergar, de ponderar.

Em sua rede social, com 14 milhões de seguidores, o papa nos chama para o cuidado com os idosos: “Às vezes descartamos os idosos, mas eles são um tesouro precioso: descartá-los, para além de ser injusto, é uma perda irreparável”. Alerta-nos contra a cultura do descartável. Da injustiça. Convoca-nos, enfim, à missão de paz e bem. “Fazei-me instrumento de Vossa paz”, como disse o outro Francisco, o santo de Assis. O revolucionário do Amor.

Apenas o amor pelo próximo nos faz enxergar a face de Deus. Descartar nosso irmão é desconhecer nossa essência. Somos carentes uns dos outros. Em qualquer idade. No caso dos idosos, há uma razão a mais: é desperdício não aprender com sua sabedoria e experiência. Os idosos, assim como os jovens, constroem a sociedade, sustentam-na, alimentam-na em sua fonte de conhecimento, de histórias, de continuidade da família, de vir-a-ser. Edifiquemos a cultura da inclusão, do encontro, do acolhimento.

Pesquisas revelam que a população mundial vem envelhecendo, e a pirâmide etária, antes triangular, tende a se transformar. As pessoas estão vivendo cada vez mais. Além disso, nota-se uma participação mais ativa dos idosos, seja na continuidade do trabalho ou do estudo, seja na contribuição orçamentária às famílias. É evidente a importância da mudança do estereótipo do idoso e de sua inclusão.

Sigamos os exemplos da milenaridade das culturas que respeitam e dedicam a seus idosos posição de destaque no tecido social; amemos os que se empenharam em construir o que somos. Continuemos. Juntos. Sem descartar ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/6/2014

Chalita ministra aula inaugural para futuros integrantes da Guarda Civil Metropolitana

Os novos alunos do curso de formação da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo (GCM), oferecido pelo Centro de Formação em Segurança Urbana, assistiram, em sua aula inaugural, à palestra do professor Gabriel Chalita sobre “Inteligência Alpha”. Após uma abordagem repleta de referências filosóficas e experiências práticas, em que ressaltou a importância da proteção comunitária e preventiva, Chalita encerrou: “É uma honra conversar com mulheres e homens que cuidam de nossa gente”.

Esse curso de formação da Guarda Civil tem como missão capacitar e promover o aprimoramento de seus integrantes. Os novos alunos da GCM contarão, ao todo, com 600 horas de aulas presenciais e, quando formados, serão comandados pela inspetora Lindamir Magalhães Carneiro de Almeida, sob a supervisão do secretário de Segurança Urbana da Cidade de São Paulo, Dr. Roberto Porto.

Fonte: Assessoria de Imprensa | 13/6

O Brasil de todas as gentilezas

Em tempos de Copa do Mundo e de estrangeiros no Brasil, presenciei cenas que merecem ser compartilhadas.

Em São Paulo, uma senhora tentava, em português pausado, explicar onde ficava uma estação de metrô. O turista olhava sem entender, mostrava um papel com o nome da estação e perguntava em inglês. A senhora respondia com gestos. E sorria. Sorriso de quem desconhece o outro idioma, mas sabe das lições mais nobres da civilidade, da gentileza.

Vi, também, um taxista atendendo um visitante com um dicionário na mão e com uma impressionante disposição em atendê-lo. No aeroporto em Brasília, um jovem brasileiro, em bom inglês, dando sugestões de lugares para visitar.

Gente perguntando e gente ajudando a encontrar respostas. Convívio. Acolhimento. Somos marcados por problemas sociais, desigualdades gritantes, ações políticas que desconsideram sonhos e necessidades de nossa gente. Mas, ao mesmo tempo, somos um país marcado pela alegria, pelo respeito ao diferente. Formamo-nos a partir de tantos que aqui chegaram. Imigrantes corajosos, desafiadores do medo, construtores de futuro.

Este Brasil, com tantas contradições, é apaixonante. Bom seria que estivéssemos mais preparados para receber o estrangeiro. O turismo gera emprego, renda e é essencial para nosso reconhecimento internacional. Mas, se ainda nos falta muito, temos o essencial. A marca da cordialidade. O sentimento de ajudar.

Não há ingenuidade nesses relatos. Temos as chagas da violência. Nossas cidades carecem de infraestrutura. A desordem dos espaços urbanos gera mais violência e abandono. Mas essa é uma longa estrada que precisamos percorrer. Esses problemas não se resolvem com mágica, mas com competência e trabalho.

No entanto, a Copa está aí. Façamos o melhor. Independentemente de colorações partidárias, mostremos o Brasil de todas as gentilezas. Um país que não aprecia a guerra. Que não discrimina. Que recebeu de Deus uma natureza privilegiada. E gente. Gente que gosta de gente.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/6/2014

A chave de nossas lembranças

Gosto de conversar com as pessoas. Gosto muito.

Preocupo-me com um tempo em que pessoas gastam parte significativa da vida com máquinas e se esquecem do significado de “gastar tempo” com outras pessoas. Olhos fitos no celular. Mensagens. Redes sociais. Jogos. Avidez pelo mundo virtual. E quase nenhuma palavra com quem está ao lado.

Gosto de conversar com as pessoas. Repito. E gosto de ouvir suas histórias. Momentos, partidas, encontros. Lágrimas de nossas dores. Paixão. Dores de um amor não correspondido. Cicatrização. E, de novo, a esperança. E, de novo, a dor. Temos a chave de nossas lembranças e o poder de revisitá-las. O tempo passa e permanece dentro de nós.

Lembro-me de minha infância, de minha pequena cidade e das famílias sentadas na calçada em dias quentes. Não havia ar-condicionado, não havia internet, a televisão não ocupava nosso tempo. A violência não nos frequentava. Na praça, sempre havia música. Íamos à missa e, na saída, conversávamos sem pressa.

Presentes? No natal e no aniversário. Hoje, os quartos dos filhos são repletos deles, sem nenhum valor afetivo. Têm todo tipo de computador. Mas há ausência de pais contadores de histórias, de conversas reais, de pessoas que “gastem tempo” com pessoas.

Se não compreendermos a importância da simplicidade na convivência cotidiana, as lembranças de nossos filhos estarão recheadas de jogos virtuais e de um mundo que, embora fascinante, não tem a essencialidade do contato real.

Não sou contra o avanço tecnológico e confesso ser admirador desse universo. Uso as mídias sociais para propagar minhas crenças e aprender com os amigos que frequentam meu “quintal tecnológico”. Mas não abro mão do meu quintal real. De falar e ouvir.

Se os fogões a lenha, que faziam com que o preparo de nosso alimento desse um significado especial ao nosso tempo, não existem mais, existamos nós, presentes na vida e na lembrança futura dos nossos. Gosto de conversar com as pessoas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 6/6/2014 

 

Gabriel Chalita participa do 16º Salão FNLIJ para crianças e jovens

O professor Gabriel Chalita conversou com educadores e estudantes no 16º Salão FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), no Rio de Janeiro. Em meio a histórias e à frequente interação com as crianças, Chalita ressaltou a importância da leitura para uma formação escolar sólida e para a vida: “É preciso recuperar o valor da contação de histórias. Dos encontros, como este em que estamos.” E, dirigindo-se aos educadores presentes, completou: “Acerta quem permanece com os bons sentimentos de uma criança. Que a inocência não nos abandone.” 

O salão FNLIJ do livro para crianças e jovens já se tornou parte do calendário cultural do Rio de Janeiro. Esse projeto proporciona um importante diálogo entre escritores, ilustradores, professores e crianças para promover a educação e incentivar a leitura no Brasil. Além de bate-papos, o Salão do Livro disponibiliza bibliotecas, promove um seminário e uma premiação aos melhores livros do ano, de acordo com o júri da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. 

Fonte: assessoria de imprensa (5/6/2014)

Palestra magna de Gabriel Chalita no “Simpósio de Pesquisa Científica”

Ministrada pelo professor Gabriel Chalita, a palestra magna “Gestão do conhecimento”, do “Simpósio de Pesquisa Científica”, organizado pela FIPMOC – Faculdades Integradas Pitágoras –, em Montes Claros, contou com a presença de estudantes e professores da instituição e da região.

Além de orientações sobre como adquirir e melhor aproveitar o conhecimento almejado, Gabriel Chalita ressaltou a importância da formação escolar e da eterna busca pelo conhecimento: “A imaginação não nasce do acaso. É preciso base. É preciso fundamento. É preciso repertório. A criatividade ganha novos contornos quando são oferecidos caminhos.” Segundo Chalita, a busca pelo conhecimento e pelo sucesso permeia uma trajetória peculiar, em que “fracassos e sucesso, desafios e conquistas caminham lado a lado”.

A sétima edição do “Simpósio de Pesquisa Científica” conta ainda com outras palestras, minicursos e mesas redondas para proporcionar o encontro com o conhecimento.

Fonte: Assessoria de imprensa | 23/5/2014