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O que a Finlândia tem a ensinar

País que é referência em educação também se destaca em direitos sociais, política e inovações, como um chiclete que, em vez de provocar, evita cáries.

Na terra do Papai Noel, o presente é a educação: gratuita e de qualidade, independentemente de classe social. É no ensino que a Finlândia estabeleceu o alicerce para erigir, em um rincão de inverno gélido ao norte da Europa, uma das sociedades mais desenvolvidas do mundo.

Bem colocado em rankings de educação, qualidade de vida e combate à corrupção, o país nórdico arquitetou seu sucesso. Com um quarto do território acima do Círculo Polar Ártico e um histórico de séculos de dominação dos vizinhos suecos e russos, a Finlândia (independente desde 1917)apostou em uma rede de proteção social, no planejamento e na educação para assegurar o bem-estar de 5,4 milhões de habitantes, menos da metade da população gaúcha e apenas 2,6% da brasileira.

– Éramos um país paupérrimo, dominado pela Suécia e depois pela Rússia, que enfrentou uma Guerra Civil, sofreu até o pós-guerra e conseguiu se tornar um lugar próspero – orgulha-se IIkka Taipale, médico, professor universitário e ex-membro do Parlamento Nacional, editor do livro 100 Inovações Sociais da Finlândia.

Um simpático senhor de barbas e cabelos brancos, Taipale apresentou a coletânea de inovações em um seminário realizado pela embaixada do país em Brasília: licença maternidade de 11 meses, chiclete que ajuda a prevenir cáries, primeiro parlamento a aceitar mulheres, bebês que dormem em uma caixa de papelão…

O pilar desta sociedade de bem-estar é a educação, sem relação com métodos pedagógicos revolucionários. Pelo contrário, a Finlândia indica um caminho que pode ser seguido em qualquer país: um sistema uniforme e gratuito dos anos iniciais à universidade, o que inclui merenda, material e bolsas de estudo, além de professores qualificados e bem remunerados. Meio de alcançar avanços sociais e tecnológicos, como o pioneirismo da Nokia na telefonia móvel.

– Os melhores alunos da escola querem ser professores, é uma profissão de destaque na sociedade. A educação é encarada como forma de resolver problemas. Não adotamos o modelo de passar 10 horas por dia lendo e decorando assuntos. Há tempo para o lazer, música, esporte – explica a ex-ministra de Assuntos Sociais e Saúde do país, Vappu Taipale.

Ex-secretário de Educação do Estado de São Paulo, o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) elogia o modelo de ensino finlandês, em especial pela valorização aos professores, a maior parte com qualificação equivalente ao mestrado. Situação oposta à vivenciada no Brasil na educação básica.

– Temos de aprender a valorizar o professor em três lugares: na cabeça, no coração e no bolso. Cabeça é formação, coração é respeito, e bolso é um salário digno – defende.

Chalita também chama atenção para o incentivo que os finlandeses dão à permanência dos pais em casa – para o deputado, por melhor que seja uma escola, ela não supre a carência deixada por uma família ausente.

Já na sala de aula, as crianças compreendem a importância de uma sociedade com baixa desigualdade, em um país onde os bairros são planejados para que ricos e pobres sejam vizinhos. Infraestrutura, investimentos em mobilidade urbana e sustentabilidade também são prioridades ensinadas e materializadas pelos governos de coalizão, que asseguram a Executivo e Legislativo tranquilidade para desenvolver políticas públicas mantidas independentemente dos resultados eleitorais.

Não à toa, a Finlândia tem um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta: 0,879, ante 0,744 do Brasil. O IDH leva em conta três fatores: renda per capita, escolaridade e expectativa de vida. Quanto mais próximo de 1, melhor a avaliação. Tanta prosperidade exige uma das taxas de impostos mais altas do mundo. Tributos pagos sem resmungos.

– Somos contribuintes felizes – diz Ilkka Taipale.

Por: Guilherme Mazui – colaborou Mônica Bidese (especial) | Zero Hora | 30/11/2014

Tempo de delicadeza x Tempo de horror

De tempos em tempos, surgem pesquisas mostrando dados alarmantes sobre a violência contra a mulher. E, de tempos em tempos, crio a expectativa de que o tempo da delicadeza vença o tempo do horror, da covardia, mas não é isso o que vem ocorrendo. Infelizmente.

Dados recentes da ONU mostram que uma a cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual. Mais de 100 milhões de mulheres e meninas sofreram mutilação genital. No Brasil, segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres, a cada 12 segundos, uma mulher sofre violência sexual. Há outro dado, também assustador, que aponta que mais de 70% das agressões contra a mulher ocorrem no domicílio da vítima: pelos pais, irmãos, tios, padrastos etc. Não raro, os abusos desses homens são de conhecimento até mesmo de outra mulher da família que, por medo ou por vergonha, encobre o agressor. Muitos desses homens violentos justificam sua ação perversa e covarde como ato de amor. Amor? Quem ama respeita. Quem ama cuida. 

Quem decide partilhar a vida com alguém precisa compreender que momentos de instabilidade surgirão, mas que não serão resolvidos pela violência. Somos seres inteligentes, capazes de dialogar, aptos a compreender as nossas diferenças. É preciso acabar com essa história de maldade, de dor, de desrespeito. E as mulheres também têm um papel fundamental nessa batalha. Tolerar qualquer gesto de violência, por menor que ele pareça ser, é abrir as portas para agressões mais sérias. Brincadeiras em que o outro se torna o brinquedo não devem frequentar o convívio humano. É bom ver ONGs se mobilizando, a mídia alertando, a sociedade compreendendo e agindo.

Toda atitude machista é vergonhosa. Uma atitude violenta, além de criminosa, é horrenda. Mostremos a nossa melhor face. A face dos que caminham de mãos dadas, sem tempo nem disposição para atirar pedras.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/11/2014

 

A consciência livre do poeta

Uma reflexão sobre o dia da Consciência Negra

Era um sonho dantesco”. Assim o poeta da liberdade e dos escravos, Castro Alves, descreve a infernal cena dos escravos acorrentados na enorme embarcação negreira. Da metáfora à crueldade de dias sombrios em nossa história. Homens, mulheres, jovens e crianças arrancadas de sua terra natal, feitos escravos, sem o direito de sequer sonhar. “Ontem a Serra Leoa,/ A guerra, a caça ao leão,/O sono dormido à toa/Sob as tendas d’amplidão! /Hoje… o porão negro, fundo,/Infecto, apertado, imundo,/ Tendo a peste por jaguar…”.  Muitos morriam pelo caminho, encarcerados num porão fétido, lúgubre e desumano, sem ar suficiente para respirar. Centenas de homens negros amontoados como bichos, castrados de sua dignidade que se esvaía pelo mar. A vida, ali, confundia-se com a morte. Homens vivos sem vida. Homens mortos sem dó. “Nem são livres p’ra morrer.”

No meio do doloroso inferno misturado ao vermelho sangue, algozes brancos e ferozes, desafiando a irmandade entre os homens, entre todos os homens, açoitavam – impiedosamente – os impotentes escravos. “ No entanto o capitão manda a manobra,/ ‘Vibrai rijo o chicote, marinheiros! /Fazei-os mais dançar!…”. Mulheres e homens negros debaixo de chibatadas, destinados à miséria humana de servirem de escravos classificados apenas pela cor de sua pele. Nascidos para sofrer, sem direito à escolha, sem direito ao amor, sem direito à liberdade. 

Como um pássaro que sobrevoa o mar, avistando o solitário navio, o eu-lírico parece aproximar-se da cena, como se não fosse possível acreditar no que ali acontecia: “Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras! /É canto funeral! … Que tétricas figuras! … /Que cena infame e vil…/ Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”. A indignação do poeta diante daquela atrocidade persiste muitos anos depois. O poema foi escrito há 146 anos.  Há poucos 51 anos, Martin Luther King, líder negro norte-americano, declarou em um discurso de paz e indignação diante das leis segregacionistas que negavam iguais direitos aos negros de seu país: “Eu tenho o sonho de ver um dia meus quatro filhos vivendo numa nação em que não sejam julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo seu caráter.” No final do século XX, outro grande líder negro, Nelson Mandela, proclamou-se, também, diante do preconceito injusto contra os negros africanos: “Ninguém nasce odiando outras pessoas pela cor da sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Questionava ele sobre o fato de os homens aprenderem a voar como pássaros e a nadar como peixes e não aprenderem a conviver como irmãos!

Indignemo-nos. Sempre. Os navios negreiros foram proibidos, a escravidão foi abolida e a consciência negra de Castro Alves fez história. E a de tantos outros líderes que dedicaram suas vidas à luta pela liberdade. Pelo direito de cada homem ser o que é. Com dignidade. Todos os homens são iguais. Um homem jamais foi superior ao outro. Não há, nem nunca houve, homens de primeira nem de segunda categoria. 

O sonho libérrimo desses homens permanece. O nosso também. Vivemos em uma sociedade que não pode suportar o preconceito em nenhuma situação. Que a celebração da data da Consciência Negra seja de reflexão, de união, de solidariedade.  De respeito aos nossos irmãos negros que ajudaram a construir a identidade desta nação. De pedir perdão às dores e aos horrores a eles causados. É um dia de esperança. A esperança de que, um dia, não precisemos mais de um dia dedicado à Consciência Negra. Que as tintas que pintaram quadros de crueldade humana componham, nestes tempos, um cenário de diversidade harmoniosa e cúmplice. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/11/2014

 

 

Lançamento do livro “Cozinhando com poesia”

No dia 28 de novembro, na livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis, Gabriel Chalita e a chef Eliane Carvalho lançarão o livro “Cozinhando com Poesia”, editado pela Companhia Editora Nacional. Poemas e reflexões escritas por Chalita dialogam com quarenta e nove receitas de carnes, peixes, entradas e sobremesas, elaboradas por Eliane Carvalho e inspiradas na culinária francesa.

Noite de autógrafo com Gabriel Chalita e Eliane Carvalho

“Cozinhando com poesia”

28 de novembro, das 18h30 às 21h30

Livraria da Vila – Shopping Pátio Higienópolis (piso Pacaembu)

Av. Higienópolis, 618 

 

Macapá e Belém recebem Gabriel Chalita

Gabriel Chalita ministra palestras para professores e estudantes na região norte do país. Acadêmicos de Macapá e de Belém participam desses encontros em que a educação e o crescimento integral dos alunos são basilares.

Segundo Chalita, “educar é fazer do conhecimento um aliado para o desenvolvimento pessoal e profissional.” Além de refletir sobre questões inerentes às regiões visitadas, Chalita aborda aspectos fundamentais para o crescimento crítico do indivíduo, dentro de princípios sociais, éticos, solidários e justos. 

Fonte: assessoria de imprensa

 

 

O último voo do poeta

Nosso poeta Manoel de Barros voou. Estamos comovidos, em silêncio, buscando ouvir o último ruflar de suas asas. Nosso poeta desejou tanto usar “palavras de ave para escrever”; mas cometeu muito mais do que isso: suas palavras se fizeram asas para além do voo. E permanecem no ar, ora soltas, ora em frases, desafiando-nos a capturá-las. O poeta, que nasceu menino, partiu menino. Fez de sua maturidade a sua segunda infância; uma vida em poesia. Fez de sua arte um brinquedo. Despojado de regras e convenções, desconstruiu a linguagem, poetizou a natureza e o mundo, vestiu de singeleza as palavras. Fez da vida sua arte de simplicidade. Dizia que sua poesia era difícil de ser compreendida, embora fosse feita com palavras simples. Muitos não entendiam essa declaração. Mas é preciso fazer-se criança para compreender. Admirar-se. Encantar-se. Desinventar-se. 

Manoel de Barros nasceu às margens de um rio, cresceu menino do mato e amigo do silêncio. A palavra sempre foi seu jogo predileto. Durante a semana, a escola ocupava seu tempo, mas, nos fins de semana, eram os jogos de futebol e os livros do padre Antônio Vieira que o envolviam. Mas antes de testar em versos os “seus deslimites”, estudou Direito, formou-se e passou por uma dezena de empregos. Não via prazer em nada daquilo. Queria mesmo era “usar palavras de ave para escrever”. Ter liberdade para redescobrir a vida em versos. A vida de amor ao lado de dona Stella, sua doce e cuidadosa ‘Dona Pássara’. Quando se conheceram, há mais de 60 anos, Manoel era vendedor de imóveis. Stella estava decidida a não se casar. Procurava um lugar para morar sozinha. Manoel, em vez de encontrar um apartamento para ela, abriu as portas de uma vida a dois. Foram para o Pantanal. Cultivaram a terra e seus frutos. Um deles, o tempo para a literatura. Manoel passava os dias em seu escritório. No seu “lugar de ser inútil”, como gostava de dizer. O desabrochar de seus poemas se dava nos blocos de papel que ele mesmo fazia. Passava horas para desenhar um verso. A lápis. Livre de qualquer paradigma. E, assim, voava observando pedras, sapos, galinhas e amanheceres. Coisas “desimportantes”, segundo ele.

Manoel de Barros colhia na natureza a singeleza da vida e a beleza de seus poemas. Desejava que um “passarinho escolhesse a sua voz para seus (meus) cantos”. Acreditava que “falar a partir de ninguém faz comunhão com as árvores/ Faz comunhão com as aves/ Faz comunhão com as chuvas (…)”. Ele olhava para o que poucos percebem. E assim aumentava o mundo e sua singeleza. Em seus versos, as coisas, a natureza e os homens se misturam em uma sinestesia de cores com cheiros, de olhares que falam. Depois de seus poemas, somos outros, alargamo-nos. Entramos riacho e saímos rio. Sua arte muda nosso jeito de ver. De sentir. De viver. Manoel era de sorriso largo. De esticar horizontes. Cresceu menino. E, menino, despediu-se de nós, na última quinta-feira, aos 97 anos. O poeta que nunca gostou que colocassem data na existência vive, para sempre, no quando.

Enquanto ele nos faz saudade, certamente, está dando boas risadas, “conversando sobre nada e passarinhos”, de olhos dados com seu grande e amado amigo Bernardo, personagem de tantos de seus escritos. O pássaro voltou ao ninho e, de lá, pousado em algum tronco de árvore, ainda nos ensina a compor silêncios com suas palavras.   

 

As bênçãos 

 

Não tenho a anatomia de uma garça pra receber

em mim os perfumes do azul.

Mas eu recebo.

É uma bênção.

Às vezes se tenho tristeza, as andorinhas me

namoram mais de perto.

Fico enamorado.

É uma bênção.

Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro

para que se tornem peregrinos do chão.

Eles se tornam.

É uma bênção.

Até alguém já chegou de me ver passar

a mão nos cabelos de Deus!

Eu só queria agradecer.

Manoel de Barros

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/11/2014 | Foto: Divulgação

 

Ciclo de palestras de Gabriel Chalita no nordeste

Professores e estudantes de Recife, Fortaleza e Juazeiro do Norte recebem Gabriel Chalita em ciclo de palestras sobre gestão do conhecimento e outras questões inerentes ao desenvolvimento integral dos estudantes.

Como gerir, de maneira eficaz, as informações que recebemos? Qual é o papel do professor nesse contexto? Gabriel Chalita apresenta essas e outras respostas, pautadas em reflexões filosóficas, nas palestras que serão ministradas a professores e estudantes da região nordeste do Brasil.

Fonte: Assessoria de imprensa

Alcione, a voz que emociona

A menina que saiu do Maranhão para conquistar o Brasil e o mundo tem a consciência de que nasceu para cantar. Cantou, menina, em sua terra natal. Fez-se professora para agradar ao pai e nunca deixou de professar a crença de que sua voz é um presente de Deus. Cantou para o papa João Paulo II e se emocionou. Emociona plateias de todas as idades que iniciaram histórias de amor ou afogaram mágoas de dor ouvindo sua voz, suas canções.

 

O samba é seu companheiro. Canta as escolas de samba por saber que, em cada uma delas, moram gentes e sonhos. É Mangueira, sempre, no coração. Tradições de poetas, ritmistas, artistas do povo que aguardam a avenida para desfilar os seus sonhos, para contar o enredo que marca suas histórias.

A história de Alcione é digna. É ciosa de sua obrigação social, obrigação que todo mundo tem, a da generosidade, da doação, do cuidado com o outro. Ama a sua terra, o Maranhão, e as outras terras que lhe abriram as portas das oportunidades. É grata a Jair Rodrigues, o artista que a viu cantando, acreditou em seu talento e a fez gravar seu primeiro disco. Ela, que trabalhava em uma loja de discos, e que, na noite, oferecia sua voz e sua emoção.

Alcione tem temperamento forte, determinação, mas mais forte é a braveza de uma guerreira que nasceu para cuidar. Cuida dos sobrinhos, dos amigos – a saudade do genial Emílio Santiago, dos admiradores. É respeitosa com o seu público e sente gratidão pelas pessoas que saem de suas casas para a verem cantar.

São Paulo recebe, novamente, esta genial cantora. Alcione, a voz que emociona. Alcione, a menina que veio ao mundo para cantar com eterna alegria.

“Nasci pra fazer esse povo cantar 

Se faltava alegria, acabou de chegar 

Manda a tristeza pra outro lugar 

Que o samba não pode parar”. 

(trecho da música Eterna Alegria)

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Entrevista: 

Gabriel Chalita: Na canção “Obrigada”, você agradece as pessoas que saem de casa para vê-la cantar. Depois de tantos anos de carreira, o que a inspira no início de cada show? 

Alcione: É a paixão pelo que faço, a gratidão a Deus, aos meus pais, ao meu público, a minha família. Enfim, a tudo que a música pôde me dar de bom.

 

Gabriel Chalita: Você é uma das maiores cantoras brasileiras. Quais conselhos você pode dar àqueles que cantam bem, que sonham em construir uma carreira e que já tiveram tantas portas fechadas?

Alcione: Porta fechada é pra bater! Não desista, tenha responsabilidade, viva para isso, respeitando seu público, os profissionais de sua área e cuide de sua saúde.

 

Gabriel Chalita: Você acha que o resultado da grande interpretação vem mais da emoção ou da técnica?

Alcione: Acho que é da emoção, porque a técnica é importante, mas é a emoção que move o mundo. E cantar é um dom de Deus também…

 

Gabriel Chalita: Qual a sua relação com a cidade de São Paulo? O que esta cidade já lhe deu? Quais emoções você viveu por aqui?

Alcione: São Paulo é uma cidade cuja tradução é trabalho. O povo de São Paulo tem uma tradição como trabalhador, por isso se diz que esta cidade não para. Já vivi muitas e belas emoções em São Paulo.

 

Gabriel Chalita: Quando você olha para trás, o que foi mais penoso e o que foi mais prazeroso em sua trajetória? 

O mais penoso foi me separar dos meus pais e irmãos, no início da carreira. Deixar a minha cidade de São Luís para trás. Porém, o melhor de tudo foi poder, com essa distância, construir uma trajetória, uma carreira, levando conforto e tranquilidade para todos os meus. Isso não tem preço!

 

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ALCIONE 

THEATRO NET SÃO PAULO

Dia 11 de novembro, às 21h 

 

A cantora maranhense Alcione é atração do Palco Petrobras Premmia no próximo dia 11 de novembro, às 21h. Marrom, como é conhecida mundialmente, interpreta músicas de seu CD “Eterna Alegria” no Theatro Net São Paulo, na Vila Olímpia.  

SOBRE O SHOW

Três anos após lançar os discos “Ao Vivo na Mangueira e Jam Session”, ambos de 2011, Alcione volta aos palcos paulistas em grande estilo. Com o show intitulado “Eterna Alegria, ao Vivo”, a cantora resgata um trabalho que ostenta o mesmo título do seu último álbum gravado em estúdio e serviu-lhe de base para este novo produto, numa reedição de parceria entre Marrom Music e a Biscoito Fino.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/11/2014 | Foto: Divulgação

Belos cabelos brancos

Conheci duas senhoras numa missa. Logo que cheguei, uma delas me abriu um sorriso, dando-me boas vindas. Disse que eu era lindo. Eu retribuí. Ela disse que já era velha. Respondi que a beleza não se esvai com o tempo. Ela concordou, sorrindo, e me informou que ia completar 93 anos. A amiga já fizera 90. Contou-me que toma meia taça de vinho tinto toda noite por sugestão médica. A de 90 disse que faz o mesmo. A de 93 reagiu, dizendo que ela tomava a taça inteira e que ocultava isso do médico. A amiga riu e explicou que nem tudo deve ser dito.

Uma pessoa, no banco de trás, tossiu. A senhora de 93 ofereceu uma pastilha. Explicou-me que sempre carrega pastilhas para aliviar sua tosse e a dos outros. A missa começou. A 1a leitura era do Livro da Sabedoria sobre a honra da velhice: “mas os cabelos brancos são uma vida sensata. A de 90 olhou para a de 93 e disse, baixinho: “Viu? Estão falando da gente!”. E brincou: “E eles nem sabem que disfarçamos a brancura dos cabelos”. A missa prosseguiu. Rezaram, cantaram, comungaram e ensinaram a estar em comunhão. Ao final, conversamos um pouco mais. Confidenciaram-me o segredo de viver tanto e tão bem. A de 93 disse que havia optado pela alegria e que, por isso, “dava banho” na alma, não permitindo que nenhuma sujeira permanecesse. Nem raiva, nem ressentimento, nem frustração pelo que não acontecera. “Até porque muita coisa ainda há de acontecer, pois não tenho pressa nenhuma de morrer”. A de 90 acrescentou: “Ela sempre foi muito namoradeira”. A de 93 não se fez de rogada: “E tem graça viver sem amor”?

Belos cabelos brancos têm aquelas duas. Amigas desde a escola. Casaram. Vieram os filhos. Foram-se os maridos. Choraram o tempo certo. Deles se lembram, mas sem dor. O ritmo diminuiu. Perderam forças físicas. Tomam mais cuidado para não cair. Sabem mais de tropeços do que antes. Mas o essencial é que elas continuam achando que  viver é bom demais.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/11/2014

 

 

 

Nita e Paulo Freire, um livro sobre o amor

Nita Freire nos presenteou com os detalhes cotidianos do apaixonado Paulo Freire. Conta que estavam os dois vivendo o luto da despedida. Ela havia enviuvado, depois de um casamento de quase 30 anos. Ele havia perdido Elza, de quem fora cúmplice de sonhos e afagos durante 42 anos. Encontraram-se nos desencontros. Encantaram-se.

Os relatos trazem a adolescência da paixão nos anos de maturidade. Não há idade para amar. Nita revigora uma frase corriqueira na vida de Paulo Freire: “eu optei por viver”. Bilhetes em cardápios de avião, em guardanapos. Poemas lidos com vagar nos telefonemas apaixonados, quando estavam distantes. Paulo, o patrono da educação brasileira, era um homem romântico. Com as mulheres que amou e com as causas que abraçou.

No pouco convívio que tive com Paulo Freire, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o que mais me chamava atenção era o seu “gostar de viver”. Não pode ser educador quem não gosta de viver. Gostar de viver é permitir que o encantamento do encontro revele-se aos aprendizes e os prepare para os encontros tantos que a vida há de proporcionar. Fala Paulo Freire em esperança, em autonomia, em tolerância, em boniteza. A vida é bonita, mesmo diante das feiuras que insistimos em construir. “A vida é bonita, é bonita e é bonita”, cantava o poeta Gonzaguinha que ficava “com a pureza da resposta das crianças”. Paulo Freire é puro, sem ser ingênuo. É crente, sem ser estreito. É livre, sem ser descompromissado. Conquistou os educadores do Brasil e de tantos outros cantos do mundo. Do quintal de sua pequena Jaboatão aos quintais do mundo, sua curiosidade buscou, incansavelmente, caminhos de justiça para a concretização de seu sonho maior: uma educação igualitária. Foi criticado por aqueles que não compreenderam a dimensão dos seus ditos, o protagonismo da sua aspiração. Mas encarava com leveza: “Nita, não importa o que fazem com o que digo e com o que penso e faço. Se me distorcem, o problema não é meu, é de quem o faz!”. Críticos, há por todos os lados; Paulo Freire, não. É único. E é nosso, um brasileiro.

Queria ele uma educação libertadora. Que desse a todos as condições para o desenvolvimento do seu talento. Sem discriminação. Sem exclusão. Defendia os professores como multiplicadores dessa boa nova que é a educação. A que forma as gentes, a que prepara para os fatos corretos. Nita nos revela que Paulo Freire foi um eterno menino, até o momento de sua morte: “Paulo nunca quis perder sua alegria-menina e sua enorme tolerância com relação a fragilidades humanas. Em certos momentos, pensei que seria importante chamar-lhe a atenção sobre esse jeito sem limites de generosidade de entrega aos outros e outras, aliás, devo reconhecer, uma de suas maiores virtudes, mas ele não me dava ouvidos.” . Um homem sério, com a alma inocente e a boa fé de um menino.

Quando participo, hoje, de congressos internacionais e vejo tantas teses atuais sobre a prática educativa, sobre o sonho de uma educação para todos, sobre o amor pelo ofício de professor, lembro-me, com orgulho e respeito, de Paulo Freire. O homem que amava as coisas do povo. O homem da antevisão. Disse tanto. Fez tanto. E jamais negligenciou a responsabilidade de cuidar das pessoas. Educar é isto. É não desistir nunca do outro.

Descrição

Nós dois é um convite aos leitores de Paulo Freire e de Nita Freire, para que conheçam um pouco mais sobre a vida e a história de amor do casal. Uma reunião de cartas, bilhetes, fotos que nos ajuda a reconstruir a trajetória de encantamento que uniu os dois. Uma experiência que merece ser dividida para que mais pessoas percebam o quanto uma união calcada no respeito e na admiração pode transformar duas vidas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/11/2014