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Páscoa, passagem

Páscoa é passagem. Passagem da morte para a vida. Passagem da escravidão para a libertação. Passagem para um novo começo. Momento de renovação. Na Páscoa antiga, celebrava-se o fim dos tempos duros no Egito e o início de uma nova caminhada sem a opressão de dono algum. Moisés conduziu o povo com a fé no amanhã, com a esperança dos novos ventos. E o mar se abriu diante daquela gente valente que trocou as correntes pelo desconhecido. Na Páscoa nova, a ressurreição de Cristo, a força que rasga a morte, inaugura um tempo novo para aqueles que compreendem que mal algum supera o Bem. Na madrugada do domingo, a esperança se reacende, após o período da escuridão gerado por homens mal informados, mal formados, mal amados. O calvário de Cristo se repete ainda hoje. Cruzes são carregadas por mulheres e homens de todos os cantos que aguardam um canto novo para viver. 

Em sua mensagem de Quaresma, papa Francisco nos alerta: “Fortalecei os vossos corações”. Vivamos este momento como o tempo de formação de nossos corações, tomando por inspiração o amor humilde derramado por Cristo sobre nós. “Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador, mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro”.

Façamos esse percurso, hoje, no dia da Páscoa, tempo de celebração da vida. Recusemos as atitudes individualistas anunciadas pela temerosa globalização da indiferença. Persigamos as sendas do amor ao próximo, aos mais necessitados que nos revelam quão frágil é a vida. Somos todos irmãos. Cada vida cuidada sinaliza nossa presença, nossa intervenção na humanidade. Nossa ação de fé.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas”, é essa a promessa do Filho de Deus. É a fé que nos abre as portas dos Céus. Temos inseguranças diante da morte: medo, lamentação. O útero materno que nos acolheu durante nossa gestação foi nosso primeiro espaço seguro. Dele partimos para onde estamos hoje. Choramos a insegurança diante do novo. O mundo em que vivemos é um novo útero que, apesar dos solavancos todos, nos acolhe. E, desse útero, iremos para onde não sabemos, assim como foi com o nosso nascimento. A crença na ressurreição nos anima a não nos desesperarmos. 

A Páscoa tem símbolos que expressam todos esses significados. O ovo é sinal de vida. Vida que se renova quando se compreende, quando se sente. Ressignificar a própria vida nos ajuda a ser mais doces. Ovos de chocolate. A docilidade diante do outro, a bondade, a generosidade, a compreensão de que nossas relações podem fertilizar uma terra melhor, sem as escravidões contemporâneas. Fertilidade é o símbolo do coelho. Capaz de gerar vidas. Geramos vida não apenas no nascimento de novas pessoas, mas no nascedouro de ideias que combatem a escravidão. O ódio é uma forma de escravidão, a apatia também. As drogas que interrompem a vida jovem é uma escravidão. As lícitas e as ilícitas. O amargor é uma escravidão assim como o é a ausência de sonhos. 

O povo que saiu do Egito significa muito. Sair do comodismo, da alienação, da mentira, da corrupção. E acreditar no novo. Acreditar em um tema que alimente de vida a nossa vida. Os profetas antigos serviam para manter aceso esse tema. Os profetas de hoje nos inspiram com seus atos. Fazem-nos continuar acreditando no ser humano, apesar dos deslizes. Recobram-nos o barro de que fomos feitos. Francisco, o líder católico, alimenta-nos: “Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.” Que o domingo de Páscoa seja a renovação de nossa força, de nossa fé, de nosso amor. Feliz Páscoa!

 

Renova-te.

Renasce em ti mesmo. 

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado, 

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro. Mas sempre alto.

Sempre longe. E dentro de tudo.

Cecília Meireles

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/04/2015

Sexta-feira da Paixão

Desde criança, sempre me impressionei com o sofrimento de Cristo nos episódios que antecederam sua morte. Pregaram na cruz o Pregador do Amor. Flagelaram o Homem que ensinou contra os flagelos impostos aos marginalizados do seu e de todos os tempos. Humilharam o Bem-aventurado que falou e viveu a humildade. Injustiças sempre causaram dor. 

Lembro-me das procissões em minha cidade natal, dos cantos tristes, das encenações da paixão. Caminhávamos em silêncio, até o alto da cidade, revivendo a Via Sacra e imaginando como era Gólgota, lugar em que a Cruz foi fincada e o Homem Bom, crucificado. Depois, na Igreja, lembro-me de toda aquela gente passando para ver o Jesus morto. Queriam tocar na imagem sofrida. As beatas, atentas, ralhavam quando alguém apanhava uma pétala do caixão do Mestre. Eu ficava triste. Enchia minha mãe e meu pai de perguntas. Eles sugeriam que eu perguntasse ao padre. O padre sorria, ao me ver, e dizia: “Lá vem ele, indignado e perguntador”.

Eu queria entender por que Jesus precisava sofrer daquele jeito, entender por que os homens que o saudaram com festa, na chegada a Jerusalém, mudaram de opinião e quiseram vê-lo crucificado. O padre me dava algumas respostas, mas elas não me aquietavam. Nem naquela época nem hoje. Compreendo o sofrimento como parte da vida, mas não consigo compreender a perversidade. O que faz com que algumas pessoas se esforcem tanto para matar outras. Morte física ou moral. Dores no corpo e na alma. Pregos que penetram a pele e palavras que perfuram os sentimentos. Quem somos nós que fazemos repetir a paixão de Cristo em nossa história? Peço sempre a Deus que me livre de julgamentos apressados e de gestos incorretos contra meus irmãos. Não quero jamais perder o inconformismo que me incomodava tanto na infância. Nenhum homem pode ser tratado dessa maneira quanto mais o Filho de Deus. Que esses dias santos nos impulsionem a pensar nos sofrimentos que causamos aos outros. Sempre é tempo de mudar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/04/2015

Sobre a lucidez e a cegueira

“Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.” José Saramago

Há uma obra do genial escritor português José Saramago, chamada “Ensaio sobre a lucidez”, que dá sequência à outra não menos importante, “Ensaio sobre a cegueira”. As angústias frente aos desmandos das ações humanas no poder são as mesmas. Os eleitores, no “Ensaio sobre a lucidez”, num dia cinza e chuvoso, primeiramente, demoram a ir às urnas, o que causa imensa preocupação nas autoridades. Depois saem, quase em bando, o que traz alívio. Mas dura pouco, pois a apuração mostra um número assustador de votos em branco. Convocada nova eleição, o feito piora. A população não aguenta mais os partidos de direita, os de esquerda e os do meio. Os políticos não compreendem o recado e começam a agir de forma ainda mais errática. A mentira se alastra. As ameaças, também. Até que as autoridades resolvem abandonar a cidade. Abandonada já estava ela com atitudes pouco lúcidas de seus governantes. Cegos pelo poder, inebriados pelo isolamento da realidade, enxergavam apenas seus próprios interesses e devaneios.

Lucidez vem de luz. Uma pessoa lúcida é alguém dotado de clareza, de compreensão dos fatos, de percepção da realidade. Há cegueiras em todas as áreas da atividade humana; em outras palavras, há ausência de lucidez. Parece-nos mais fácil perceber a cegueira alheia, olhar com clareza os erros dos outros e lamentar diante do que vemos. Enxergar as sujeiras que nos envolvem parece mais difícil. E esse deveria ser nosso real intento.

Os governantes nascem das comunidades onde estão inseridos. Não caem de planetas longínquos. A expressão “o poder revela o homem” parece servir a homens não preparados para o exercício do poder. Qualquer que seja esse poder. Pessoas com pouca maturidade para tal ou falta de capacidade para enxergar com clareza seus próprios erros e corrigi-los. Porque errar não é tão grave quanto a teimosia de permanecer no erro.
Pessoas revelam-se, não raro, cegas ou pouco lúcidas em cargos de comando. Agem desbaratinadas, atabalhoadas, incorretas porque não estavam preparadas para exercer autoridade. Autoridade não é um exercício de dar ordens, gritar, ameaçar. Ao contrário, é fazer com que o outro seja tão autor quanto eu da demanda que proponho, da ideia que tenho, da ação que realizo. É conquistar o outro para as teses que me parecem mais corretas no exercício do poder. É envolver com honestidade meus governados. Sem mentiras. Sem apelações. Sem arrogâncias. Uma das formas mais comuns da cegueira, no exercício do poder, é a arrogância. O arrogante é dono da verdade. É incapaz de ouvir o clamor daqueles que “votam em branco”, é ausente na escuta democrática, porque imagina saber tudo. O mentiroso é,também, cego. Cria histórias e delas fica refém para se manter no poder. O que ameaça e persegue, da mesma forma, sofre de ausência de lucidez, porque é incapaz de se sentir tão humano quanto seu liderado. Assim também são os perversos, os que gastam o tempo tentando amealhar maldades sobre seus concorrentes. Os cargos passam, a essência humana fica. Apoderar-se do cargo é prova de cegueira. Compreender a efemeridade de cada posição ocupada é prova de lucidez.

Valem estas modestas reflexões para todos os exercícios de poder. Para aqueles que administram empresas ou governos, para os que lideram pessoas em companhias ou nas famílias, os que dirigem pelotões ou grupos de voluntários. O líder não é agressivo, não impõe medo, não se distancia da verdade. Ao contrário, o líder é admirado pela lucidez de suas falas e pela coerência de suas atitudes. É educado para ser competente, humilde e amoroso. É cuidadoso com o que não lhe pertence, mas que cabe a ele administrar.

Somos todos passageiros do tempo. Não permanecemos eternamente nos cargos que ocupamos nem no espaço fascinante deste mundo. Não agarramos o poder e nem a idade que nos convém. Vamos envelhecendo, e os dias vão escorrendo de nossas mãos. Cegos seremos, se nos sentirmos donos do mundo ou das pessoas. Bendita lucidez que faz com que nos reconheçamos pequenos diante da história e, ao mesmo tempo, capazes de gigantescos gestos de bondade. Lúcidos,comandamos melhor o nosso destino e as pessoas que, por alguma razão, estão sob nosso cuidado.
Lembremo-nos de Mandela governando com olhos de amor seu ferido povo. Lembremo-nos de Dulce, a irmã que exercia o poder da caridade. Ou de algum conhecido nosso, anônimo,  que consegue ver os desvarios dos outros e prosseguir lúcido.

Das casas nossas e dos outros, nascem os que governam. Cuidemos, então, da educação. Quem sabe amanhã a lucidez seja uma companheira mais frequente do que a cegueira.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/03/2015

Liberdade, profissão inegociável

Em uma roda de jovens, a discussão sobre o mercado de trabalho e as novas profissões tomou um rumo muito interessante. As incertezas sobre que caminho seguir na vida sempre povoaram a mente daqueles que, ávidos por um futuro, têm a preocupação de não errar nas escolhas. Antigamente, parecia mais definitivo. Cursar uma faculdade era renunciar a qualquer outra possibilidade. Parecia ser aquela a profissão que exerceria a vida toda. Hoje, há maior flexibilidade. Cursar mais de uma faculdade é possível, há cursos de pós-graduação para áreas tão distintas. Há graduações à distância. Mudar de emprego e de área também não é mais incomum. Em outros tempos, os sonhos das famílias para o destino dos seus filhos eram restritos a áreas como medicina, direito, engenharia e algumas poucas outras. Ser doutor era quase uma exigência. Hoje, há incerteza nos pais até na compreensão do que faz o profissional de áreas como mecatrônica, medicina nuclear, ecogastronomia, entre outros. Os cursos de gastronomia, turismo, hotelaria vão ganhando mais adeptos. As áreas todas de tecnologia mostram-se como caminhos interessantes de sucesso profissional. A criatividade, o design, a moda ganham mais força.

Falavam sobre essas questões aqueles estudantes, quando um disse da preocupação com outros jovens que não tinham qualquer preocupação. Daqueles que trilhavam caminhos sem volta. Comentavam sobre os tantos tipos de vícios. Dos amigos que se perdem. Foi quando um deles ensinou: “Ainda não sei que vestibular prestar. Tenho muitas dúvidas. Gosto de muitas coisas. Agora, de uma coisa, eu não abro mão. Da minha liberdade. Liberdade é uma profissão inegociável. O resto, a gente ajeita”.

É isso. Às vezes, há excesso de preocupação com profissões que remuneram mais ou menos e há falta de cuidado com a essência da realização humana. É preciso educar nossos jovens para que saibam dizer “não” a tudo o que retira deles o que de mais precioso eles têm: a liberdade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/03/2015

De mãos dadas

“O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. (Mãos Dadas – Carlos Drummond de Andrade)

Relacionamentos são a base da vida em sociedade. Relacionamo-nos o tempo todo, em todos os ambientes que frequentamos. Como somos diferentes, temos reações diferentes nos diferentes momentos da nossa vida. Não somos previsíveis. Mesmo quando repetimos alguns comportamentos, estamos expostos a surpresas e não imaginamos como vamos agir. Nos momentos em que os problemas não parecem tão significativos, conseguimos caminhar sem grandes percalços. Mas quando surgem as adversidades, somos, muitas vezes, vítimas de desejos que não controlamos com tanta facilidade.

Muitos pais se preocupam com a inteligência dos seus filhos. Alguns têm conclusões apressadas, comparando irmãos. Julgando que um filho é mais inteligente do que o outro, porque tem mais facilidade para essa ou para aquela matéria, ou porque é capaz de memorizar textos, ou números, ou dados. Estudos recentes descartam essa métrica de definição de quem é mais ou menos inteligente. As inteligências são múltiplas. E os múltiplos momentos da vida é que oportunizam suas manifestações.

Há uma base de conteúdos que se imagina necessária com a qual cada aluno, em cada etapa da vida, deve trabalhar. Nas diversas profissões também é assim. Há instrumentos que nos permitem trabalhar nesse ou naquele campo. Um médico precisa desenvolver habilidades e competências que nos deem segurança para uma intervenção cirúrgica, por exemplo. E, para isso, estuda com esse foco. Um engenheiro dialoga com números e projetos, e plantas, e possibilidades, cotidianamente. Um artista estuda escolas de dramaturgia para que sua intuição se una a tantas técnicas no ofício de fazer nascer personagens e momentos. E assim se multiplicam as profissões e as suas exigências. Avalia-se o preparo para o trabalho. Mas há algo comum e necessário a qualquer atividade profissional e pessoal, a necessidade de nos relacionarmos.

Valores desenham a face humana que enxerga e é enxergada. Que fala e ouve. Que diz “sim” ou “não”; que escolhe, portanto. Que é capaz de gestos de generosidade e compreensão. No desenvolvimento do trabalho, o jogo da convivência é essencial. Um precisa do outro. Um precisa ouvir o outro – talento difícil em tempos tão apressados e egoicos. Parece que o que outro vai dizer nada tem a acrescentar em meu repertório. Ledo engano. Aprendemos o tempo todo com outras pessoas.

Em uma peça de teatro, cada personagem é fundamental para que a arte cumpra o seu papel. Em um jogo de basquete, também. Em uma agência de viagens ou em um banco ou em uma construção, cada um tem sua função.

Deve nos preocupar o excesso de diálogo com os meios tecnológicos e a ausência das prosas nas relações humanas. Tempos sombrios estes em que nos silenciamos diante do outro. Não praticamos o silêncio da atenção, da escuta, mas o silêncio do aborrecimento, da impaciência, da arrogância. 

O escritor Carlos Drummond de Andrade narra a história de um jardineiro, muito amável, que cuidava com amor e extrema dedicação das flores. Conversava com elas, contava história, ouvia lamúrias de algumas, guardava confidências de outras. Mas tinha problemas com o girassol, que não ia muito com a cara do jardineiro. Mas mesmo assim, ele não deixava de regá-lo e de afofar-lhe a terra. O patrão, incomodado com o longo tempo que o funcionário dedicava às plantas, resolveu demiti-lo. Moral da história:

Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido?” “Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava”. (Maneira de Amar – C.D. de Andrade)

A delicada metáfora drummondiana robustece nossa certeza de que as relações ficam muito mais saudáveis quando estamos dispostos a conviver sem a petulância de saber mais que o outro. É com o outro que tenho a nobre missão de caminhar de mãos dadas para não me perder neste mundo tão grande. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/03/2015

E nasceu a mulher

No livro do Gênesis, há o relato da criação da mulher. Nos mitos antigos, também. Deusas e mulheres ocupando espaços. A bela Afrodite que emergiu das espumas das águas do mar. Psiquê que foi se apaixonar pelo homem errado. Ou não. Eros era um deus eternamente menino ou eternamente belo. Adoecido, fez com que o amor desistisse de habitar os homens. E, sem amor, o que somos?

A mulher nasceu muitas vezes. Nas histórias tantas que nos contaram, a mulher teve diferentes papéis. Sofreu as dores de parir e de ser parida em uma sociedade falocrática. O homem era quem saía para a caça e, portanto, tinha a mulher como um objeto seu. Houve sociedades matriarcais, mas em menor escala. As mulheres de Atenas pouco participavam do berço da democracia. Eram os homens que divagavam em elucubrações filosóficas e decidiam nos negócios do Estado. Mulheres medievais, mortas acusadas de feitiçaria. Mulheres escravas, vítimas das dores horrendas e dos flagelos que vinham de todos os lados. De outras mulheres, inclusive. Das sinhás que odiavam as mais belas – cenas de arcadas dentárias arrancadas para que morressem de hemorragia. Tristes marcas de tempos não tão distantes. Sofrem, ainda hoje, as mulheres. Vítimas de estupros em cantos diversos desse planeta. Vítimas de companheiros violentos. Vítimas de condições desiguais no mercado de trabalho. Vítimas, enfim, de preconceitos de uma sociedade que se acostumou a privilegiar o homem.

As leis trouxeram significativo avanço, mas a prática ainda é perversa. Comportamentos inadequados demonstram uma ignorância na relação entre homens e mulheres. Discursos aparentemente generosos colocam a razão no universo masculino e a emoção no feminino. Por quê? Os homens não têm o direito de se emocionar? As mulheres não têm a capacidade de serem racionais? Tratadas como frágeis e necessitadas de cuidados são as mulheres objetos de seus “protetores”. Frágeis, somos todos nós, os viventes. E necessitamos também de cuidados, mulheres e homens. Sem que isso signifique que tenhamos um dono.

Mulheres nasceram e nascem, também, na literatura, na música, nas artes. Protagonistas de dores e amores. De odiosidades e invejas. São Capitus, Dorotéias, Marias, Macabéas, Lucíolas, Beatrizes, Cinderelas, Teresas, Gabrielas. E muitas, muitas outras. Patroas. Amantes. Amadas. Ousadas. Dissimuladas. Musas. Amaldiçoadas. Vítimas ou algozes das paixões. Ditas em versos, em verbos e palavras. “Mulher é desdobrável. Eu sou”, proclama a poeta Adélia Prado. A mulher nasceu para gerar ideias, conceitos, relações, pessoas. Mãe de seus filhos e de seus temas. Sonhadora romântica com companheiros que compreendem o chorar e o sorrir e que, também, expressem sem receios de interpretações apressadas suas dores e utopias. Na literatura de Clarice Lispector, “O destino de uma mulher é ser mulher”, vencendo os obstáculos e a complexidade de ser. Apenas ser. 

Seja o que você quer ser,

porque você possui apenas uma vida

e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. 

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.

Dificuldades para fazê-la forte. 

Tristeza para fazê-la humana. 

E esperança suficiente para fazê-la feliz. 

Clarice Lispector

As mulheres nascem todos os dias. Ou, no dizer de Simone de Beauvoir, “tornam-se”. Mulheres nascem quando assumem o comando da própria história com a liberdade de trilhar os tantos caminhos que a conduzem ao templo da felicidade. Acompanhadas ou não. Solitárias por decisão. Mães por escolha. Livres para esculpir a profissão que lhes convém sem necessidade de autorização. A não ser aquela consentida de partilhar um projeto comum.

As mulheres nascem quando rompem os grilhões do medo de assumir o leme. De levar a nau para onde decidirem. De alcançarem patamares que, até ontem, eram de exclusividade masculina. Chegaram ao mercado de trabalho por luta e por merecimento. Tiveram que provar que são competentes. Provas tidas como desnecessárias aos homens. Mas não se importaram com isso e nasceram para um novo tempo.

Nascerão ainda, sonhamos todos, para tempos que hoje parecem frequentar as utopias, tempos de igualdade real, tempos de respeito, tempos de paz.

Que pretendes, mulher?

Independência, igualdade de condições…

Empregos fora do lar?

És superior àqueles

que procuras imitar.

Tens o dom divino

de ser mãe

Em ti está presente a humanidade.

 

Mulher, não te deixes castrar.

Serás um animal somente de prazer

e às vezes nem mais isso.

Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.

Tumultuada, fingindo ser o que não és.

Roendo o teu osso negro da amargura. 

Cora Coralina

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/03/2015 

 

O perfume de Yasmin

Eu tive um irmão com síndrome de Down. Era o terceiro de quatro filhos, e eu era o caçula. Meu irmão cantava e dançava boa parte do dia. Tinha também os seus brinquedos e todo o nosso afeto. Naquela época, a inclusão era ainda uma utopia. Frequentar escolas com outras crianças, aprender e ensinar, conviver,  era, praticamente, um tabu. Minha mãe dedicou a vida a cuidar dele, e nós o amávamos muito.

Dia desses, conheci Yasmin, uma menina com Down que estuda em uma escola municipal e que conversa e que abraça e que ri de pequenas coisas, porque percebe que, nas pequenas coisas, está a alegria. Yasmin me abraçou fortemente, quis ficar no meu colo, encostou a cabeça no meu ombro e, quando a professora quis levá-la, ela explicou: “está bom aqui”. Yasmin trouxe a memória afetiva do meu irmão. Ele faleceu com 33 anos. Cedo demais. Ele foi o meu companheiro de tantas brincadeiras infantis e a minha inspiração para alguns dos meus primeiros escritos. Júnior era o seu nome. O nome de meu pai, um homem bom, que cuidou de todos nós e nos ensinou a amar as diferenças e a compreender a beleza que há nelas.

Sempre defendi a bandeira da inclusão. Alunos com deficiência convivendo com outros alunos, aprendendo juntos o valor da solidariedade, do respeito;  e desenvolvendo habilidades que, todos nós, com maior ou menor dificuldade, somos capazes. Yasmin transmitia a espontaneidade e a alegria tão comuns nas crianças com Down. A professora levou-a com delicadeza, dizendo-me, “essa menina é um presente”. Meu pai dizia isso do meu irmão: “Meu filho Júnior é especial, um presente especial de Deus”.

Há muito a ser feito pelas pessoas com deficiência. A verdadeira inclusão depende de ações concretas em todos os ambientes que eles têm o direito de frequentar. Se olharmos para trás, já evoluímos muito. E assim tem que ser. O perfume de Yasmin frequentou a minha alma naquele dia. Saudade do meu irmão.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/03/2015 

O jardim da infância, o palco da vida

“Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído, é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.” Rubem Alves

Tenho vivido experiências intensas de escuta e de aprendizado nas diversas regiões desta imensa cidade de São Paulo. Encontros com educadores, pais e alunos têm aumentado minha fome de trabalho pela educação. O carinho e a confiança dessa gente aumentam a responsabilidade e a necessidade de prosseguir com coragem e com muita humildade. Humildade de quem aprende com as palavras, com os gestos e com as emoções que têm tornado tão ricos esses momentos. Em um desses encontros com a rede, ao chegar ao CEU Vila Curuçá, um aluno, Nathan Viana, de 13 anos, quis ler um poema seu. Atentamente, eu o ouvi declamar: 

A vida é como lugares,

E esses lugares têm que ser bem utilizados.

 

O primeiro lugar é um jardim

Um jardim bem florido

Quem não aproveitou, errou.

 

O segundo é um túnel com dois caminhos

Certo e errado, muita gente seguiu o errado

Agora está soterrado.

 

O terceiro não tem jardim nem túnel

Ele é só trabalho, só trabalho…

Ele é o lugar para ver se você aproveitou os outros lugares.

 

E o quarto lugar é outro jardim,

Mas é de orquídeas que quando são tocadas fortemente

Suas pétalas caem,

Mas quando são tocadas suavemente se sentem emocionadas.

 

Devemos respeitar esses lugares e cuidar deles,

Porque eles são a nossa vida.

Deu-me o livro de presente, coordenado por duas educadoras, Maria Gorete Cordeiro e Rosmari Pereira de Oliveira. Li vários outros poemas nascidos, certamente, de várias outras experiências de vida. E alimentei-me de esperança. Saraus literários, contação de histórias, violeiros que iluminam as palavras com suas canções. Projetos nascidos da inspiração de professores, bibliotecários, alunos.

Olhei para o Nathan, tão menino e tão cheio de familiaridade com as palavras. Um jardim florido na infância de todos nós, celeiro dos frutos que daremos, dos fluxos que haveremos de viver. Fala o pequeno poeta em escolhas erradas, em trabalho, em suavidade.

Vi-me, ali, na minha infância, quando comecei a escrever. E, em pensamento, fui conduzido pelos versos do Príncipe dos Poetas, Paulo Bomfim. 

EU SOU AQUELE MENINO

Eu sou aquele menino

Que o tempo foi devorando,

Travessura entardecida,

Pés inquietos silenciando

Na rotina dos sapatos,

Mãos afagando lembranças,

Olhos fitos no horizonte

À espera de outras manhãs

(…)

Que varandas me convidam

A ser criança de novo,

Que mulheres, só meninas,

Me tentam cabular

As aulas do dia a dia?

Eu sou aquele menino

Que cresceu por distração.

Nesses encontros, contemplo os talentos que se revelam e me preocupo em abrir as cortinas do palco da vida  para que cada um desempenhe o seu papel. Que se tornem protagonistas da própria história, com um repertório ampliado que lhes possibilite escolher, com uma postura ética, que os ajude a perceber que conviver com respeito é o melhor caminho para a construção de uma sociedade de paz.

Há muitos que ainda estão à margem. Há muitos que padecem da ausência de afetos dentro das próprias casas. Há muitos que engatinham sem perspectivas de levantar porque lhes falta a mão necessária. O amanhã depende do hoje, dos alicerces que estamos levantando. É a educação a política pública garantidora das demais. Todo esforço é essencial para não deixar ninguém para trás. 

Agradeço aos educadores e aos alunos desta rede imensa pela valentia de persistir, de realizar e de sonhar. E pelos jardins que plantam em minha alma.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/03/2015 

Um punhado de atenção

Tenho percorrido as diversas regiões da cidade de São Paulo, visitando escolas. Em cada uma delas, tenho conversado com professores, alunos, pais, diretores e com todos os outros colaboradores do universo escolar. Em uma das minhas visitas, ouvi esta história de uma funcionária. Muito sorridente, ela se aproximou e foi se apresentando. Disse que trabalha em escolas há mais de 30 anos. E que é feliz com o que faz. Que, assim como eu, ela também gosta de conversar com as crianças, com os professores, com as famílias. Falou que se acostumou com alguns que reclamam muito e com outros que estão sempre dispostos a ajudar. E foi me ensinando que ajudar alguém é a melhor coisa que se pode fazer na vida. Disse que não teve muita oportunidade de estudo. Que fez o básico. Mas que aprendeu com a vida e com a mãe, que criou onze filhos sozinha, depois que o marido faleceu.

Contou-me uma história do tempo em que ainda vivia em Minas Gerais, onde nasceu. Certo dia, um vizinho veio pedir um punhado de feijão. Coisa comum em cidade pequena. Vizinhos se ajudando. Disse ela que estava ajudando a mãe na cozinha. Apressada. Com vontade de terminar logo para passear. O vizinho bateu palmas, era assim que se fazia antes de criarem a campainha, e trouxe uma vasilha na mão. Ela logo abriu o recipiente e colocou o feijão, com rapidez, para se ver livre e voltar ao que estava fazendo. A mãe quis saber quem era e qual o motivo de sua pressa. Ela explicou, e a mãe a repreendeu: “Todas as vezes que damos um punhado de alguma coisa para alguém saiba que, junto, temos que dar um punhado de atenção”.

“Aprendi”, disse-me a funcionária, “e nunca mais esqueci”, completou. Agradeci a boa prosa, concordando. Nos dias corridos, nas tarefas em excesso, na impaciência, desperdiçamos belas oportunidades. Encontros valorosos estão à nossa espera. É preciso prestar atenção.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/02/2015

 

 

Para que servem as cinzas?

O pó futuro, em que nos havemos de converter é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade?   (Padre Antônio Vieira)

Na quarta-feira de cinzas, fui à missa e observei uma conversa entre uma criança e sua mãe. A criança, cheia de curiosidade, quis saber o significado das cinzas. E se poderia tirar as cinzas com um papel e, caso não pudesse, como deveria fazer durante o banho. A mãe explicou que não havia problema de tirar as cinzas. Que era apenas um símbolo. A criança não entendeu. A mãe tentou usar a explicação do padre de que todos nós somos pó e, ao pó, voltaremos. Piorou. A criança mexia a cabeça de um lado para o outro, expressando sua mais absoluta incompreensão. A mãe disse que isso nos faz lembrar que vamos morrer. A criança ficou quieta, pensativa e voltou a perguntar. “E por que devemos lembrar que vamos morrer”? A mãe fez um sinal de que era preciso ficar em silêncio e acompanhar a missa. Achei a última resposta da mãe simples de se compreender. E creio que a criança havia começado a entender, mas ainda ficou com gosto de “quero mais”.

Lembrar que vamos morrer. Como isso é fundamental! Quantas descomplicações ganharíamos com essa reflexão. Quantas agressões a nós mesmos e aos outros seriam evitadas. Bastam alguns sinais de nossa vulnerabilidade para mudarmos o comportamento. Gostamos de abrir os exames médicos e observar que nossa saúde está ótima. Mas nem sempre é assim. E, quando percebemos que estamos doentes e que podemos morrer, nossa atitude muda. Sobreviventes de um acidente também tendem a mudar. Pessoas que perdem entes que amaram profundamente ficam tempos tentando entender as razões da finitude. Nossa passagem por aqui é temporária. Não há dinheiro ou poder que nos garanta permanecer. A medicina pode nos garantir alguns anos a mais, mas não pode impedir que viremos pó.

Um dia chega o dia de partir. Pensar sobre isso, certamente, nos ajuda. Somos frágeis, incapazes de dominar nossos sentimentos, vulneráveis a tantos desejos que surgem, sem que saibamos de onde, e que permanecem por mais tempo do que gostaríamos. Talvez o importante não seja impedir o desejo, mas saber o que fazer com ele. Do desejo das paixões que parecem não ter saída aos ódios que nos fazem desperdiçar instantes preciosos na busca pela vingança. Bobagens de teimosias insanas. Há tanto a ser vivido, a ser contemplado, a ser sentido. Se um amor findou, outros poderão surgir. Se um amor morreu, choremos o tempo certo, mas com a consciência de que morreremos também. Certamente, não terminamos aqui. Há muitas moradas que nos aguardam na Casa de Deus, ensinou-nos Jesus. Também Ele chorou. Também Ele sofreu a proximidade do sofrimento. Mas sabia Ele da vitória da vida sobre a morte.

A quarta-feira de cinzas marca o início da quaresma. Um tempo de reflexão sobre a morte e sobre a vida. Sobre o fato de sermos pó e, ao mesmo tempo, complexos seres humanos capazes de lindos gestos de generosidade. 

Somos filhos da terra e também do céu. Somos do barro e das utopias. Viver, sabendo que iremos morrer, talvez nos ajude a compreender o que fazer com o tempo. Tempos de gentileza nos alimentam mais do que tempos de violência. O barro do qual viemos não nos moldou para a destruição. Há alguma perversão nossa que nos leva aonde não deveríamos ir, distantes de nós mesmos. Pensar na morte nos ajuda a voltar para o lugar de onde nunca deveríamos ter saído, o solo sagrado da humildade, o húmus que nos originou, a terra, os pés no chão, sangrando ou não, que nos levam aonde nossa liberdade decidir. A jornada não é tão longa. É preciso aproveitar. Viver cada instante como se fosse o último, porque pode, de fato, ser. Quem sabe a hora em que voltaremos a ser pó?

                                                                                        Somos Pó

                                              Esta nossa chamada vida, não é mais do que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno outros   mínimo: De  utero translatus ad tumulum: Mas ou o caminho seja largo, ou breve, ou brevíssimo; como é círculo de pó a pó sempre e em qualquer parte da vida somos pó. Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, quanto mais se aparta dele, tanto mais se chega para ele: e quem, quanto mais se aparta, mais se chega, não se aparta. O pó que foi nosso princípio, esse mesmo e não outro é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele: o passo que nos aparta, esse mesmo nos chega; o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz; e como esta roda que anda e desanda juntamente, sempre nos vai moendo, sempre somos pó. 

(Padre Antônio Vieira)

A mãe, a que estava na missa com a filha, poderia ter completado a explicação. Lembrar que vamos morrer nos faz mais humildes, mais compreensivos com o outro, menos arrogantes, menos pretensiosos. O padre, nessa missa, falou em acolhimento. Disse que a Igreja não é juíza. É mãe. Que está aberta para todos os que erram, porque todos erram, mas como mãe, educa, ensina o caminho, e compreende que a decisão é do filho. A de recobrar o sentido da vida ou a de continuar errante, desperdiçando o tempo da felicidade.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/02/2015