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Maria e os pequenos

Dia 13 de maio, como acontece todos os anos, foi o dia em que cristãos de várias partes do mundo celebraram a festa de Nossa Senhora de Fátima. Ocorre que, em 13 de maio de 1917, Nossa Senhora apareceu a três crianças que pastoreavam um rebanho – Lúcia, Francisco e Jacinta -, na Cova da Iria, um bairro da freguesia de Fátima, em Portugal. E continuou a aparecer nos meses seguintes. Sempre no dia 13, com exceção do mês de agosto porque as crianças estavam presas. Nesse mês, ela apareceu no dia 19. Os homens da época desconfiaram das crianças. Por que Nossa Senhora escolheria crianças para trazer sua mensagem? E crianças pobres? Por que não revelaria seus segredos aos doutos das leis? Por que não falaria diretamente àqueles que tinham o poder de acabar com a guerra? A guerra que, em qualquer tempo, dilacera pessoas e sentimentos. A guerra que demonstra a incapacidade de solucionar conflitos com a inteligência. A guerra que apresenta nossa covardia. Quantas guerras se sucedem nas violentas relações entre as pessoas, inclusive dentro dos lares? Somos nós, adultos, que toleramos menos os nossos semelhantes. Nós, preenchidos por preconceitos e por pouca compaixão.

Maria escolheu os pequenos. As crianças, puras e verdadeiras. Os que não estavam viciados pelo poder. Os que tinham olhos de ver e mentes abertas para a luz que os iluminou. O clarão talvez cegasse os olhos céticos dos que se sentem acima do bem e do mal, senhores da razão. Os pequenos brincavam na terra. Riam. Corriam. E preenchiam-se uns dos outros, sem nenhuma preocupação em nada receber. Receberam a linda mensagem. Entraram para a história. Simples. Anunciadores de um anúncio. 

É preciso rezar mais e guerrear menos. Amar mais, compreender mais, para experimentar, já aqui, as delícias do Céu. Que é abertura e não fechamento. Abertos pela simplicidade, as crianças acolheram Nossa Senhora e sua mensagem. Os pequenos têm muito a nos ensinar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/05/2015

Gabriel Chalita recebe o título de Cidadão Honorário do Município do Rio de Janeiro

Prezado vereador Willian Coelho, que preside esta sessão.

Agradeço a generosidade de Vossa Excelência e de seus pares em me conferir este título:

Cidadão carioca.

Cidadão é aquele que convive em sociedade e que tem consciência de seus direitos e deveres. Cidadão é o que cultiva as relações recíprocas como necessidade vital. Somos quem somos, porque outros preencheram nossas incompletudes ou, pelo menos, amenizaram-nas. Precisar do outro não diminui nossa liberdade. Amplia. O outro me eleva para que eu compreenda até onde posso chegar. Sozinho não enxergaria o longe, nem o alto, nem sequer o outro, irmão meu de espaço e tempo. O espaço é território, é a cidade. O tempo é senhor indomável. Pudéramos nós deter alguns instantes e apressar outros. Não temos esse poder. O poder que temos é o de dignificá-lo. O tempo. E de, no tempo que temos, construir espaços corretos, nascentes humanas de cachoeiras volumosas de amanhãs.

Construir cidades requer esforço coletivo. Escolhas. Renúncias. Coragem. Por isso cada cidade tem seu jeito de ser, de falar, de lidar com seus destroços e de reconstruir suas esperanças. 

Cidadão carioca, é esse o título que, honrosamente, hoje, recebo.

Carioca.

A semântica é generosa ao dar diversas explicações a essa palavra. E mais diversas ainda são as razões para amar esta cidade.

Minhas primeiras lembranças, por aqui, são da Tijuca e de Vila Isabel. São dos acordes de uma tia que tocava violino e das cordas vocais de um tio que me explicava o significado do nome das ruas do Rio de Janeiro. Tempos que o tempo roubou mais apressadamente do que gostaríamos. Saíamos da terra onde nasci, Cachoeira Paulista, do Vale do Paraíba banhado por duas serras encantadas, a da Mantiqueira e a do Mar, e vínhamos para a cidade grande, para a Cidade Maravilhosa, maravilharmo-nos com os cantos delicadamente perfeitos que serviram e ainda servem de inspiração para os poetas, amantes das gentes e das paisagens. 

Era menino ainda quando me banhava nos mares daqui e imaginava o amanhã sem afogadilhos. 

Família unida, aconchegávamo-nos ora aqui, ora em São Paulo. Cachoeira Paulista fica praticamente no meio do caminho. Apaixonei-me de forma diferente pelas duas. São Paulo, hoje, me acolhe tão generosamente que a ela sou grato todos os dias. E quanto ao Rio. Ah, o Rio de Janeiro!

Era ainda adolescente quando, destemido, avistei a cidade de uma asa delta. Perfeição demais. A Pedra da Gávea. O Morro da Urca. Os dois Irmãos. A Floresta da Tijuca. O Jardim Botânico. Fui crescendo e tecendo minha admiração, e dizendo sem economias:

“Rio de Janeiro, gosto de você

Gosto de quem gosta

Deste céu, desse mar,

Dessa gente feliz”

Assim compôs Antônio Maria, o pernambucano amigo de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que o Brasil aprendeu a amar a partir desta cidade. 

Aqui, escrevi e escrevo boa parte de meus livros. Inspiro-me na Lagoa Rodrigo de Freitas e na mata do Corte do Cantagalo. Inspiro-me nas andanças pelas praias de Ipanema, do Leblon, de Copacabana. Nos teatros, nas livrarias, nas conversas na Academia Brasileira de Educação, da qual tenho a honra de ser membro.

Inspiro-me nas gentes desta terra, na “carioquice”, na alegria contagiante de quem se permite agradecer por ter nascido aqui ou por aqui viver. 

Quantas palestras proferi nesta cidade e em outras do chão fluminense! Quantas alegrias vivi ao conviver com professoras e professores que, ciosos do mister magistral de professar a crença no ser humano, alimentam de futuro os seus alunos!

Sou professor por decisão de vida. Por jamais, nem por distração, deixar de acreditar no ser humano. E sou escritor porque reverencio sua excelência “a palavra”. É ela quem nos proporciona privilégios, inclusive o de fazer declarações de amor. Como fez o incansável amante Vinícius de Moraes que não temeu o tempo ao esclarecer um jeito de amar: 

“Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

E que Tom Jobim disse de um outro jeito. De um gostar eterno que, independentemente de outras paixões, dá saudade, porque aguarda o nosso voltar, sempre.

“Cristo Redentor,

Braços abertos sobre a Guanabara.

Este samba é só porque,

Rio, eu gosto de você.”   

Compositores, sambistas, geniais arquitetos de gingados que encantam o mundo. E as Escolas de Samba capazes de popularizar, na Marquês de Sapucaí, temas que vão das óperas aos operários, de outras cidades e estados, de outros países e culturas, ao próprio Rio que, sem preguiça, acolhe a todas elas. 

Rio de Janeiro do genial Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras. Menino pobre de nascimento e rico nos nascimentos que deu a personagens e ideias que ultrapassaram nossas fronteiras e fizeram o mundo reverenciar sua genial escrita. Rio de Cecília Meireles, a professora que fundou a primeira biblioteca infantil da cidade. A escritora que louvou a liberdade: 

Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Para ser cidadão, tem de ser livre. Para ser cidadão carioca, tem de ser romanticamente livre, apaixonadamente livre. 

No quarto centenário desta cidade, Manuel Bandeira rezou:

“Louvo o Padre, louvo o Filho

E louvo o Espírito Santo.

Louvado Deus, louvo o santo

De quem este Rio é filho.

Louvo o santo padroeiro

Bravo São Sebastião.

Que num dia de janeiro

Lhe deu santa defensão.

Louvo a cidade nascida

No morro Cara de Cão,

Logo depois transferida

Para o Castelo, de então

Descendo as faldas do outeiro,

Avultando em arredores,

Subindo a morros maiores,

Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora

De quatrocentos janeiros…

Ó Rio de meus primeiros

Sonhos! (A última hora

De minha vida oxalá

Venha sob teus céus serenos,

Porque assim sentirei menos

O meu despejo de cá!)” 

É de cá que estamos falando. Da cidade que, agora, celebra não 400, mas 450 anos.  E de novo o tempo nos alertando de que prossegue, atropelando os espaços de nossa juventude. Mas gastar a vida por aqui tem mais sabor. Velhice? Não. Pôr do sol no Arpoador ou na Princesinha do mar ou no Vidigal. Ou emaranhado por algum amor que resolveu nos surpreender em qualquer estação de nossa vida.  

Já recebi, nesta terra, a Comenda Pedro Ernesto. O que já me fez sentir profundamente grato. Mas, hoje, posso dizer: “Sou cidadão carioca”. 

Livremente carioca. Agradecido pelo que já vivi e pronto para o que vem pela frente.

A arquitetura nascida do Criador foi um presente e a construída pelos homens também. O Rio continua em construção. Cidade dinâmica que desafia os seus governantes a dar a esta gente o que esta gente merece. O Centro renasce com obras que devolvem a esta cidade o coração pulsante que encanta quem por aqui quer fazer o seu canto. 

Um título de cidadania é um dizer carinhoso: “Venha fazer parte do que temos de melhor. Venha ser filho desta cidade”. E eu, humildemente, digo ‘sim’. Quero continuar a caminhar e a descobrir, na prosa despretensiosa, razões para dar as mãos. Do alto de Santa Teresa ou da Igreja de Nossa Senhora da Penha, digo “obrigado”. Obrigado, Nossa Senhora. Agradeço ao Seu Filho, o  Cristo Redentor, por ter me dado, nesta vida, mais do que eu fiz por merecer.

Nasci em uma família amorosa. Meu pai. Minha mãe. Meus irmãos. Fomos alimentados pela delicadeza do interior. E trago, em meu interior, esses ensinamentos de cultivar os afetos como uma doce obrigação, como uma servidão voluntária. Quero servir a esta cidade como servi e sirvo à cidade de São Paulo. Não há paradoxos nesses dois amores. Gigantes. Acolhedoras. Desafiadoras. Como disse, nasci no meio do caminho. Caminhos há para que as mãos dadas não estejam apenas no belo poema de Drummond, o mineiro apaixonado pelo Rio de Janeiro. 

“O presente é tão grande, não nos afastemos

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. 

Um cidadão preocupa-se com o outro cidadão. Assim como há a São Paulo pobre, também há um Rio de Janeiro pobre. Mulheres e homens invisíveis habitam nossas cidades. Nosso dever é olhar e enxergar o que ainda precisa ser feito. Cidadãos, somos todos. E nenhum fosso pode nos separar. É por isso que sou educador. Porque acredito no talento do ser humano e na partilha necessária de vidas e saberes para que cada um chegue onde precisa chegar. Não se trata de bens materiais. Trata-se de vocação. De um impulso vital que nos faz ir até onde nos levam nossos melhores intentos. Mas, para isso, precisamos que nos abram as portas das possibilidades. Ou que nos acendam a luz. Ou que nos retirem da multidão e nos digam: “Você também é um cidadão”.

Cidadãos cariocas e cidadãos de outras cidades que, hoje, aqui se achegam para esta prosa entre amigos. Desafiemos os descrentes da esperança. E os que têm preguiça de continuar a construção. A correta. A que não deixa ninguém para trás. A do caminhar de mãos dadas.

Esta cidade é mais do que um “espetáculo da natureza”, é a cidade “de uma gente de encantos mil”.

“Jardim florido de amor e saudade

Terra que a todos seduz

Que Deus te cubra de felicidade

Ninho de sonho e de luz”. 

“Ninho de sonho e de luz”.

Voemos, então, sonhadores iluminados, exercendo o nosso ofício, cumprindo nossa vocação! Cidadãos! Livres! Responsáveis por aspergir em todos os cantos o canto da alegria; cariocas, enfim. 

É de Chico Buarque, o paulista-carioca, a confissão:

“Nas ondas do mar

Cidade maravilhosa

És minha.

O poente na espinha

Das tuas montanhas

Quase arromba a retina

De quem vê.

Cidade maravilhosa

És minha”

Obrigado!

Discurso proferido no Rio de Janeiro | 08/05/2015

Mulheres fortes

“Meu marido teve que escolher: a bebida ou eu”, disse-me uma mulher em um evento na periferia de São Paulo. “Expliquei para ele: Deus te deu uma mulher maravilhosa. Eu sou maravilhosa, mas se você acha que vou de bar em bar para te buscar, esqueça”. Tudo isso ao lado do marido, que concordava mexendo a cabeça. A mulher prosseguia explicando que, quando namoravam, já suspeitava que ele tinha umas atitudes inadequadas. Ela ameaçou não casar. Ele melhorou. Depois do casamento, voltou ao erro. “Comigo não pode sair da linha”. E o marido olhava com olhos apaixonados para a mulher que falava pelos dois. 

Uma outra senhora explicou que não tinha mais filhos nem netos na creche, mas como gostava muito do bairro, passava de vez em quando nas creches para ver se algo estava fora do lugar. “Está tudo em ordem. Se não tivesse, eu falaria. Eu tomaria providências”. Uma outra falou sobre o sistema de saúde. Disse o que funcionava e o que faltava. E assim, as líderes comunitárias foram desfilando suas opiniões, com uma autoridade impressionante. Havia homens na conversa, mas eram elas, as mulheres fortes da periferia, que falavam mais, que apontavam problemas e apresentavam soluções. Soluções de quem ama o lugar em que vive, de quem não admite violência, de quem busca fazer de cada canto da cidade um canto bom para se viver. Bem informadas. Guerreiras. Cientes de que o mundo mudou. São elas que chefiam as famílias e que protagonizam as mudanças necessárias para que a cidade não deixe ninguém para trás. Confiam na educação como o caminho mais eficaz para que os filhos tenham uma vida digna. Enfrentam as adversidades com valentia. Não querem ser Amélias. São as mulheres de verdade que assumem o comando da própria vida e avisam ao medo que “sexo frágil” é um termo que não existe em seus dicionários. 

Saio revigorado desses encontros. Aprendo muito. Admiro quem não se entrega. Quem luta por suas convicções e faz história. Fiquei imaginando a luta daquele homem para não perder seu grande amor. Como diz a canção: “Aquilo sim é que era mulher”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/05/2015

 

Dia do trabalho

Uma mulher me respondeu com um sorriso contagiante quando eu lhe dei um simples “tudo bem?”. A resposta foi intensa: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Ela trabalha na limpeza da escola. Não mora tão perto. Acorda bem cedo. Pega mais de uma condução. Quando chega em casa, tem outra jornada com o marido e os filhos. E é feliz.

Tenho muito respeito pelos funcionários das escolas. Os que limpam os espaços em que educamos, os que preparam o alimento das crianças, os que cuidam para que tudo esteja em ordem para nós, professores, realizarmos nosso ofício. Sou muito feliz por ser professor. E escritor. E sempre que converso com jovens sobre profissões, tento ajudá-los a perceber que a melhor escolha é fazer aquilo que nos realize, que nos faça perceber que podemos ser úteis à sociedade. Não há profissões superiores ou inferiores. Todo trabalho é digno, quando feito honestamente. Mas é preciso ir além. É preciso ter o entusiasmo daquela mulher que encontrou naquela escola o seu canto de realização. Podemos lutar por nossos direitos, buscar melhores condições de trabalho. O papa Francisco disse, nesta semana, que é escandaloso mulheres ganharem menos que homens para exercer a mesma função.

Há ainda um longo caminho para valorizar as pessoas e as profissões, para dar dignidade a todos e acabar com preconceitos. Mas há um outro fator, de extrema importância, também, que é o encontro com nossa própria vocação, com o que, de fato, nos diga se estamos ou não no lugar certo. Como é ruim encontrar pessoas que detestam o próprio trabalho, que detestam o que fazem e que não encontram disposição para buscar novos caminhos. Vidas desperdiçadas. Sem sermos felizes naquilo que fazemos, dificilmente faremos algo de bom para outras pessoas. Com gestos amargurados, contaminamos o ambiente e a nós mesmos. Sempre é tempo de ressignificar nosso trabalho, de redescobrir a chama que nos faz iluminar pessoas com simples respostas como esta: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Feliz dia do trabalho.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/05/2015

Tempos estranhos

Vivemos tempos estranhos. Essa frase talvez tenha sido dita, inclusive, em outros tempos, quando também houve estranhamentos na ação humana. Mas é sobre os tempos de hoje que escrevo, que lamento, que me preocupo.

Tempos descartáveis. Jogamos fora pessoas e suas biografias. Descompromissados com a verdade, buscamos o poder a qualquer custo. Atacamos o outro, desprovidos de um dos mais nobres sentimentos, a compaixão.

Tempos violentos. As mortes de cristãos na Líbia representam os horrores dos fanatismos religiosos que se sucedem em tantas outras partes do planeta.

A violência também está dentro das casas. Violência simbólica e física. Mulheres continuam sendo espancadas, violentadas, agredidas em sua dignidade. Assim também as crianças que têm a inocência roubada por usurpadores de futuro.

Tempos barulhentos. Gostamos dos mais diversos sons, menos do som do pensamento. Ouvimos barulhos de todos os lados. Desligamo-nos da realidade. Ligamos ou nos comunicamos com os outros pelas mais distintas maneiras e não nos comunicamos com nós mesmos. A ausência de pensamento nos leva a errar muito mais.

Zygmunt Bauman, contemporâneo sociólogo polonês, alerta-nos sobre os laços humanos que se deterioram em função das novas tecnologias: preferimos investir nossas esperanças em ‘redes’ em vez de parcerias, esperando que em uma rede sempre haja celulares disponíveis para enviar e receber mensagens de lealdade.

Tempos hipócritas. Representamos papéis. Fingimos ser o que não somos para angariar alguma simpatia. Usamos máscaras para que outras pessoas nos aplaudam. Fazemos não o que é correto, mas o que parece agradar mais gente. Mudamos de discurso de acordo com a plateia. Alteramos o tom de voz dependendo de quem está por perto.

Tempos interesseiros. Aproximamo-nos das pessoas quando elas têm algo a nos oferecer. Adulamos, se necessário for, para ganhar o que almejamos. Nada desperdiçamos com quem nada tem a nos oferecer.

Tempos egoicos. Pensamos pouco ou quase nada nos outros. Mergulhamos em nossos desejos mais primitivos e nos esquecemos de que somos seres de convivência, animais sociais, de que dependemos uns dos outros. A avareza é um dos piores vícios que pode ter um ser humano. Trancafiarmo-nos em nós mesmos com receio de que levem algo de nós é um desperdício de tempo e de intenção.

“O direito do Outro à sua estranheza é a única maneira pela qual meu próprio direito pode expressar-se, estabelecer-se e defender-se. É pelo direito do Outro que meu direito se coloca. “Ser responsável pelo outro” e “ser responsável por si mesmo” vêm a ser a mesma coisa.” (Bauman)

Em outros tempos, constatações como essas devem ter sido feitas, mas nos nossos tempos há um agravante, a sociedade do espetáculo tem um ampliador de resultados. Comunicamo-nos com maior facilidade e, com maior facilidade, somos capazes de espalhar mentira, de arruinar pessoas e pensamentos.

Se as brincadeiras toscas contra crianças inocentes já eram danosas, imagine o que acontece com o cyberbulying? Se as fofocas de antigamente causavam dor, o que não causam os milhares ou milhões de acessos de vídeos ou textos produzidos para destruir alguém?

A inteligência nos levou a atingir patamares inimagináveis. E o que fazemos com essas conquistas?

Tempos de respeito é o que precisamos. De compreensão do nosso poder de construir ou de destruir. 

Tempos de delicadeza, de cordialidade, de convivência pacífica com os nossos desejos e com as nossas ações.

O que nos faz bem? A perversidade ou a generosidade? O ódio ou o amor?

Prefiro o sabor das utopias ao amargor de conspirações contra o outro. Ninguém sai dessas ações impunemente.

“As relações humanas não são mais espaços de certeza, tranquilidade e conforto espiritual. Em vez disso, transformaram-se numa fonte prolífica de ansiedade. Em lugar de oferecerem o ambicionado repouso, prometem uma ansiedade perpétua e uma vida em estado de alerta. Os sinais de aflição nunca vão parar de piscar, os toques de alarme nunca vão parar de soar.” (Bauman)

Tempos de reflexão. É o que precisamos. Ou tempos de inquietação diante do quanto teremos que fazer para construir os tempos de paz.

Tempos de paz. Não podemos desistir nunca. Mesmo que pareçamos ir na direção contrária. Os tempos de amanhã dependem dos resistentes, dos apaixonados, de nós.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/04/2015 

 

Faz diferença, sim!

Gosto de correr na rua, em São Paulo. Gosto de cumprimentar as pessoas e de, ao final da corrida, gastar algum tempo com alguma prosa não combinada. 

Domingo passado, corri no Minhocão e depois subi um pedaço da Consolação até chegar à Maria Antônia, rua de tantas lembranças para nossa democracia. Foi quando uma senhora bem vestida, acompanhada de outra também muito elegante, abordou-me dizendo que eu precisava avisar o prefeito de que a cidade estava muito suja. Como eu estava correndo, diminuí o ritmo, dei alguma atenção e prossegui. Ela falou algo que não ouvi, e eu virei para ver se era comigo que continuava a falar. De repente, vi a senhora que clamava pela limpeza da cidade jogando no chão a embalagem de uma barrinha de cereais. Não tive dúvidas. Voltei e peguei o lixo, fazendo algum barulho para que ela notasse. Ela me viu abaixando e foi logo justificando: “Eu só joguei no chão, porque a cidade está suja, se não, não jogaria, mas um papelzinho não faz diferença”. Eu não quis ser grosseiro. Achei que ela já ficara suficientemente constrangida pela falta de educação. Respondi, educado: “Faz, sim”. E continuei correndo. E pensando em como é difícil fazer com que as pessoas reflitam sobre suas ações. Exigir do poder público é mais fácil do que agir corretamente. Criticar. Falar em ética. Em cidadania. Em respeito aos espaços públicos. Parece simples. Dar o exemplo no dia a dia é um pouco mais complicado. Mas é disto que precisamos. Fazer com que esse clamor pela ética, pela honestidade, converta-se em atos concretos. A educação tem um papel fundamental nessa mudança de comportamento. Querer levar vantagem, mentir, tentar dar um jeitinho na solução de um problema, tentar corromper, furar fila, jogar papel no chão… tudo isso faz diferença, sim!

A cidade gasta 1 bilhão por ano para recolher o lixo que jogamos nas ruas. Há cidades no mundo que nem lixeira têm. Nem lixo. Cada um leva o que produziu no bolso ou numa sacola e deposita no local certo, sabendo que é preciso cuidar da casa em que vivemos. Para nós e para os que virão.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/04/2015 

 

Dr. Sócrates Brasileiro, uma escola

Nesta semana, estive com o prefeito Fernando Haddad na EMEF “Dr. Sócrates Brasileiro”, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Fiquei impressionado com a liderança da diretora da escola, Solange Amorim, e com o incrível corpo de professores e funcionários. A escolha do nome respeitou um processo democrático exemplar. Primeiramente, foi realizado um estudo sobre possíveis patronos. Pesquisaram suas biografias e elegeram o seguinte critério para a escolha definitiva: qual deles poderia ser uma fonte de inspiração a toda comunidade escolar? Produziram vídeos, textos, material virtual para as redes sociais, entre outros, e participaram de debates, apresentações, palestras. Alunos e comunidade. Como deve ser. Uma escola não é de um prefeito, de um secretário, de um governador nem de um presidente. A escola não é nem mesmo do diretor. A escola é da comunidade e quanto mais a comunidade participar do dia a dia da escola, melhor será a sua gestão.

No descerramento da placa, Kátia, a viúva de Sócrates Brasileiro Sampaio de Sousa Vieira de Oliveira, o nosso Sócrates jogador e brasileiro, contou uma história sobre a infância do marido, em Ribeirão Preto. Disse que, certa noite, ele acordou com cheiro de fumaça no quarto. Preocupado, levantou  rapidamente e foi ver o que estava acontecendo. Assustou-se com a cena que viu: seu pai, agachado no quintal, queimando livros. Quis entender as razões, já que os livros eram tão preciosos para o pai. Com lágrimas nos olhos, o pai explicou ao filho que era para proteger sua família. Eram os difíceis tempos da ditadura. Ter livros em casa poderia ser perigoso, principalmente livros que despertassem suspeitas de gosto por prosas mais libertárias. Essa imagem de uma noite escura iluminada pela dor das páginas queimadas preencheu o seu repertório de vida.

A história de vida de Sócrates fez dele um defensor ativo dos ideais democráticos em todos os cenários de sua vida: “Quero mudar meu país, quero mudar meu povo”. A democracia corintiana, da qual ele foi mentor, representa um marco na história de nosso futebol. Sua elegância no campo era consequência de uma postura correta na vida. Lutou pelas eleições diretas, emprestou o seu prestígio para angariar mais adeptos ao sonho de ter um país verdadeiramente livre. Lutou pela constituinte. Lutou pelo respeito no campo e fora dele: “Se as pessoas não tiverem o poder de dizer as coisas, eu vou dizer por elas. Quando eu era jogador, minhas pernas amplificavam a minha voz”. Sócrates estudou medicina. Pintou quadros. Cantou canções. Viveu com intensidade cada momento. Errou, certamente, como todos os seres humanos. Mas seus erros foram muito menores do que sua inspiração.
Sócrates foi doutor. Nos livros. Na bola. Na vida. Um artista no campo, jogador de um futebol arte. Em passos largos, até um pouco desajeitados,  driblava por paixão. E dizia: “Vencer não é a coisa mais importante do mundo. Futebol é arte e deveria ser sobre mostrar criatividade. Se Vincent van Gogh e Edgar Degas soubessem o nível de reconhecimento que teriam, não teriam feito o mesmo. Você tem que gostar de fazer arte e não pensar: será que vou vencer?”.

Ali, visitando aquela escola, vi, nos olhos de esperança daqueles alunos, a alegria de ter um patrono que foi protagonista da própria história. Aquelas meninas e meninos não tiveram a honra de ver o Dr. Sócrates impressionando com mestria nos gramados. Não comemoraram os gols que ele marcava. Não se extasiaram diante dos dribles certeiros. Mas puderam estudar o seu legado e, em tempos de poucos referenciais, dizer com orgulho: “Agora, eu estudo na escola ´Dr. Sócrates Brasileiro´”.

Sócrates Brasileiro é uma escola que fica no Campo Limpo. Sócrates é uma escola para quem gosta do futebol arte, da elegância, para quem acredita na democracia e na liberdade.
 
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/04/2015

Urgente é amar

Uma mulher me disse de sua tristeza ao saber que estava com câncer no seio. Entre lágrimas, explicou-me: “Como é bom abrir um exame e ver que a gente não tem nada. Que temos saúde de ferro! Terei que operar com urgência. O caroço não é tão pequeno”. Ouvi e tentei ajudá-la. Disse-lhe que as possibilidades de cura, hoje, são muito grandes. A medicina evoluiu. As cirurgias são menos invasivas. E lhe contei o caso de minha tia. Ela também soube que estava com câncer e que teria que operar o seio direito. O médico disse que era um tumor maligno que deveria ser retirado imediatamente. Ela me ligou chorando. Reclamou do médico, pois ele nem a examinara. Apenas olhara os exames. A consulta foi rapidíssima, e o doloroso diagnóstico foi dado friamente. Fomos a outro médico. Ela tremia de medo e tristeza. Mas ele logo a acalmou. “É um pequeno tumor! Não se preocupe. A cirurgia será simples e, quem sabe, a senhora até encontre algum enfermeiro bonitão, já que é viúva?”, brincou. Ela sorriu, disse que não queria saber de homem e contou a história do falecido marido. Queria apenas saber se a cirurgia era urgente. O médico disse que não. Que poderia ser quando ela quisesse. E continuou a conversa sem pressa. Aos poucos, sugeriu: “Hoje é segunda, a senhora já fez os exames, que tal operarmos na quarta? Assim, no domingo, a senhora já estará em casa, poderá fazer um delicioso almoço árabe e me convidar. E já tira isso da cabeça!”. Ela me olhou e disse: “Embora não seja urgente, é melhor fazer logo, você não acha”?

Hoje, ela está bem. Isso foi há alguns anos e, quando me lembro de que os dois médicos disseram a mesma coisa de formas diferentes, entendo que, em qualquer circunstância, o urgente é amar. Mulheres com câncer de mama, há todos os dias. O ofício da medicina exige conhecimento e amor. As dores na alma também nos fazem mal. Abracei a mulher com carinho. Ela sorriu com um olhar de esperança. Essas pedras que surgem em nossa travessia nos machucam muito. Mas elas existem. O importante é prosseguir.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/04/2015

 

Chacrinha, o musical! Genial!

“O Velho Guerreiro” marcou a história da televisão brasileira. Sua irreverência, criatividade, ousadia fizeram dele um dos maiores comunicadores do nosso tempo. Frases suas eram repetidas (e ainda são) no cotidiano das pessoas. “Quem não se comunica se trumbica”. Comunicou ao Brasil os novos talentos que desfilavam em seu programa. Artistas que ainda hoje fazem sucesso emocionam-se ao lembrar a primeira chance, o primeiro contato com a massa pela magia da televisão.

“Vocês querem bacalhau?” E o bacalhau se esgotava nas prateleiras dos supermercados. Gênio do marketing, ele dizia: “Eu não vim para explicar, eu vim para confundir”. 

José Abelardo Barbosa de Medeiros ou Abelardo Barbosa ou Chacrinha nasceu em Surubim, em 30 de setembro de 1917, e morreu em 30 de junho de 1988, no Rio de Janeiro. O musical que está em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo, narra sua trajetória de fantasias e dores. O texto é de Pedro Bial e Rodrigo Nogueira. A trilha sonora, com arranjos e direção de Delia Fischer, reúne mais de 60 grandes sucessos da nossa música. A direção é de Andrucha Waddington. 

Os atores, bailarinos cantores, estão impecáveis, mas é preciso uma menção especial, honrosa, a dois brilhantes atores de gerações diferentes que encarnam Chacrinha. O primeiro é Leo Bahia que faz o menino Abelardo Barbosa. Leo começou a chamar a atenção por seu talento na Casa de Cultura Julieta de Serpa, no Rio de Janeiro. Interpretando cantores e canções de épocas e estilos diferentes foi ganhando visibilidade. Na UNIRIO, levava a plateia ao delírio no excelente musical The Book of Mormon. Aos 23 anos, Leo Bahia vive a personagem com uma carga dramática invejável. Faz rir e faz pensar. No primeiro ato, é ele quem interpreta as peripécias do menino pobre de Surubim, Pernambuco, em seus devaneios provocados por um vulcão que os artistas do interior geravam em seu interior. O pai faliu. A mãe o incentivou. Quis ser médico. Encantou-se com o rádio. Quis ser músico. Quis comunicar. E foi tudo isso do seu jeito. 

O Chacrinha adulto é vivido por Stepan Nercessian. Genial ator brasileiro que conseguiu encarnar brilhantemente cada gesto do Velho Guerreiro. O final do primeiro ato, quando Stepan deixa de ser o artista inspirador do menino Abelardo para ser Chacrinha, é mágico. No segundo ato, vem a lembrança dos programas de auditório. “Stepan é o meu pai”, dizia emocionado o filho de Chacrinha, Leleco Barbosa. “Ele anda como meu pai, ele senta como meu pai, ele fica parado como meu pai, ele ri e se entristece como meu pai”. Esse é o maior prêmio que um ator pode receber. Generosamente, morre o ator para nascer a personagem.

Abelardo, na vida pessoal, não era tão feliz quanto na televisão. Seus medos o sufocavam. Suas dúvidas o preenchiam e roubavam dele a alegria. Cobrava a si mesmo uma perfeição difícil de alcançar. Queria audiência, mas queria mais do que isso, queria a compreensão das pessoas pelas escolhas que fez na vida. Traumas pessoais acompanham a todos nós e com ele não foi diferente. Dores dos filhos. Brigas com os que mandavam na televisão. Inseguranças. Chacrinha era humano como todos nós. E o enredo traz esse cotidiano que destoa um pouco da irreverência e da alegria na cena da televisão. Isso tudo sem apelos, sem exagero. Afinal, qual ser humano não fica nu diante das dores impossíveis de serem esquecidas na vida? Somos paixão e desilusão. Festa e solidão. Entusiasmo e medo. Brincar de viver é algo sério, e ninguém passa impune a essa ventura. Mostrar o artista – e mostrar também o homem – é uma feliz escolha da narrativa do espetáculo.

As músicas muito bem interpretadas fazem uma viagem ao nosso baú de afetos. Roberto Carlos, Ney Matogrosso, Rosana, Ritchie, Lilian, Gretchen, Gilberto Gil, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Sidney Magal, Fábio Júnior, Clara Nunes, Dorival Caymmi, Wanderléa entre outros, desfilam em seu Cassino ou Discoteca. Na estreia, em São Paulo, Fábio Júnior fez uma participação especial. Seu olhar para Stepan era quase de espanto, de admiração profunda, de recordação de um tempo em que o Velho Guerreiro abriu para ele e tantos outros as janelas dos sonhos possíveis, daqueles que nos fazem voar nas asas dos nossos talentos, mas que se não descobertos ficam para sempre adormecidos.

Encontrei, ao final do espetáculo, uma ex-chacrete que chorou muito lembrando os seus tempos ao lado dele, o homem mito, o que foi chamado pelo filósofo francês Egdar Morin de “fenômeno da comunicação em massa”. Na época, desabafou Chacrinha: “Quero ver o que vão dizer agora os críticos brasileiros que me chamam de débil mental”?

Fica a dica. Assistir “Chacrinha, o Musical”. E aplaudir o talento do artista brasileiro.

Abelardo Barbosa

Está com tudo e não está prosa

Menino levado da breca

Chacrinha faz chacrinha

Na buzina e discoteca

Ó Terezinha, ó Terezinha

é um barato o cassino do Chacrinha

Ó Terezinha, ó Terezinha

é um barato o cassino do Chacrinha!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/04/2015

 

 

A lente do medo

A guerra sempre nos mostra a face embrutecida da humanidade. Pretensos líderes que se acham conhecedores do “bem e do mal”. Comeram eles a árvore do fruto proibido, como narra o Gênesis. Alguns imaginam que a proibição de Deus para Adão e Eva era para roubar-lhes a liberdade. Não era. Comer o tal fruto proibido significaria comer um ao outro com os dentes do ódio, com a boca da destruição, com a intenção do apequenamento. Assim nasceu o pecado. O homem e a mulher podem tudo, menos destruir o outro ou a si mesmo, porque isso nos desumaniza. No texto bíblico, ficaram eles envergonhados depois de comer o que a serpente ofereceu. Envergonhados por saberem-se ávidos pela destruição do outro. Envergonhados deveríamos ficar cada um de nós com esses mesmos pecados de destruição que nos acometem.

Uma cena chocante correu mundo afora. Comoveu, revoltou, indignou. Um fotógrafo, Osman Sagirli, estava na Síria, a 10 km da fronteira com a Turquia, no local em que milhares de refugiados, amedrontados pela sombra da destruição, buscavam sobrevivência.  Seu objetivo era registrar rostos comuns, de adultos e crianças que se perdiam naquela multidão. Foi quando, ao tentar fotografar uma menina de quatro anos, a pequena Hudea, percebeu sua estranha reação. A menina levantou as mãos pensando ser a câmera uma arma. Mordeu os lábios de pavor. Olhou tão assustada que ele teve o ímpeto de abraçá-la, de aconchegar a dureza de sua trajetória. Tão menina e tão cheia de marcas. Sangues jorram naquela região há muito tempo. Famílias destruídas. Túmulos que não dão conta dos tantos que perderam o direito ao futuro.

Como corrigir isso? Como voltar ao paraíso e encontrar mulheres e homens vivendo em harmonia? Cenas assim são comuns nas guerras que sabemos e nas outras que, no escuro dos lares, roubam a inocência de crianças. Exatamente daqueles que deveriam ser os mais cuidados, os mais protegidos, os mais amados.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Foto: Osman Sagirli Data: 10/04/2015