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Prato de sopa quente

11.04.2021

Gabriel Chalita

Pela vagarosidade dos passos, já sei que é ela. A velha porta range na sonoridade do tempo. Sem solavancos. 

O taco antigo está acostumado com a ausência da velocidade, conquistada com o passar dos anos. Os altos sapatos já não guardam os seus pés. Ela prefere o conforto ao desfile. Embora desfile, dentro de mim, sem pausas. 

São 70 anos juntos. Inês ouve pouco e, então, grita quando quer dizer. Eu me perco nos esquecimentos. Tenho a memória dos ontens. Quanto mais distante o tempo, mais eu sei contar. 

Ontem, a Elaine veio nos visitar. E eu me vi perdido. Cada vez que falava um pedaço da vida, um pedaço da vida escapulia da minha lembrança. E, então, Inês, com as suas mãos desenhadas de tempo, apertava as minhas e perguntava: “Orlando, meu amor, do que você quer se lembrar?”.

Inês se oferece generosa para ser minha memória. Não lembro bem o que Elaine queria. Parece que brigaram. Ela e o marido, cujo nome me foge agora.  Os olhos marejados explicavam a dor. É difícil deixar de estar.

Inês fala alto tentando ouvir a dor de Elaine. É atenciosa. Sabe que ouvir é uma das mais belas expressões de amor. 

Amor que, por pouco, não se perdeu no barulho das escolhas não pensadas. 

Eu penso nos dias em que a porta se abriu e quase saímos. Ou ela ou eu. E que ventos de quentura nos convidaram. Eu era jovem, quando me engracei com uma outra mulher. Jovem e inseguro. Gostei de seduzir. E, então, quando olhei no triste olhar de Inês, chorei a dor que causei.

Ela disse nada. Sofrendo por dentro, descascava o necessário para preparar um prato de sopa quente.  Eu, arrependido, desembrulhava as palavras para entregar o meu pedido de perdão.

Ela ouviu. Olhou para fora do que doía e terminou o cozimento.

Sentamos nós dois e a noite. E bebemos a esperança de espantar a machucadura.

Outra vez, foi ela. Em um cansaço, quis deixar o que tinha. Teve jeito de pensar e, então, permaneceu. Ela nunca disse o que havia lá fora, e eu disse a mim mesmo que não era necessário eu perguntar. 

Quando hoje nos sentamos, lado a lado, de mãos dadas, depois de 70 anos de amor, eu agradeço as limpezas que fizemos juntos e o gosto bom da permanência.

Ontem, antes da chegada de Elaine, ela arrumava os cabelos e perfumava o dia cantando alto uma música religiosa. Não me lembro de qual. Só me lembro que gostei. Sempre gosto. Ela enfeita a minha vida, estando. 

Já passamos dos 90, os dois. Desisti de pensar no dia em que um ou outro vai partir. Prefiro que seja eu. As mulheres costumam viver mais. Prefiro que seja eu a preparar a casa nova em que continuaremos. Porque disso tenho certeza, continuaremos…

Ia me esquecendo de contar um pedaço de ontem. Elaine já estava pronta para se despedir nas inquietudes que têm as gentes que não sabem o que fazer, inda mais se tratando de paixão,  quando Inês pediu a dona Elza, que conosco trabalha há muito, que cozinhasse um jantar. Elaine dizia que estava em dúvida entre permanecer ou tentar esquecer. Não entendi muito bem. Presumo que nem Inês. Só ouvi seu conselho em alto e bom som: “Não decida nada antes de um bom prato de sopa quente”.

O tempo vai escapulindo e a vida vai se repetindo. Que bom que a porta da casa está bem fechada e que, nos cômodos de dentro de mim, só há espaço para Inês. 

“Orlando”, diz ela nos gritos de amor, “Venha dormir, já é noite”.

As chaves da Igreja

04.04.2021

Gabriel Chalita

Acordei com os sinos avisando a missa.

Acordei assustado. Quem toca os sinos sou eu. 

O dia ainda dorme e, também, a Igreja. 

Triste uma Páscoa sem alegria. A sexta-feira da paixão invadiu os outros dias santos. É de morte que estamos vivendo.

Os calvários acumulam choros que invadem as cidades de silêncio. Nada de sinos. Os cemitérios têm um barulho próprio. Os passos vagarosos dos afetos, que acompanhavam a entrega do corpo do morto a terra, precisaram aguardar. E nada de abraços. Só a dor permanece invadindo todos os dias. 

Trabalho, há muito, na Igreja de São Sebastião. Sou sacristão, tenho as chaves e a obrigação da limpeza. Ontem, fiquei sozinho ouvindo o passado e vendo as gentes que, nesses dias, se emocionavam com os quadros santos da paixão. 

A Igreja silenciosa de hoje é o mundo silenciado por uma pausa que teima em se estender. Os lenços das mulheres de ontem, piedosas, deram lugar às máscaras protetoras de vidas. E foi, em uma sexta-feira, que pregaram o pregador do amor em uma cruz. E que o mundo se ajoelhou silencioso, depois dos estrondos dos homens que gritavam ódios.

Um inocente condenado. Inocentes continuam sendo condenados. E os ódios não morreram nem em uma sexta, nem nos outros tantos dias da semana.

Padre Silvio, com sua voz rouca e emocionada, lia os textos sagrados e nos convidava a convidar o que havia de morrer em nós que morresse. Que morresse a arrogância. Que morresse a perversidade. Que morresse a desumanidade. Na humanidade de Cristo, passaríamos a um outro tempo. A um tempo de libertação e de vida. 

Sou de pouca leitura, mas de Bíblia conheço. A páscoa antiga era a passagem da escravidão para a libertação. Seguindo Moisés, o povo de Deus se ergueu contra o que aprisionava e foi caminhando em busca de um sonho. Na páscoa nova, a nova vida. A morte se despede no amanhecer do domingo. E, então, a vida surge vitoriosa. As mulheres corajosas viram que o corpo sem vida era passado.

O sol havia mandado embora a escuridão. 

Há escuridão no mundo de hoje. Os medos não são só de um vírus que mudou a vida. Os medos são do vírus da insanidade, do desrespeito, do desamor. 

Sempre me intrigava pensar no que aconteceu com os que, em um domingo de ramos, festejavam a chegada de Jesus e, dias depois, mudaram de opinião e gritaram ódios exigindo sua morte.

O mundo continua matando. Por que demoramos tanto a aprender? 

Não nascemos para a escravidão. Não nascemos para espalhar mortes.  Nascemos para a compaixão. 

Algumas mulheres permaneceram ao lado de Jesus, enquanto muitos homens, por medo, o abandonaram. Mulheres fortes que se alimentaram de lágrimas e esperança. 

Janice, minha mulher, se foi em inverno antecipado. Demorei a aquecer os meus dias. Sua lembrança, hoje, já não dói, já traz alívios e gratidão. Vivi um amor simples durante anos de minha vida. Vivi muitas páscoas com ela e muitas primaveras em diferentes estações.

Vou a Igreja daqui a pouco. Sozinho, vou ajoelhar a vida e rogar à vida que vença a morte. Prossigo acreditando na páscoa, prossigo passando os meus dias soprando amor nos cantos que conheço.

Me reconheço em cada humano e, por isso, sofro por todos, mesmo pelos que não conheço. E, por isso, canto a liberdade na oração em que reconheço Deus. 

É páscoa. É dia de lembrar a vida, a vida milagrosa que não desiste nunca de nascer.

Faltou ar

28.03.2021

Gabriel Chalita

Eu não entendi direito o que aconteceu. Só sei que aconteceu. A Fabíola morreu. 

A Fabíola é filha da Antonia, enfermeira das doenças do corpo e dos abandonos da alma. Eu mesma fui, por ela, acolhida desde sempre.

Meu pai morreu antes de me conhecer, não pôde esperar. E minha mãe, de doença em doença, viveu de ausências. Lembro dela, em um inverno inteiro, em qualquer estação. No dia em que ela foi ser recebida pelo meu pai, é o que quero acreditar, descansei de ver a sua dor e doí inteira a sua partida. 

Antonia, desde sempre, falou dentro de mim, e, então, permaneci vivendo os meus dias. Nunca pude desistir. Ela não deixava. Ria das esquisitices dela mesma, das manias que toda gente tem e que nem sempre revela. Ria de estar viva e de ser feliz por inteiro. 

A luz acordava esclarecendo o dia e me lembrando de que a bondade era minha vizinha. E ela pedia licença para entrar e trazer um pedaço de bolo de milho com coco para explicar à vida que merecíamos saborear a alegria. Depois, me arrastava para caminhar. E, se eu estava triste, dormia no sofá dos meus medos para espantar o que me trazia desconforto. 

Essas coisas eu não concordo. Por que justo a filha dela teve que morrer? A filha que cresceu comigo. A filha que me ensinou a ficar bonita, usando maquiagens estrangeiras que a mãe comprava. E ria o mesmo riso da mãe. Usavam, vez em quando, a mesma roupa. Era bonito demais de ver. A mulher e a menina e o mundo inteiro cabiam naquele amor. 

A Alzira, que é muito religiosa e frequenta sempre a minha vida, disse que me falta fé. Que nem tudo tem explicação. Mas eu não entendo. A mãe só faz o bem, a mãe tem uma única filha, a mãe já não tem mais a única filha, e sei que ela vai continuar fazendo o bem. Só que com o coração faltando o maior pedaço. 

Eu sei que, como a Antonia,  como eu e a Alzira, tem muita gente sofrendo nesses tempos. Enquanto uns brigam, outros enterram seus mortos sem despedidas. E voltam para casa querendo acreditar que o dia da dor não existiu. Existiu, sim.

Tão pouca gente no enterro de Fabíola. Velório nenhum. E Antonia despedaçada sem dizer nada. Ela que cuidou de tantas vidas, nesses tempos horrendos. Ouvia suas emoções dizendo da tristeza de não ter respirador para todo mundo. De mães gritando, quando recebiam a notícia, de filhos inconsoláveis. E, agora, era a vez dela.

A filha morreu no mesmo hospital em que ela trabalha. No corpo sem vida, o útero seco engolia nada de um desmentir da natureza das coisas. Não é justo uma mãe enterrar uma filha. 

Alzira disse algumas palavras. Fez uma oração triste e bonita. Tudo muito rápido, como rápido foi o existir da vida de Fabíola. Da Fabíola que sonhava em ser enfermeira como a mãe, que brincava de medicar as bonecas, que ajeitava o quarto como se fosse um hospital de criança.  O quarto ainda está lá com os brinquedos, sem compreender a ausência. As gavetas revelam pedaços de papel com vidas inteiras, fotografias das duas juntas, paninhos, bijuterias, cadernos e não sei mais o quê, parei de ver. Sobre a mesa do quarto, outros retratos, perfumes, maquiagem e uns bilhetes de amor. No espelho, grudada uma das tantas cartinhas da mãe, quando saía cedo para trabalhar e queria surpreender a filha.

Meu Deus, e agora? Eu sei que, em toda a rua, mora uma dor, mas é a Antonia que eu conheço que, hoje, sente a dor mais doída do mundo.

No rádio, dizem que já morreram mais de 300 mil pessoas. Eu pego a minha Bíblia e a aperto contra o peito. Fico em silêncio conversando com Deus. Ouço os comentaristas falando que demoramos para acreditar no vírus, na vacina, na ciência. Falam de outros países que cuidaram melhor dos seus filhos. 

Eu não entendo dessa brigaiada toda. Não concordo com quem concorda com a mentira.  Falam de armas. Eu que sou da paz, fico intrigada. É disso que precisamos? 

Estou fazendo uma sopa para levar para Antonia. Eu sei que ela tem fome nenhuma, mas vou ficar perto dela, talvez sem dizer nada, talvez chorar doído com ela. Faço a confissão da sinceridade, o tempo vai aliviar um pouco, mas a vida sem Fabíola vai ser um jardim difícil de brotar beleza. 

Céus, é a Antonia cantando. “Acorda mulher, o dia está lindo”.  Que horas são? Ufa, no meu caso, foi um pesadelo…

Onde mora o amor

21.03.2021

Gabriel Chalita

Era o despedir de um dia no Rio de tanta beleza. O bairro era o que já havia inspirado a canção de uma menina linda, cheia de graça.

Uma menina que vem e que passa num doce balanço a caminho do mar. 

A rua era uma entre tantas onde as gentes se locomovem ou param. Conversam ou silenciam.

Eu estava em uma calçada, quando vi, na outra, uma das tantas mulheres que vivem nas ruas se ajoelhar. Era uma oração, talvez. Foi o que pensei. Era um descansar o mundo. Era um desabar na barulhenta cidade.

Fiquei preso àquela imagem. Os cabelos desajeitados embaralhavam, ainda mais, os seus pensamentos. A pele exaurida pelos anos apresentava a idade. Era uma velha mulher. E, de cócoras, com as pernas se abrindo para abaixar mais, ela levou as mãos a uma água suja que ficava na rua rente à calçada. E, fazendo concha, bebeu com fervor a ausência de humanidade para com ela. 

O movimento das mãos foi me silenciando, me emudecendo. Os meus pensamentos que, um pouco antes, viam a lua que se adiantava, naquele dia, já não resistiam a nenhum outro pensar. Quem era aquela mulher? Como ela chegou até ali? O seu vestido branco sujo de abandono, os seus pés descalços de qualquer cuidado, seu sorriso sem significado. Era o que eu via. Ela tinha a idade da dor. E eu a idade da omissão. 

Nada fiz. Apenas, vi. Pensei em comprar água, pensei em oferecer alimento, pensei em cuidar dela. E nada fiz. O tempo foi escapulindo e eu nada fiz. 

A demora da minha decisão fez com que ela caminhasse na solidão da rua e se perdesse no mundo grande onde ninguém vê ninguém. Fiquei imaginando o seu nome, a sua dor, o seu destino. Dormi com ela, naquele dia, e acordei em desalinho com os meus afazeres. 

Ela é uma e eu sou tantos. Ela é muitas e eu sou apenas um. Tenho voz e não digo, tenho braços e não abraço, tenho coração e amo pouco. 

Lembrei de uma poema de Mário Quintana que escolhia as palavras para escolher a vida, a vida simples, a vida pura como a água bebida na concha das mãos. A água de Quintana é água cristalina. A água da mulher que me acompanha é água dos restos de um dia sujo, dos cantos das ausências, de uma mente sem condições de compreender. 

Perto dali, havia uma torneira. A torneira do mundo estava seca para ela. Sua cabeça, tão sem cuidados, já não conseguia perceber. Foi o que vi. Foi o que senti. Se a ela pudesse dar um nome, chamaria de Maria. Não sei por quê.

Ou, talvez, saiba. Talvez queira que o sagrado a proteja de nós, que pouco fazemos, por medo ou por acomodação. 

Bebi em fontes límpidas na minha vida, mergulhei em cachoeiras abundantes, nadei em águas reconfortantes. E Maria? Como foi o seu ontem? Como serão os dias que virão?

Na canção de Vinicius e de Tom Jobim, a Garota de Ipanema, quando passa, faz com que o mundo inteirinho se encha de graça por causa do amor. Decidi acordar o dia e ir à mesma rua procurar Maria. 

Quem sabe ela esteja. Quem sabe eu não fique petrificado e plante no mundo alguma bondade. Quem sabe ela me ensine que eu não deva terminar dia algum de minha vida sem oferecer, na concha das minhas mãos, um pouco de amor. 

De cócoras, pariu o abandono.

Onde mora Maria?

Onde mora o amor.

Gavetas da alma

14.3.2021

Gabriel Chalita

Foi no dia em que dormi pouco que percebi o tanto de guardado que tenho em mim.  A noite grande prolongou os meus pensamentos se esquecendo dos meus cansaços. 

Foi no dia em que os nossos olhos, depois de tempos, se cruzaram. Não fui eu quem fechou a porta. Não fui eu quem encontrou, em um outro, a disposição para prosseguir. Mas fui eu quem sofreu as ameaças, as acusações, a mentira. 

Juntos, resolveram viver de tentar retirar de mim o que não tinham. Os mentirosos sempre caem no cadafalso da infelicidade. E os seus risos riem nada, apenas ensaiam um enfeite para disfarçar o que, de fato, são. Custou a mim entender no que ela se transformou. 

Ela olhou e desviou. Disse nada. Talvez a vergonha tenha acelerado o seu passo. Devolveu ódio, depois de anos de amor. Namorávamos o dia, brincando de uma infância prolongada. Jurávamos eternidade. Espalhávamos pétalas de alívios quando os espinhos, tão comuns aos cotidianos, nos cortavam. 

E, então, um falador de baixa estatura a convenceu a mentir. Homem pequeno em tudo, inclusive no caráter. Será que ela não percebeu ou será que eu não percebi que a imagem linda dela fui eu quem construiu? Fazia tempo que não nos víamos. E não nos vimos, porque já não somos quem éramos.

Os pensamentos da noite grande me fizeram abrir as gavetas da alma. São muitas. A primeira que abri me entristeceu. Uma desconfiança na humanidade foi me convencendo de que amar é desperdício. Fiquei remexendo e limpando e vasculhando e a incompreensão me fez fechar. E abrir uma outra. Minha infância estava lá. Então, ri de tempos que, amontoados, faziam ver o que um dia fui antes do hoje. Da criança que pedia histórias e mais histórias para viajar. Em outra, estavam trabalhos por onde passei, pessoas lindas que calejavam as mãos para plantar mundos bons.

Abri uma outra e encontrei o olhar doce do meu pai. Sua voz foi dizendo frases e, então, adormeci. Acordei abrindo outra gaveta, era o sorriso de minha mãe. Inteiro. Lindo como os dias de sol. E abri outras, já calmo de lembranças ruins.

A gaveta da sabedoria que comanda as gavetas da minha alma não pode ficar fechada. É ela quem guarda e me oferece as chaves corretas para abrir no tempo correto e, quando necessário, limpar o que deve, apenas, servir de recordação. 

Decidi não odiar quem um dia amei. Abracei o resto que ficava da noite e, então, adormeci. A luz não perguntou se eu precisava de mais tempo. Chegou trazendo o dia e explicando o tempo do levantar. Estava bem, cheio de forças para abrir a porta de mais um dia e carregar comigo a disposição amorosa dos encontros. 

Gratidão viver o tempo dos encontros. A gaveta da sabedoria me empresta óculos de compreensão para agradecer por cada amigo que enfeita de vida a minha vida. Alguns estão há anos, outros vêm chegando e ficando. Vez em quando, nos estranhamos, imperfeitos que somos. A gaveta do perdão precisa ser grande; se não, a gaveta da felicidade, a primeira de todas, a razão pela qual nascemos, fica emperrada. 

Saio de casa e vejo o dia inteiro me esperando. E caminho no mundo respirando a vida grande que há mim.

O trocador de sonhos

07.03.2021

Gabriel Chalita

No alto da rua que ficava perto da rua da minha infância, morava um distribuidor de bondades. Não sei precisar a idade que tinha o tal José Alegria. Nem conseguiria desenhar, hoje em dia, um rosto tão pleno de vida.

Eu era menino e acreditava em sonhos.

José Alegria tinha a profissão peculiar de ajudar as pessoas. Histórias eram ditas sobre ele. Sorrisos brotavam nos que o encontravam pelo caminho. O que ele tinha de especial? Era ele um trocador de sonhos.

“Como assim?”, perguntei ao meu pai que, sereno, me devolveu.

“Filho, você nunca quis trocar um sonho?

Naquela noite, os meus sonhos eram tantos que teriam que fazer fila se quisessem ser sonhados. Eu tinha tanto futuro em mim, tanta vontade de iluminar o mundo. De ajudar os que, caídos ou perdidos, acenavam com as mãos.

Acordei pensando. O que sonha quem não tem um amor? O que sonha quem não tem o que comer? O que sonha quem está sofrendo uma injustiça? O que sonha quem está doente? E, quando a doença se vai, ele troca o sonho que tinha?  E os sonhos impossíveis?

Quando meu pai morreu, a casa, vazia dele, ficou em silêncio. E, então, eu sonhei com ele menino. Sem doenças nem dores. Menino na horta, menino na escola. Menino querendo encontrar um amor. Foi quando eu tomei meu pai menino, em meu colo, e disse o que haveria de nascer. Quando, em meu sonho, falei de minha mãe, ele, menino, sorriu ressabiado.

Desinteressado do meu sonho lindo, o sol nasceu. E eu, que já não era mais menino nem encontrava com o José Alegria, chorei a saudade do meu pai. Meu pai menino em meu colo.  Nos almoços grandes de domingo, era o contrário. Era em seu colo que eu crescia.

O enterro de José Alegria movimentou a pequena cidade. E agora? O que iria acontecer com os que, por ele, eram ajudados? E quem quisesse trocar de sonhos? Sonhei, muitas vezes, com ele. E, confesso que, tanto tempo depois, já não sei o que é sonho e o que é desânimo. Alguns dias, vivo um dilúvio de sentimentos ruins em meu peito e uma babel de confusas conclusões em minha mente.

O que houve com os sonhos? Ouço gritos. Ouço cinismos barulhentos. Ouço mentiras que se oferecem como chuva para uma terra seca. E os sonhos? É possível trocar os sonhos de quem não tem nenhum?

A doença vai rasgando a terra onde se esperava fruto e flor. Em meu sonho, a esperança nunca deixou de estar. Nem quando teve que ficar apertada, convivendo com as dores das despedidas e das desilusões.

Ontem, eu via o dia criança. Hoje, envelheço quando ouço os meus companheiros e me calo. Queria convidar cada um deles a visitar a casa das palavras e, em silêncio, compreender antes de escolher. E só depois oferecer uma a uma ao mundo.

O José Alegria cultivava o amor como quem conhece a vida. No dia em que ele se foi, aprendi que uma história só merece aplauso se for uma história de amor.

No alto da rua que ficava perto da rua da minha infância, já não sei mais quem mora. Sonhei, um dia desses, que moravam sementes escondidas que ainda não nasceram. Pedi, então, para trocar de sonho. E imaginei uma chuva delas amanhecendo amanhã um mundo melhor.

A dor da vida

28.02.2021

Gabriel Chalita

Eu voltava da missa da quarta-feira de cinzas, quando caí em dor. Voltava feliz. 

Padre Antonino tem um jeito humano de nos trazer Deus. Um olhar que une o que o interminável inverno do mundo vem desunindo.

Gosto das músicas e do silêncio. Das explicações e do tempo das esperas. 

É quaresma. O espaço das pedras que ferem precisa ser convertido em jardins que acolhem. 

Chorei os meus erros e fiz promessas de vida nova. Quero limpar meu coração para a Páscoa. Quero vida em mim. E foi assim que deixei a Igreja e caminhei passos tranquilos para minha casa. 

Foi quando Julia disse a solidão que a incomodava desde a morte do marido. 

Resolvi mudar o caminho e fui com ela conversando sobre despedidas e sobre a fé. E, então, vi o que não queria ter visto. Nadir, meu marido, beijando uma mulher dentro de um carro.

Tropecei em mim mesma. Ele me viu. Disse nada e foi caminhando sem ela. Passou ao meu lado e se foi. E ela deu partida no carro. 

Entrei na casa de Julia e desabei. Ela achou estranho que eu não soubesse. Talvez eu soubesse. Ela falou do quanto ele era grosseiro. Eu concordei, ampliando. Nos modos e nos pensamentos. 

Às vezes, tenho vergonha. Outras, tenho vergonha de mim por gostar dele. E gosto. 

Fechei um pouco os olhos no sofá da minha amiga. Meus sentimentos barulhavam o frio que me consumia, quando pensava em viver sem ele. Quem era a mulher que estava com ele? Veio entregar em casa o seu brinquedo e parou em uma outra rua para que eu não visse? De onde estavam vindo?

Julia sugeriu que eu decidisse. Eu disse que não conseguia. Se sonho, é com ele que sonho. Quando acordo, é a imagem dele que me desperta. Que vejo. Que viajo nos dias em que ele não estava. Sim, porque ele já me deixou. Mais de uma vez. 

“Até quando?”, foi a pergunta que caiu de Julia. “Até quando?”.

Vitor, meu filho, não suporta o pai, que tem vergonha do filho. O pai queria um filho macho como ele. O filho queria um pai amoroso como ele. E minha falta de ação em nada ajuda. O filho lamenta as piadas preconceituosas que o pai conta. E o meu riso. Mas eu não rio de concordância. Rio de nervoso, de tristeza, de medo de não ter mais ninguém para amar. 

Julia oferece que eu durma em sua casa. 

Agradeço e enfrento as pedras nas ruas poucas que me separam da minha. O pó dos instantes vai me dar forças para fazer o correto. A dor da vida não inclui o desmanchar da alma. 

Vou me refazer. É quaresma. Quero vida, em mim, na Páscoa.

Foi só um dia ruim

21.02.2021

(Gabriel Chalita)

Voltei para casa precisando me matricular em alguma escola do perdão. O ódio faz mal, eu sei. Mas a forma como fui demitido. O momento. A falta de jeito. A ingratidão.

Tremi bebendo um copo de água durante o desajeitado comunicado. Eu disse que queria conversar com o patrão. Recebi um “não”. E um apressado aviso de que retirasse as minha coisas. E um segurança ficou, sem jeito, observando.

Foram mais de 20 anos no mesmo chão. 

Sem chão, fui caminhando. No dia seguinte, acordaria sem ter para onde ir.

Sei que essas coisas acontecem, mas acho que eu esperava um abraço, alguns dizeres e confiança. Tropecei, enquanto caminhava. Um senhor distraído quase pôs fim à minha vida. Quando viu, se desculpou. Eu disse nada. 

Tomei chuva. Não me importei. Parecia ver o filme da minha vida embaçado por algum engano. Enganado estava eu em confiar. Eu sei que dinheiro não falta para ele. Eu havia pedido uns dias para cuidar do meu pai que não está bem, no interior. Ele deu de ombros e falou que assuntos menores eram resolvidos com a secretária.

A saúde do meu pai não é um assunto menor, pensei sem dizer. Eu cuidei do pai dele durante anos. Morreu ele de uma doença demorada. O filho pouca atenção dava. Fui filho do seu pai. Era assim que o velho Antenor me tratava, “Meu filho, como você é bom para mim!”, e chorava a emoção de ser cuidado. Herança grande ficou para o filho. Em dinheiro, A bondade foi enterrada com o pai. 

A quem os filhos puxam? Como podem ser tão diferentes? A mãe foi para uma casa de repouso, depois da morte do marido. E era eu quem a visitava. Dona Lúcia tinha histórias para contar, e eu ouvidos para ouvir. Ele não visitava a mãe e foi rápido no sepultamento. Fiquei procurando alguma lágrima naquele rosto tão mexido por reparos estéticos e tão pouco inteiro no tema das emoções. Mas não sou dos julgamentos. Comigo, era ora ríspido, ora ausente. Fui me acostumando à falta de afetos. E fui me esmerando em trabalhar sempre mais. 

E tudo acaba com um comunicado breve e um segurança olhando para o que eu levaria das poucas gavetas que tinha de 20 anos de trabalho.

Cheguei em casa e recebi meu filho Mateus gritando: “Papai, que bom que você chegou!”. Sentei no chão e chorei abraçado ao menino de nove anos que faz minha vida a mais feliz do mundo. Ele não entendeu o choro nem Marina, minha mulher. 

Contei que havia sido demitido, que nem pude conversar direito, que havia me sentido desrespeitado. Foi quando Mateus lascou, “Papai, foi só um dia ruim!”. E seus olhos acenderam em mim o que aquele dia havia apagado. Eu era pai de um menino maravilhoso, casado com a mulher que sempre senti ser o grande amor da minha vida, filho de um casal que me ensinou a bondade como um valor inegociável.

“Foi só um dia ruim”, é isso. Vou poder ficar algum tempo com o meu pai. O dinheiro é pouco, mas o essencial vai muito além. Seu André, meu patrão, não esboça felicidade com todo o dinheiro que tem. É perverso até nos intervalos. 

A escola do perdão estava no abraço do meu filho. Fomos fazer o jantar juntos e, depois, vimos filme aconchegados por uma manta e muito amor. Mateus dormia no meu ombro, enquanto a trama percorria minha mente mais calma. 

Falei com meu pai que demonstrou felicidade sabendo da minha ida. Marina, com as mãos nas minhas, parecia querer amar até mais tarde. 

O dia não foi tão ruim assim.

Aniversário da minha mãe

14.02.2021

Gabriel Chalita

Foi ontem, dia 13 de fevereiro. E, pela primeira vez, ela não estava. Seu sorriso, então, não estava. A não ser em mim. Em mim, ela prossegue, plena, como desde os inícios, que vivem em minha memória.

Eu não a tenho como gostaria. O seu colo é lembrança. Os seus dizeres, passado. Seu beijo, que evitava tantos males, reminiscência. 

Em um dos seus aniversários, depois da partida de meu pai, resolvi preparar a sua alegria. Disse que não conseguiria estar com ela e que comemoraríamos no final de semana. 

Comecei com uma cesta de café da manhã e um poema de amor. Depois, umas flores com algumas fotos nossas. Depois, um bolo enfeitado de gratidão, no almoço. No início da tarde, doces caseiros e mais flores e mais bilhetes. Depois, uns tocadores de música no entardecer. E depois, apareci, de surpresa,  para jantarmos e fecharmos o dia brindando o amor. A cada surpresa, ela me ligava e ria me chamando de maluco. Maluco por ela. 

Em um outro aniversário, eu dei de presente um livro que escrevi sobre sua vida: “Carta aberta para minha mãe”. Festa linda. Ontem, revi as fotos. Chorei sozinho a orfandade. Eram tantos convidados. E ela, ao meu lado, vendo os autógrafos e os afagos: “Dona Anisse, como a senhora é linda!”. 

Em seu último aniversário, ela estava no hospital. Foi o dia em que quase partiu. Estávamos lá para dar amor, família toda. Enfeitamos o quarto. E a vimos recobrando o sorriso. E ainda tivemos alguns meses juntos, antes de ela se tornar eterna. Quando fez 80 anos, olhamos para o futuro brincando dos 90. Que não vieram.

Se tenho alguma inveja na vida? De quem tem mãe. De quem tem o privilégio de olhar para o celular e receber uma chamada com o nome de “mãe” ou de “pai”. Eu a atendia brincando, “mamãezinha”, e desligava dizendo “te amo muito”. Ela falava em saudade e me contava histórias. Às vezes, repetia a mesma história. Dava alguns conselhos. E ralhava com as minhas discordâncias.

Gostava das festas. Do convívio. Do passear pela vida. Teve ela vida dura. De muitas despedidas. A dor de uma mãe que enterra um filho é indizível. Ela enterrou dois. E prosseguiu. E foi avó. E bisavó. E distribuidora de amor.

Sonho com ela sonhos bonitos. Há pouco tempo, estávamos na praia, e ela boiava e eu acariciava seus cabelos dizendo que era preciso voltar, sair da água, que havia muita gente esperando. E ela respondeu com um sorriso ainda mais lindo: “Vou ficar, meu filho, está tão bom aqui”. Fiquei um pouco mais tocando sua felicidade plena e, depois, acordei.

Os acordes do dia ora afinam, ora desafinam. Ora rimos, ora choramos. Ora nos fortalecemos de futuro, ora desejamos o passado. A tristeza já não me surpreende como antes. Me lapida. Me ajuda a tirar fora as partes que me desfiguram. Sem os enfeites, tenho saudade de ser quem sou e me esforço o quanto posso para me lembrar do que faço por aqui.

Como minha mãe e meu pai, eu também vou. Vamos todos. A fé me acalma, mesmo sem nada saber, mesmo com as dúvidas que se revezam, mas que sempre existem.

Antes de terminar o dia do seu aniversário, falei com ela. Sozinho. Agradeci pelo sonho, pelos sonhos. Um sonho de mãe que plantou, em mim, todos os sonhos do mundo.

Feliz aniversário, mamãezinha.

O volume do silêncio

07.02.2021

(Gabriel Chalita)

Minha filha não se entende com a felicidade. Não diz os sentimentos. Desperdiça o perdão.

Converso com ela, com algum cuidado. Gosta nada de ser contrariada. Sei que ela e João se amam. Pena estarem distantes. Ele fez de tudo para voltarem. Ela disse ‘não’ querendo ter dito ‘sim’. Chegou a me confessar entre dúvidas. “É bom ter dúvidas”, foi o que eu disse. 

Pedro e eu fomos casados por quase 40 anos. Éramos tão diferentes. Poderíamos ter desistido, mas escolhemos nos amar. O amor é, sim, também uma escolha. Escolhemos nos amar mesmo em tempos ruins. 

Pedro viajava muito, vendia tecidos e, também, simpatia. Era, certamente, convidado a outras experiências, mas escolheu permanecer.  Eu, também, tive outros convites. Sempre fui uma mulher interessante. Bonita, por que não? Tenho mais de sessenta e, quando me olho, gosto de como sou.  No passado, então, “eu fechava quarteirões”, era o que vociferava Pedro, meu marido, orgulhoso da beleza da própria mulher. 

Digo a minha filha sobre desentendimentos. Sugiro alguns passos. Solto frases que marcaram uma história que existiu e que deu certo. Uma das vezes em que eu tive dúvidas, ainda nos inícios, ainda sem filhos, Pedro me recobrou os pensamentos dizendo, “Você pode escolher me amar acima das minhas imperfeições”.  Eu disse nada. Ele prosseguiu, “Fique e superaremos  juntos esse medo”.

Tive medos, sim, e não foram poucos. Medos dos dias prolongados quando eu estava triste. Minha mãe terminou o seu tempo regada a depressão. Temia que acontecesse comigo.

Meu filho mais velho é chegado à vida. Aprendeu a não discutir com o destino, embora nele não acredite. Vai vivendo de acontecer. São irmãos e são tão diferentes.

Disse à minha filha outra frase do meu marido, seu pai, “Desliguei os ouvidos e aumentei o volume do silêncio”. Foi quando os irmãos dele brigaram pelo que ficou de herança do pai. Ele queria o pai, não a matéria, não o metal que se perde. E o pai estava nele. Somos pedaços dos nossos, mas vamos discernindo os pedaços bons para vivermos melhor. 

Quando Pedro morreu, eu estava com ele. Rezei com ele os últimos suspiros. Sofri, agradecendo. Que bom que permanecemos, que nos demos a chance da felicidade. 

O que pode uma mãe ensinar a uma filha que já beira os 40? Ela é mulher feita. Talentosa, sem acreditar. Boicota a si mesma, parece não registrar o direito de ser feliz. E, por isso, escolhe por teimosia, não por amor. 

Sei que é errado comparar os irmãos. Cada um carrega a unicidade da existência. Mas que mãe não sonha com a felicidade para os seus? Falei, ontem, com João. Pedi que o amor se alimente de paciência e compreensão. Ele sorriu esperançoso. 

Resolvi rezar para que minha filha compreenda que desperdiçar um homem bom não é prova de sensatez. Maria Fernanda há de dizer ‘sim’, quando quer dizer ‘sim’. E se ajeitar com a felicidade.