Crianças não deveriam ser tristes. Não deveriam experimentar a dor antes de criarem anticorpos na alma para isso. Com o tempo, vamos criando esses anticorpos. Combatemos os vírus da frustração, da desilusão, da traição e tantos outros com o tempo e com as experiências acumuladas de uma vida dual. Dual: bem e mal, bondade e perversidade, verdade e mentira, humanidade e sua ausência.
No palco da vida, contracenam atores de todas as escolas. Alguns são intensos, outros fingem estar. O tempo nos mostra que, depois da subida íngreme, pode haver uma deslumbrante paisagem. O tempo nos ensina que, depois da chuva, o sol que vem é mais bonito. O tempo nos acorda para a compreensão de que os perversos não são regra, mas exceção – gosto de acreditar nisso.
Crianças não têm esse acúmulo de tempo. Não têm o calo necessário de mãos que precisam construir relações e espaços.
Crianças não deveriam ser tristes. É isso o que penso.
Estava em uma casa de conhecidos, depois de uma palestra. Era um final de semana e eu havia falado para professores de uma capital do nordeste. Encontro festivo. Reflexões sobre o nosso ofício de educar e de cuidar de crianças. Terminado o encontro, fui a essa casa. Ofereceram-me um almoço. Um jovem casal. Ele, diretor de uma faculdade; ela, consultora de marketing. Dois filhos. Um brincava e corria de um lado a outro. O outro andava com alguma dificuldade. Fazia um tratamento intenso para combater um câncer que lhe roubava forças e expectativas de um futuro.
O pai, profundamente carinhoso, brincava com os dois. Um corria, como já disse. O outro caminhava a passos lentos, carregando um equipamento que o mantinha tomando um tipo de soro. Mas ele tinha de pagar pedágio toda vez que passasse perto do pai. “Pedágio do amor”, sorria o pai. E o filho o beijava. E quando passasse, novamente, outro beijo. Ali havia o pacto do pedágio do amor. “Você tem que pagar, meu filho”. E prosseguia: “O bom é que você é muito rico, há muito amor em você”.
A mãe ocupava-se de preparar o que iríamos comer.
O pai falou-me pouco do tratamento do filho. Disse do tempo de internação em São Paulo. Elogiou o hospital, os médicos, os enfermeiros, os voluntários. Confidenciou-me das tristezas que os assaltam desprevenidos: “Vez ou outra, acordo de madrugada e me pergunto: Por quê?”. Repostas não há, e ele sabe disso. Faz parte do nosso estar no mundo. Não planejamos a doença, a morte. Não planejamos a dor. Mas ela insiste em nos provar a provar que somos fortes.
São fortes aqueles pais que se revezam no acender as velas de esperança daquela criança. Havia luz naquela casa. Certamente.
Pedi também ao menino que me pagasse o tal pedágio do amor, já que ele era tão rico. Ele sorriu. Lindamente. A ausência de cabelos não roubava a beleza daqueles olhinhos azuis cheios de vida, quando pedíamos o pagamento a ele. Abraçou-me e deu um beijo carinhoso.
Almoçamos juntos. Éramos dez ou doze pessoas naquela casa. Conversávamos um pouco sobre cada coisa.
Os pais falavam da vida. Vida era a refeição principal das manhãs daquela família. A cada dia, ganhavam um dia. Quantas dias terão juntos? Ninguém sabe. Há alguns que partem sem doença alguma e há outros que enganam as doenças para continuar pagando o pedágio da existência: o pedágio do amor.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/11/2015

Já sofri a dor da perda. Já enterrei amores. Já chorei as ausências. E não foram poucas. Partes nossas se vão. Difícil recompô-las. Elas se vão sofridas acompanhar os que gostaríamos que, por aqui, permanecessem. Encontrar palavras para o consolo não é fácil. Talvez não seja possível. Racionalizar o que acontece com os nossos mortos é quase ingenuidade. Como saber? As religiões não dão detalhes. Nem poderiam. Ou se tem fé ou não se tem. E, mesmo tendo, não tem a fé o poder da cicatrização imediata. Não estanca a saudade que barulhenta nos lembra, o tempo todo, do que perdemos. É uma perda, sim. Não há como negar. Perdemos a presença, o colo, o abraço, as histórias. Perdemos e é assim que é. Guardamos, entretanto, o que vivemos. O passado não nos pode ser roubado. Mas, no momento da separação, o passado parece até atrapalhar. Cada foto, cada filme, cada viagem no caldeirão da memória nos queima. E voltamos ao choro. E voltamos à consciência de que os momentos de amor precisam encontrar outra canção. Quando a morte vem, com ou sem despedidas, a dor que permanece é aguda. Voltar para a casa, depois de um enterro, é quase que um corte no que somos e no que gostaríamos de continuar a ser.
Cássia é uma contadora de histórias. Professora dedicada, encontrou nas histórias um caminho para despertar sentimentos e atitudes. Muitas histórias começam com “Era uma vez”. Há, na esfera dos afetos, espaços para acolher essas histórias. Lembranças de embalos infantis ou adultos. De marcas que foram ficando. De pessoas, talvez, que nos surpreenderam com seus ditos fabulares ou reais. “Era uma vez” poderia, vez ou outra, não ser. Como é o caso da história contada por Cássia dia desses. Éramos um grupo de educadores sentados, atentos ao seu enredo. E ela começou. Poeticamente, entoou seu canto de misericórdia, lembrando a dor de um índio Pataxó que foi morto em Brasília.
No dia 12 último, celebramos a festa da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Romeiros de cantos diversos foram à casa da Mãe para cantar a simplicidade e sonhar com dias melhores. Festa da fé. No dia anterior, em Belém do Pará, uma multidão veio de cantos diversos para caminhar com a imagem da Virgem de Nazaré. Não há competição entre uma ou outra. Trata-se da mesma Maria, da mãe de Jesus, que é lembrada com nomes diversos por razões diversas. Nossa Senhora de Fátima ou de Lourdes ou da Piedade ou de Guadalupe ou da Glória é a mesma que a de Aparecida ou Nazaré. É a mãe do Filho de Deus. É a intercessora junto ao Mediador.
Assisti ao filme de Anna Muylaert. Assisti com atenção à excelente trama que traz o universo cotidiano da casa brasileira – o universo de relações entre patrões e empregados. O filme traz uma profunda reflexão sobre preconceitos, solidão, sonhos, ética.