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Pedágio do amor

Crianças não deveriam ser tristes. Não deveriam experimentar a dor antes de criarem anticorpos na alma para isso. Com o tempo, vamos criando esses anticorpos. Combatemos os vírus da frustração, da desilusão, da traição e tantos outros com o tempo e com as experiências acumuladas de uma vida dual. Dual: bem e mal, bondade e perversidade, verdade e mentira, humanidade e sua ausência. 

No palco da vida, contracenam atores de todas as escolas. Alguns são intensos, outros fingem estar. O tempo nos mostra que, depois da subida íngreme, pode haver uma deslumbrante paisagem. O tempo nos ensina que, depois da chuva, o sol que vem é mais bonito. O tempo nos acorda para a compreensão de que os perversos não são regra, mas exceção – gosto de acreditar nisso.

Crianças não têm esse acúmulo de tempo. Não têm o calo necessário de mãos que precisam construir relações e espaços.

Crianças não deveriam ser tristes. É isso o que penso.

 

Estava em uma casa de conhecidos, depois de uma palestra. Era um final de semana e eu havia falado para professores de uma capital do nordeste. Encontro festivo. Reflexões sobre o nosso ofício de educar e de cuidar de crianças. Terminado o encontro, fui a essa casa. Ofereceram-me um almoço. Um jovem casal. Ele, diretor de uma faculdade; ela, consultora de marketing. Dois filhos. Um brincava e corria de um lado a outro. O outro andava com alguma dificuldade. Fazia um tratamento intenso para combater um câncer que lhe roubava forças e expectativas de um futuro.

O pai, profundamente carinhoso, brincava com os dois. Um corria, como já disse. O outro caminhava a passos lentos, carregando um equipamento que o mantinha tomando um tipo de soro. Mas ele tinha de pagar pedágio toda vez que passasse perto do pai. “Pedágio do amor”, sorria o pai. E o filho o beijava. E quando passasse, novamente, outro beijo. Ali havia o pacto do pedágio do amor. “Você tem que pagar, meu filho”. E prosseguia: “O bom é que você é muito rico, há muito amor em você”.

A mãe ocupava-se de preparar o que iríamos comer.

O pai falou-me pouco do tratamento do filho. Disse do tempo de internação em São Paulo. Elogiou o hospital, os médicos, os enfermeiros, os voluntários. Confidenciou-me das tristezas que os assaltam desprevenidos: “Vez ou outra, acordo de madrugada e me pergunto: Por quê?”. Repostas não há, e ele sabe disso. Faz parte do nosso estar no mundo. Não planejamos a doença, a morte. Não planejamos a dor. Mas ela insiste em nos provar a provar que somos fortes.

São fortes aqueles pais que se revezam no acender as velas de esperança daquela criança. Havia luz naquela casa. Certamente.

Pedi também ao menino que me pagasse o tal pedágio do amor, já que ele era tão rico. Ele sorriu. Lindamente. A ausência de cabelos não roubava a beleza daqueles olhinhos azuis cheios de vida, quando pedíamos o pagamento a ele. Abraçou-me e deu um beijo carinhoso.

Almoçamos juntos. Éramos dez ou doze pessoas naquela casa. Conversávamos um pouco sobre cada coisa.

Os pais falavam da vida. Vida era a refeição principal das manhãs daquela família. A cada dia, ganhavam um dia. Quantas dias terão juntos? Ninguém sabe. Há alguns que partem sem doença alguma e há outros que enganam as doenças para continuar pagando  o pedágio da existência: o pedágio do amor.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/11/2015

Gritos desnecessários

Perdoe-me o aparente equívoco do título deste artigo. Da contradição. Gritos são sempre desnecessários. Gritos no sentido que utilizo neste texto. Um grito de gol é necessário. É bom. Um grito de chamamento também. Uma metáfora de uma força que nos impulsiona a prosseguir. Um grito de adeus em um porto para um navio que se vai. Os imigrantes viveram muito isso em tempos de despedidas definitivas.

O grito de que trato é outro. Um grito de uma mãe para um filho. Um grito de um namorado para a namorada. Pelo menos na situação que presenciei dias desses. Em uma saída de faculdade. Havia muita gente e muito barulho e não deu para saber detalhes. Deu para ouvir um homem gritando para uma mulher. Tratando-a como um objeto. Utilizando palavras desnecessárias em qualquer tipo de relação. E com tom acima do adequado. Namorados brigam. Seres humanos se desentendem. Há sentimentos contraditórios nas relações: paixão e ciúme, desejo e medo, confiança e desequilíbrio. E é de equilíbrio que falo, quando falo dos gritos desnecessários. Não poderiam esses dois conversar em local menos tumultuado? Ouvi dele, aos berros: “Há anos que te aturo e você me apronta essa?”. São anos de relação? Não há intimidade para limpar a sujeira em ambiente mais acolhedor? No mesmo dia, vi uma mãe gritando com uma criança. E, de novo, o grito. O grito desnecessário. Crianças não aprendem com gritos. Aprendem com palavras que tocam e com exemplos que dignificam a vida.
Há muitos desequilíbrios por aí. Pessoas que se perdem por acumularem problemas e despencarem todos eles de uma hora para outra. Da forma errada. Com a pessoa errada. No tom errado.
Aprendemos com os exemplos e com suas ausências. Essas cenas nos ajudam, talvez, a contracenar em outro tom, o tom do respeito.
Ah, como este conceito é bem-vindo: respeito! Com ele, só os gritos de entusiasmo, mesmo assim, no momento certo, com as pessoas certas, no limite certo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/11/2015

A morte e seus mistérios

Já sofri a dor da perda. Já enterrei amores. Já chorei as ausências. E não foram poucas. Partes nossas se vão. Difícil recompô-las. Elas se vão sofridas acompanhar os que gostaríamos que, por aqui, permanecessem. Encontrar palavras para o consolo não é fácil. Talvez não seja possível. Racionalizar o que acontece com os nossos mortos é quase ingenuidade. Como saber? As religiões não dão detalhes. Nem poderiam. Ou se tem fé ou não se tem. E, mesmo tendo, não tem a fé o poder da cicatrização imediata. Não estanca a saudade que barulhenta nos lembra, o tempo todo, do que perdemos. É uma perda, sim. Não há como negar. Perdemos a presença, o colo, o abraço, as histórias. Perdemos e é assim que é. Guardamos, entretanto, o que vivemos. O passado não nos pode ser roubado. Mas, no momento da separação, o passado parece até atrapalhar. Cada foto, cada filme, cada viagem no caldeirão da memória nos queima. E voltamos ao choro. E voltamos à consciência de que os momentos de amor precisam encontrar outra canção. Quando a morte vem, com ou sem despedidas, a dor que permanece é aguda. Voltar para a casa, depois de um enterro, é quase que um corte no que somos e no que gostaríamos de continuar a ser. 

 Sofri muito a morte de meu pai. Mas lembro-me dos gestos da minha mãe quando chegou ao quarto em que viveram por anos e anos um amor encantado. Os cantos de dor estavam ali para serem entoados. Minha mãe chorou baixinho. Olhou para mim e disse que não resistiria. Já havia perdido dois filhos. Já havia perdido os pais. Foi um pouco com cada um. Mas o seu amor estava com ela. Chorando junto. Cambaleando junto. Reerguendo com alguma dificuldade, junto. Olhou-me com vagar. Vagou pelo ontem e desejou que o ontem voltasse. Que tudo pudesse ser como nos dias que se foram. A fotografia da família estava incompleta. O filme já não tinha o mesmo barulho. Faltavam vozes. Disse pouco a ela. Abracei-a. Chorei junto. Agradeci por prosseguirmos, sabendo que independe de nós as partidas. Mas permanecemos, compreendendo que haveremos de continuar. É essa a nossa fé.

Minha mãe quis saber como nos encontraremos. Se seus filhos, na outra vida, continuarão sendo seus filhos. Se meu pai haverá de olhar para ela e reconhecê-la como a mulher que o amou e que foi amada. Se seus pais continuarão casados no Paraíso prometido.

Demorei a responder. Entendi que ela queria apenas desabafar. Mas ela insistiu.

– Só tenho dois filhos comigo. Quando morrermos todos, voltarei a ter os quatro filhos? Ou seremos todos irmãos? Eu quero saber.

Abracei-a novamente e tentei alguma resposta. Disse que não tinha certeza. Disse que a nossa crença era a de que há o mundo que vivemos e há um outro mundo, a eternidade ou Céu ou Paraíso ou como quisermos chamar.

– Mãe, entre esses dois mundos há algo fascinante chamado mistério. Não há como saber.

Ela quis saber o que dizem as Escrituras. Eu a lembrei de que Jesus falava que “na casa de meu Pai, há muitas moradas”.

E, se o Pai é Amor, o que virá depois não pode ser ruim. Se o Pai é Amor, não somos nós brinquedinhos que velhos ou estragados são descartados. Se o Pai é Amor, prosseguiremos.

– Permita, mãe, que o mistério a tranquilize. O mistério junto com a fé. Somos peregrinos de um mundo que nos encerra sem nos encerrar. Aqui, ficam sabores que experimentamos, afetos que alimentamos, histórias que escrevemos. Levamos a leveza dos nossos desprendimentos. O Amor nos liberta e nos dá asas. E é esse o voo final que os nossos amores já fizeram e que um dia faremos. Meu pai será meu pai na outra vida? Não sei. E meus irmãos? Também não sei. Só sei que não pode ser ruim. Só sei que estar mais próximo de Deus fará com que eu seja capaz de viver plenamente o que vivo, aqui, quando amo. Porque o céu começa aqui.

Minha mãe deitou e adormeceu com o cansaço da perda, mas ficou pensando na morte e nos seus mistérios. Eu me deitei ao seu lado e agradeci a Deus por sua inspiração e pelo meu pai que me ensinou a acreditar.

Saudade, pai.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/11/2015

Vou com ela

Era uma vez uma senhora muito solitária. Vivia em uma grande cidade, São Paulo, sozinha. Já havia criado a filha. Já havia ficado viúva. Já havia resolvido ser um pouco mais reservada. Resolveu ou aconteceu. No prédio em que morava, sentia-se bem tratada, respeitada, mas, como ninguém tem tempo, não cobrava visitas nem visitava as pessoas.

Certa vez, essa senhora ia andando pelo bairro, quando viu uma cadelinha atropelada. Cadelinha de rua. Não havia ninguém para com ela se preocupar. Ouviu os gritos contínuos e resolveu socorrê-la. Levou-a ao veterinário. Cuidou dela. E ali nasceu sua última história de amor. Passeavam juntas. Preocupavam-se uma com a outra. Isso mesmo. 

 Um dia, a cadelinha latiu tanto que fez com que o porteiro fosse ao apartamento e abrisse a porta. A mulher estava desmaiada. Caiu. Bateu a cabeça. Socorrida a tempo, foi salva. A cachorrinha passou dias de solidão. Emagreceu. Adoeceu, esperando a amiga. Ela voltou e os dias bons voltaram. Mas as histórias têm fim. Tempos depois, a doença veio decidida. E, com ela, a morte. E a morte levou a mulher. E a cachorrinha? Não ficou abandonada. A filha da mulher decidiu cuidar dela. Levou-a para casa depois do enterro. E depois? A história ainda não acabou. Mas vai acabar. A cachorra sofreu dois dias. Não comeu. Ficou em um canto da casa e, sem avisos, morreu. A filha da mulher que havia cuidado da cachorra não entendeu nada. Chorou mais uma vez.  Pelos sentimentos da cachorrinha de rua por sua mãe. Pelas suas ausências na vida da mãe. Falou sozinha, algumas vezes, querendo entender como pode um animal nos amar tanto. A história acaba aqui. 

Fiquei pensando na cachorra conversando com a morte. Primeiramente, reprovando o que ela fizera. Levar sua amiga. Depois, sua decisão: “Vou com ela”. Mistérios do que não sabemos.  Sabemos é que cachorros têm sentimentos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/10/2015

Canção de Misericórdia

Cássia é uma contadora de histórias. Professora dedicada, encontrou nas histórias um caminho para despertar sentimentos e atitudes. Muitas histórias começam com “Era uma vez”. Há, na esfera dos afetos, espaços para acolher essas histórias. Lembranças de embalos infantis ou adultos. De marcas que foram ficando. De pessoas, talvez, que nos surpreenderam com seus ditos fabulares ou reais. “Era uma vez” poderia, vez ou outra, não ser. Como é o caso da história contada por Cássia dia desses. Éramos um grupo de educadores sentados, atentos ao seu enredo. E ela começou. Poeticamente, entoou seu canto de misericórdia, lembrando a dor de um índio Pataxó que foi morto em Brasília.

Isso já faz algum tempo, mas ainda mora em nossa memória. Um índio de nome Galdino Jesus dos Santos foi até Brasília para a comemoração do dia do Índio, no dia 19 de abril de 1997. Conversou com autoridades, fez as suas reivindicações, cantou o seu canto em defesa dos seus e, depois, escolheu um canto para descansar. Sem grandes exigências, adormeceu em um ponto do ônibus. Poderia ter sonhado um sonho tranquilo. E a história poderia começar assim: Era uma vez um índio que foi até a capital do país para tratar dos direitos do seu povo ou, então, era uma vez um índio que foi celebrar o seu dia e depois adormeceu para recobrar as forças e voltar para os seus. Mas a história não foi essa. Um grupo de jovens que estava desocupado, segundo eles próprios, resolveu se divertir. E buscaram uma diversão que consideraram original: colocar fogo em quem dorme em algum canto. Disseram que a intenção não era a de matar. Era apenas a de assustar. De incomodar. De queimar. Disseram tantos ditos contraditórios e desnecessários!

 

E continuou Cássia emocionando a todos nós e supondo ter sido ela a professora desses jovens e se perguntando o que ela poderia ter feito e não fez na educação desses moços para evitar atitude tão horrenda. Emília, professora, formadora de professores, também estava lá. Tomou a palavra e confidenciou que, na época, era aluna de Paulo Freire. E que o mestre chorou quando soube da morte do índio. Chorou por pelo menos duas razões. Chorou por um irmão seu, da mesma natureza humana, que partiu prematuramente diante da criminosa ação, mas chorou, também, por ser educador e por se perguntar onde estamos errando ao não conseguir educar nossos alunos para os valores mais significativos da vida humana. Sim, a esses jovens faltou o respeito à vida, o respeito ao outro, a misericórdia. Misericórdia é uma palavra belíssima que se origina do latim. Misericórdia vem de “miseratio” que é derivado de “miserere” e significa compaixão, piedade. E vem de “cordis” que é derivada de “cor” e significa coração. Um coração compassivo ou piedoso. Um coração que tem compaixão ou, em outras palavras, que sofre com a dor do outro. Se tivessem sido educados corretamente, esses jovens chorariam antes com a simples ideia de colocar fogo em alguém. Onde estavam os seus educadores? Pais, professores, inspiradores de vida?

Muitos outros acontecimentos perversos marcaram e marcam os nossos tempos. Mas a lembrança de Paulo Freire, querendo entender a nossa função de educar corretamente, é muito significativa.

Não podemos mudar o passado. Mas a vida segue. Quem sabe no amanhã, quando contarem histórias dos nossos dias, o “Era uma vez…” tenha cores menos foscas. Quem sabe sejamos nós, educadores, os responsáveis por mudar o mundo. O mundo que habita cada aprendiz. Que também nos ensina. E que de nós é dependente na construção de suas escolhas e aspirações.

A professora Cássia nos tocou em um canto sagrado em que habitam razão e sentimento. É esse o papel da arte da contação das histórias. Comover e mover. Saí daquele encontro, encontrando mais razões para prosseguir, fazendo história e provando, a mim mesmo e aos meus irmãos, que as rasuras não podem destruir o lindo texto que é a escritura da vida. E que nós, professores, somos escritores por excelência. Das vidas que hoje, preparam-se para o hoje e para o sempre. 
         Era uma vez um grupo de professores que resolveu resistir aos perversos e prosseguir professando o amor como a mais linda profissão de fé. Paulo Freire, o mestre que inspirou Cássia, que foi professor de Emília e que deixou um legado para o mundo já nos ensinou “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo”. Misericórdia, portanto!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) l Data: 25/10/2015

 

A partida de Yasmin

Nesta semana, estive na Brasilândia em um evento de escuta com a rede pública. Estamos fazendo isso em todas as regiões de São Paulo. Rica experiência de aprender com os profissionais que fazem o dia a dia acontecer nas nossas escolas. Terminado o evento com centenas de professores, pais, alunos, funcionários, uma professora veio falar comigo sobre um artigo que escrevi quando da minha outra visita na DRE Freguesia/Brasilândia. O artigo chamava-se “O perfume de Yasmin”, sobre uma linda menina com Síndrome de Down. Escrevi neste mesmo espaço, no Diário de São Paulo. A professora me abraçou e me contou: “Yasmin morreu”. Olhei os olhos marejados e bebi daquela emoção. Yasmin havia pedido para ficar mais tempo no meu colo. E me fez lembrar meu irmão que também tinha Down e que também partiu. Yasmin era muito menina para partir – mas quem somos nós para decidir? Era uma menina meiga. Feliz por conviver em espaços em que era amada, respeitada. Lembro-me do seu jeito espontâneo, características das crianças com Síndrome de Down – não negam afetos, não escondem sentimentos, não disfarçam verdades.

 A partida de Yasmin mexeu comigo. Quis saber o que aconteceu. Ouvi com atenção os relatos da doença que, prematuramente, a levou. Outros professores queriam conversar. Dei atenção a eles. Afinal, eles me alimentam de ideias e de entusiasmo. Mas naquele entardecer da Brasilândia a imagem que me frequentava era a de Yasmin, do seu sorriso, do seu abraço prolongado, de sua cabeça jogada nos meus ombros e de sua decisão ao não concordar com a professora que queria tirá-la do meu colo. A resposta decidida foi: “Está bom aqui”.

Pequena Yasmin, você perfumou um pouco a minha vida e outras vidas. A fé que comungo me faz ter a certeza de que você está bem. Perfumando outros mundos. E sei que, aí onde você está, você pode dizer com ainda mais convicção: “Está bom aqui”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/10/2015

Maria e as Bodas de Caná

No dia 12 último, celebramos a festa da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Romeiros de cantos diversos foram à casa da Mãe para cantar a simplicidade e sonhar com dias melhores. Festa da fé. No dia anterior, em Belém do Pará, uma multidão veio de cantos diversos para caminhar com a imagem da Virgem de Nazaré. Não há competição entre uma ou outra. Trata-se da mesma Maria, da mãe de Jesus, que é lembrada com nomes diversos por razões diversas. Nossa Senhora de Fátima ou de Lourdes ou da Piedade ou de Guadalupe ou da Glória é a mesma que a de Aparecida ou Nazaré. É a mãe do Filho de Deus. É a intercessora junto ao Mediador.

No dia da Padroeira, dia 12, o evangelho da celebração traz o que é considerado o primeiro milagre de Jesus. As Bodas de Caná.

Maria estava na festa com seu filho. Festa de casamento. Maria não tinha responsabilidade nenhuma por aquele casamento. Nem pela comida. Nem pela bebida. Nem pelos convidados. Era ela convidada. Poderia estar apenas se divertindo como tantos outros. Poderia estar desligada – isso acontece com frequência em festas dos outros. Maria percebeu, entretanto, que o vinho havia acabado. As festas de casamento, na época, duravam uma semana. Cabia aos anfitriões oferecer boa comida e boa bebida a seus convidados. E o vinho era essencial para a celebração da alegria em torno do casal. As pessoas estavam aflitas e não sabiam o que fazer. E, assim, Maria intercede a Jesus para que resolva aquela tristeza.

 Há vários significados para essa passagem evangélica. Optemos por um. O vinho simboliza, nesse contexto, a alegria. A alegria dos esposos que, ali, comemoravam com seus convidados o amor.

Naquela festa, havia acabado a alegria. Na festa das Bodas de Caná, acabou a alegria. Em uma festa, em uma família, acabou a alegria. O símbolo de uma união bem sucedida estava em risco.

A imagem da festa e daquelas pessoas frente a uma dificuldade assemelha-se à vida de uma família dentro de um lar. As preocupações do dia a dia, a importância da crença na intercessão de algo ou alguém cujo desejo maior seja a restauração da alegria, da paz, da harmonia. Assim foi a ação de Maria ao pedir a seu filho que a alegria voltasse. Porque uma vida sem alegria não tem o sabor que merecemos. Maria poderia não estar atenta, mas estava. Maria poderia não ter tido compaixão, mas teve. Maria poderia ter ficado inerte, mas agiu. E a alegria voltou.

Há tanto aprendizado nessa narrativa. Um mundo com desatentos e descompromissados com a ausência de alegria dos outros é um mundo que nos diminui. Maria nos amplia, nos eleva, nos inspira. Faz-nos crer que há saídas, soluções para nossos dramas, nossos desapontamentos. Basta esperar. Basta acreditar. Em cada aparição de Nossa Senhora, uma razão especial, uma mensagem especial para resgatar a alegria. É a mãe dizendo ao Filho: “Ajude-os, meu filho! A alegria deles acabou”. A atenção de Maria, sua sensibilidade e amor, evitaram que a alegria se transformasse em tristeza e a festa que selava uma união fracassasse.

Onde está nossa alegria? Talvez o caminho para recuperarmos a nossa alegria seja refletir sobre o que ela disse àqueles homens que trabalhavam naquela festa: “Façam tudo o que meu Filho vos disser”.

O que Jesus nos diz hoje? O mesmo que disse ontem. E o mesmo que dirá amanhã: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Apenas isso. E a alegria estará de volta. A nossa e a dos outros. Porque sozinhos não há festa, não há vida, não há alegria.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/10/2015

Professores que permanecem

Ontem, foi dia dos professores. Ontem, tivemos professores que nos ensinaram com seus conteúdos e suas atitudes. Todos nós tivemos professores. Desde as primeiras experiências nas primeiras escolas até os graus que conseguimos alcançar entrando nas salas de aula, pesquisando, criando, construindo o que somos.

 Todos nós temos como revisitar o ontem e encontrar o que conseguiu permanecer. De alguns professores, não lembramos sequer os nomes. Tentamos nos recordar de quem nos deu aula de tal disciplina no ano tal. E não vem. Não permaneceram. De outros professores, lembramos com detalhes das aulas que despertavam sabor em saberes que nos surpreendiam. Mesmo se já faz muito tempo, se éramos muito pequenos. Eles permanecem. Talvez não nos lembremos dos conteúdos que nos ofereciam. Já as atitudes, os gestos, o andar, o olhar, o apresentar ao mundo dos nossos universos um novo universo de mundos desconhecidos, isso fica.

 Lembro-me de professoras contadoras de histórias. Os seus nomes. Os seus gestos de acolhimento. Suas palavras de incentivo. A autoridade com que regiam o nosso grupo. Grupos são sempre heterogêneos. Pessoas não se repetem. Por isso, é preciso, aos professores, a arte da reinvenção. Do ressignificar o próprio ofício.

Sou professor orgulhoso de minha escolha. E sei que esse sonho nasceu em uma sala de aula, em uma escola pública, em uma cidade pequena, regida por uma senhora professora. Lembro-me de seu prazer em ensinar, em estar conosco, em nos alimentar de futuro. Sou capaz de, ainda hoje, imitá-la. Com respeito. Com reverência. Marcas do tempo que marcam o nosso percurso. É essa a responsabilidade que temos, nós que educamos, de sermos lembrados, dignamente lembrados. Minha homenagem a todas as professoras e professores que permanecem…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/10/2015

Que horas ela volta?

Assisti ao filme de Anna Muylaert. Assisti com atenção à excelente trama que traz o universo cotidiano da casa brasileira – o universo de relações entre patrões e empregados. O filme traz uma profunda reflexão sobre preconceitos, solidão, sonhos, ética.

Uma empregada, Val, interpretada brilhantemente por Regina Casé, dedica a sua vida a cuidar da vida dos seus patrões. Faz de tudo. Esmera-se para fazê-los felizes. Percebe, sutilmente, as idiossincrasias de cada um deles, mas, com abnegação e respeito, fica no seu espaço, a cozinha. Espaços são bem tratados na trama. Qual é o espaço dos patrões? Qual o espaço dos empregados? Val parece ser tratada como alguém da família. O patrão não trabalha. É um pintor que perdeu a inspiração. Mas tem dinheiro. A patroa busca reconhecimento por seu estilo. E tem uma relação fria com o marido e o filho. O filho dos patrões busca os afetos no quarto da empregada. É ela a sua mãe de acolhimento. É ela que o incentiva a acreditar no seu talento. Os lugares dos afetos são o quarto da empregada e a cozinha. Ali, o menino se desmancha em vida. Ali, ele é ouvido e tem voz.

 Mas um fato muda a rotina da família. A filha de Val vem do Nordeste para prestar vestibular de arquitetura. E fica hospedada com a mãe na casa dos patrões. O conflito vai ganhando tom. O tom desafinado do desalinhamento do discurso inicial de permissão à prática de preconceito com a filha da empregada. A cena da limpeza da piscina é cheia de significados. A menina é jogada na piscina, em uma brincadeira. Brinca com o filho do patrão e com um amigo dele. A dona da casa chama um homem para esvaziar e desinfetar a piscina. A justificativa é que um rato foi encontrado naquele espaço que pertence apenas à família e aos seus convidados.

A linguagem trabalha com o não-dito. A escada interna da casa tem um significado que sugere várias possibilidades. O país mudou. A filha da empregada passa,  para assombro da patroa, no vestibular de arquitetura. O filho do patrão não passa. A filha da empregada tem um filho. E o deixa no Nordeste para fazer faculdade em São Paulo e, depois, voltar a cuidar dele. É como a história da mãe que deixou a filha e veio trabalhar por causa da filha. Laços que se rompem por razões sociais. Futuros que, para serem atingidos, dependem de presentes interrompidos. Mas a história não se repete. O desfecho é surpreendente. É preciso ver o filme para saber. É preciso ver o filme para refletir sobre os preconceitos disfarçados que continuam a desafinar as histórias entre empregados e patrões. É preciso ver o filme para aplaudir o cinema brasileiro. O talento de Anna Muylaert e de um elenco afinadíssimo.

Histórias do cotidiano são mais complexas de serem retratadas. Poderiam cair na vala comum dos exageros, dos apelos, da intenção maniqueísta de criar bruxas e princesas ou bandidos e mocinhos. Não se trata de maldade ou de bondade. Trata-se de ética. De comportamentos erráticos que fazem com que patrões não consigam enxergar os seus empregados. Cenas de famílias brasileiras ainda são chocantes. Empregados que cozinham para os seus patrões e não podem sequer experimentar o que preparam. Os patrões dão uma desculpa que julgam satisfatória: “O problema é que não estão acostumados a comer dessa comida”.  Separam os copos de bebida. Os espaços. Os problemas. Empregados com problemas familiares não agradam. Os patrões justificam: “Já tenho problemas demais para me preocupar com os outros”. “Os outros”, no caso, são pessoas que vivem na mesma casa, que preparam a comida, que lavam as roupas, que melhoram o ambiente, que cuidam diuturnamente para que o espaço esteja o mais agradável possível. Mas o espaço do empregado não é o do patrão. “Essa gente é folgada”, sugerem alguns. Qual gente? Há categorias de gente? Os que têm mais ou menos dinheiro? Os que têm mais ou menos instrução? O país está mudando. Quem nunca imaginou entrar numa universidade, hoje, faz mestrado e doutorado. Quem estava apartado começa a exigir fazer parte de um país que é de todos. Os anos horrendos da escravidão se findaram, mas ainda há, na alma de alguns brasileiros, resquícios daqueles tempos: casa grande e senzala.

Que bom sair do cinema refletindo. Sobre a postura dos outros. Sobre a nossa própria. “Que horas ela volta” é uma inspiração para dias melhores…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/10/2015

Crianças abandonadas

Mais uma criança recém-nascida é encontrada na rua. Em um saco qualquer, em um canto qualquer, abandonada por uma mulher. Já se sabe que era a mãe. Primeiramente, tal ato nos desperta questionamentos. Por quê? Por que abandonar crianças? Falta de vontade de cuidar? Medo? Ignorância por não saber que, se não se tem condições, é possível entregar para a adoção? O fato é que mais uma criança foi abandonada. Quantas crianças abandonadas ainda veremos por aí? Essa foi salva. Alguém a viu. Sentiu sua existência. Teve compaixão. Cuidou dela. Encaminhou para pessoas responsáveis com a responsabilidade de quem pode contribuir para não matar futuros, não deixar morrer crianças.

 Essa criança há de crescer. Outras não tiveram essa oportunidade. Essa criança há de superar o abandono – é o que sonhamos. Outras tantas são abandonadas e, se sobrevivem, carregam marcas desses tempos. Longe de mim justificar a ação da  mãe. Teria sido ela um dia abandonada? Faltou a ela instrução, esclarecimento, compaixão? Ela justifica como medo de perder o emprego, pois, certamente, a patroa não aceitaria a criança ali. Deu à luz no banheiro da casa dos patrões, silenciosa e solitária. Sufocando a dor. Movida pelo pavor de ser descoberta. Limpou a filha, cortou o cordão umbilical, alimentou-a e, por desespero – quem sabe? – abandonou-a num canto qualquer, numa noite de chuva.

Intenções. Ações. 

Mas um porteiro surgiu na vida dessa criança e repetiu a parábola do bom samaritano. Ele poderia ter seguido o seu caminho, estava indo à missa. Poderia ter fingido não ter ouvido o choro. Poderia ter tido a decisão de não se meter com problema dos outros. Mas o bom porteiro, outro Francisco de Assis, abriu as portas do futuro para essa criança.  Segurou a menina no colo. Embalou-a. Está radiante com a vida que salvou. Quer adotá-la. Trazê-la para o aconchego de sua família. Já escolheu o destino do bebê. Ser amado. Escolheu seu nome: Valentina. Que bom. Ainda há bondade no mundo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/10/2015