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Aos que aqui ficaram

O desamor matou mais uma vez. O ódio pareceu vitorioso no triste fim de vidas que buscavam alguma alegria. Era uma boate.

Poderia ser um clube. Uma escola. Um cinema. Um prédio de trabalho. Uma praça. Uma rua em que atletas corriam. Esses lugares também foram manchados por radicalismos criminosos.

Como virar a página? Como chorar a dor das famílias buscando algumas ações que garantam que outras famílias não enterrem seus mortos, vítimas desses horrores?

A palavra do Papa Francisco é sábia. Mais uma vez. A de Barack Obama, também. Já a de Donald Trump, lamentável. O discurso do ódio nunca conseguirá combater o ódio. Violência não se combate com violência.

As superficialidades só interessam aos demagogos. Precisamos de um aprofundamento nas causas que geram esses monstruosos crimes. Educamos para o respeito ou para o escárnio? Buscamos uma convivência harmoniosa ou uma disputa desenfreada por saber quem é o melhor? Damos o exemplo da tolerância ou nos julgamos acima dos que imaginamos diferentes de nós? E falo da tolerância no seu sentido mais pleno. A tolerância que significa respeito à riqueza do outro, daquele cuja diferença me ensina, me complementa, me faz melhor. Não é a tolerância em estado dicionário que denota suportar, aturar aquele que pensa, vive e ama diferente de mim. Esse é o significado da tolerância que alimenta o falso sentimento de superioridade em relação ao outro. Não há pessoas de primeira ou segunda categoria. É preciso educar para que se entenda que a diferença é a base da essência humana. Não há duas pessoas iguais no mundo. E a riqueza do homem reside nisso.

É preciso, portanto, cuidar da semeadura. Qual é a semente que se planta em casa e na escola? Pais que se agridem plantam qual semente? Pais que agem e falam com preconceito sobre o que veem nas mídias ou nas ruas plantam qual semente? Professores que desconhecem o significado da cooperação em uma sociedade baseada na competição plantam qual semente? Jornalistas ávidos por informações pouco cuidadosas, desconectadas da verdade, capazes de destruir vidas alheias, plantam qual semente? Programas de rádio e televisão cujo ódio pulula na boca de apresentadores que não têm nenhum compromisso com a verdade e com a ética plantam qual semente? Líderes religiosos que propagam o ódio a quem eles consideram pecadores plantam qual semente?

Quem mais nos influencia? Redes sociais? Clubes? Shoppings? Parques? Como se comportam as pessoas nesses espaços? Que semente estão plantando?

Há uma comoção mundial em tragédias como a de Orlando. E é preciso que haja. A dor do outro deveria doer na gente.

Mas, aos que aqui ficaram, é preciso ação. No combate ao terrorismo e a toda forma de violência. Ações de governos e de organismos internacionais.

Mas é preciso ir além. É preciso pensar na floresta que queremos amanhã. Ela começa nas sementes que plantamos hoje.

Preocupa-me o ódio cotidiano. Os ditos incorretos revestidos, às vezes, de algum humor. O descontrole diante do que pensa diferente de mim. Os ataques de moralidade frente ao outro que julgo ser imoral. Preocupe-me a ausência do amor na convivência.

Eu não mato uma namorada por ela ter decidido que não é comigo que ela quer viver. Eu não agrido quem vota em um partido diferente do que eu voto. Eu não espanco o que torce para um time rival ao meu. Não. Essas falsas valentias só nos mostram a covarde face de quem semeia o mal.

“Quero cumprir o meu papel, semeando a correta semente “, esse seria um bom começo para os que querem um mundo melhor. Amanhã. E hoje.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/06/2016

Namorar, verbo bom de conjugar

Namorar é conhecer, é cortejar, galantear.

Namorar é celebrar a presença mesmo quando a presença está ausente. É lembrar que se tem alguém para amar. É elevar.

No início de um namoro, há o desejo e o medo. O desejo de que seja real o que parece onírico. O desejo de que seja eterno o pulsar mais valente do coração. O desejo de que seja correspondido. E aí vem o medo. O medo de que seja ilusão, apenas. O medo de que os defeitos do outro sejam impossíveis de serem tolerados. O medo de que os meus defeitos afastem a pessoa amada. Desejo e medo causam bagunça. Mas os inícios de namoro sempre trazem alguma bagunça. Bagunça o pensamento, o cotidiano, as escolhas. Uma bagunça boa, talvez. Lembrar as frases ditas. Lembrar os olhares. Lembrar os primeiros afagos. Mesmo a quem não assume, o romantismo faz um bem enorme. Há quem comece um regime, há quem se matricule em uma academia de ginástica, há quem compre roupas novas, cuide melhor do cabelo, da pele. Afinal, há alguém com quem dividir os dias.

O tempo pode ser aliado ou não do namoro. A rotina pode ser deliciosa ou corrosiva. As palavras de delicadeza pronunciadas nos inícios não podem se esconder nos dicionários. Mesmo que o namoro não esteja no início, sempre haverá um início. O início de um ano, o início das férias, o início da primavera, o início de um dia. Há sentimentos que combinam com esses inícios. E, também, com as partidas. No início, quando um dos dois viaja ou quando apenas vai para casa, há despedidas carinhosas. Há um secreto desejo de que o tempo em que estarão separados passe rapidamente, e o tempo em que estão juntos não passe.

Passados alguns anos, depois de muitas despedidas, depois de alguma segurança de que as despedidas são provisórias, as despedidas perdem o seu encantamento. Ou não. Há namoros que perfumam o cotidiano com os mais tenros dizeres. Independentemente se tudo começou ontem ou há 50 anos. Namoros em que um boa-noite é sempre colocado com a intenção de que quem eu amo tenha a melhor noite do mundo. E que um bom-dia seja a frase ideal para esclarecer que o meu dia é bom porque o outro existe dentro dele.

Há quem esteja sem namorar há algum tempo. E há aquele que desacredita no amor. Talvez por incursões fracassadas em namoros insinceros. Talvez por abandonos ou por paixões que não foram correspondidas. Dor de amor é dor doída demais. Mas passa. Um dia, o dia diz que é hora de viver novamente sem a onipresença do amor que não me amou no meu pensamento. E outras possibilidades surgirão. Certamente, surgirão. Há ainda as teimosias do amor. Há gente que vê amor onde não há. Pessoas que projetam um amor em quem já tem o seu amor ou não demonstra nenhum desejo de reciprocidade. Namorar alguém e ser correspondido é elevação. Namorar alguém e não ser correspondido é desperdício. Não sei se há um amor à primeira vista ou se há desejo que vai se transformando em amor com o namoro, com o conhecimento. Não sei se há um amor maior, um namoro que foi muito melhor do que os outros ou se as comparações já são, em si, ruins. Não sei o que faz com que o cupido fleche alguém e determine que esse alguém terá algum senhorio sobre mim. Só sei que viver sem amor é viver sem o tempero mais saboroso que já se inventou. Amor est vitae essentia

Uma visita indesejada

Ruth tem marido e quatro filhos. Todos trabalham. Exceto os dois menores que vão à escola. À noite, todos se encontram em casa. Jantam juntos. Conversam sobre o dia. Entrementes os problemas de toda família, são o que se pode chamar de pessoas felizes. Em alguns finais de semana, viajam. Quando os filhos eram pequenos, viajavam com mais frequência. Agora, precisam entrar em acordo. Há algumas festas em São Paulo e os mais velhos gostam de frequentá-las. A casa de praia guarda muitas histórias, histórias boas do passado.

Ruth tem uma conhecida que, ao menos uma vez por semana, aparece para visitá-los. Quando ela chega, os que estão em casa se acomodam na cadeira e respiram fundo. A visita é sempre portadora de notícia ruim. Dela mesma ou dos outros: o marido é uma peste. A filha arruma um namorado pior que o outro. A vizinha, que enviuvou faz pouco tempo, tem levado gente estranha para casa. A rua está suja. A política vai de mal a pior. As novelas não prestam. Médico é tudo a mesma coisa. O tempo está maluco, o tal do efeito estufa está acabando com nossa paz etc. Enquanto fala, um filho levanta, depois o outro, depois o marido e, na sala, ficam apenas ela e Ruth. Não há economia nas reclamações. Ruth tenta animá-la contando alguma coisa boa. Ela, imediatamente, consegue ver algo ruim na notícia boa. “A filha do Alceu está namorando”, diz Ruth. “Muito difícil durar esse namoro, muito difícil”, conclui ela. “Nós vamos à praia no próximo final de semana”. “A dengue está correndo solta por lá e a previsão é de chuva, muita chuva”. Ruth, vez ou outra, pergunta a si mesma por que aceita aquela visita. Por que não se recusa a recebê-la? Quando ela se vai, há um cansaço que demora algum tempo para ir. A família se recompõe. E tudo volta ao normal.

Ruth agradece pela família que tem e dá uma desculpa para si mesma. “É melhor que ela venha, que eu preste bastante atenção no quanto ela é chata para nunca ficar assim”.

4 faces do amor

Esse é o título de um musical que está em cartaz, em São Paulo, no Teatro Nair Belo. O autor é um jovem dramaturgo, talentoso escritor, Eduardo Bakr. A trama se passa em histórias cruzadas de dois homens e duas mulheres. Os nomes já surpreendem e apresentam uma semântica própria para estabelecer que, o que ocorre, ocorre entre as mais diversas relações de amor. Os atores, Amanda Acosta, André Dias, Jarbas Homem de Mello e Sabrina Korgut estão impecáveis. A direção de Tadeu Aguiar é muito cuidadosa para um texto e uma encenação tão cheios de pequenos “não-ditos”. A música de Ivan Lins se encaixa muito bem com a trama. Enfim, está feita a sugestão: o espetáculo é imperdível.

Quero, agora, me aprofundar no texto de Eduardo Bakr. Já li outros textos dele. Já li alguns de seus livros infantis. Eduardo é um talento. A temática do amor é necessária; porém, sempre perigosa. Amar, aliás, exige coragem. Falar de amor, também.

O amor tem uma face? Qual seria a face do amor?

No alto do prédio, alguém pensa em desistir da vida. Ou não. No alto do prédio, alguém lá está por alguma intuição de conhecer um amor. Desistir da vida pela ausência de amor? Não, a personagem não queria cair, queria flutuar. Mas esses descuidos podem ser fatais. Não quando surge um amor. Será?

Passado o susto do primeiro encontro, a surpresa das diferenças, nasce a rotina. Os dizeres que ora aquecem, ora esfriam, uma história de amor. A ausência de cuidado é sempre um perigo. Mas o amor tem 4 faces?

Os gregos usavam o número 4 para falar de completude. Os primeiros filósofos das províncias jonicas da Grécia ousaram sua explicação para o princípio de tudo a partir de 4 elementos: terra, água, ar e fogo. Aristóteles falava em uma vida correta, tetragonalmente correta, isto é, correta em todos os lados, perfeita, portanto.

O amor é perfeito? Refaço a pergunta. O amor real é perfeito? Ou apenas o ideal? Ou a perfeição estaria apenas no Amor Maior? Os amantes, certamente, não são perfeitos. E isso fica claro no texto de Eduardo Bakr e na vida. São as imperfeições que nos arregimentam para vivermos juntos. E por que, então, temos medo de falar em complementariedade? O final da peça é feliz. Justificadamente feliz. Como as lindas histórias de príncipes e princesas que nos acalmavam nos nossos inícios. Éramos pequenos quando ouvíamos essas histórias, sofríamos nas tramas que uniam o início explicativo ao final apoteótico. Sempre há algo de incômodo a invadir os nossos cômodos. Éramos pequenos. Em matéria de amor, seremos sempre pequenos. E, paradoxalmente, grandes. Magias do amor. Elevamo-nos como a personagem que queria flutuar. Elevamo-nos ao pensarmos no outro. E nos apequenamos com pequenezas que não deveriam existir.

Nas 4 faces do amor, há um momento em que parece que as despedidas são necessárias. Até são. Há muitas partidas nas nossas travessias. Mas o autor é generoso e o espectador sai com vontade de amar. Com esperança de, enfim, ver o sonho do amor alcançado.

Amanda Acosta, André Dias,Jarbas Homem de Mello e Sabrina Korgut em

4 FACES DO AMOR, o musical
De Eduardo Bakr
Músicas de Ivan Lins
Direção musical de Liliane Secco
Direção de Tadeu Aguiar
Sexta a domingo no Teatro Nair Bello

Sobre a hipocrisia e outras maldades

Tenho desprezo pela hipocrisia. Prefiro os que, olhos nos olhos, abrem as comportas dos sentimentos e revelam apoio ou reprovação aos que se vestem de afáveis e espalham maldades.

Piores ainda são aqueles que, nas doces palavras, tentam convencer o interlocutor de que só dizem o que dizem por amizade. Por preocupação.

Dia desses, um amigo revelou sua decepção com um outro amigo. Contou-me ele que esse falso amigo falou para uma, duas, três, quatro ou mais pessoas sobre um erro que ele achava que o amigo havia cometido. “Oras, por que não disse diretamente a mim?” -bradou, desconfiado do amigo.

Concordei com ele. Amigos falam aos amigos. Amigos não espalham o que nem sabem. Os hipócritas fazem isso. Jesus não tolerava os hipócritas. E há tantos hipócritas que usam o nome de Jesus. E ganham notoriedade, inclusive, por isso. Mas continuo convicto de que essas pessoas não são felizes. Nunca conheci um atirador de pedras feliz. São atormentados que fingem boas maneiras. Ou, nas palavras de Jesus, são sepulcros caiados, raça de víboras, hipócritas. Jesus não se irritou com os pecadores. Pelo contrário. Veio amenizar suas dores. Irritou-se com os religiosos que, embora tivessem o título, nada entendiam da verdade, da religião.

Há outras maldades que também perturbam a vida. Nas esferas das amizades, vale lembrar a ingratidão. O que se faz a um amigo se faz por convicção, não por esperar reconhecimento. Mas, certamente, na ciranda dos afetos, é preciso que se aprenda a agradecer. E a se lembrar do que foi feito. Gratidão é um sentimento que não prescreve.

Àqueles que já viveram essas decepções uma singela sugestão: prossigam acreditando nas amizades. Há hipócritas por toda a parte, mas há os generosos, os verdadeiros, os amantes das pessoas e dos instantes. Aqueles que não desperdiçam esses instantes para destruir pessoa nenhuma quanto mais um amigo.

Uma carta de Maria

Recebi uma carta. Letra elegante. A remetente chamava-se Maria. E, depois, vinha o sobrenome. Não posso dizer, pois não pedi sua autorização.

Maria é professora em uma cidade pequena do interior de Minas Gerais. Justificou o envio da carta, e não de um e-mail, porque gosta das esperas. Parei nesse ponto da leitura e fiquei lembrando quantas cartas eu escrevi e recebi. Como era bom, na minha pequena Cachoeira Paulista, ver o carteiro chegar. Lia uma, duas, três ou mais vezes a mesma carta. E não respondia com atropelos. Dormia com os ditos da carta. Refletia. E, no outro dia, tecia o enredo da resposta. Sem pressa.

Continuei lendo o relato de Maria. Partilhava comigo o prazer de lecionar. Leu alguns livros meus e queria testemunhar o que eles significaram no sagrado chão da escola. Contou-me do que é viver onde vive, lecionar onde leciona, morar onde mora. Falou das montanhas da sua Minas Gerais. Viajou pouco, mas por onde andou levou com ela o desejo de voltar. Nada é melhor do que estar onde se deve estar. Parei novamente e fiquei imaginando a sua volta para casa. Alguns dias de férias, algumas experiências em outros cantos e o canto da gratidão ao rever, na estrada, o nome da cidade em que nasceu. A sinalização dá conta de que falta pouco para beber da sagrada água. Água de bica. Pote de cerâmica que mantém o frescor da temperatura. Goles vagarosos para se sentir o prazer que um copo de água é capaz de proporcionar.

É professora há muito tempo. Já tem tempo para requerer a merecida aposentadoria. Mas prefere postergar. É bom estar com os alunos. Filhos de outros alunos. Talvez netos. O tempo e os seus caprichos. Fiquei curioso para ver sua imagem. Imaginei, então. Nem muito alta nem muito baixa. Cabelos elegantemente arrumados. Maquiagem leve. Roupas adequadas. Salto alto não tão alto. Alguma joia delicada, herança de família. E a casa? Com pomar, com horta, com fogão a lenha. Talvez não. Poucos resistiram.

Continuo a leitura. Diz ela que ficou feliz quando eu disse, em uma entrevista, que meu pai nasceu em Belo Horizonte; é mineiro, portanto. Fiquei tentando imaginar o seu sotaque. Gosto do sotaque de Minas. Há vários. Gosto da musicalidade, da cadência, das junções de palavras.

Maria não falou de marido ou filhos. Será que é solteira? Será que é viúva? Será que revelará esses outros detalhes em uma outra carta? Em um ou outro trecho brincou com dizeres de outros escritores. Falou da poesia do cotidiano e dos sonhos que ainda movem seus afazeres. Prefere a leitura aos programas de televisão. Prefere os clássicos aos jornais ou revistas. Ouve música e imagina. Da música, disse apenas isso. Imagina o quê? Que tipo de música? Há excelentes cantores mineiros. Falou sobre sua mãe que, também, era professora. E sobre alguns outros assuntos. Ao final, as despedidas.

Vou responder sua carta. A mão. Vou fazer algumas perguntas que a minha curiosidade exige. Gostei de Maria. A começar do nome. Depois da profissão. Depois da composição correta de seu arranjo. Quem sabe um dia eu a encontre? Ou não. Quem sabe? O que sei é que sua carta me trouxe uma certa nostalgia. Recuperei por algum tempo o valor das esperas. Não terei pressa em responder. Farei com vagar. Costurarei o manto com o qual gostaria de aquecê-la, nas terras onde meu pai nasceu.

Quantas cartas eu escrevi ao meu pai? Muitas. Tenho algumas comigo. Em cada viagem, eu aquecia a saudade escrevendo para ele. E para minha mãe. Isso não faz muito tempo.

O tempo, hoje, é outro.
Tempo bom o de lembrar.
Saudade do meu pai. Da minha mãe, ligo ou escrevo hoje ainda.
E Maria. Bom domingo, Maria.
Até breve.

Uma flor no impossível chão

​A professora conversava com os alunos sobre a canção, “Sonho impossível”.Relacionava-a com Dom Quixote, livro que haviam lido. Explicava a importância do romance e a riqueza das personagens. A literatura tem uma magia própria. Os dizeres dos sentimentos penetram na parte sublime do cérebro. A razão se fia no elevado. Viajam os alunos para outros tempos, outros espaços. Para os possíveis e os impossíveis. Era impossível o Cavaleiro Andante lutar com moinhos de ventos. Por que, então, Cervantes assim o descreve? Qual era o seu intento, o seu sonho? “Sonhar mais um sonho impossível. Lutar quando é fácil ceder”.Perguntava aos alunos e ouvia as mais diversas explicações. O que significa “Negar quando a regra é vender”?

A professora os instigava. E voltava a Dom Quixote. E falava em Dulcinéia, a amada. Só ele via sua beleza, só ele anunciava suas formas perfeitas. Ele a fazia sentir-se única, amada, desejada. O amor não é assim, afinal? O que é um homem se metamorfoseando em cavaleiro para dançar a dança dos românticos com sua dama? A perfeição está nos olhos de quem vê. O amor dá unicidade às pessoas e aos momentos. Faz o impossível ser possível por mais impossível que pareça ser.

​Falaram sobre o cotidiano. Um contou a história dos pais. Dos desencontros e das persistências. Um romance, uma canção e todos os sonhos do mundo em uma sala de aula. E uma mulher, uma professora, regendo a orquestra dos enlaces. Mostrando o mundo de possibilidades que mora em cada um deles.Um aluno, então, proclamou: “E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão”. Ela quis saber o significado. Ele disse “Eu sou o impossível chão”. Ela ouviu atenta. Relatos de dor precisam de cumplicidade. ​Uma flor brotou naquela sala. A flor do conhecimento e do sabor. Jovens desabrochando para a vida. Quantas batalhas terão de enfrentar! “Quantas guerras terão de vencer por um pouco de paz”!

Aprendi com aquela professora. Agradeci por ser, também, professor. Irmãos de ofício.

O futuro do meu filho

Em uma universidade, pai e filho sentam juntos na mesma sala. Resolveram cursar engenharia. Já estão no terceiro ano. O pai sempre foi ausente. A bebida roubou-lhe o convívio. As agressões eram constantes. Um dia, a mãe partiu e levou os filhos. O pai não se importou. Melhor assim. Já não gostava daquela mulher que se tornara resmunguenta, na sua opinião. Virou uma espécie de acusadora.

Queria que ele escolhesse entre ela e a bebida. Isso o importunava. Não se exigem escolhas alheias. Isso os afastava. Os tempos de desejo eram passado. Vez ou outra, ele agia com alguma violência para demarcar território. Que história é essa de mulher dizer a ele o que deveria ou não ser feito? Deu de ombros à partida da mulher. Não haveria de encontrar outro homem e voltaria, decidiu ele.

O tempo passava e ela não voltava. A solidão o incomodava tanto ou mais que a presença daquela incômoda. Tentou a reaproximação. Não teve sucesso. Acusou-a de ingrata. Vomitou xingamentos de toda ordem. Deve haver algum homem. Mulheres não são fiéis. Fingem companheirismo, mas ao primeiro espaço preenchem sem se importar com o que viveram. E foi dizendo. As palavras eram desconexas. Acusações e humilhações. Ela resistiu. Sabia que os filhos adolescentes ouviam. Havia trabalhado o dia todo. Estava cansada. Mas resistiu. Na sala, só a voz dele se ouvia.

Foi quando o menino saiu do quarto. Olhou para o pai e pediu que ele fosse embora. Que ele roubava a paz. As duas filhas eram menores e tinham medo. Ele deu um tapa no rosto do filho e partiu. O tempo passou. O filho cresceu um pouco. E se encontraram novamente. Em um bar. O pai estava bebendo quando o viu numa briga. O filho havia bebido também. Sangue jorrava de uma fresta aberta pouco acima do olho. O filho estava tonto. Ele tirou os curiosos e abraçou o filho. O filho parecia não reconhecê-lo.

Foram juntos ao hospital. Ninguém acreditaria que o pai, naquele estado, pudesse cuidar do filho. Alguns pontos, alguma costura, alguns cuidados e o menino podia voltar para casa. O pai o levou. Falaram pouco. A mãe não estava. Estava trabalhando. O filho dormiu. O pai olhou para ele e jurou que mudaria de vida. “O futuro do meu filho depende de mim”, entendeu ele. Adormeceram juntos. Chegou a mãe e não entendeu. O pai chorou. Chorou muito. O filho acordou assustado. Falaram tudo o que pouparam nos anos de pouca convivência. O menino já era homem. Escolheu uma vida errática. O pai pediu que convivessem novamente.

E aconteceu o que eu presenciei. Pai e filho em uma sala em uma universidade. Deixaram a bebida. O menino, depois de alguma dificuldade, deixou as drogas. E o futuro apareceu. O relato foi emocionante. O pai voltou para casa. A mulher demorou a aceitá-lo, demorou a acreditar em recomeços. Ainda o amava, mas temia as recaídas. Nunca houve recaída. A visão do filho caído, sangrando. A visão de um futuro sem futuro. A visão de sua ausência perigosa fez dele um pai. Disse o filho que o pai é muito estudioso. Disse o pai que o filho é mais rápido do que ele para aprender. Disse o filho que o pai virou um homem muito romântico. Disse o pai que o filho é bonito como a mãe. E foram os dois falando sobre os dois.

E eu fiquei imaginando a força dos laços humanos. As reconstruções que são possíveis quando há amor. As duas irmãs pretendem cursar a faculdade no próximo ano. São gêmeas. O pai ainda me disse que não teve pai. Que o perdeu quando tinha 5 anos. A mãe cuidou dele sozinha. Entre trabalhos e problemas. Disseram que me convidariam para a formatura. E pediram que eu autografasse um livro para a mãe, para a mulher. “Escreva, por favor!”, pediu ele, “Para a mulher mais linda do mundo” O filho sorriu. Feliz por viver outro tempo com um outro pai. Eu escrevi. E escrevo em homenagem aos que caíram e que conseguiram se levantar para cuidar de alguém.

Nossa Senhora de Fátima

13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima. Reflitamos sobre os valores que se extraem das aparições em Fátima. Escolheu Maria pastores. Pastores são aqueles que cuidam de animais. Que pastoreiam. Que têm o poder de fazer com que os animais conheçam suas vozes e os sigam. Mas Maria não escolheu pastores adultos, experientes. Escolheu três crianças: Lucia, Jacinta e Francisco. Os adultos duvidaram, os donos da verdade afirmavam que a verdade é que esses fatos nunca ocorreram. As crianças foram em frente. Queriam ouvir a voz daquela Senhora. Saber dos seus ensinamentos. Viver a experiência única de amar a mãe do Amor. Maria, a mãe de Jesus, é uma só. Com títulos diversos. Nossa Senhora de Fátima é a mesma que Nossa Senhora Aparecida ou que Nossa Senhora de Lourdes e assim por diante. É a mesma que Nossa Senhora das Dores ou da Piedade ou da Paz. Quanta paz têm aqueles campos de Fátima em Portugal. Quanta paz tiveram aquelas crianças ao serem portadoras da mensagem da Mãe.

Os donos da verdade, de nossos dias, são descrentes desses fatos. Ou, então, não gastam tempo para falar desses mistérios. Preferem o enlouquecimento de uma busca desenfreada pelo ter e pelo poder. Ousam pisar ou pesar sobre os outros para subir. Não sobem. Descem. Não compreendem os valores essenciais para uma vida com significados.

Mas há os que, crentes na bondade do mundo e dos homens, seguem a luz que encantou a todos na última aparição em que o sol se fez gigante. São peregrinos do bem, buscam a vivência do amor, ensinamento maior de seu filho, Jesus. São os que compreenderam o mistério de Fátima: fazer com que a paz vença os ódios e as perseguições. A humanidade seria mais bonita se os valores dos pastores e das crianças, do cuidar e do ser simples, prevalecessem. Ouvir a voz do pastor e olhar para o alto para compreender onde moram os sinais. E para o alto dedicar a vida.

13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima. Vale a pena pensar, rezar, fazer.

Canção para minha mãe

Um compositor, em algum lugar, em algum tempo, filho de alguma mãe, recebe a incumbência de compor uma canção. Preocupado com o tema, “Canção para minha mãe”, relê a sua alma. E o faz com vagar. Fecha os olhos e vai até o tempo das delicadas carícias. Das notícias boas ou ruins. Do alimento que fora gerado para nele gerar forças. Não quer cair na pieguice. Tem preocupações com os críticos. Não quer ser racional ao extremo. Tem preocupação com os que amam. Entretanto, é preciso compor. E o compositor sabe que, ao escolher palavras, outras serão descartadas, o mesmo se dá com o estilo, com o ritmo, com a vida.

Ler ou reler a alma não é um exercício que se esgota em tempo limitado. As letras ali gravadas são caprichosas. Só se deixam ler quando há clima para tal.

É outono. O frio já avisa da mudança da estação. Mas o sol, teimoso, fica. Mais leve que no verão. Mas fica. O compositor, que recebeu a inusitada encomenda, caminha de um lado a outro. Olha para o longe e ensaia algum sorriso. Foram dias lindos. É isso o que está escrito na alma. A lembrança da volta da escola e a visão da mãe que o esperava na porta da casa. E o sorriso festivo como se o visse pela primeira vez. E o abraço. E o prazer em alimentá-lo com todas as refeições possíveis. Ou impossíveis. Lembranças de algumas viagens. De alguns ditos. De dias de inverno em que a coberta era tão essencial quanto as histórias contadas para o sono chegar, sem solavancos. Em dias quentes, até água do esguicho trazia o sabor da infância.

Tiveram cachorros. Choraram com as suas partidas. Partiram de casa mais de uma vez. Fecharam a porta com alguma melancolia, mas olhavam para frente, pois estavam juntos. Compraram carros, roupas, objetos. Não se lembra muito bem o compositor desses detalhes. Lembra-se, entretanto, de outros. De medos que foram vencidos com a simples chegada da mãe. Foi assim em um coral em uma formatura, foi assim em um dia de dizer poemas, foi assim em uma sala de hospital antes de uma cirurgia.

Não sabe o compositor se o enredo deve ser triste ou feliz. Encontra nas letras gravadas na alma argumentos para ambas as escolhas. O dia em que sua mãe se foi não foi um dia feliz. Lembra-se dele. Das despedidas. Dos dias de doença. Morreu ela em uma primavera. A morte é a primavera da alma, acredita ele. A mãe o vê enquanto ele compõe. Ou enquanto pensa na composição. Olha algum retrato. Em algum canto. Seu canto precisa expressar o que sente. Acredita nisso. Na autenticidade do que deixa. Do que sabe ser capaz de interferir na vida das pessoas.

Canta algo para si mesmo. A letra o vem escolhendo. Sai de sua alma e vai ao seu encontro. Chora algum choro. Gostaria que a mãe estivesse ali. Pensa se disse tudo o que deveria ter dito antes dela partir. Lembra-se do que faltou. Faltou ela permanecer por mais tempo, certamente. Não tem filhos ainda. Seus filhos são suas canções. Há um prestes a nascer. Pensa no seu nascimento. Na coragem de sua mãe em ser mãe. O leite do amor ainda o nutre. O seio já se foi, mas a lembrança não.

Senta-se, conversa com os papéis e põe-se a escrever. As palavras vão escolhendo onde querem ficar. É uma homenagem. Crianças haverão de cantar. E também os adultos. Ao lado da letra, as cifras. O ânimo é o do amor.

Viveu uma vida intensa, encontrou pessoas e, por elas, foi encontrado, mas o amor que primeiro o embalou jamais foi esquecido. O colo leve dos restabelecimentos. As mãos, antes jovens depois envelhecidas, que separavam algo em seu cabelo. Os beijos tantos que desejavam bons-dias. O último, antes da despedida, quando a palavra saiu de uma alma a outra, a boca já não tinha como dizer.

Termina o trabalho.
A canção não é triste. Definitivamente, não é triste.
Ao final, escreve uma dedicatória:

“Mãe, na partitura da minha vida, a letra mais iluminada é a sua.
Canto a canção da saudade e da gratidão. A canção do amor. O amor que permitiu que eu nele acreditasse. Ele, o amor, vestiu-se de mulher e gerou em mim o que há de mais lindo. O que fica.
Entre poeiras e desnecessidades, entre estranhas relações que já conseguiram me adoecer, o seu amor, mãe, é o que fica. O cordão umbilical foi cortado, apenas ele”