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Sobre a gratidão

Li, recentemente, um livro chamado “Gratidão”, escrito por Oliver Sacks. O famoso neurologista traz, nesse livro, as experiências da consciência da finitude e da proximidade da morte. Ele morreu aos 82 anos de câncer. O livro é escrito depois dos 80. Sabia ele que eram os últimos momentos na terra. Mas o livro traz, de forma notável, o tema da “gratidão”. Olhar a morte de perto dá medo. Saber que há mais dúvidas do que certezas. Imaginar o que não pode mais ser feito. São pensamentos que poderiam ocupar a mente por inteiro. Confessa, entretanto, o autor, que o sentimento predominante nele é o da Gratidão. Gratidão pelas escolhas que deram certo. Gratidão pelos amores, pelos afetos. Gratidão pelos caminhos que foram apresentando diferentes paisagens.

Aos 80, já se viveu muito. Já se perdeu muito. Já se ganhou muito. Aos 50, também. E também aos 30, por que não? Em cada fase da vida, é possível olhar para o tempo que passou e ser grato. Olhar para as pessoas que nos preencheram os instantes e sermos gratos. Olhar para dentro de nós mesmos e agradecermos o poder cicatrizante que fez com que tantas feridas deixassem de ocupar nossa atenção. Há, por aí, muita gente que sequer agradece ao outro em circunstâncias corriqueiras. Agradecer a quem abre a porta, a quem traz a conta no restaurante, a quem dá lugar, a quem nos vende alguma coisa. Agradecer a quem está limpando, a quem está cozinhando.

Gratidão é um sentimento que cai bem em qualquer situação. As lamentações também fazem parte. Mas, sozinhas, causam muitos incômodos. Quando lamentamos por alguma ausência e agradecemos, logo depois, as tantas presenças que a vida nos proporcionou e proporciona, fica mais fácil prosseguir. E prosseguir vale a pena, em qualquer idade. O entardecer tem uma beleza diferente do amanhecer. Mas tem uma beleza. Certamente.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/11/2016

A dor do outro não sai no jornal

Na canção de Chico Buarque, os dizeres são: “A dor da gente não sai no jornal”. O compositor fala de uma tal Joana e de um João.

Desconhecidos, eram os dois. Nem o barraco existe mais.

A dor dos conhecidos, às vezes, sai no jornal. Há famosos por aí que qualquer movimento desperta enorme atenção. Há outros, porém, que passam desapercebidos. Mas, também, esses sentem dor.

Também esses choram os seus filhos, quando eles morrem. Mesmo quando os filhos erram.

Li, com atenção, a matéria sobre “bandido bom é bandido morto”. Acompanhei várias histórias de jovens que morreram vítimas, talvez, de escolhas erradas. Sei que há uma imensa indignação da sociedade contra aqueles que agridem a própria sociedade. Vivi isso nos tempos em que pude cuidar da antiga FEBEM. Havia muito ódio por aqueles que ali estavam. E ódio deles mesmos por serem frutos de uma sociedade que não lhes deu oportunidades e que lhes cobrava pelos erros que cometeram. Erraram, muitos deles. Certamente. Não todos. Muitos não deviam estar ali. Mas estavam. E sofriam por ali estarem e pelo futuro.

Quem quer dar oportunidade a alguém que errou? Quem contrata alguém que passou por uma unidade de internação para adolescentes infratores ou pelo sistema penitenciário? Como eles poderão se recuperar, então? Mas por que optaram pelo erro? Optaram?

Que vida levaram? Que valores aprenderam? Que exemplos tiveram?

“Sim, mas erraram” – insistem alguns. “E quem não erra?” – pergunto. “Mas cometeram atos infracionais, cometeram crimes”.

Há sociedades que optam por eliminar os que assim agem. Matam. Há outras, como a nossa, que estendem, inclusive para esses, o princípio da dignidade da pessoa humana. Eles também têm família. Eles, também, têm alguém que chora por eles, que torce por eles.

Há uma onda de reducionismos na solução de problemas. Como se bastasse uma ordem de choque para que todos os problemas se resolvessem. Seres humanos são complexos. Sociedades são complexas.

Posso garantir que, na época em que implementamos um programa de educação humanista, em que desenvolvemos a sensibilidade artística, em que nos preocupamos com a porta da saída para que eles pudessem ter uma nova chance, em que os tratamos como gente, muitos deles puderam construir uma vida digna. Ainda os encontro por aí. Ouço suas histórias. Lágrimas nos olhos, agradecendo uma mão estendida.

Dia desses, em uma palestra, ouvi uma ex-funcionária da FEBEM relatando o que ela viveu no tempo em que fiz com que eles acreditassem que a educação abriria as portas para uma nova vida na dura vida daqueles jovens.

Ou nos conscientizamos de que a sociedade é um todo e que mesmo os que dão mais trabalho precisam de cuidado ou partimos para o triste caminho de tentar extirpá-los. Não é só a pena de morte que faz isso. É a insensibilidade. É a ausência de compaixão. De prontidão para abrir portas a quem se perdeu. É preocupante o grau de egoísmo que vai tomando forma nos nossos dias. Cada um quer saber de si mesmo. Os outros são os outros. E, se os outros nada podem acrescentar a minha vida, e, se ainda me dão trabalho ou me colocam em algum risco, então, é melhor não tê-los por perto. Mas não estamos falando de coisas. Pessoas não podem ser jogadas porque incomodam. Mesmo os que incomodam sentem dor. Mesmo quando a dor deles não sai no jornal.

É sempre atual relembrar Chaplin. O que precisamos vai além das máquinas, das tecnologias. O que precisamos mesmo é de humanidade, é de afeição, é de ternura.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 13/11/2016

A fragilidade da vaidade

A vaidade é um tema recorrente para muitos estudiosos do comportamento humano.

É um termo bíblico, também, “vaidade das vaidades”. Tudo, quando é vaidade, traz enormes riscos. Montaigne adverte que a vaidade nos leva à precarização de nós mesmos. Nos exageros, nós nos perdemos.

O que é a vaidade?Vaidade vem de vazio, vem do que é vão, do que é ilusório. A vaidade é a supervalorização da aparência em detrimento da essência.

O vaidoso busca um aplauso constante. Ele precisa ser admirado pelo outro o tempo todo. Pelo seu físico. Pela sua eloquência. Pela sua perfórmance intelectual.

O vaidoso tem dificuldade em ver alguém elogiando outra pessoa. É como se algo cortante o incomodasse: “O que o outro tem que eu não tenho?”. O vaidoso tem uma tendência a errar mais, porque fica cego diante de si mesmo.

O artista vaidoso não tem a generosidade de compreender que nem sempre ele será o mais aplaudido do grupo.

O político vaidoso é incapaz de enxergar outros políticos ou outras pessoas. Pensa que o mundo gira em torno do seu umbigo. Um amante vaidoso não percebe os desejos do seu amor. Preocupa-se apenas consigo mesmo.

Um amigo vaidoso tem dificuldade de prosseguir na amizade. Abraçar-se a si mesmo é como não abraçar.

Evidentemente, estamos falando sobre a vaidade – vício. Sobre a doença. Sobre a ausência de humildade, de comedimento. Há aqueles que se envaidecem na medida certa pelas conquistas que exigiram muita dedicação. Não há mal algum nisso. O que se lamenta é o exagero. É a incompreensão diante do tempo e do envelhecimento, por exemplo.

Há beleza em todas as idades. Cuidados ajudam. Escravidões atrapalham.

Quem quer experimentar a liberdade precisa entender um pouco mais da vaidade, para dela se defender.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/11/2016

Onde mora o mal?

Dia desses, ouvi uma senhora comentando com outra que era insuportável ver as crianças vestidas para a festa de Halloween.

Havia algumas crianças assim à nossa frente. Ouvi algo como: “O demônio mora nessas festas”. Fiquei curioso com o desenrolar da história. Pareciam religiosas as duas. Falavam que o dia das bruxas não poderia ser de Deus. Insistiam na ideia de que o demônio estava por trás de tudo, além das questões de importar algo que não fazia parte da nossa cultura.

Dobraram a esquina e eu prossegui o meu caminho. As crianças ainda estavam à minha frente. Felizes. Brincando. Usando a palavra para afagos e bons comentários. Fiquei pensando, “será que o demônio mora nessas crianças ou nessas festas?”. Não quero entrar em detalhes sobre a origem ou o significado da festa de Halloween ou de qualquer outra festa desta ou daquela cultura. Nem nas crenças daquelas duas senhoras que pareciam expelir ódio ao falarem. Religião para mim sempre foi religação. Reencontro com o amor, com a felicidade.

Mas, decididamente, não posso acreditar que o demônio faça morada naqueles espaços. Há outros muito mais propícios a ele.

Ele mora na guerra. Nas “guerras santas”, inclusive. No assassinato de crianças inocentes desligadas da vida por religiosos fundamentalistas. Mora no ódio incontido de quem se julga superior por qualquer razão. Mora nos horrores da escravidão. Da de ontem, que por aqui tanta dor causou, e, na de hoje, em que persiste, teimosas, maltratando as gentes. Há tantas pessoas que são assassinadas brutalmente, porque ferem alguns princípios que uns julgam mais valorosos do que a vida. Basta fazer uma breve pesquisa sobre a morte de cristãos em muitos países do Oriente Médio. Cenas chocantes de pessoas que são assassinadas por não renunciarem à fé em Jesus. Há grupos radicais islâmicos matando seus irmãos islâmicos, porque alguma razão parece mais importante do que a vida.

O demônio mora no homem que estupra a mulher em qualquer lugar do mundo. Na dor daquela mulher. Na humilhação. No sentimento de superioridade do homem. E, talvez, até na aceitação dos que cruzam o braço.

O demônio mora na mentira, na dissimulação, na trama para destruir o outro em nome do poder ou de qualquer outro sentimento. A vingança também é uma boa morada.

O demônio mora na humilhação. E há tantos que, por qualquer razão que pareça maior do que a vida, teimam em olhar o outro de cima para baixo. O dinheiro, o poder, o sobrenome, a origem, não há nada que justifique a superioridade de um em detrimento do outro.

O demônio mora na injustiça. Os invisíveis se multiplicam. São um estorvo para os que só querem ver o que decidiram chamar de beleza.

A beleza é onde mora Deus. A beleza é irmã da bondade. Não vivem separadas em nenhuma circunstância. É belo perceber a diversidade do mundo e respeitar mesmo o que somos incapazes de compreender. É bom nos esforçamos para diminuir a dor dos que sofrem para lançar luzes onde as trevas continuam existindo.

Não quero falar mal daquelas senhoras até porque julgá-las por algumas frases não seria correto. Mas nelas não vi luz. Vi nas crianças. Que iam brincar. Que iam animar a vida. Que iam dizer que juntos tudo fica mais gostoso.

O tema de Deus e do demônio sempre incomodou os estudiosos da filosofia e das religiões. Aqui, não temos tempo para nos aprofundarmos tanto sobre isso. Mas temos tempo de dizer. Onde há amor, não há como demônio nenhum habitar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 06/11/2016

Sobre os mortos

Dia 2 foi dia de finados, dia dos mortos. Feriado. Dia para se lembrar dos que se foram. Para se lembrar da morte. Lembrar-se da morte para quê? Não é sufocante lembrar da morte? Tem gente que prefere não passar perto de cemitério e sai com a justificativa de que “quem não é visto não é lembrado”. Tem gente que prefere não pensar o que virá a acontecer quando a vida resolver deixar de estar.

Pensar na morte tem a sua necessidade e a sua importância. Primeiramente, porque não há como decidir dela se livrar. Ela virá. No tempo que não nos foi dado conhecer. Nem mesmo alguns médicos que teimam em prever o dia do fim conseguem saber. E, depois, porque pensar na morte nos ajuda a compreender o poder que não temos. Somos frágeis. Um sopro, apenas, e a vida se cansa. E nem temos tempo para despedidas. Um passo em falso. Uma doença desnecessária – há doenças necessárias? Um acidente. E há tantos deles por aí. E a morte chega.Viver lembrando a morte nos ajuda a matar em nós tudo aquilo que nos rouba a vida. Ladrões de sonhos, de serenidades, de liberdade. Ladrões de corações. Ladrões de paz. De uma paz tão necessária, inclusive, para que vivamos mais e melhor. Brigas ali e aqui. Disputas. Arrogâncias. Ódios acumulados. Bobagens que nos trazem uma bagagem pesada para viver.

O poeta Quintana dizia: “A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim…”. O fato é que ninguém sabe quando e como será. O que se sabe é que o fim virá. É preciso lembrar isso. E não depende de nós. Depende de nós, entretanto, matar o que nos mata antes de morrer. Lembrar-se dos que se foram e conviver com a bela saudade. Chorar, se necessário. E prosseguir. Cultuando a brevidade da vida como uma oportunidade de celebrar cada instante. Nenhum deles volta. Nenhum deles se repete. Viva a vida. Mesmo sabendo que dura pouco.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/11/2016

Alegria sobre três patas

Não sei bem a raça do cachorro que vi passeando com sua dona. Não sei se tem pedigree. Não sei nada da vida de ambos – a mulher e o cachorro.

Eu estava correndo, quando vi a alegria daquele pequeno cachorro com três patas. Ele saltitava chamando sua dona para continuar a caminhada. Latia. Reclamava, talvez. Tinha pressa de viver. Tinha vontade de sentir outros cheiros, de encontrar outros companheiros que, por aquela via, também passeavam.

O dia estava bonito. Os dias são bonitos quando estamos bem. Pessoas corriam. Outras caminhavam. Algumas conversavam. Outras ouviam alguma canção. Canções nos remetem a tempos e a pessoas. Histórias que, algum dia, vivemos ou gostaríamos de tê-las vivido. Os pensamentos também correm.

Continuei observando o cachorro, enquanto diminuía o meu ritmo. Encontrou um outro, um pouco maior. Era fêmea. Ele, macho. Menores possibilidades de disputas, de brigas. Cheiraram-se. Ameaçaram pular um no outro. Brincaram e se despediram, forçosamente, já que os seus donos continuavam a caminhar. Entre os cachorros, nenhum comentário sobre a ausência de uma das patas. A cadela pareceu nem ter reparado. Depois, ainda vi o encontro entre ele e um filhote. Risco menor ainda de alguma contenda. Os cachorros maiores respeitam os filhotes. Há uma lei que não precisou ser escrita e a que todos eles obedecem. Não podem brigar. Podem e devem brincar. Rolaram-se no chão. Abraçaram-se à sua maneira. Lambidas e partida. E nada de perguntas sobre a ausência da pata.
A dona comprou uma água de coco. Dividiu com o seu cachorro que não cabia em si de tanta gratidão. Olhavam-se com cumplicidade. Sabiam quanto eram importantes um ao outro.

O que vi termina aí.

O que imaginei foi além.

O cachorro sofreu um acidente? Teve alguma doença? Teve a pata amputada? Nasceu sem uma pata? O que importa? Alguém resolveu cuidar do bichinho. Dar a ele o direito de viver com as patas de que ele dispunha. Passear com ele. Permitir que ele pudesse fazer companhia. Brincar de viver. De viver sem os pesos e sem as responsabilidades das comparações. Quem tem cachorro sabe do que estou falando. É bom chegar em casa e ser recebido com festa. É bom sentir-se importante quando, por exemplo, arrumamos a mala e eles nos olham com olhares que podem significar – “De novo? vai viajar novamente? E eu?”.

Não se importam se erramos ou acertamos. Se nossos “pés de galinha” já chegaram para ficar, se engordamos um pouco ou se emagrecemos, se o que esperávamos não vai chegar. Não importa se o dia está mais nublado ou se há sol em abundância. Percebem eles nossas tristezas. Certamente. Se, por um lado, eles não se preocupam com as aparências, preocupam-se com os nossos sentimentos. Uma pata a mais ou a menos não merece tanta observação. Uma lágrima que cai merece uma brincadeira surpreendente, um deitar-se pedinte. As carícias que dispensamos a eles nos abastecem de companheirismos.

Alguns criticam que há pessoas que cuidam melhor dos cachorros que dos humanos. Eu discordo. Cada um tem o seu espaço. E, se somos capazes de desenvolver nossa sensibilidade com os animais, faremos o mesmo com maior facilidade com os humanos. O inverso também é verdadeiro. Quem agride um tem maior chance de agredir o outro.

Terminei a corrida. Fiquei com a imagem daquele cãozinho. E de sua alegria. E dos outros que o encontraram e o festejaram do jeito que ele é. E da sua dona. A mulher que com ele dividiu sua água. Ela tinha os pés e as mãos. Mas, certamente, como todos nós, também tinha suas ausências.

Era definitivamente um dia bonito.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 30/10/2016

O silêncio e as eleições

Muitas cidades no Brasil voltam às urnas no domingo. Como no primeiro turno, há pouca movimentação. E mais uma vez as abstenções, os votos nulos e brancos podem ser os vitoriosos. O que leva alguém a não votar ou a anular o voto ou a votar em branco? Um protesto? Um silencioso protesto? As cidades assistiram a debates entre os candidatos. Acusações têm sido mais fortes do que propostas. O eleitor olha, não se sente representado e fica em silêncio. Qual a razão dessa apatia? O excesso de partidos, a falta de debates democráticos entre eles, a ausência de causas, de bandeiras, de sonhos?

O que é a política, afinal? A palavra vem de “polis”, cidade. Do cuidar da cidade, do melhorar a cidade, do fazer com que a cidade seja cada vez mais do cidadão. De todos os cidadãos. O que me leva a votar neste candidato ou naquele ou a não votar? Terá a mídia alguma responsabilidade nessa apatia? Dificilmente boas práticas das gestões públicas são divulgadas. Práticas que, independentemente de quem as executa, poderiam ser replicadas em outros cantos. Não que não se deva criticar as ações dos que ingressam na área pública. Mas e o outro lado? E os que trabalham com a consciência de que ocupam cargos para melhorar as cidades e os cidadãos? Criminalizar a todos, diminuir a todos, contribui para quê? Serão todos os políticos frutos de uma mesma árvore de oportunismos e desonestidades? A generalização é um caminho para a injustiça. E para o silêncio. Há muitos com muitos talentos que contemplam o cenário e decidem: não quero fazer parte desse espetáculo. Não quero colocar em risco a minha vida, a minha reputação por algum fabricador de dossiês. E há outros que tendo participado decidem sair. Querem a liberdade de caminhar por outros caminhos. De conviver menos com as injustiças e as hipocrisias. E a política perde com isso.

Há o bom silêncio, o que leva à tomada consciente de decisão. Depois, é preciso agir. Ou isso ou a política será ainda pior amanhã.

Um doce para digerir

Era final de um almoço e ela pediu um doce. Disse, justificando: “Doce é bom. Ajuda na digestão”. Eu discordei dando algum espaço para alguma explicação. “Doce ajuda na digestão? Imagine! Pelo contrário. Doce acumula gordura. Doce tem calorias. Doce engorda. Bem, a não ser que tenham descoberto alguma nova teoria. Descobriram?”. Perguntei e um filme passou pela minha cabeça de tantas teorias surgidas e desaparecidas que criaram mitos na alimentação. O ovo, por exemplo, já foi vilão antes de ser o queridinho dos que querem um corpo escultural. A manteiga e a margarina. As misturas proibidas e depois liberadas de alguns alimentos. Ah, lembrei até do leite com manga. Alguns se contorciam de medo das reações quando viam um desavisado tomar suco de leite com manga. E os regimes inusitados. O da Lua. O do limão.

“Teoria?” – ela perguntou, interrompendo minha viagem, mas também viajando. Olhando ao longe. Não era, na verdade, uma pergunta de alguém que buscava uma resposta. Era uma tentativa de revelação. “Queria entender alguma teoria que me explicasse as escolhas erradas que eu fiz na vida”. E foi assim que, antes do doce, ela revelou o seu amargor.

O marido não tinha escrúpulos em humilhá-la. O tempo cobrou o seu preço. Ela já não era a menina que o conhecera em um jogo de tênis. Não sei sua idade. Ela não revela e não acho necessário perguntar. Pois bem, entre pausas e soluços, ela disse do medo da solidão, do medo de buscar outra vida, sem as humilhações, do medo, inclusive, de não saber o que fazer sem elas. “Os meus seios não são os mesmos de quando nos conhecemos”.

Contou-me dos 3 filhos. Falou que agora cada um vivia as suas escolhas. Estavam apenas os dois em casa. Ela e o marido. Ela e o marido e os monstros das comparações. Diz o marido que não tem desejo por ela. Que seu corpo perdeu todos os atrativos. Enquanto fala, arruma o cabelo e se olha no espelho que esta atrás da poltrona em que estou sentado. Eu digo que a acho uma mulher muito bonita. Ela não dá ouvidos e prossegue. “Ele faz piadas com os amigos sobre mim. Diz coisas que me depreciam. E eu rio. Rio de tristeza. Rio de medo. Rio de vergonha”.

“E os filhos?”, pergunto. Ela explica que não sabem, que não têm tempo para observar, que estão distantes. Ela fica distante. “Ele já me bateu. Ninguém sabe. Foram poucas vezes. Mas ele me bateu”.

Ficamos em silêncio.

Entro no assunto da atitude covarde e criminosa. Das delegacias em que mulheres podem contar o seu martírio. Ela me interrompe e diz que decidiu nada fazer porque não deveria ter sido feito e que ela tinha as suas razões. Olha, novamente, no espelho. Passa o dedo pelos olhos, buscando as rugas. Volta a mexer no cabelo. “Há muito tempo que sou infeliz. Não acredito, aliás, em felicidade”. Tento discordar, mas ela me lembra que sou jovem demais para compreender. “Eu já fui apaixonada por ele. Já senti muito prazer. Já sonhei com uma velhice terna”. Mais uma vez no espelho. Agora estica um pouco a pele. “Não tem volta. Se tivesse volta, eu teria sido mais cuidadosa. Eu deveria ter impedido que ele começasse a me destratar. Agora é tarde”.

Eu fico um pouco mais enfático para não ser interrompido como nas outras tentativas e insisto que nunca é tarde para escolher outro caminho, para deixar quem merece ser deixado, para dizer a si mesmo que a vida é curta para ser desperdiçada. Ela ri da minha ênfase e diz que gostaria de ser novamente jovem. Eu digo que as pessoas vivem mais.

“Ontem, ele me disse, com aspereza, que eu o incomodava com minhas histórias intermináveis”.

Ela me diz que realmente tinha lindos seios. E eu digo que os seus seios agora têm muito mais histórias dos que os seios de antigamente. Ela os toca com algum carinho. E ri. Eu digo que espero ainda ter o prazer de comemorar sua alforria.

“Alforria?”

Chegou o doce. Ela olhou aquele doce com tanto prazer, com tanta necessidade, que me arrependi de minhas teorias nutricionais.

“Como é bom um doce para digerir”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/10/2016

O ódio na rede

A rede informacional vem mudando nossas formas de relacionamento. As românticas cartas deram lugar aos e-mails que deram lugar às mensagens em facebook, twitter, instagram, entre outros. Os pagamentos feitos em agências bancárias deram lugar à agilidade de transferências online. As pesquisas nas velhas enciclopédias foram perdendo espaços para o google. E outros tantos caminhos poderiam ser visitados. Na medicina. Nos laboratórios e na fabricação de remédios ou carros. Nas planilhas de custos. Nos projetos. Nas escrituras de livros ou de quaisquer outras informações. Na comunicação com o outro – facetime, whatsapp, messenger – e na relação com o conhecimento.

Mas essas conquistas trazem problemas. E muitos. Há um deles que vem chamando a atenção de pesquisadores do comportamento humano. O ódio na rede. O ódio na internet. Sempre ouve atiradores de pedras. Alguns se revestindo de poder religioso, outros na clandestinidade de algum grupo radical, outros no criminalidade pura de um nada puro jeito de se dar bem na vida. As pedras na internet, ou o ódio, são facilmente observáveis. Em uma notícia em um site qualquer sobre qualquer assunto, geralmente há, nos comentários dos que o visitaram, mais ódio do que generosidade. Nas discordâncias ideológicas em redes sociais, há agressões inimagináveis. Muitas anônimas. Covardemente anônimas. O ódio ao que ou a quem nem se conhece. Bauman, o sociólogo polônes, chama a isso de “ativismo de sofá”, pessoas fechadas em suas zonas de conforto que usam a rede não para unir nem para ampliar seus horizontes, mas para buscar ecos de suas vozes, reflexos de seus pensamentos: “As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha”.

Tempos perdidos de quem passa tempos a expelir o seu pior. Há tratamento? Sem querer respostas apressadas, uma mera sugestão. Saia do mundo virtual, entre no mundo real e ajude alguém. A generosidade tem o poder de transformar humores e comportamentos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/10/2016

O professor e Drummond

Um amigo meu, Carmo, contou-me esta história. Carmo não é seu primeiro nome, nem o último. É o nome do meio. “No meio do caminho havia uma pedra”, explicava Drummond. No meio de tanta gente, havia um professor. Sempre há um professor. Este, o professor do Carmo, gostava de poemas, gostava de Drummond. Certa feita, explicava o professor, ele mandou alguns de seus rabiscos para o poeta maior. Enviou em folhas brancas preenchidas com sua letra. Nada de máquinas de escrever ou de computador. O poeta merecia ler os seus textos inéditos. Evidentemente, ele os copiou. Guardaria no caso de uma publicação. Era um professor do interior. E, do seu interior, nasciam letras e palavras e frases. Pois bem, revela o meu amigo que o dito professor gostava de contar sua história com Drummond. Explicava ele com detalhes que demorou muito a se decidir se enviava ou não a tal carta com os tais poemas. Conseguiu o endereço do poeta. Investigou para saber se ele mesmo costumava ler as cartas que recebia. Quis saber de alguém se alguém já havia recebido alguma resposta. As informações eram vagas, mas ele decidiu prosseguir. E mandou. Lá se foram os dias de comedimento e a inauguração da ousadia. O maior poeta vivo haveria de ler, enfim, os seus poemas. Ficaria ele surpreso? Ficou relendo o que Carlos Drummond escrevera quando pela primeira vez leu o texto de Cora Coralina:

“Cora Coralina.

Não tenho o seu endereço, lanço estas palavras ao vento, na esperança de que ele as deposite em suas mãos. Admiro e amo você como alguém que vive em estado de graça com a poesia. Seu livro é um encanto, seu verso é água corrente, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais. Ah, você me dá saudades de Minas, tão irmã do teu Goiás! Dá alegria na gente saber que existe bem no coração do Brasil um ser chamado Cora Coralina. Todo o carinho, toda a admiração do seu. Carlos Drummond de Andrade”

O professor contou que a resposta do poeta veio. E veio delicada. Não quis revelar os entremeios do que disse. Apenas falou do início e do final. O início começava com “Estimado professor” e, a seguir, elogios à nobre profissão de quem semeia amanhãs. E, ao final, encerrava, antes da assinatura, com um carinhoso “abraços saudosos”. “Abraços saudosos”, repetia o professor.Insistia que era muita honra essa distinção. “Abraças saudosos” significaria, escreva-me mais, continue com sua obra poética, não me esqueça. O professor dizia e se emocionava.

Os alunos nem sempre são inocentes. O professor poeta já não gozava de boa memória. E não se sabe o tempo que a tal missiva de Drummond o havia emocionado. Quando o professor entrava na sala de aula, algum aluno o interpelava perguntando: “Professor, é verdade que o próprio Drummond lhe escreveu uma carta?”. O professor enchia-se de orgulho e com modéstia iniciava: “Eu não contei para vocês? Não conto para não me gabar, mas foi verdade, sim. E sabe como ele terminou a carta? Abraços saudosos, abraços saudosos” E lá iam detalhes e mais detalhes da dúvida em enviar, do envio e do recebimento da carta do poeta.

Quando os alunos inquiriam sobre novas cartas ou sobre a publicação dos poemas, o professor olhava ao longe, dava uma pausa, e prosseguia o ofício. Carmo não gostava do que os alunos faziam. Tinha vontade de dizer ao professor que ele contava a mesma história toda a aula. Mas vivia em dúvida. Era tanta felicidade daquele velho mestre em contar o seu dia de glória, ao abrir a tal carta, que, talvez, não tivesse ele o direito de endireitar as coisas. À esquerda daquele peito, um coração batia feliz, por um tempo que talvez tivesse existido. Algumas vezes, ele terminava a aula com um poema seu. Eram bons, revela Carmo. Outras, dizia algo de Cora Coralina ou do seu amigo Drummond. E se emocionava como só acontece a um poeta.

Cartas são objetos não tão comuns. Professores prosseguem com seus saberes e com suas ausências. São humanos, afinal.

Ontem, foi dia do professor. Histórias como estas preenchem cada canto deste país. Mulheres e homens se desnudam para cobrir de futuro os alunos. Aos meus irmão de ofício, o meu respeito, o meu carinho.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 16/10/2016