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Brasileiros na Feira do Livro de Frankfurt

Fui convidado para dar uma palestra na Feira de Frankfurt, a maior feira literária do mundo. Foram convidados pelos organizadores da Feira, apenas três brasileiros: Paulo Coelho, Walcyr Carrasco e eu.

Paulo Coelho ponderou sobre o futuro do livro e sobre a necessidade de o mercado editorial compreender melhor o mundo tecnológico e as novas possibilidades de leitura: os tabletes, os celulares, o livro em meio digital. Falou com a autoridade de um autor que já vendeu 165 milhões de exemplares em todo o mundo.

Walcyr Carrasco falou sobre a mente criativa do ficcionista. Discorreu sobre a gênese da personagem. Com muito humor, trouxe histórias do cotidiano que inspiram o escritor de ontem e de hoje. Trouxe Flaubert e Machado de Assis para explicar como os temas que agradam ao leitor se repetem e como a vida e a arte se misturam.

Eu palestrei sobre a semiótica na sala de aula e a formação dos novos leitores. Acredito, profundamente, que, apesar de todo o aparato tecnológico que nossos tempos oferecem, o livro sobreviva, assim como  a milenar arte da contação de histórias. Sobrevive o professor. Máquinas não têm alma. Professores têm. Alunos precisam de alma. De cumplicidade.

Falei de muitos autores brasileiros, mas aproveitei a oportunidade para usar Goethe, o gênio da literatura alemã, como exemplo. Goethe tinha uma mãe que lhe contava histórias antes de dormir. E que dele omitia os finais, deixando-o curioso para o dia seguinte. Como Sherazade fazia para amolecer o coração cheio de ódio de seu marido, o Sultão. Com um repertório incrível, durante mil e uma noites, ela emendava uma história na outra para prender a atenção de seu interlocutor e se manter viva.

Contadores de histórias alimentam almas e mentes. Os pais deveriam ser os primeiros contadores de histórias. De histórias nascidas da literatura universal e de histórias de suas próprias famílias. A voz da mãe, a voz do pai, enchem de futuro os seus filhos.

Preocupo-me com o excesso de tecnologia no processo educativo. Tudo o que é em excesso faz mal. O meio-termo aristotélico é sempre um bom aprendizado. Se os aprendizes têm novas possibilidades de pesquisa com a internet, têm, igualmente, necessidade de diálogos parecidos com o que o Sócrates tinha com seus discípulos, em épocas que nem lousas ou cadeiras faziam parte da relação de ensino-aprendizagem, quanto mais os computadores.

Sócrates contava histórias. Jesus Cristo contava histórias. Shakespeare contava histórias. Mandela, para convencer o seu povo a trocar a luta da segregação pela edificação do oráculo da paz, contava histórias.

Por que alguém compra um livro? “Para o entretenimento e para o conhecimento”, respondeu Paulo Coelho na Feira de Frankfurt. Entreter, conhecer, verbos que condizem com o nossa trajetória. Educar, também. Tudo educa. Até os exemplos ruins nos educam quando temos capacidade de discernir.

Há alguns que se preocupam muito com uma literatura que venha a agredir o que é considerado “politicamente correto”. É preciso ter prudência. O “politicamente correto” muda muito. A literatura, não. O que é descartável são os livros que têm por objetivo ajudar a resolver problemas pontuais. Os clássicos ficam. Quando Monteiro Lobato cria a sua “Negrinha”, não o faz para ajudar a propagar o preconceito, ao contrário, coloca-se como uma voz capaz de revelar o sofrimento dos negros, o horror do racismo que, muitas vezes, tenta se disfarçar de bondade, da mesma forma que Machado de Assis faz em “Pai contra mãe”.

Livros semeiam ideias, ampliam horizontes, fazem nascer desejos, acalentam solidões.

A Feira de Frankfurt é um mundo complexo e gigante. Países de todos os cantos do planeta mostram a face iluminada de sua literatura. Escritores, editores, ilustradores, livreiros, artistas de um fascinante universo conversam sobre o presente e o futuro do livro. Milhares de palestras e de eventos nos abrem a mente para o que cada um, em sua língua, em sua cultura, faz para que o livro tenha o destaque que merece.

Walcyr Carrasco, autor de dezenas de livros, mas também de novelas marcantes que quebraram tabus e abriram possibilidades de um mundo menos perverso com os diferentes (somos todos diferentes), insistiu na ficção que nasce da intenção amorosa de melhorar o mundo.

O Brasil foi o país homenageado na Feira de Frankfurt de 2013. Este ano, foi a Finlândia, país modelo em educação. Revelam eles, com orgulho, o quanto seus professores e alunos leem. O quanto a arte desenvolve a sensibilidade e a capacidade pessoal e profissional. Na educação, formamos o nosso futuro. Que seja menos violento, menos preconceituoso, menos injusto. Que os livros ajudem as pessoas a conviverem melhor. Essa é a verdade que tenho como escritor. Escrevo para revelar minha opção pela esperança. Escrevo porque acredito no ser humano. Quando um livro é lido, uma janela se abre. Vamos abrir as janelas da liberdade. Vamos abrir as janelas da generosidade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/10/2014

Chalita fala sobre educação e leitura na mais importante feira literária do mundo

A Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, é o maior evento literário do mundo. Todo ano, milhares de livreiros, editores, autores e leitores movimentam o universo da leitura e fomentam o diálogo cultural entre os países durante o encontro. Na edição deste ano, o professor Gabriel Chalita, membro da Academia Paulista de Letras, além de participar de apresentações culturais intermediadas pelos organizadores da Feira, ministrou uma palestra sobre “A semiótica na educação e o desafio da formação de novos leitores”. Inicialmente, Chalita destacou três elementos essenciais para que se alcance uma educação de excelência: a valorização do professor, o engajamento familiar na escola e a melhoria do currículo escolar.

Além disso, afirmou a importância da liderança do professor no processo efetivo de aprendizagem e no desenvolvimento das habilidades cognitivas, sociais e emocionais dos alunos. O professor é a alma da educação. Sua missão é gerenciar sonhos, lapidar diamantes. Segundo Chalita: “Educar é abrir as janelas de possibilidade. Educar é garantir, a cada estudante, o passaporte para o futuro, com autonomia e liberdade.” E se a escola deve preparar crianças e jovens para a vida e para a cidadania, é fundamental instigá-los e envolvê-los no universo do conhecimento, além de proporcionar uma atmosfera favorável a emoções e vivências positivas. Nesse contexto, os professores e a literatura ocupam um espaço essencial, porque “é o professor que fará, com dignidade e respeito, com que a educação se transforme em puro prazer de viver.”. De acordo com Chalita, contar histórias é uma das melhores estratégias para desenvolver nos alunos o gosto pela literatura. E a literatura é uma das melhores maneiras de desenvolver nos estudantes os valores fundamentais para construir uma vida feliz. “Medo, coragem, paixão, amor, sofrimento, honestidade, desonestidade, justiça e injustiça, crueldade e generosidade. Tudo isso pode ser vivido nas páginas dos livros.”

Juntamente com mais seis escritores brasileiros, Walcyr Carrasco, Paulo Coelho, Bernardo Kucinski, Eduardo Spohr, Ana Martins Marques e Edney Silvestre, Chalita segue acompanhando a programação da Feira de Frankfurt.

Fonte: Assessoria de Imprensa

O Brasil na feira de Frankfurt

O Brasil é o país homenageado na maior feira literária do mundo. A feira de Frankfurt, na Alemanha, recebe editoras de todas as partes do planeta. Escritores desfilam entre livros. Há lançamentos, palestras. Negócios são firmados. E a palavra é a estrela principal. 

O Brasil foi homenageado em 1994. E, agora, novamente. Tive a honra de estar com os escritores brasileiros, meus irmãos, vivendo a fascinante experiência de conhecer um pouco o que o mundo anda produzindo, em matéria de literatura, e de descobrir o interesse que nós, brasileiros, despertamos nos outros países. O Brasil tem grande potencial. É um continente, que apesar dos numerosos problemas sociais, políticos e estruturais, vem melhorando e vem assumindo o seu papel de destaque diante das outras nações do mundo. Não somos mais apenas o país do futebol e do carnaval, embora essas manifestações também nos enriqueçam. 

Vi com orgulho o ministro das relações exteriores da Alemanha citar Clarice Lispector e Jorge Amado. 

Vi escritores consagrados como Patrícia Melo ser homenageada, pela mesma Alemanha, pelo conjunto de sua obra. Vi Mauricio de Sousa entre livros infantis. Ignácio de Loyola Brandão contando os seus ‘causos’ em tantos encontros entre pessoas e palavras. Vi editores ávidos por traduzir nossos autores. Vi também escritores pouco conhecidos que lutam para produzir os seus trabalhos e fazer com que o mundo possa conhecer suas ideias. Valorosos operários da palavra. Filhos da coragem, e pais da decisão de fazer de escrita um norte de vida.

Temos muito o que fazer pela educação e pela cultura em nosso país. A injustiça social faz com que nossos talentos sejam desperdiçados. Mas, se há muito a criticar e a melhorar, que saibamos também comemorar. E essa conquista vale a pena ser registrada. Entre tantas nações, nós, brasileiros, fomos o centro da maior feira literária do mundo.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/10/2013