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O futuro do meu filho

Em uma universidade, pai e filho sentam juntos na mesma sala. Resolveram cursar engenharia. Já estão no terceiro ano. O pai sempre foi ausente. A bebida roubou-lhe o convívio. As agressões eram constantes. Um dia, a mãe partiu e levou os filhos. O pai não se importou. Melhor assim. Já não gostava daquela mulher que se tornara resmunguenta, na sua opinião. Virou uma espécie de acusadora.

Queria que ele escolhesse entre ela e a bebida. Isso o importunava. Não se exigem escolhas alheias. Isso os afastava. Os tempos de desejo eram passado. Vez ou outra, ele agia com alguma violência para demarcar território. Que história é essa de mulher dizer a ele o que deveria ou não ser feito? Deu de ombros à partida da mulher. Não haveria de encontrar outro homem e voltaria, decidiu ele.

O tempo passava e ela não voltava. A solidão o incomodava tanto ou mais que a presença daquela incômoda. Tentou a reaproximação. Não teve sucesso. Acusou-a de ingrata. Vomitou xingamentos de toda ordem. Deve haver algum homem. Mulheres não são fiéis. Fingem companheirismo, mas ao primeiro espaço preenchem sem se importar com o que viveram. E foi dizendo. As palavras eram desconexas. Acusações e humilhações. Ela resistiu. Sabia que os filhos adolescentes ouviam. Havia trabalhado o dia todo. Estava cansada. Mas resistiu. Na sala, só a voz dele se ouvia.

Foi quando o menino saiu do quarto. Olhou para o pai e pediu que ele fosse embora. Que ele roubava a paz. As duas filhas eram menores e tinham medo. Ele deu um tapa no rosto do filho e partiu. O tempo passou. O filho cresceu um pouco. E se encontraram novamente. Em um bar. O pai estava bebendo quando o viu numa briga. O filho havia bebido também. Sangue jorrava de uma fresta aberta pouco acima do olho. O filho estava tonto. Ele tirou os curiosos e abraçou o filho. O filho parecia não reconhecê-lo.

Foram juntos ao hospital. Ninguém acreditaria que o pai, naquele estado, pudesse cuidar do filho. Alguns pontos, alguma costura, alguns cuidados e o menino podia voltar para casa. O pai o levou. Falaram pouco. A mãe não estava. Estava trabalhando. O filho dormiu. O pai olhou para ele e jurou que mudaria de vida. “O futuro do meu filho depende de mim”, entendeu ele. Adormeceram juntos. Chegou a mãe e não entendeu. O pai chorou. Chorou muito. O filho acordou assustado. Falaram tudo o que pouparam nos anos de pouca convivência. O menino já era homem. Escolheu uma vida errática. O pai pediu que convivessem novamente.

E aconteceu o que eu presenciei. Pai e filho em uma sala em uma universidade. Deixaram a bebida. O menino, depois de alguma dificuldade, deixou as drogas. E o futuro apareceu. O relato foi emocionante. O pai voltou para casa. A mulher demorou a aceitá-lo, demorou a acreditar em recomeços. Ainda o amava, mas temia as recaídas. Nunca houve recaída. A visão do filho caído, sangrando. A visão de um futuro sem futuro. A visão de sua ausência perigosa fez dele um pai. Disse o filho que o pai é muito estudioso. Disse o pai que o filho é mais rápido do que ele para aprender. Disse o filho que o pai virou um homem muito romântico. Disse o pai que o filho é bonito como a mãe. E foram os dois falando sobre os dois.

E eu fiquei imaginando a força dos laços humanos. As reconstruções que são possíveis quando há amor. As duas irmãs pretendem cursar a faculdade no próximo ano. São gêmeas. O pai ainda me disse que não teve pai. Que o perdeu quando tinha 5 anos. A mãe cuidou dele sozinha. Entre trabalhos e problemas. Disseram que me convidariam para a formatura. E pediram que eu autografasse um livro para a mãe, para a mulher. “Escreva, por favor!”, pediu ele, “Para a mulher mais linda do mundo” O filho sorriu. Feliz por viver outro tempo com um outro pai. Eu escrevi. E escrevo em homenagem aos que caíram e que conseguiram se levantar para cuidar de alguém.

O dom das lágrimas

Dia desses, ouvi uma mãe explicando ao filho que “homem não chora”. O menino de três ou quatro anos fazia de tudo para não chorar, mas não conseguia. Passava os bracinhos miúdos sobre os olhos que insistiam em gotejar, tentava limpar o nariz, que também participava da dor, e nada. E a mãe agia com mais vigor, alertando : “você é um homem. E homem não chora!”.

Quem será que criou essa teoria?  Quem separou o gênero humano entre aqueles que podem e aqueles que não podem chorar? Homem chora, sim! Homem é razão e emoção como a mulher. Homem chora de dor,  de saudade, de felicidade. Homem chora as dores da alma,  é um direito inegável a qualquer ser humano. Jesus chorou diante do sofrimento da família de Lázaro. Sabia que tinha o poder de ressuscitá-lo, mas a situação daquelas irmãs inconsoláveis diante da perda o emocionou, e ele chorou. Uniu-se à nossa humanidade e chorou. 

Na educação dos filhos, não poucas vezes, as famílias cobram de uma criança a postura de um adulto. Criança é criança. Tem inseguranças próprias de criança. O adulto tem as suas. Os medos talvez sejam diferentes. Mas todos têm medo. Meninas e meninos também têm diferenças como as mulheres e os homens. Mas têm muito em comum: choram, emocionam-se, amam. É para isso que fomos criados. 

Fiquei imaginando por que aquele menino estava chorando. E fiquei pensando nos erros que algumas mães e pais cometem quando querem transformar os seus filhos em heróis. Os pais não são heróis. Por que os filhos haveriam de ser? 

Vez ou outra, é necessário sentar-se diante de um filho e chorar com ele. Pai ou mãe. Contar alguma história das tantas pedras que surgiram no seu caminho. Mostrar os fracassos e as possibilidades de superação. Porque os seus filhos passarão por histórias de fracassos, também. Todos passam. E o problema não será a queda, será a ausência da aprendizagem de que quem está caído pode se levantar. E pode chorar quando da queda. E pode chorar quando da superação da queda.

Meu pai chorava muito de emoção. Ele se foi. Minha mãe ainda chora. E eu choro também. De dor, de tristeza, de alegria. Em casa, nunca tivemos constrangimento em chorar. Nas partidas ou nas chegadas. Como é bom viver sem máscaras. Como é bom ter uma família que nos ajude a viver sem ter medo das nossas emoções. Na minha casa, sempre fomos muito unidos. Em todas as situações. Meus pais me ensinaram a ter compromisso com a verdade. Não havia mentira entre nós. Se algo de ruim acontecesse, chorávamos todos juntos.

É essa a referência de “família” que permeia minha vida, minhas ações. Minha força. Meus sentimentos. Talvez por isso a reação daquela mãe tenha me causado estranhamento. Talvez por isso tenha escrito este artigo. Precisamos nos respeitar.  Somos todos passíveis de erros. Quem determinou que precisamos ser perfeitos e fortes o tempo todo? Fraquejar é humano. Chorar, também. Vamos nos permitir – como defende Clarice Lispector. Afinal, foi-nos dado um dom. O dom das lágrimas.

Respeito Muito o Homem que Chora

Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar. 
                                                                                

Clarice Lispector (1967)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/07/2015

O futuro de meu filho

Uma amiga me convidou para um jantar filosófico que, mensalmente, faz em sua casa. Convidou-me para falar sobre Kant e a ética dos costumes para cerca de 30 pessoas que haviam lido alguns textos do filósofo. A conversa foi agradável e as perguntas iam desde os temas da metafísica, das críticas da razão pura, até o dia a dia das famílias. Foi quando o assunto chegou à educação dos filhos. Um pai quis saber se era correto escolher a profissão dos filhos. Perguntou, já argumentando que era natural que um pai médico quisesse ter o filho médico, trabalhando com ele. Que o mesmo poderia ocorrer com uma família dona de uma empresa. Tudo seria mais fácil se os filhos dessem continuidade ao legado dos pais. Alguns concordaram; outros, não. Falamos como a teoria de Kant poderia nos inspirar: “Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal.” Age de tal modo que seu agir, se visto por outros, não lhe cause constrangimento. Isto é, faça o correto mesmo que ninguém esteja olhando.

A filosofia preocupa-se mais com perguntas do que com respostas. Uma das mães tentou ajudar. “Não tenho o direito de decidir o futuro de meus filhos. Já decidi o meu. Quero que eles tenham consciência para decidir o deles. Se forem médicos como nós, os pais, será ótimo. Se não forem, será ótimo também. O que quero, inclusive inspirada na teoria de Kant, é que sejam bons. Isso é o mais importante”. Que os filhos sejam bons. Inspirados em Kant ou, melhor ainda, nos pais. Os exemplos são combustíveis de vida. Garantem o mínimo para o percurso que teremos de cumprir. O resto fica para a nossa liberdade. Há muitos caminhos, há muitas possibilidades de exercitar o talento no mundo do trabalho. O mais importante é ser bom.

Na sobremesa daquele jantar, senti um gosto de esperança. Pais preocupados com filhos. Amigos exercendo a prosa filosófica para conviver com leveza. Retratos de um mundo que pode ser melhor. Se exercitarmos a bondade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/02/2015

O filho da mãe

A mãe é cozinheira em casa de família. Não pensa em aposentadoria, embora esteja perto dos 70 anos. Gosta do que faz. O filho único é advogado. Estudou em uma universidade particular paga pela mãe. Formado há alguns anos, tem clientes importantes. Veste-se bem. Mora em um bom apartamento. A mãe preferiu ficar no seu canto. Um canto distante do trabalho e da vida do filho. Não reclama. Comenta que o transporte público está melhorando. No percurso, tem tempo para pensar, para rezar, para agradecer a Deus por sua vida. Ficou viúva muito nova. Com um problema sério na coluna, quase morreu no único parto. Resistiu e resiste às dores que surgem. Sem lamentos, sem queixumes.

O filho não a visita muito. Diz que falta assunto, que vivem em mundos diferentes. Ele é casado, e a esposa acha estranho ter uma sogra cozinheira. E não acha bom que os filhos convivam com a avó. “Muito rústica”, na opinião da nora.

Conheci essa cozinheira. Sua patroa é um encanto e foi ela quem me contou a história do filho. Por acaso, eu também o conheço. Um dia nos encontramos em uma universidade e disse a ele que conhecera sua mãe. Ele corou, constrangido. Pediu-me que perdoasse a simplicidade dela. E buscou todo tipo de desculpas por ter nascido em um lar tão acanhado. Ouvi com tristeza e tentei ajudá-lo. Falei de meu pai que conheci empresário, mas que, antes, fora servente de escola e feirante, e que era profundamente simples. Disse que foi ele o maior mestre que tive na vida. Quisera eu ter a mansidão, a generosidade, a sabedoria de meu pai! Ele ouviu e falou que gostaria muito de tê-lo conhecido. Eu não desperdicei a oportunidade, “Sabe que sua mãe lembra muito meu pai?”.

Não os encontrei mais, mas conheço histórias semelhantes. Filhos que se envergonham dos pais, porque frequentam ambientes requintados, têm amigos importantes etc. Tristes árvores que negam as raízes. Sentimentos mesquinhos de quem pouco entende de sentimentos. Saudade de meu pai!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/11/2014