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A verdade e as miopias

Miopia é uma anomalia da refração ocular que faz com que a visão à distância seja comprometida. Falta nitidez, clareza, certeza na visão de um objeto.

O poeta Carlos Drummond de Andrade fala sobre a miopia em um belo poema em que descreve as dificuldades de encontrar a verdade.

A porta da verdade estava aberta


mas só deixava passar


meia pessoa de cada vez.



Assim não era possível atingir toda a verdade,


porque a meia pessoa que entrava


só conseguia o perfil de meia verdade.


E sua segunda metade


voltava igualmente com meio perfil.


E os meios perfis não coincidiam.



Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.


Chegaram ao lugar luminoso 


onde a verdade esplendia os seus fogos.


Era dividida em duas metades


diferentes uma da outra.



Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.


Nenhuma das duas era perfeitamente bela.


E era preciso optar. Cada um optou


conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(Drummond)

A verdade é profundamente desafiadora. Conhecer a verdade requer muito cuidado, muito respeito, muita determinação. Vivemos tempos fugidios, fluidos, pouco reflexivos. Acreditamos na primeira história que nos contam. Aceitamos, passivamente, a primeira impressão que alguém foi capaz de criar em nós. Não conhecemos e não gostamos de fulano. Não lemos e desprezamos o livro ruim de certo autor. Nunca o vimos e descrevemos com detalhes o que nos incomoda no outro. Não é estranho? Não é pouco racional termos opinião sobre o que não tivemos tempo de conhecer?

A informação rápida nos rouba, desprevenidos, a chance de nos aprofundarmos. Ouvimos uma notícia e, imediatamente, nos prostramos como seus servos necessitados de propagá-la. E o fazemos sem o crivo da verdade. Mas o que é a verdade? Como entrar por sua porta, como queria o poeta, e conhecê-la? Como fazer uma opção sabendo que os caprichos, as ilusões e a miopia nos acompanham nessas escolhas?

Vejam a responsabilidade que tem um juiz ao julgar, tendo como objetivo maior a concretização da justiça. A responsabilidade que tem um jornalista quando ouve um relato e precisa decidir se há verdade ou não. Quando sabe que, de seu teclar, vidas poderão ser atingidas. Um marido que fica sabendo da vida paralela de sua mulher. Será verdade? Quantas histórias de amor acabaram por interferências mentirosas de terceiros?

No domingo passado, fui assistir a um filme, “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos”, que traz o tema da verdade com um enredo muito bem escrito. Fui com uma amiga jornalista. Saímos e fomos prosear sobre a verdade. Fiquei feliz ao ver sua preocupação com a vida dos outros, com os erros que a imprensa comete quando descuida da ética e da perseguição implacável pela verdade. Quando o que perseguem é alguém, por interesses menores, pouco honestos. Porque, também na imprensa, há ausência de ética. Disse-me ela que os jornalistas deveriam  lembrar os sonhos que os motivaram a ingressar em uma profissão tão essencial para a verdade. Para a defesa dos que não têm voz. Para ser a porta aberta àqueles que, sozinhos, não chegariam a lugar algum. Enquanto nos alimentávamos da conversa e de uma boa massa, o garçom que nos atendia explicou que, “para falar a verdade”, o abacaxi, sobremesa que havíamos escolhido e perguntado se estava doce, não estava tão saboroso.  Eu brinquei dizendo que era bom saber que ali morava a verdade. Ele sorriu e disse que não adiantaria mentir, pois logo descobriríamos. Como é bom quando se tem a esperança de que a verdade não tardará a chegar. Quantas dores seriam evitadas, quantas injustiças seriam minimizadas com a sua chegada.

Míopes somos nós quando acreditamos em algo que não conhecemos. Quando nos convencemos, utilizando os argumentos mais duvidosos, apenas para insistir em nossa teimosia. É melhor não dar opinião do que opinar irresponsavelmente. No filme “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos”, os que optaram por uma vida errática não se deram bem. Prefiro acreditar que na vida real pode ser assim. Que o mal não vence o bem, que a mentira não prevalece sobre a verdade, que os que respeitam o outro acabam compreendendo que assim é que se faz para se ter felicidade, paz.
Viva a verdade. Quanto à miopia dos olhos, há remédio: cirurgia, óculos, lentes de contato. Já a miopia da alma, essa dá mais trabalho de curar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/07/2015

De mãos dadas

“O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. (Mãos Dadas – Carlos Drummond de Andrade)

Relacionamentos são a base da vida em sociedade. Relacionamo-nos o tempo todo, em todos os ambientes que frequentamos. Como somos diferentes, temos reações diferentes nos diferentes momentos da nossa vida. Não somos previsíveis. Mesmo quando repetimos alguns comportamentos, estamos expostos a surpresas e não imaginamos como vamos agir. Nos momentos em que os problemas não parecem tão significativos, conseguimos caminhar sem grandes percalços. Mas quando surgem as adversidades, somos, muitas vezes, vítimas de desejos que não controlamos com tanta facilidade.

Muitos pais se preocupam com a inteligência dos seus filhos. Alguns têm conclusões apressadas, comparando irmãos. Julgando que um filho é mais inteligente do que o outro, porque tem mais facilidade para essa ou para aquela matéria, ou porque é capaz de memorizar textos, ou números, ou dados. Estudos recentes descartam essa métrica de definição de quem é mais ou menos inteligente. As inteligências são múltiplas. E os múltiplos momentos da vida é que oportunizam suas manifestações.

Há uma base de conteúdos que se imagina necessária com a qual cada aluno, em cada etapa da vida, deve trabalhar. Nas diversas profissões também é assim. Há instrumentos que nos permitem trabalhar nesse ou naquele campo. Um médico precisa desenvolver habilidades e competências que nos deem segurança para uma intervenção cirúrgica, por exemplo. E, para isso, estuda com esse foco. Um engenheiro dialoga com números e projetos, e plantas, e possibilidades, cotidianamente. Um artista estuda escolas de dramaturgia para que sua intuição se una a tantas técnicas no ofício de fazer nascer personagens e momentos. E assim se multiplicam as profissões e as suas exigências. Avalia-se o preparo para o trabalho. Mas há algo comum e necessário a qualquer atividade profissional e pessoal, a necessidade de nos relacionarmos.

Valores desenham a face humana que enxerga e é enxergada. Que fala e ouve. Que diz “sim” ou “não”; que escolhe, portanto. Que é capaz de gestos de generosidade e compreensão. No desenvolvimento do trabalho, o jogo da convivência é essencial. Um precisa do outro. Um precisa ouvir o outro – talento difícil em tempos tão apressados e egoicos. Parece que o que outro vai dizer nada tem a acrescentar em meu repertório. Ledo engano. Aprendemos o tempo todo com outras pessoas.

Em uma peça de teatro, cada personagem é fundamental para que a arte cumpra o seu papel. Em um jogo de basquete, também. Em uma agência de viagens ou em um banco ou em uma construção, cada um tem sua função.

Deve nos preocupar o excesso de diálogo com os meios tecnológicos e a ausência das prosas nas relações humanas. Tempos sombrios estes em que nos silenciamos diante do outro. Não praticamos o silêncio da atenção, da escuta, mas o silêncio do aborrecimento, da impaciência, da arrogância. 

O escritor Carlos Drummond de Andrade narra a história de um jardineiro, muito amável, que cuidava com amor e extrema dedicação das flores. Conversava com elas, contava história, ouvia lamúrias de algumas, guardava confidências de outras. Mas tinha problemas com o girassol, que não ia muito com a cara do jardineiro. Mas mesmo assim, ele não deixava de regá-lo e de afofar-lhe a terra. O patrão, incomodado com o longo tempo que o funcionário dedicava às plantas, resolveu demiti-lo. Moral da história:

Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido?” “Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava”. (Maneira de Amar – C.D. de Andrade)

A delicada metáfora drummondiana robustece nossa certeza de que as relações ficam muito mais saudáveis quando estamos dispostos a conviver sem a petulância de saber mais que o outro. É com o outro que tenho a nobre missão de caminhar de mãos dadas para não me perder neste mundo tão grande. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/03/2015

Alguma delicadeza

Maria Bethânia disse poemas no belíssimo Theatro Net, recém-inaugurado em São Paulo. Aliás, sempre que nasce um novo teatro, é preciso celebrar. Palco em que as emoções da arte inspiram as ações da vida.

Bethânia disse poemas. E cantou. Seu canto é expressão de uma voz a serviço do talento. A menina que, nos anos 60, subiu ao palco do Rio de Janeiro para cantar “Carcará” continua o seu ofício de tocar almas e fazer pensar. Entre poemas de Pessoa, Drummond, Vinicius, Cabral e de Reynaldo Jardim, o autor de “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”, a baiana, a brasileira falou sobre educação. Com os pulmões plenos, bradou que estudou em escola pública e professou que a educação pública brasileira tem jeito. E, mais do que isso, homenageou dignamente os seus professores.

Na plateia, eu aplaudia a cantora que desafia o tempo e continua a surpreender. Falou Bethânia do silêncio e da delicadeza. A poesia pede, ao menos, alguma delicadeza. Em tempos de urgências, parece difícil parar, refletir, ler um poema e se permitir o milagre do entranhamento. É o poema nos preenchendo ou nos esvaziando de acordo com o tempo. E com a necessidade. Alguma delicadeza… será que a vida de tantas agressões e solidões – não a necessária, a que faz refletir, mas a brotada na ausência de terra amorosa – não carece dessa delicadeza? Gestos de cavalheirismo parecem pouco convidativos. Elegâncias com os mais velhos. Cuidado no dizer, consciente do poder perfurador de palavras malditas. Atenção ao outro, que também sou eu, espelho de minha alma, irmão de convivência. 

Não descuidemos dos encontros, os desinteressados, os que colaboram com as nossas emoções mais belas, os que nos elevam ao patamar do que somos. Pessoas, inspiração de Pessoa, o que falou sobre o sino da sua aldeia, sobre uma tarde calma, sobre sua alma, porque tinha delicadeza para ver as delicadezas que a vida nos proporciona. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/10/2014

 

Sonhar é preciso

O educador Paulo Freire, em seu exílio no Chile, em 1964, escreveu: Cheguei ao Chile de corpo inteiro. Paixão, saudade, tristeza, esperança, desejo, sonhos rasgados, mas não desfeitos, […] vontade de viver e de amar. Esperança, sobretudo.  

Freire tinha o sonho de uma educação para a libertação dos oprimidos, que tornasse a realidade mais humana e permitisse aos homens que fossem protagonistas de sua própria história. Visto como subversivo pelo regime militar, foi preso e forçado a deixar o país. Lutou a vida toda pela causa da educação, mesmo quando as circunstâncias tentaram lhe roubar o sonho. Sonho rasgado, mas não desfeito. 

Inspira-nos saber de tantos grandes homens que escolheram não desistir jamais de seus sonhos. Buscaram, alcançaram e nos presentearam com suas obras. Muitos deles foram desestimulados no meio do caminho. Mas persistiram. O poeta Drummond chegou a ser expulso da escola por “insubordinação mental”. Villa Lobos estudava piano escondido da mãe, que tencionava vê-lo médico e não músico, até que ele decidiu fugir em busca da arte musical. Monteiro Lobato, leitor contumaz desde menino, foi reprovado no exame de língua portuguesa, quando tentava a admissão no Instituto de Ciências e Letras. Homens que sonharam. Homens que fizeram suas escolhas. Homens que não se abandonaram frente aos desestímulos.  Surpreendentemente, alguns vindos da escola. 

A mesma escola que ilumina e desenvolve o pensamento, despertando no outro o prazer do conhecimento, é capaz, muitas vezes, de desencorajar a semeadura dos sonhos de seus alunos. Faz mal. Não pode ser incauto o olhar da escola e do professor sobre seu aluno. Professores são gerenciadores dos sonhos das crianças que passam por suas mãos. Precisam tocar, envolver, mover a alma de jovens ávidos por um futuro ainda em gestação. A semente do pensamento é o sonho. Os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos – ensinam as palavras do sonhador Rubem Alves.

Sonhar é inerente à essência humana. É a mola que impulsiona o homem à experiência da vida. Não vive aquele que não tem um sonho. E torna-se inacabado o homem que não o persegue, pois realizá-lo é condição de uma vida plena e feliz.

 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/3/2014

Dias de alegria

Algumas pessoas esperam as festas chegarem para extravasar toda a alegria que fica escondida durante o duro dia a dia. Trabalham, estudam, convivem em casa e na rua com uma certa desilusão cotidiana. Tudo é muito pesado, sem grandes e boas novidades. O acordar, o conviver com gente desagradável, os transportes desconfortáveis, o trabalho, muitas vezes, indesejado e assim por diante. Dia após dia, vive-se o que não traz alegria.

Quando chegam as festas, muitas pessoas acham que é momento de extrapolar. “De caminhar contra o vento, sem lenço e sem documento”, como na canção Alegria, alegria, de Caetano. E o carnaval é uma festa assim. Festa da carne. Para muitos, o momento de beber à vontade, de se fantasiar, de beijar todo mundo, de gritar, de desopilar. Alguns se enchem de energético para ficar sem dormir. Para não perder nenhum instante da festa, da alegria. Porque, depois, volta a mesmice, a chateação, a rotina indesejada. Namoros e até casamentos se desfazem. Tive um amigo que terminou com a namorada, na véspera do carnaval, para voltar depois; afinal, não se desperdiça um carnaval.

Não é estranho viver a alegria apenas nas festas? Ou nem isso é alegria? 

O dia da alegria tem que ser todo dia. Nada contra brincar no carnaval ou em outras festas que recheiam o nosso calendário. O que causa espanto é a mudança de comportamento, são os exageros, é o desperdício do prazer diário. A beleza da alegria está em encontrar prazer no que se faz. Acordar com prazer. Agradecer pelo privilégio de viver mais um dia. Desfrutar da convivência familiar. Ir para o trabalho sabendo que ali está um grande desafio. Conviver com os problemas sem se deixar sufocar por eles. 

Carlos Drummond de Andrade escreveu que “há uma pedra no meio do caminho”. Lygia Fagundes Telles, com licença poética, decidiu, “há um caminho no meio da pedra”. 

Aí, mora a alegria. No “sim” que damos à vida, na vontade de viver cada momento com intensidade, sem ingenuidade e com esperança.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/2/2014