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O silêncio e as eleições

Muitas cidades no Brasil voltam às urnas no domingo. Como no primeiro turno, há pouca movimentação. E mais uma vez as abstenções, os votos nulos e brancos podem ser os vitoriosos. O que leva alguém a não votar ou a anular o voto ou a votar em branco? Um protesto? Um silencioso protesto? As cidades assistiram a debates entre os candidatos. Acusações têm sido mais fortes do que propostas. O eleitor olha, não se sente representado e fica em silêncio. Qual a razão dessa apatia? O excesso de partidos, a falta de debates democráticos entre eles, a ausência de causas, de bandeiras, de sonhos?

O que é a política, afinal? A palavra vem de “polis”, cidade. Do cuidar da cidade, do melhorar a cidade, do fazer com que a cidade seja cada vez mais do cidadão. De todos os cidadãos. O que me leva a votar neste candidato ou naquele ou a não votar? Terá a mídia alguma responsabilidade nessa apatia? Dificilmente boas práticas das gestões públicas são divulgadas. Práticas que, independentemente de quem as executa, poderiam ser replicadas em outros cantos. Não que não se deva criticar as ações dos que ingressam na área pública. Mas e o outro lado? E os que trabalham com a consciência de que ocupam cargos para melhorar as cidades e os cidadãos? Criminalizar a todos, diminuir a todos, contribui para quê? Serão todos os políticos frutos de uma mesma árvore de oportunismos e desonestidades? A generalização é um caminho para a injustiça. E para o silêncio. Há muitos com muitos talentos que contemplam o cenário e decidem: não quero fazer parte desse espetáculo. Não quero colocar em risco a minha vida, a minha reputação por algum fabricador de dossiês. E há outros que tendo participado decidem sair. Querem a liberdade de caminhar por outros caminhos. De conviver menos com as injustiças e as hipocrisias. E a política perde com isso.

Há o bom silêncio, o que leva à tomada consciente de decisão. Depois, é preciso agir. Ou isso ou a política será ainda pior amanhã.

Um doce para digerir

Era final de um almoço e ela pediu um doce. Disse, justificando: “Doce é bom. Ajuda na digestão”. Eu discordei dando algum espaço para alguma explicação. “Doce ajuda na digestão? Imagine! Pelo contrário. Doce acumula gordura. Doce tem calorias. Doce engorda. Bem, a não ser que tenham descoberto alguma nova teoria. Descobriram?”. Perguntei e um filme passou pela minha cabeça de tantas teorias surgidas e desaparecidas que criaram mitos na alimentação. O ovo, por exemplo, já foi vilão antes de ser o queridinho dos que querem um corpo escultural. A manteiga e a margarina. As misturas proibidas e depois liberadas de alguns alimentos. Ah, lembrei até do leite com manga. Alguns se contorciam de medo das reações quando viam um desavisado tomar suco de leite com manga. E os regimes inusitados. O da Lua. O do limão.

“Teoria?” – ela perguntou, interrompendo minha viagem, mas também viajando. Olhando ao longe. Não era, na verdade, uma pergunta de alguém que buscava uma resposta. Era uma tentativa de revelação. “Queria entender alguma teoria que me explicasse as escolhas erradas que eu fiz na vida”. E foi assim que, antes do doce, ela revelou o seu amargor.

O marido não tinha escrúpulos em humilhá-la. O tempo cobrou o seu preço. Ela já não era a menina que o conhecera em um jogo de tênis. Não sei sua idade. Ela não revela e não acho necessário perguntar. Pois bem, entre pausas e soluços, ela disse do medo da solidão, do medo de buscar outra vida, sem as humilhações, do medo, inclusive, de não saber o que fazer sem elas. “Os meus seios não são os mesmos de quando nos conhecemos”.

Contou-me dos 3 filhos. Falou que agora cada um vivia as suas escolhas. Estavam apenas os dois em casa. Ela e o marido. Ela e o marido e os monstros das comparações. Diz o marido que não tem desejo por ela. Que seu corpo perdeu todos os atrativos. Enquanto fala, arruma o cabelo e se olha no espelho que esta atrás da poltrona em que estou sentado. Eu digo que a acho uma mulher muito bonita. Ela não dá ouvidos e prossegue. “Ele faz piadas com os amigos sobre mim. Diz coisas que me depreciam. E eu rio. Rio de tristeza. Rio de medo. Rio de vergonha”.

“E os filhos?”, pergunto. Ela explica que não sabem, que não têm tempo para observar, que estão distantes. Ela fica distante. “Ele já me bateu. Ninguém sabe. Foram poucas vezes. Mas ele me bateu”.

Ficamos em silêncio.

Entro no assunto da atitude covarde e criminosa. Das delegacias em que mulheres podem contar o seu martírio. Ela me interrompe e diz que decidiu nada fazer porque não deveria ter sido feito e que ela tinha as suas razões. Olha, novamente, no espelho. Passa o dedo pelos olhos, buscando as rugas. Volta a mexer no cabelo. “Há muito tempo que sou infeliz. Não acredito, aliás, em felicidade”. Tento discordar, mas ela me lembra que sou jovem demais para compreender. “Eu já fui apaixonada por ele. Já senti muito prazer. Já sonhei com uma velhice terna”. Mais uma vez no espelho. Agora estica um pouco a pele. “Não tem volta. Se tivesse volta, eu teria sido mais cuidadosa. Eu deveria ter impedido que ele começasse a me destratar. Agora é tarde”.

Eu fico um pouco mais enfático para não ser interrompido como nas outras tentativas e insisto que nunca é tarde para escolher outro caminho, para deixar quem merece ser deixado, para dizer a si mesmo que a vida é curta para ser desperdiçada. Ela ri da minha ênfase e diz que gostaria de ser novamente jovem. Eu digo que as pessoas vivem mais.

“Ontem, ele me disse, com aspereza, que eu o incomodava com minhas histórias intermináveis”.

Ela me diz que realmente tinha lindos seios. E eu digo que os seus seios agora têm muito mais histórias dos que os seios de antigamente. Ela os toca com algum carinho. E ri. Eu digo que espero ainda ter o prazer de comemorar sua alforria.

“Alforria?”

Chegou o doce. Ela olhou aquele doce com tanto prazer, com tanta necessidade, que me arrependi de minhas teorias nutricionais.

“Como é bom um doce para digerir”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/10/2016

O ódio na rede

A rede informacional vem mudando nossas formas de relacionamento. As românticas cartas deram lugar aos e-mails que deram lugar às mensagens em facebook, twitter, instagram, entre outros. Os pagamentos feitos em agências bancárias deram lugar à agilidade de transferências online. As pesquisas nas velhas enciclopédias foram perdendo espaços para o google. E outros tantos caminhos poderiam ser visitados. Na medicina. Nos laboratórios e na fabricação de remédios ou carros. Nas planilhas de custos. Nos projetos. Nas escrituras de livros ou de quaisquer outras informações. Na comunicação com o outro – facetime, whatsapp, messenger – e na relação com o conhecimento.

Mas essas conquistas trazem problemas. E muitos. Há um deles que vem chamando a atenção de pesquisadores do comportamento humano. O ódio na rede. O ódio na internet. Sempre ouve atiradores de pedras. Alguns se revestindo de poder religioso, outros na clandestinidade de algum grupo radical, outros no criminalidade pura de um nada puro jeito de se dar bem na vida. As pedras na internet, ou o ódio, são facilmente observáveis. Em uma notícia em um site qualquer sobre qualquer assunto, geralmente há, nos comentários dos que o visitaram, mais ódio do que generosidade. Nas discordâncias ideológicas em redes sociais, há agressões inimagináveis. Muitas anônimas. Covardemente anônimas. O ódio ao que ou a quem nem se conhece. Bauman, o sociólogo polônes, chama a isso de “ativismo de sofá”, pessoas fechadas em suas zonas de conforto que usam a rede não para unir nem para ampliar seus horizontes, mas para buscar ecos de suas vozes, reflexos de seus pensamentos: “As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha”.

Tempos perdidos de quem passa tempos a expelir o seu pior. Há tratamento? Sem querer respostas apressadas, uma mera sugestão. Saia do mundo virtual, entre no mundo real e ajude alguém. A generosidade tem o poder de transformar humores e comportamentos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/10/2016

Aparecida, a fé que comove

Desde criança, frequento a Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Um Santuário da Fé. Vou até lá para rezar, para visitar a casa da mãe, para dizer os meus agradecimentos e pedidos. Aparecida é bem próxima a Cachoeira Paulista, a cidade em que nasci. Fica no vale do Paraíba. Abençoado vale que repousa entre as serras do mar e da mantiqueira. Tenho saudade daquele chão. E de tantas pessoas boas que ali alimentaram minha fé.

Estou longe, mas perto. Nas lembranças e na presença, quando posso. Vou em família, muitas vezes. Minha mãe se emociona sempre. Meu pai que gostava tanto de ir, hoje, já não está mais por aqui. A Igreja é acolhedora. Pessoas chegam por todos os lados. Ônibus lotados, carros e até mesmo a pé. Peregrinos que caminham dias e dias por um milagre. Outros em agradecimento à graça alcançada. Chegam em busca de conforto, de abrigo, de colo sagrado. E é bonito de se ver os fiéis desfilando suas dores e seus sonhos.Fico observando a simplicidade das pessoas. Os olhos suplicantes. Os joelhos no chão. As canções que saem da alma.Uma mãe pedindo pela cura do filho. Um filho pedindo pela cura da mãe. Uma mulher dizendo que vai se submeter a uma cirurgia e lembrando que tem filhos para ver crescer. Um pai prometendo uma vela gigante se o filho for curado do câncer.

Crianças ali são batizadas. Casamentos são celebrados. É o Brasil e o mundo que para e olha para a Padroeira. A imagem encontrada por pescadores. A santa que compreende os pecadores. A mãe de Jesus com o título de Aparecida. É uma só. A de Nazaré, a Piedade, a de Fátima, a de Lourdes, a da Glória e tantas outras. A mesma. Que aparece e diz: “Estou aqui para te ajudar”. Só a simplicidade nos empresta olhos de ver. Olhos de ver. Vez ou outra, revisito esses espaços e esses tempos. Servem de alimento. Para prosseguir. Para compreender que é no ordinário, não no extraordinário, da vida que se é feliz. Aparecida, a fé que comove.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/10/2016

Francisco pai, Francisco filho

Foi no dia 4 de outubro, dia de São Francisco, que estes dois me surpreenderam.

Antes da missa, houve um acolhimento. Um aspirante (um jovem que se prepara para ser sacerdote franciscano) percorria a Igreja entregando pequenas flores. A Igreja cantava “Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar nesta manhã, pois renasceu mais uma vez a criação nas mãos de Deus . Irmã, flor que mal se abriu, fala do amor que não tem fim, água irmã que nos refaz e sai do chão cantando assim…”. Abaixei-me para pegar a pequena flor que caiu do pequeno Francisco. Ele estava em uma cadeira de rodas. Sorria muito. Mexia-se como podia. Pouco. A doença roubara-lhe muitos movimentos. Mas a alegria que brotava dos seus olhos e o esforço para algo conseguir cantarolar deixava o pai orgulhoso. “É meu filho. Meu lindo filho”. “Estou vendo”. “Chama-se Francisco”. “É um lindo nome”. “Também me chamo Francisco. Meus santos pais souberam escolher”.

Apenas sorri. O pai tinha as mãos grossas de um trabalhador acostumado às rudezas. Um chapéu ficava sobre o banco. Um pano grande também estava ali. Depois, vi que ele servia para cobrir a cabeça do filho para percorrem as ruas até a casa. “Moramos aqui perto. Francisco gosta muito de missa”, justificou. O filho me olhava. Olhos lindos. Sons difíceis de serem ditos. Cabeça de um lado a outro, com esforço. Eu sorria apenas. A missa estava começando. Olhava para o altar e para os Franciscos. A flor caiu novamente. Eu abaixei para pegar. O pai, também. Ele me autorizou a fazer o gesto e eu coloquei novamente na cadeira do seu filho, próxima de suas mãos quase imóveis. Ele olhou para mim. Um olhar de gratidão. Olhamo-nos mais um pouco. Quis dizer al go. Ele, também. Decidimos que não era necessário. Era bom estarmos ali. Durante as músicas, dos seus olhos escorriam lágrimas. Olhos do filho. Olhos do pai.

“Somos muito emotivos”. Eu acenei com a cabeça concordando: “Que bonito!”. “Bonito é ser pai. É ser pai do Francisco”.

No ofertório, ele tirou algumas moedas e depositou num cesto que passava. Olhou para mim e explicou: “Gostaria de ter mais para ajudar mais, mas é o que eu posso”. O pai falava e o filho olhava. Alguns sons apenas e o sorriso.

A missa terminou. Algumas pessoas vieram conversar comigo. Os dois continuaram ali. Pareciam não ter pressa. O tempo da oração era sagrado. Saímos juntos. Contou-me o pai que o filho nascera vivo graças a um milagre de São Francisco. Com algumas doenças, mas vivo. Com algumas limitações, mas vivo. A mãe já morreu. Há uma outra irmã, mais velha, que vive com eles e os ajuda muito. O pai trabalha de dia. Ela trabalha à noite. É enfermeira. Portanto, sempre há alguém em casa para cuidar de Francisco. Ele disse que experimenta, todos os dias, um prazer único: “Não há preço que pague o sorriso de Francisco, quando abro a porta e entro em casa”.

Fiquei imaginando a cena. O cotidiano. O exercício do cuidar. O padre, na missa, havia falado sobre o legado de Francisco de Assis. O santo que nos inspira a viver o amor. “Onde há amor e sabedoria, não há medo nem ignorância”. Enquanto o padre falava, o Francisco pai, sentado, levava o chapéu até o seu peito. E, vez ou outra, passava a mão na cabeça do seu filho, Francisco. O filho sorria, demonstrando gratidão a Deus por ter um pai assim, santo, imaginava eu.

Na saída da Igreja, despedimo-nos. Beijei os dois. Senti tanta paz! Na missa e naquele encontro. Enquanto via aquele homem com o chapéu levando o filho pelas calçadas, fiquei pensando nas minhas lamúrias. Reclamações desnecessárias. A imagem da porta se abrindo e do menino sorrindo sem poder dizer o que gostaria – mas não era necessário, o pai sabia. O sorriso daqueles dois foi um presente do Santo. No seu dia. Para prosseguir. A pequena flor, que algumas vezes caiu, estava nas mãos do pai. Haverá de encontrar algum espaço para deixá-la perfumando o paraíso daqueles dois. Ou melhor, dos três. A irmã chama-se Teresinha. Dia primeiro de outubro, foi dia dela. A santa da delicadeza.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 09/10/2016

A reforma do ensino médio

É senso comum que é preciso melhorar a educação no Brasil. Aliás, precisará sempre. Os indicadores de quantidade e qualidade mostram que demos alguns saltos importantes. Mas falta muito. E esse muito tem que ser feito de forma responsável. Fórmulas mágicas não existem. Acompanhei com muita atenção a proposta de reforma do ensino médio. Trago algumas reflexões para ajudar o debate. A escolha de reformar o ensino médio por meio de Medida Provisória parece-me não ser o melhor caminho. É preciso envolver os sujeitos do processo educativo. Esqueceram a “Sua Excelência, o Professor”. São os professores que, todos os dias, no chão da escola, realizam o ofício do ensinar e do aprender, da troca, da cumplicidade. São eles, portanto, que têm condições de sugerir e construir a melhor reforma. Os jovens também têm ideias e ideais. E, também, seus pais. E, também, a comunidade científica que se debruça sobre o tema.

Há outros aspectos. Artes e atividades físicas compõem currículos dos principais países em que a educação vem atingindo patamares de qualidade. Alunos não são máquinas em que programamos saberes e pronto. O saber é construído no dia a dia. O diálogo com outras áreas é essencial. Aprende-se português, por exemplo, também em filosofia, história, sociologia.

Compreendo a necessidade de minimizar a compartimentação das matérias. É preciso instigar os alunos para que pensem e resolvam problemas, com autonomia. E que encontrem a necessidade e o prazer de pesquisarem sempre, de aprenderem sempre. Não esqueçamos, ainda, dos quase 25% dos alunos que estudam apenas à noite. Defendo a proposta de escola em tempo integral desde a educação infantil até o ensino médio. Consecutivamente. Inverter essa sequência é desconhecer os enormes fossos de desigualdade no nosso país. Que se tenha a maturidade de compreender que nenhuma política educacional pode ser imposta de cima para baixo, mas deve ser construída coletivamente.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/10/2016

Minha Mãe é Uma Estrela

Tenho 6 anos.

Meu nome é Gabriel. Minha mãe dizia que me deu esse nome para que eu fosse um anjo. Minha mãe morreu faz pouco tempo. Quando nasci, ela já estava com câncer. Antes de mim, veio uma irmãzinha que viveu quase nada. Logo depois, minha mãe foi percebendo um caroço no seio. O médico, que talvez não tivesse tido a devida atenção, disse que era por causa do leite que endurecera por causa da morte da minha irmã. Ela aceitou a explicação e prosseguiu.

Ficou grávida de mim. Agradeceu a Deus. Eu nasci. Um outro médico logo percebeu que o antigo caroço não era leite endurecido, mas um tumor maligno. Ela teve que tirar o seio. Eu começava a entender a dor, quando o câncer começou, tempos depois, a ocupar-se do seu pulmão.

Eu ficava triste com suas crises. Aprendi o que era balão de oxigênio. Aprendi a chorar contido para não incomodar ainda mais e para estar pronto para ajudá-la. Meu pai sempre foi muito nervoso. Agora, piorou.

Minha mãe morreu. E no dia do meu aniversário. Um mês depois, meu pai já estava namorando. Fiquei muito triste, mas não pude dizer nada. Tenho 6 anos. Ele diz que nada entendo da vida dos adultos. Que tenho que lhe obedecer. A namorada do meu pai também é nervosa. Fala pouco comigo. Às vezes, grita. Diz que eu não paro quieto. Ela desarrumou toda a casa. Mexeu até nas santas da minha mãe. Até na imagem do Anjo Gabriel. Não sei onde ela colocou. Perguntei e ela gritou alguma coisa que eu não entendi. Meu pai brigou comigo, quando chegou. Disse que eu não podia ficar maltratando a sua namorada. Eu não sei que história ela contou. Mas fui eu que fui maltratado. Fiquei quieto. Ou melhor, queria ter ficado quieto. Mas não aguentei e comecei a chorar. Ele ralhou comigo. Disse que homem não chora. Que estava na hora de eu deixar de ser criança. Tenho 6 anos, repito.

Enquanto meu pai falava, ela olhava com olhos de vitoriosa. Fiquei pensando comigo mesmo que quem quer ser vitorioso de verdade não pode mentir. Meu pai gosta de ficar beijando a namorada o tempo todo. Não se incomoda se eu estou por perto. Acho que ele poderia ter esperado um pouco. Talvez minha mãe esteja vendo. Depois ela vai se ocupar de outras coisas lá no céu e aí ele namora como quiser.

Ontem à noite, fiquei olhando para o Céu. Estava tão bonito. Fiquei olhando e pensando na minha mãe. Foi quando vi uma estrela muito, mas muito brilhante. Eu não tive dúvidas. Era minha mãe. Ela estava olhando para mim. E lá ela não tem crises, não vomita, não têm dores. Minha mãe é uma estrela. E ela vai me levar para morar com ela.

Ela me deu um nome de anjo, mas não me deu asas. Não foi por mal. Esse poder, ela não tinha. Nem o poder de me ver crescer. Ela me beijou muitas vezes e disse que não tinha medo de morrer, só tinha pena de não poder ficar comigo.

Não tenho raiva do meu pai. Só fico triste por ele não respeitar a minha dor. Minha avó chama isso de luto. Minha avó diz, também, que as pessoas apaixonadas fazem coisas que não devem. Depois a paixão passa e o que foi feito já foi. Não quero julgar meu pai. Só não gosto de ficar perto dele. Talvez ele também esteja sofrendo pela morte da minha mãe. Talvez. Cada um sofre de um jeito. Hoje, estou mais calmo. Depois de ontem, quando a vi no Céu. Brilhando. Foi o jeito que ela encontrou de sorrir para mim. Ela vem me buscar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: O Dia e Diário de S. Paulo) | Data: 25/09/2016

Saudade de mim

Assim ela me disse em uma manhã ensolarada:
“Saudade de mim…”. “Tenho saudade de mim”.

E relatou a sua história. :
Depois de alguns anos de namoro, apaixonou-se por outro. Ficou em dúvida se prosseguia a sua relação ou se buscava viver o que acabara de aparecer.

Quem chegou chegou dizendo palavras de amor. Fez promessas de tempos únicos para os dois. Alimentou-a do que ela sentia falta. O outro namorado já estava acomodado com o tempo de convivência. Parecia uma relação boa, mas sem a quentura que é tão atraente quando se fala de amor.

Entre os dois, ela ficou. O primeiro trazia estabilidade. Ela o amava. Definitivamente, amava-o. Gostava de estar com ele. Gostava de sua disponibilidade em dela cuidar. Mas o segundo era como um furacão. Os dizeres. Os toques. Os olhares. Sentia-se mal. Não queria enganar alguém com quem dividira tantos momentos de encantamento. Mas como desperdiçar alguém que chega assim com tanta fome de paixão?

Ao segundo, explicou que tinha o primeiro. O segundo disse que esperaria algum tempo, mas que se sentia mal em saber que “o amor da sua vida” ainda tinha outro. Ela falava que não sentia nada pelo outro, mas que não era fácil terminar uma relação em que não havia brigas, não havia desrespeitos, havia apenas a ausência do que hoje ela sente pelo que chegou. O que chegou gosta do que ela fala. O amado é ele. O outro é apenas uma acomodação, e o tempo vai fazê-lo partir.

O tempo, em vez de trazer alívio, trouxe angústia. Como atender ao telefone do que chegou se, o que estava, estava perto? Buscava ficar sozinha para falar com o outro.

O outro não gostava de ligar e de demorar para ser atendido. O outro era mais exigente. Ela tinha que decidir.

Resolveu dizer ao amor que chegou primeiro que não mais o amava. Não foi fácil a preparação. Chorou sozinha imaginando a dor que poderia causar a alguém que a fizera tão feliz. Mas era preciso ser sincera com ela e com eles. Falou, então. Fez uma introdução permeada de choros e de dizeres desnecessários e falou. Disse que havia se apaixonado por outro. Que o que eles viveram foi lindo, mas era preciso mudar a página. O que ouviu fez-se de compreensivo. Disse que jamais queria vê-la infeliz. Que o amor é assim. Ela achou que ele aceitou muito passivamente a despedida. Sentiu-se confusa. Um pouco aliviada e um pouco desprezada. Imaginou que haveria muito choro. Só ela chorou. Imaginou que ele dissesse que faria qualquer coisa para não perdê-la. Não foi isso o que ele fez.

Com a cabeça inquieta, foi encontrar o que chegou e contou a história à sua maneira. Disse que foi difícil. Que ele prometeu jamais esquecê-la. Que chorou muito. Que imaginava que envelheceriam juntos. E continuou com sua narrativa inventiva e dramática. O que chegou ouviu e sugeriu a ela que não deixasse o outro. Que ele estava inseguro em entrar em uma relação assim. Que havia pensado melhor e que, talvez, não fosse justo desmoronar uma casa que, há muito, já os aquecia. Ela ouviu estupefata e começou a cobrar as palavras de antes. As exigências de que ela fosse apenas dele. O amor que ele jurara ter por ela. Ele foi carinhoso, mas não como antes. Ficaram juntos algumas semanas. Foi quando ele resolveu terminar. Subitamente. Juntos, não eram como ele tinha imaginado.

Ela não sabia o que fazer. Chorou muito. Viveu tempos inseguros. As semanas com o novo amor não foram leves. O peso de aguardar sua ligação. O incômodo de ligar e se sentir incomodando. A vontade de ligar o tempo todo. Por que ele mudou?

Ligou para o outro. Que a atendeu carinhosamente. Disse com docilidade que tinha saudade. Ele falou que seria bom se um dia saíssem todos juntos. Os dois casais. Falou que estava namorando.

Ela ouviu com dor esse relato. Não disse que havia terminado com o tal amor da sua vida que chegou fazendo tanto barulho e se foi deixando nada. Disse que sim. Que, certamente, marcariam para saírem juntos.

Desligou o telefone e ficou envolta em dúvidas. Ele já estava com outra antes de eles terminarem? Por isso ele aceitou sem reação alguma? Conheceu depois? Tão rapidamente? Pensou em ligar para o outro. Não. Não faria isso.

Fez. Ligou. E o outro atendeu friamente. Estava ocupado. Ocupou-se tanto dela antes. E, agora, ela era um estorvo, apenas.

Foi quando a encontrei em um dia ensolarado. Contou-me e esperou resposta. Disse que tinha certeza de que o amor verdadeiro era o primeiro. Mas que, agora, parecia não ter conserto. Depois, confessou que quem ainda ocupava seus pensamentos era o segundo. Por fim, confessou. Gostaria de, pelo menos por um tempo, não pensar nem no primeiro nem no segundo. O que achei bom, mas difícil. Em matérias de paixão, os pensamentos não permitem que decidamos nós em quem pensar.

O dia estava ensolarado. Bom sinal. Em um outro dia assim, ela vai abrir a janela e perceber que passou. Talvez passe pela sua cabeça ter feito a escolha errada. Talvez, não.

Escolhas são sempre desafiadoras. O amanhã nasce hoje. Parece desnecessário lembrar. Não é. Não temos a máquina que nos faz voltar no tempo para arrumar as coisas nem a máquina que nos permite ver o que será o futuro.

É um aprendizado separar a serenidade de um amor dos solavancos de uma promessa de amor. Espero que ela se encontre. Sentir saudade de si mesma foi um bom começo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/06/2016

Ele é importante?

Foi essa a pergunta que um conhecido fez a mim sobre uma pessoa que acabara de entrar em um evento: “Ele é importante?”. “Como assim?”, perguntei. Meu interlocutor disse que costuma ir a eventos para conhecer pessoas importantes. Que isso é muito importante. Há pessoas que importam e outras que não importam, pensa ele. Fiquei estarrecido. Sei que há muitos que assim agem, mas disfarçam. Esse foi direto. Queria apenas conhecer pessoas importantes.

Não sei o que significa uma “pessoa importante”. Para mim, todas as pessoas o são pelo simples fato de serem pessoas. De existirem. De fazerem parte de um mundo em construção. Construir relações baseadas em algum interesse é sempre frustrante.

E pobres daqueles que, ao serem incensados por terem um cargo de destaque, por terem dinheiro, por serem considerados uma celebridade, mudam o comportamento e se alimentam desses aduladores. Ser importante é circunstancial. Ser amigo é essencial. Os que se iludem com as circunstâncias, certamente, conhecerão o abandono. Os que buscam “pessoas importantes” mudam sua busca de acordo com o momento. Se alguém se fascina com o importante que chegou, seu fascínio mudará quando outro importante chegar. O fato é que os verdadeiros amigos se revelam nos momentos de infelicidade, nos momentos em que a vida nos faz experimentar as quedas, nos momentos em que, mesmo não sendo “importantes”, temos importância. Relações descartáveis não prestam para nada

O importante é construir laços de amizade. É sentar com um amigo que não tenha nada para oferecer além do tudo que representa uma amizade. Conversar pelo prazer da prosa. Encontrar-se pela poética do encontro. Sentir o calor que o outro pode me proporcionar, porque está vivo e, se está vivo, é capaz de aquecer. Apenas isso. Nada mais triste do que não ter amigos. Ao final do evento, fui para casa pensando nisso. E agradecendo a Deus pelos mestres que tive e tenho na vida e que me ajudam a ter sempre os pés no chão.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/06/2016

Aos que aqui ficaram

O desamor matou mais uma vez. O ódio pareceu vitorioso no triste fim de vidas que buscavam alguma alegria. Era uma boate.

Poderia ser um clube. Uma escola. Um cinema. Um prédio de trabalho. Uma praça. Uma rua em que atletas corriam. Esses lugares também foram manchados por radicalismos criminosos.

Como virar a página? Como chorar a dor das famílias buscando algumas ações que garantam que outras famílias não enterrem seus mortos, vítimas desses horrores?

A palavra do Papa Francisco é sábia. Mais uma vez. A de Barack Obama, também. Já a de Donald Trump, lamentável. O discurso do ódio nunca conseguirá combater o ódio. Violência não se combate com violência.

As superficialidades só interessam aos demagogos. Precisamos de um aprofundamento nas causas que geram esses monstruosos crimes. Educamos para o respeito ou para o escárnio? Buscamos uma convivência harmoniosa ou uma disputa desenfreada por saber quem é o melhor? Damos o exemplo da tolerância ou nos julgamos acima dos que imaginamos diferentes de nós? E falo da tolerância no seu sentido mais pleno. A tolerância que significa respeito à riqueza do outro, daquele cuja diferença me ensina, me complementa, me faz melhor. Não é a tolerância em estado dicionário que denota suportar, aturar aquele que pensa, vive e ama diferente de mim. Esse é o significado da tolerância que alimenta o falso sentimento de superioridade em relação ao outro. Não há pessoas de primeira ou segunda categoria. É preciso educar para que se entenda que a diferença é a base da essência humana. Não há duas pessoas iguais no mundo. E a riqueza do homem reside nisso.

É preciso, portanto, cuidar da semeadura. Qual é a semente que se planta em casa e na escola? Pais que se agridem plantam qual semente? Pais que agem e falam com preconceito sobre o que veem nas mídias ou nas ruas plantam qual semente? Professores que desconhecem o significado da cooperação em uma sociedade baseada na competição plantam qual semente? Jornalistas ávidos por informações pouco cuidadosas, desconectadas da verdade, capazes de destruir vidas alheias, plantam qual semente? Programas de rádio e televisão cujo ódio pulula na boca de apresentadores que não têm nenhum compromisso com a verdade e com a ética plantam qual semente? Líderes religiosos que propagam o ódio a quem eles consideram pecadores plantam qual semente?

Quem mais nos influencia? Redes sociais? Clubes? Shoppings? Parques? Como se comportam as pessoas nesses espaços? Que semente estão plantando?

Há uma comoção mundial em tragédias como a de Orlando. E é preciso que haja. A dor do outro deveria doer na gente.

Mas, aos que aqui ficaram, é preciso ação. No combate ao terrorismo e a toda forma de violência. Ações de governos e de organismos internacionais.

Mas é preciso ir além. É preciso pensar na floresta que queremos amanhã. Ela começa nas sementes que plantamos hoje.

Preocupa-me o ódio cotidiano. Os ditos incorretos revestidos, às vezes, de algum humor. O descontrole diante do que pensa diferente de mim. Os ataques de moralidade frente ao outro que julgo ser imoral. Preocupe-me a ausência do amor na convivência.

Eu não mato uma namorada por ela ter decidido que não é comigo que ela quer viver. Eu não agrido quem vota em um partido diferente do que eu voto. Eu não espanco o que torce para um time rival ao meu. Não. Essas falsas valentias só nos mostram a covarde face de quem semeia o mal.

“Quero cumprir o meu papel, semeando a correta semente “, esse seria um bom começo para os que querem um mundo melhor. Amanhã. E hoje.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/06/2016