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A verdade e as suas delicadezas

Paulo é um dos milhões de desempregados que vivem a cotidiana angústia da procura e da espera. Sai cedo. Banho tomado. Cabelo arrumado. Barba feita. Faz as entrevistas que consegue. Fala com algumas pessoas. Envia currículos. Pesquisa aqui e ali.

Paulo decidiu não ficar parado. Conhece alguns que apenas aguardam que a sorte os empurre para outra oportunidade. Conhece outros que despencam em balcão de bar em busca de uma sensação melhor que os alivie da triste realidade. E outros ainda que vivem a ilusão de que tem os mesmos recursos de outros tempos.

Paulo tem dois filhos. Um tem 9 anos e o outro acabou de nascer. Sua mulher ainda goza da licença-maternidade. O que ela ganha mal garante o alimento da casa. Paulo nunca foi perdulário. Sempre guardou algum dinheiro para a eventualidade de dias difíceis. Os dias difíceis de Paulo foram virando semanas e meses. Os recursos findando. As esperanças lutando contra os tantos nãos que se multiplicaram.

É triste voltar para casa e encontrar o Júnior, seu filho, perguntando: “Então, papai, arrumou alguma coisa”. Como Paulo gostaria de dizer que ´sim´. De abraçar o filho com todo o entusiasmo do mundo e dizer ´sim´. E de sorrir um sorriso demorado. E de brincar de felicidade novamente. Mas esse dia ainda não chegou.

A mulher o incentiva. Há amor na casa de Paulo e de Valéria. Júnior está na escola. Paulo conseguiu algum desconto e alguma dilação de prazo de dívidas acumuladas. O filho quer muito continuar na mesma escola. Foi quando se deu esse diálogo:

“Pai, vai ter a viagem da escola para Foz de Iguaçu. Dizem que é muito lindo, pai. Eu quero muito ir. Toda a minha turma vai. Eu quero ir, pai. Por favor. Por favor”.

Foi um dia difícil. Havia uma possibilidade em uma boa indústria que estava contratando. Ele fez mais de uma entrevista. Animou-se. Teve a certeza de que daria certo. Não deu. A resposta veio exatamente no dia em que o filho falava da excursão.

Como seria bom dizer que ´sim´. Como seria bom compartilhar a efusividade do filho. “Claro, meu filho. As Cataras do Iguaçu são lindas. Você merece. Você é um filho maravilhoso. Um filho amado”. Não. Não podia dizer isso. Não teria como pagar. Já estava devendo a escola. Já havia vendido o carro. Já comiam com menos fartura. Já reduziram o plano de saúde.

A mãe estava na sala amamentando Leandro, o segundo filho. Ela olhou para o marido. Abaixou a cabeça. Escondeu alguma expressão de tristeza e se concentrou no que estava fazendo. Paulo pediu ao filho que se sentasse mais perto. Deu um sorriso lindo. Disse que faria qualquer coisa para fazê-lo feliz. Que o amava muito. O filho começou a pular de alegria. Pressentia o ´sim´. Paulo pediu que ele se acalmasse. E, delicadamente, prosseguiu: “Filho, tenho que ser verdadeiro com você. Você merece essa viagem. Mas eu não tenho dinheiro para pagar. Gostaria de ter. Mas não tenho. Não sei quando vou arrumar um outro emprego”. Júnior insistiu um pouco, argumentando que todos os seus colegas iam. O que ele iria dizer para se justificar? O pai prosseguiu: “A verdade, filho, a verdade”. O filho ficou olhando: “Diga que seu pai perdeu o emprego, que está buscando outro e que, nesses tempos difíceis, não dá para gastar o que não se tem”. Paulo abraçou o filho. Choraram juntos. Paulo não estava chorando apenas pela excursão. Aproveitou para chorar as tantas negativas. Os que o abandonaram. Os ventos amargos das portas que se fecharam.

“Filho, eu tenho uma ideia. Durante os dias em que eles estiverem viajando, vamos ficar mais juntos. Vamos pesquisar histórias bem legais. Sua mãe e eu vamos contar para você. E vamos ter paciência. As coisas vão melhorar. E nós iremos juntos para muitas viagens”. E contou do avô de Júnior. De tempos também difíceis e de como foi importante ter um pai que sempre falou a verdade. Lembrou-se de outros que buscavam aparentar o que não tinham. De um que dava tudo ao filho, que queria a aparência de riqueza e que acabaram todos sem nada. Na simplicidade, Paulo aprendeu com o pai o que era essencial. E o essencial tentava passar ao filho.

A mãe terminou de amamentar e olhou para os seus homens. Sorriu. Orgulhosa. Feliz pela escolha que teve. As tempestades independem dos marinheiros. Mas bons marinheiros conduzem as embarcações com muito mais segurança. Leandro ainda não entendia o que se passava, mas se entregava em confiança depois do peito generoso. E sorria prenunciando dias bons para aquela família.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 25/06/2017

A despedida do meu filho

Era um velório. Um velório de um jovem. De um jovem negro. Numa região pobre de uma grande cidade.

O mapa da violência no Brasil é estarrecedor. Desperdiçamos vidas. O número de mortos é superior a regiões de guerra. Entre 2011 e 2015, a sangrenta batalha na Síria levou 256.124 vidas. No Brasil, no mesmo período, a sangrenta batalha do dia a dia levou 278.839 vidas. 1 pessoa é assassinada no Brasil a cada 9 minutos. São 160 mortos por dia.

Era o velório do filho de Aurora. Aurora é um lindo nome. Significa amanhecer. Mas o amanhecer daquele dia foi doloroso. Tão doloroso quanto o amanhecer de tantas mães que veem seus filhos prematuramente partindo.

Aurora é professora. Paulo era o seu único filho. Aurora teve uma vida sofrida. Não conheceu o pai. A mãe, entre bebidas e lucidez, criou-a com algum cuidado. Com o que conseguiu. Ela teve garra. Ousou enfrentar o destino e se destinou a uma vida melhor. Estudou com afinco. Mulher, negra, pobre, a salvação estava no livro. Decidiu ela. Formou-se professora. Professa todos os dias a crença de que há de salvar, do fim antecipado, os seus alunos. Entristece-se quando vai ao cemitério do seu bairro. Quando lê nas lápides dos túmulos a data de nascimento e a de falecimento dos que ali foram deixados. Jovens.

Aurora sempre teve a consciência de que não se combate violência com violência. Mas com inteligência. Não acredita em fórmulas mágicas, em promessas de políticos inconsistentes. Acredita no trabalho. E no amor. É com amor que ela vai todos os dias para a sua escola e olha para aqueles moços cheios de certeza de que ela pode fazer a diferença em suas vidas.

Mas, hoje, Aurora está triste. O filho foi vítima de uma das tantas balas perdidas que encontram pessoas. E lá está em um caixão o filho de Aurora.

Ele sonhava ser engenheiro. Sempre gostou de matemática. Gostava de ver as construções. Dizia que gostaria de construir casas populares. Casas para quem não tem. Para quem sonha. Era um sonhador o filho de Aurora.

A mãe olha para o filho e nem tenta entender. Apenas sentir. Aperta o peito com as mãos. Chora silenciosamente. Pensa no depois. Na casa vazia. Nos livros com as anotações dos estudos. Nas fotos. No quarto com suas lembranças. Nas promessas de que seria ele a cuidar dela quando ela envelhecesse. Na injusta vida que inverteu a ordem de tudo. Quem é responsável por essa dor? Não. Ela não está pensando apenas no que disparou o tiro. Está pensando em todos que fazem isso. Está pensando nas mães dos outros que, naquele dia, também estão chorando. O que o homem está fazendo com o homem? O que a humanidade está fazendo com a humanidade. Como se combater o foco que gera a violência?

Ensina ela literatura. Gosta de falar das personagens que amam e que sofrem. Explica que a literatura é a história dos sentimentos. E que os sentimentos, geralmente, são bons. Que há muitos que sofrem por uma fotografia no passado. E o passado é filme e não fotografia.

Quando se olha o todo, há mais para celebrar do que para lamentar. Mas e agora? A foto diante do caixão vai transformar o filme da sua vida? Como voltar a sorrir? Como sair de casa normalmente e ir trabalhar? Como voltar depois? Como esperar os fins de semana com algum bom programa com o filho? É dor doída demais.

Aurora é guerreira. A tristeza não será fácil de ser superada. Mas haverá outros amanheceres. Outras famílias precisando de quem não desista. De exemplos de superação. De dedicação.

Amanhã, será um outro dia triste para Aurora. Para outras mães. Para outras famílias. A guerra continua. A violência desafiando os que sonham com a paz. Com a paz no mundo. Com a paz nas mentes. Inclusive daqueles que não pegam em arma, mas se armam para odiar.

Amanhã, será um outro dia para Aurora se lembrar, chorar e levantar. Em decisão de melhorar o mundo. É isso que ela pensa. O seu filho se foi. Os filhos dos outros ainda precisam dela.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 11/06/2017

A vida de nós dois

Ela estava chegando. Eles estavam chegando. Foi o que ele me disse.

Ela é a mulher. Eles, a mulher e o filho que vai se formando dia a dia dentro dela.

Ele, o que me disse, é o pai. Um pai feliz.

Estão juntos há alguns anos. Ela já tem uma filha, fruto de uma outra história. Ele a cria, como se filha fosse. São felizes os três. E os gatos que vivem no apartamento deles. E, depois de muitos anos, vem ela com a notícia de que terão um filho.

A mãe dele já começou a costurar o que haverá de agasalhar o menino. Sim, já sabem que é um menino. Ele, que é flamenguista, está grávido das histórias que haverão de viver juntos. Dos jogos de futebol. Das corridas na praia. Dos passeios em família. Fala com os olhos acompanhando a voz. Fala da mulher que está chegando e me diz, com romantismos aos montes, que ela é linda, muito linda. Ela chega e nos cumprimenta. Disse que engordou muito. Ele sorri. Fica quase sem texto de tanta paixão. Não sei se é invenção minha, mas percebi os seus olhos marejados. Ela disse quanto engordou. Disse que não estava enjoando mais. Disse que a filha é quem havia decidido o nome do irmão. José Pedro. Disse que passou alguns dias em repouso. Ela foi dizendo e dizendo. E ele, com aqueles olhos, fitando a amada. Grávidos os dois, certamente. Ela voltou a falar em gordura. Foi quando ele protestou com delicadeza. Confessou ali que ela era a mulher mais linda do mundo. E que “a vida de nós dois” estava fazendo dos dois o casal mais feliz do mundo. Ela sorriu. Ele abaixou e acariciou a barriga. Conversou com o filho. Teve a certeza de que ele estava ouvindo. Ela acariciou o cabelo do marido, enquanto olhava para baixo e contemplava a conversa entre seus dois amores. Explicou que agora serão quatro. E mais os gatos.

Disse ele que tiveram tempos difíceis. A crise financeira é grave. Contas não esperam a maré baixar. Desânimos de negócios que não se concretizam. “Mas tudo mudou”, explicou o pai. Para nós. Para os meus pais. “Você não sabe quanto estamos trabalhando a mais”, falou ele. “Quanto queremos melhorar este mundo para esse menino que está chegando”. Abraçaram-se os dois. Beijaram-se com delicadeza. Ela se foi. E ele continuou falando de suas histórias.

Fiquei ouvindo. Fiquei comungando daquele sagrado enlace. Fiquei sonhando com que outras histórias pudessem ser assim.

As vidas em formação no ventre de uma mulher sentem as ausências e as ternuras, a violência e os beijos, os gritos e as palavras de boas-vindas. As mulheres grávidas vivem as carências naturais de um corpo em transformação. Mas quando encontram companheirismo, permanência, amor, as carências compreendem que há algo mais profundo pedindo para nascer. Monteiro Lobato, em determinado momento da vida, cansado dos cansaços provocados pela perversidade dos homens, resolveu escrever para as crianças.

Os homens agridem, insultam, mentem, violentam a própria essência. O que os leva a isso? O que os leva a dessacralizar o sagrado sentimento do amor? Mulheres grávidas também são espancadas ou esquecidas. Crianças recebem os ódios dos adultos. Desperdiçam os adultos a suavidade de um beijo em uma barriga que cresce e cresce, com uma vida que trará a outras vidas, vida. É do poeta indiano Tagore a mensagem de que “cada criança que nasce nos traz a mensagem de que Deus não perdeu a esperança nos homens”.

Despedimo-nos. Ele ainda teve tempo de dizer que faria, naquela noite, uma surpresa para sua mulher. Surpreendemo-nos com essas histórias, recheadas de humanidade. É isso o que somos. A perversidade não faz parte de nós. Chega por alguma razão. Fica. E espanta o que de fato somos.

Qual o surpresa que ele fará para sua mulher? Pouco importa. O que importa é o sorriso nos olhos, quando ele diz isso, e pensa que a noite será deles.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 04/06/2017

Na simplicidade, Deus

Seu João vive no interior. E gosta de viver no interior. Não conhece as grandes cidades. Mas não sente falta. Gosta do lugar em que nasceu. Das montanhas que protegem seu vale. Dos riachos. Dos cantos que inauguram seus amanheceres. Identifica os pássaros. Os de canto curto. Os de canto prolongado. Os mais barulhentos. Os mais afinados. E não se incomoda com os galos madrugadores.

Gosta do mexer sem pressa a xícara de café, enquanto olha pela janela. A paisagem é sempre a mesma. Nunca é a mesma. Nos dias frios, aconchega-se em um velho cobertor de lã. Velho, mas valioso. Para ele. Pelos dias que foram aquecidos. Pela mulher que já partira.

Doente. Valente. Morreu Adélia no inverno. Fazia frio quando o sino da cidadezinha chorou as badaladas tristes. Os amigos foram. O padre lembrou as caridades que Adélia fazia. Era cantora, também. Cantora de Igreja. Afinadíssima como alguns passarinhos, na opinião de João. Por que morrera antes dele? Porque é assim. Preferiria que partissem juntos. Mas não dependeu dele. O que dependeu ele fez. Amou. Cuidou. Tomou os cafés sem pressa reparando na sua mulher. Que era sempre a mesma. Que era sempre diferente.

Conheceu Adélia ainda menina. Gostou do nome e do jeito. Tímida. Recatada. Ensaiou alguma aproximação. Foi feliz. Foram felizes. Os dias que viveram juntos anteciparam o que acredita João ser o Céu. Amor em abundância. O pouco que tinham, dividiam. Nada de trancafiamentos. Nada de mesquinharias. Nem nos sentimentos. Nem nas posses. Poucas posses tinham os dois. Não tiveram filhos. Tiveram momentos regados por dizeres e pausas. Juntos.

Seu João lembra da amada todos os dias. Sem as dores dos primeiros dias sem ela. Lembra até com alguma alegria. Das coisas engraçadas. Dos erros que cometeram. Dos acanhamentos. Em dias de festa, quando havia gente de fora da cidade, Adélia tinha vergonha de cantar na Igreja. João sabia disso e, por isso, ficava mais junto dela.

Há crianças na rua em que Seu João mora. Ele é aposentado. Tem tempo para contar histórias. E gosta de fazê-lo. No passado, trabalhou na estrada de ferro. Gosta de falar sobre o trajeto dos trens. Sobre a época em que havia passageiros. Sobre as mulheres que chegavam com vestido gordo e chapéu elegante. Sobre os homens que achavam a cidade muito pequena.

Conta histórias que contaram para ele. Sempre dá um jeito de falar de Adélia, da cantora que canta no Céu. Foi quando Felipe quis saber onde ficava o Céu. Seu João olhou para o alto. Abaixou o olhar. Colocou a mão no coração. Apertou. Fechou os olhos. Abriu os olhos. Respirou profundo. Deu um sorriso. E respondeu: “Quem sabe?”. Sorriu novamente e certificou: “Que existe, existe”.

Leninha pediu outra história. Felipe insistiu nos questionamentos: “E Deus?”. “O que é que tem”?, devolveu Seu João. “Onde mora Deus?”

Seu João aproveitou a pergunta e perguntou para as crianças. Cada uma respondeu o que quis. “No Céu”, “Em todo lugar”, “Na Igreja”, “No coração da gente”. E a cena seguia naquele interior. Seu João sorria e agradecia por viver ali. Pensava ele, consigo mesmo, numa frase que alguém um dia falou: “Na simplicidade, Deus”.

Contou a história, para aquelas crianças, de uma mulher que chegou à estação e não sabia para onde ir. Bonita, mas sem destino. E, na estação, encontrou um homem meio desanimado da vida. Alguma nuvem se apressou e o sol pôde iluminá-los. E, juntos, mudaram um ao outro. E foram felizes. O amor faz essas gracinhas.

Levantou-se e foi até a velha cozinha. Tirou a tampa de um pote de vidro alto e retirou os biscoitos de polvilho. Ajeitou tudo em uma tigela e levou para as crianças. Sentou-se novamente e foi servindo uma a uma. Esqueceu-se do suco. Disse que já pegaria. Enquanto mordia aquele biscoito, fechava os olhos e se lembrava do quanto era boa a vida.

Felipe se ofereceu para pegar o suco. Ele agradeceu. As crianças queriam mais histórias. Ele queria contá-las. Vez ou outra, ele se interrompia para explicar o pio de algum passarinho. O entardecer já chegava. Foi quando Seu João pediu algum silêncio para que vissem juntos mais um pôr do sol. Enquanto via, ele pensava nas perguntas. “Onde fica o Céu?”. “Onde mora Deus?”.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 28/05/2017

Motorista de ônibus

Paterson é um motorista de ônibus que vive a rotina de um motorista de ônibus. Sua cidade e sua linha de ônibus têm o mesmo nome que o seu, Paterson. Ele é casado com Laura, uma mulher que passa os dias pintando cortinas e tapetes na companhia de seu cachorro. Sonha ela em ser doceira, ou melhor, fabricadora de cupcakes ou quem sabe uma cantora country.

Paterson tem uma rotina comum. Acorda quase sempre no mesmo horário. Beija sua mulher. Come alguma coisa. E vai trabalhar caminhando. Nos mesmos trajetos, consegue inspiração e tempo para escrever poemas. Escreve-os em um caderno secreto. A mulher gosta quando ele os lê. Ela o admira profundamente. Quer que o mundo conheça os seus escritos. É mais ou menos essa a narrativa de um filme de Jim Jarmusch que está em cartaz nos cinemas. O filme é uma celebração à poética do cotidiano.

Ezequiel é um motorista de um ônibus que vive em uma grande cidade que não leva o seu nome, em um grande país chamado Brasil. Ele é casado com Laura, uma professora apaixonada por crianças e por seu marido. Moram em uma casa simples. Acordam muito cedo. Fazem amor quase que cotidianamente e saem para trabalhar. Ezequiel gosta dos finais dos dias, quando toca violão para Laura. Ela escreve silenciosamente seus poemas de amor em um caderno qualquer.

As duas Lauras sonham muito. E gostam de falar sobre os seus sonhos. As duas Lauras admiram os seus maridos. Paterson e Ezequiel orgulham-se de terem feito a escolha correta. Dirigir. Os ônibus e suas vidas. Dirigir sem solavancos. Felizes pelos cotidianos. Nada de velocidade exagerada para não precisar de freadas incômodas. Há que se ter atenção. Há perigos por todos os lados. Há desavisados que tentam entrar na frente e causar acidente. Às vezes, propositadamente; outras, por descuido. Comentários infelizes sobre vidas felizes podem causar estragos.

A Laura do filme sonhou que teriam eles filhos gêmeos. A Laura de Ezequiel está grávida. De gêmeos.

Ficção e realidade se encontram em narrativas comoventes de vidas humanas. Há tanta história para ser contada. Poetas se valem do que veem, do que ouvem, do que experimentam, do que sentem, do que imaginam. A poesia é democrática. Nasce dos que se dedicam às palavras como ofício de vida e nasce dos que conduzem ônibus ou educam crianças. A poesia é livre. Não a detém apenas os que ampliaram o repertório estudando tratados e enciclopédias. A vida também é uma escola. Uma escola poética.

Certamente, haverá aqueles que dirão que motoristas de ônibus sofrem muito, ganham pouco, trabalham exaustivamente. Que professores ou fabricadores de cupcakes não têm tempo nem para respirar, quanto mais para amar. Conclusões apressadas. O amor é soberano. Sobrevive ao tempo e às ausências. Empresta perfume ao suor cotidiano. Lava o que é necessário. E alimenta as ruas que precisam ser percorridas.

A rota de Paterson e de Ezequiel é sempre a mesma. Mas é diferente. Um texto de uma música country é sempre o mesmo. Mas é diferente. As crianças que estão na sala de aula com a professora Laura são as mesmas. Mas são diferentes. E o sabor da diferença é uma experiência necessária.

Ousar outras vidas, mudar de profissão ou atividade, experimentar uma nova história, tudo isso é possível e, às vezes, imperativo. Quando não se está feliz em uma rota, urge lembrar que há outras.

Paterson e Ezequiel preferem permanecer. Querem continuar assim. Conduzindo e sendo conduzidos. Experimentando as diferenças das estações. Acompanhando uma conversa aqui outra lá, não por intentos de espalhar segredos, mas por encantamento. Vidas humanas trazem encantos quando se compreende. Arrogantes desperdiçam essas oportunidades.

O filme e a vida nos ensinam que a humildade é uma companheira e tanto. Como Laura. Como as Lauras. As que amam. As que sonham.

Em suas rotinas, parece não haver muitos recursos para gastos extraordinários. Não querem comprar o que veem nos anúncios. Seus sonhos são outros. Como trabalham muito, o pouco tempo que resta é dedicado ao amor e à poesia. Conduzem a vida dos outros sem delas se valer para comentários maldosos. Não. Isso não lhes cabe. Como só sabem de trechos de conversas, não se dão o direito de conclusões. Preferem concluir o dia com canções e com o direito de dormirem juntos. Porque amanhã tem mais.

Quem tiver oportunidade assista ao filme. Quem tiver oportunidade preste atenção a um motorista de ônibus e a como ele conduz sua vida. Quem sabe você encontre um Ezequiel por aí. Se encontrar, mande lembranças para Laura, ele há de agradecer.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 30/04/2017

Viver a vida

Os desajustes de hoje desaparecerão amanhã. Os embates tão apaixonados darão lugar a outros. As dores também serão substituídas. Problemas que parecem montanhas intransponíveis serão reduzidos a areias inofensivas. É esse o poder cicatrizante do tempo.

Pense em uma discussão de trânsito. Que significado terá ela para uma vida? Por que tanta efusividade com o que passa no abrir de um sinal? Uma escolha para onde ir em um entre tantos finais de semana? Brigas? Por quê? Porque o time fez um gol? Outros jogos nos preencherão, outros gol poderão ser defendidos ou marcados.

Um vaso se quebrou? Que o tempo da varredura seja o mesmo que o tempo da chateação. E nada mais. E prosseguir.

Um machucado? Algumas lágrimas. E nada mais. Um aparelho que se quebrou. Uma encomenda que não chegou. Um projeto que falhou. Sucessões de “nãos” nos incomodarão, mas nos ensinarão, também, a dizer os “nãos” necessários. Que hão de nos proteger.

Uma doença chega e nos ensina. Ensina-nos a valorizar o que poderíamos perder.

Uma amiga, que venceu uma doença que parecia invencível, um dia me disse: “É preciso ‘viver a vida’, porque a vida que passa não volta e a que ainda haverá de vir talvez não venha.

Desperdiçamos tanto tempo maculando o sagrado tempo do amor, da amizade, dos encontros. Precisamos inaugurar uma pedagogia do encontro. Do encontro com os sonhos que restaram em nós. Que sobrevivam! Do encontro com mãos que ainda acreditam no caminhar juntos. Do encontro com os amores imperfeitos que conseguimos amealhar. Não esperem amores perfeitos. Ainda não foram inventados. Nem pessoas perfeitas. Basta que nos olhemos no espelho da consciência e percebamos que em nós também mora a imperfeição.

Certo amigo disse ao outro: “Te perdoo pelos seus erros”. O outro apenas sorriu. Sorriu o sorriso da compreensão. Quem não erra?

Quando vejo dois idosos caminhantes, fico imaginando o meu amanhã. Acompanhado. De amores. De amigos.

O tempo há de nos presentear com alguma lucidez. Menos desperdícios com o efêmero e mais celebração com o eterno. O que gostaria de eternizar nos meus gestos? A arrogância ou a compreensão? A avareza ou a generosidade? O orgulho ou a delicadeza?

Hoje, é plantio. Amanhã, é colheita. Hoje, é colheita. Amanhã, é plantio. Plantamos e colhemos sem pausas. O que falamos expressa e constrói o que sentimos. O que sentimos se materializa no que falamos e somos. Por isso, é preciso “viver a vida”. Sem concessões. Em qualquer idade. Diante de qualquer enfermidade. No enfrentamento de qualquer dor. Viver a vida como um decisão inegociável. Aproveitar cada instante para a reinvenção. Se o que foi, foi, então, é viver o que fica. Se um movimento se perdeu, há outros que merecem atenção. Se um amigo nos decepcionou, há alguém, logo adiante, aguardando um olhar amoroso.

Se não há dinheiro para uma longa viagem de celebração, celebre o pôr do sol. Em alguma esquina. Mas acompanhado. Sempre há alguém – não necessariamente quem teimamos desejar – disposto a assistir ao espetáculo.

O sol se põe. E o sol nasce. E novamente se põe. E novamente nasce. Os ciclos são um convite a separarmos o bom do que passa rápido. O que é bom permanece. Como obra humana inspirada e inspiradora. O que é bom permanece nos oferecendo sorrisos gratuitos. Basta uma prosa, em um dia qualquer, e a alma se alimenta.

Ao contrário do grito, do xingamento, das rasuras. Eles assustam a alma. E ela encolhe. E, pequena, já não vê a sucessão de belezas que compõem a nossa vida.

Em um velório, presenciei o adeus de uma mulher ao marido amado. O choro da saudade e a gratidão do amor sem economias. Palavras lindas de quem encontrou alguém para costurar os sentimentos e cuidar como decisão e necessidade.

Todos os dias chegam vidas e todos os dias vidas partem. A sabedoria está em compreender as chegadas e as partidas e viver o tempo que temos sem complicações.

Vez ou outra, eu me pego lembrando do tempo ao qual gostaria de voltar. Acabo voltando às caixas tantas que armazenam o bem que vivi. Volto onde estou com vontade de prosseguir. Sabendo que sou capaz de enfrentar as tormentas com o depósito de amor que meus pais e tantos que amei, por mim, passaram.

Plantios e colheitas. Colheitas e plantios. Vida que segue… de preferência com bagagem leve. Para que não nos descuidemos de quem precisa de nós.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 23/04/2017

Páscoa, o amanhecer da vida

Amanheceu.

O túmulo está aberto. Os que conseguiram chegar perceberam que a morte já havia sido vencida. A noite demorada não resistiu. A luz chegou.

É um novo dia de novos dias que se sucederão. Os esforços dos senhores do poder deram em nada. Nada é mais forte do que o amor.

A Páscoa é a celebração do amor. Do amor que vence o ódio. Da vida que vence a morte. Da liberdade que vence a escravidão.

Os que odeiam são escravos do próprio ódio. Os que oprimem são escravos da própria opressão. Os que condenam são escravos da própria condenação.

Julgaram Jesus. Condenaram-no a deixar este mundo. Primeiro a cruz, depois o túmulo. A cruz persiste como sinal do que houve. O túmulo está vazio. Era pequeno demais para caber tanta vida. A morte nos inquieta. Certamente. Há um mistério entre o que vemos e o que gostaríamos de ver. Se pudéssemos saber o que acontecerá depois… Fiquemos no que está ao nosso alcance. Olhar para o que aconteceu e aprender com o acontecido. E prosseguir.

Na Páscoa antiga ,a coragem de Moisés. Nem os exércitos nem as águas foram capazes de deter o seu sonho. Era um povo escravo que merecia a liberdade. Na Páscoa nova, é a vida de Cristo que renova a nossa. Um povo carente de um sinal. Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há crianças aprendendo a serem suicidas, há outras chorando os pais, mortos “em nome de Deus”, há outras vitimadas pelas violências tantas. E Jesus ensinou que cuidássemos delas.

Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há famílias destroçadas pela violência, há guerras dentro das casas, lares que se transformam em palcos de morte. Apedrejadores em posição de alerta. E Jesus nos olhou com compaixão.

Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há alguém ao nosso lado, esperando um gesto de amor, um reconhecimento, um cuidar que alivia o cargo pesado que mora em nosso destino. E Jesus nos deixou o mandamento do amor, do amor a Deus e ao próximo. Quem é o meu próximo? Passo ao longe e tenho pena ou desço de onde estou para cuidar de suas feridas?

Mundo ferido o nosso. Feridas abertas que precisam de um poder cicatrizador. Quem há de pegar a essência que ficou no amanhecer daquele túmulo para perfumar os ambientes e aliviar as dores? Os professores? Os médicos? Os artistas? Os pais? Os amigos? O próximo?

Quem é o meu próximo? Quem precisa de mim hoje? Se conseguíssemos responder a essa pergunta e encontrássemos esse irmão, celebraríamos uma Páscoa muito mais significativa. Seríamos menos escravos, menos trancafiados em nossos túmulos. Tristes de nós quando nos afeiçoamos aos túmulos e nos negamos a ver que estamos vivos e que o dia já amanheceu.

Tristes de nós quando fechamos os olhos fingindo que é bom estar onde estamos, no lugar dos mortos, dos que desistiram. Tristes de nós quando – avarentos de atitudes e de sentimentos – somos incapazes de abraçar a generosidade.

Páscoa é alegria. É esperança. Mesmo àqueles que passam ao longe das religiões vale um olhar para a história. Por que um filho de carpinteiro marcou a história da humanidade? Que carpintaria de alma é essa? Que poder é esse que atravessa os tempo e continua a fascinar? O seu fascínio está além das religiões. Está além do que conseguimos ver ou compreender. Seu legado é simples. Amar. Sem barreiras nem fronteiras. Sem muros. Sem nada que impeça de estender as mãos e cuidar. Do próximo. Do distante. De qualquer um cujos olhos se encontram com os nossos.

Páscoa é passagem. Barreiras, muros e túmulos tentam interromper o curso das vidas. E há quem defenda isso. Deixemos, por ora, essas escuridões de lado.

Amanheceu. E a esperança voltou a nos fazer companhia.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 16/04/2017

Domingo de Ramos

Quem eram aqueles que aclamavam Jesus na entrada de Jerusalém? Aqueles que, com os seus ramos de oliveira, gritavam “Hosana, hosana ao filho de Davi”? Quem eram os que festejavam sua história? O Nazareno que falava sobre o amor, que não tinha preconceitos, que conversava com as crianças, que acolhia as mulheres, que não tinha nojo dos leprosos? Aquele que ensinava em parábolas?

Havia razões para comemorar a sua chegada. Ele desassossegava as pessoas com sua capacidade de ensinar o amor e seus afluentes. Do rio precioso, saíam outros necessários como o perdão, a misericórdia, a compaixão.

Teve Jesus compaixão por aquela mulher que, por pouco, não fora apedrejada. Chorou com os choros das irmãs de Lázaro. Compreendeu a dor da viúva de Naim. Era um cortejo de lágrimas que saía da cidade quando ele chegava com o cortejo da esperança. E a mãe pôde abraçar novamente o seu filho. Devolveu alegria aos noivos de Caná da Galiléia. Explicou que os humilhados serão exaltados e que os humilhadores não encontrarão a paz.

Entrava esse homem em Jerusalém e o povo tinha razões de sobra para aplaudi-lo. Mas o que houve depois? O mesmo homem foi humilhado, açoitado, despido de sua dignidade em um calvário de abandonos. Os gritos eram outros. Queriam o seu fim. Não toleravam mais a presença de alguém tão bom. Era preciso jogar sobre ele todos os ódios que estavam acumulados.

Ele representava algum perigo? Decidiram que “sim”. Em uma guerra de comunicação, convenceram os que o receberam com aplausos a cerrar os punhos e lançar sobre Jesus suas ausências. Nada de misericórdia ou compaixão. Nem a dor da mãe que encontra o filho ensanguentado parecia comovê-los. Até os amigos tiveram medo e o negaram. A cruz seria o seu destino. Antes um governante lavou as mãos. Antes uns religiosos justificaram os horrores em nome de Deus.

Usar o nome de Deus para matar é correto? Quem decide o que é o correto? Mas e o povo? O povo que o aclamava com alegria? Mudou de lado. Um cisco entrou em seus olhos e já não mais enxergavam. O ódio tem esse poder. O poder de não nos deixar ver. E o pregador do amor caminhava para ser pregado na cruz.

E a história se repete. É o início de mais uma Semana Santa. As cerimônias são plenas de ensinamentos e instigações. Quem estamos crucificando hoje? Quem estamos abandonando? Ontem, os entusiasmos diante da possibilidade do poder. Hoje, o abandono.

O jovem pregador do amor não reagiu aos odientos ataques. Não era esse o seu tema de vida. Seguiu ciente de que o tempo haveria de rasgar o véu da ignorância que cegou aquela gente.

O que nos cega hoje? Dizeres malditos que nos convencem a matar? A morte na cruz não está prevista em nosso sistema jurídico. Mas e as cruzes que obrigamos o outro a carregar? Houve justiça com Jesus? Justiça injusta aquela. Filha da mentira divulgada. Filha do medo de um amor revelador.

Políticos e religiosos, legalistas e moralistas estavam todos do mesmo lado. Divulgadores de falsidades, também. E, do lado certo, estava Ele. Entrando em Jerusalém. Partilhando o pão. Lavando os pés dos Seus amigos. Orando por paz.

Os nomes dos que gritavam pedindo Sua morte não ficaram registrados nas história. O Dele ficou. O menino de Nazaré, o filho de Maria e do carpinteiro José, o inaugurador de uma nova forma de falar com Deus, de falar de Deus.

Que essa semana nos santifique. Os ciclos se repetem. Os de ódio e os de amor.

Quando olhamos os ódios do passado, os tiranos, os injustos, os mentirosos, certamente, lamentamos. Mas e quando reproduzimos esses mal comportamentos? Há alguns que tiveram o poder e mataram milhares ou milhões. Há outros que matam esperanças dentro de casa, que desperdiçam infâncias, que agridem mulheres, que roubam a alegria. Que tiram a paz dos que encontram nas tantas esquinas que há por aí. Há os que crucificam na primeira informação e há os que conversam com o tempo para compreender.

No domingo que vem, é Páscoa. Um outro dia. Um outro artigo. Um outro raio de esperança a nos dizer que é a vida a vitoriosa.

Que seja uma semana de vida, para todos nós, imperfeitos, errantes, ávidos por alguma luz. A luz está na cruz, mas sairá dela para viver nas consciências que se abrirem, como se abriu aquele túmulo, mostrando que a morte não poderia matar o amor.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 09/04/2017

Sujos e malvados

Uma mulher estava limpando a rua. Muitas mulheres e homens limpam as ruas, todos os dias, nas pequenas e nas grandes cidades. Com seu uniforme, a mulher, gari, limpava a rua.

Um homem chegou para entrar em seu carro e começou a xingar a mulher. Falava alto. Gesticulava. Ameaçava. A mulher tentava explicar. O homem não estava disposto a ouvir. Eram frases tão soltas, tão desconectadas, tão agressivas que ficava difícil entender tamanha chateação em uma manhã ensolarada.

O dia estava apenas começando. O homem saiu com o carro em alta velocidade, sem desperdiçar, entretanto, a oportunidade de mais algum xingamento. Com o vidro aberto, mandou que ela sujasse a mãe e ainda disse que estava com o nome dela e que ela aguardasse para ver o que haveria de acontecer. Gritando e olhando para trás, quase atropelou uma criança com roupa de escola.

A mulher parou um pouco, colocou as duas mãos sobre a vassoura em pé, abaixou o queixo para acomodá-lo sobre as mãos e respirou calmamente para que as batidas apressadas do coração voltassem a ser o que eram antes do ocorrido.

Chorou aquela mulher. Lembrou-se da mãe, de quem ela cuidou até morrer. Sujar a mãe? Nunca. Limpou-a muitas vezes, quando a doença roubou sua autonomia. Acordou cedo, cedíssimo, para trabalhar. O pouco salário nunca foi desculpa para algum descuido. Se alguma poeira atingiu aquele homem, não foi proposital. Ela estava de costas quando ele chegou. O carro estava estacionado em frente a uma igreja. Certamente, ele não estaria saindo da igreja, pensava a mulher. Se estivesse saindo, se estivesse ido rezar, não agiria daquela forma.

O homem pediu o seu nome. Ela, imediatamente, deu. Com a língua presa, pronunciou um nome comum. Não entendeu a razão. Ligaria ele para algum conhecido poderoso e pediria que ela fosse demitida? O homem parecia decidido a mostrar que mandava.

Pensamentos tantos ocuparam a cabeça da mulher. O cansaço. A diabetes. A preocupação em não ficar nervosa. A pressão alta. Os filhos que dependiam dela. O marido, que gritava de forma parecida à do homem do carro, havia ido embora. Estava tudo nas mãos dela. Limpar a cidade e cuidar dos seus. E, agora, numa manhã ensolarada, num dia ainda espreguiçando, a chateação dos maus tratos.

O homem estava bem vestido. Parecia limpo. Parecia. Não. Não era a poeira saída das ruas que haveria de sujá-lo. Estava sujo o homem.

Lembrei-me do filme de Ettore Scola, “Feios, sujos e malvados”. O filme é uma provocação. Comportamentos desprovidos de ética moravam naquelas personagens que misturavam estilos, tragédia shakespeariana e comédia italiana. Tragédia e comédia. Dores e risos. Pessoas bondosas que amanhecem conosco, e pessoas que almejam roubar nossos amanheceres.

O homem do carro não tinha nenhum estilo. Não sei dizer se era feio. Não deu para reparar. Mas era malvado. Era uma manhã ensolarada. A folha do novo dia estava quase em branco. Aguardando textos. Começar com uma rasura demonstra descuido maior do que o da mulher, se descuido houve. O que ela sujou? Ele? O carro? Com alguma poeira?

Covardias são comuns em pessoas sujas e malvadas. E feias. A beleza não mora em detalhes objetivos e explícitos. Brota de uma luz que todo o ser humano é capaz de irradiar. Parecida com a luz daquela manhã ensolarada. O homem teria outros motivos para estar daquele jeito? Não. Não há justificativas para ações assim.

A criança que quase foi atropelada, um pouco adiante, ajudou uma senhora idosa a atravessar a rua. Aprendeu esses bons modos em algum lugar. Que bom. Há esperança!

O homem saiu dali para ir a algum lugar. Sei quase nada dele para dizer algo a mais. Sei que o que vi é feio. Abracei aquela mulher, suada de nervosismos e da lida, preocupada com o amanhã, ciosa de que teria que prosseguir, de que havia muito a ser limpo naquela cidade.

Cenas cotidianas nos inspiram. Falou-me um pouco do seu calvário aquela mulher. Tinha medo de gritaria. Conviveu com um pai assim e com um marido assim. Gostava da vida. De acordar cedo. De ter um trabalho. De deixar a cidade mais bonita. De encontrar pessoas educadas que, com naturalidade, a cumprimentavam. Sorriso bonito o daquela mulher. Passado o susto, ela estava novamente limpando. Fui saindo e reparando que os seus lábios se movimentavam. Não sei se ela estava conversando com ela mesma e dizendo que não se importasse ou se estava cantando. Se estivesse cantando, certamente seria uma canção bonita. O sorriso dos olhos revelava isso.

Disse a mim mesmo que não fosse descuidado. Que nunca agisse como aquele homem em frente à igreja. Disse a mim mesmo que cultivasse a beleza e a bondade daquela mulher.

A criança, ao longe, ia para a escola. Deve ter ela bons professores.

Era uma manhã ensolarada. Era um dia ainda começando. Quantas outras mulheres bonitas e bondosas ainda haveriam de se encontrar com homens sujos e malvados?!

Não que não haja mulheres malvadas e homens bondosos. Mas, naquela manhã ensolarada, foi o que eu vi, foi o que me aqueceu.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 02/04/2017

Sinfonia do encontro

Um olhar. Apenas um olhar e a quietude. E o coral de vozes não mais a amedrontou.

Era uma menina. Ainda nos tempos da infância. E era tímida. E tinha os medos todos comuns à infância e a todas as idades.

Os pais moravam longe um do outro. Optaram por tentar outras escolhas. Filha única a menina. Era a mãe quem a preparava para ir à escola. O pai a visitava quando podia. Sentia falta do pai a menina, mas ressentia não conseguir dizer o que sentia. Ensaiava pedir alguma atenção. Chegava a pronunciar para si mesma o que haveria de dizer. Não dizia.

A mãe estava sempre em busca de algo que a menina não compreendia. Sobressaltada com a vida. Com as buscas. Com os fracassos.

A menina tinha medo do fracasso. Alguém disse que ela não cantava bem. Brincadeira estúpida, talvez. Mas a incomodou. E como! Quis sair do coral, mas não conseguiu dizer. E por lá ficou. O medo, nesse caso, foi-lhe companheiro.

Era o dia da apresentação. Mulheres e homens estavam no teatro. Entraram as crianças. A menina tinha o coração acelerado. Resolveu cantar baixo para não incomodar. Talvez assim não percebessem os erros da sua voz. Temia esquecer a canção. Temia ter alguma tontura. E o medo roubava dela o prazer de estar ali. Resolveu ficar um pouco escondida. Melhor que não a vissem. Com olhos baixos, teve um súbito de coragem e olhou. Um olhar. Depois de tantos que nada viram. Um olhar e o encontro com os olhos da mãe. Um sorriso. Um alívio. E mais um desejo.

O pai estava entrando. Ela viu ao longe. E não precisou de mais nada. Esqueceu-se de tudo. E cantou. E participou daquela sinfonia. Naquele tempo em que o tempo ainda não dizia quanto é apressado.

A menina cresceu. Os pais se foram. Amores vieram para participar da sua vida. Os medos ainda a incomodam. Ora fazem mal, ora fazem bem. Fazem mal quando retiram dela possibilidades incríveis. Fazem bem quando a ajudam a permanecer atenta para, na vida, não desafinar.

A menina virou cantora. Canta como necessidade vital. Canta e permanece nos que a ouvem. Ganhou confiança. Sabe que saem de casa para vê-la. Sabe que silenciam os murmúrios para ouvi-la. Vez em quando, lembra-se de como tudo começou. Naqueles desencontros, encontrou, mesmo que distantes um do outro, os olhares de que necessitava. Estavam ali a dizer algo. E a sinfonia iniciou a sua jornada.

Encontros. Cantores ou construtores. Julgadores ou auxiliares. Motoristas ou doutores. Professores ou professadores de qualquer crença. Estão todos tentando encontrar o tom da própria vida. Nos inícios, a dificuldade é talvez maior. A menina, feita mulher, ainda é tímida. Ainda economiza nos ditos. Gosta do palco porque se sente segura. No canto, encontrou o segredo de dizer o que não conseguia dizer, o que talvez ainda não consiga. Sofreu de amores que se foram, mas prosseguiu cantando. Entusiasmou-se com outros que ofereciam eternidades, mas não deixou de cantar.

Na sinfonia da vida, foi percebendo que é preciso ser forte. Que a dependência de olhares não faz bem. Naquele dia, os pais foram. Poderiam não ter ido. Poderia ter sido tudo mais difícil. Mas eles foram. Alquebrados de necessidades, ansiosos por outros encontros, frios um com o outro, mas, com tudo isso, foram. Algum Maestro os inspirou a perceber que a menina era maior do que as suas pausas, que a menina iniciava na sinfonia da vida os seus primeiros acordes. E precisava deles. Indubitavelmente, precisava deles. Se soubessem o poder que têm sobre o amanhã dos seus filhos, os pais seriam um pouco mais atenciosos. Venceriam, certamente, outros certames, para estar onde devem estar. Entrecruzando olhares, expulsando medos, sorrindo.

A menina-mulher hoje canta o amor. Acredita no amor. Fala dos pais com os olhos marejados. Eles se foram tão cedo. Os mesmos olhos que os viram. Uma, um pouco à frente; o outro, chegando apressado. Mas estavam ali. Antes de partirem, puderam vê-la consagrada. Tiveram orgulho da menina tímida. Cantaram as suas canções. Encontraram-se muitas vezes. Sem os ressentimentos do início da separação. Maduros compreenderam que o tempo do amor foi capaz de gerar amor. E que melhor do que lamentar pelo que poderia ter sido era celebrar o que foi. Também eles, um dia, fizeram parte de uma mesma sinfonia que, como toda sinfonia, um dia chega ao fim. Acabou antes de terminar? Talvez, sim. Mas existiu. E a menina continua existindo. Seus olhos olham outros olhos. Mas aqueles continuam vivendo na menina e a fazendo cantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 26/03/2017