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Palavra de mulher

Sensibilidade. Chico Buarque é um compositor que sempre navegou com muita leveza pelo oceano de emoções que é o universo feminino. Em suas letras, as dores, a saudade, o tão desejado amor. Mulher dizendo sobre o seu amor e brigando por ele. Mãe embalando filho que já partiu. Uma desatenção aqui e o basta, logo depois, “gota d’água”. Um amor que chega como quem chega do nada e que arromba as portas que trancafiavam a entrega. Entregar-se para viver de amor. É assim que é. Mulheres em busca de vida, ávidas pela intensidade de encontros que permaneçam. Outras fazem da profissão um descarte. Que, aqueles que chegam, ouçam um “sim” e depois partam. Será? Palavras, mesmo ditas em comoção poética, nem sempre revelam o que queremos.

“Palavra de mulher” é um lindo espetáculo que revive as almas femininas delineadas nas canções de Chico Buarque de Hollanda. Direção impecável de Fernando Cardoso, embalada pela suavidade das vozes das cantoras. O cenário nos remete a um cabaré. Espaço em que encontros e desencontros guardam histórias. Entre um olhar e outro, um dançar e um aguardar, a expectativa de ser e de estar. Ser amado por estar com alguém que se importe.

Virgínia Rosa, Lucinha Lins e Tânia Alves vestem bem o figurino. Cantam lindamente. Falam, cantando, de quanto há para ser dito para homens e mulheres que não temem a sensibilidade.

Em tempos de tanta pressa, vale a pena parar e ouvir. E cantar as canções que nos dizem sobre o que verdadeiramente importa na vida. A pressa, por vezes, nos rouba momentos preciosos que nos dão significado.

Afinal, a matéria-prima de que fomos feito é o amor.  E compreender:

                           “Que o amor não é um vício


                                 O amor é sacrifício

                                 
O amor é sacerdócio


                                          Amar

                                  
É iluminar a dor

                              
- como um missionário”.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/2/2014
 

Os acordes da justiça e a canção do povo

Nesta semana, tomou posse o novo presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, desembargador José Renato Nalini.

A cerimônia foi na Sala São Paulo. O mundo jurídico se fez presente para ouvir não os longos discursos, comuns no judiciário, mas uma orquestra sinfônica. Disse o presidente, em memorável pronunciamento, que a música deveria servir de inspiração às mulheres e aos homens que dedicam sua vida à justiça.

Nalini é um poeta, um homem das letras e um dos maiores pensadores do direito no Brasil. Começou inovando, ao clamar aos seus irmãos de ofício, que ouçam a canção do povo. Do povo que ainda acredita na justiça, do povo que tem rosto, que tem nome, que tem dor, que quer ser tratado com dignidade. O povo que quer ter a certeza de que as decisões serão corretas, afinal, isso é a justiça. A arte da harmonia. A harmonia que exige afinação dos instrumentos para que a música cumpra o seu papel.

Juízes são instrumentos dessa orquestra, responsáveis pela beleza do que acalenta  é essa a finalidade da justiça, pacificar os homens na certeza de que se restabeleceu o correto, de que se buscou a verdade, de que ninguém pode levar vantagem sobre seu irmão.

Se a justiça é lenta, é preciso buscar alternativas para acertar o compasso. Se obedece a vozes estranhas, é preciso calar os que tentam usurpar da correta melodia. Se há ritmos diferentes para as mesmas situações, é bom observar e corrigir.

Aristóteles dizia que a justiça é a excelência moral perfeita. Acima dela, só a amizade. Porque é condição primeira da amizade que os amigos sejam justos. Não se pode ser justo consigo mesmo e injusto com o outro.

O juiz não é um ser vazio de afetos. Ao contrário. É ele que afetiva e efetivamente enxerga a dor e o sofrimento dos que clamam por justiça. Um bom juiz tem o poder de pacificar, de acolher, de decidir com correção o destino de muita gente.

Ao novo presidente do tribunal e ao conselho superior da magistratura, nosso respeito e admiração. Que a canção do povo torne os acordes da justiça ainda mais harmoniosos.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 7/2/2014

Os afetos necessários na sala de aula

A escola é um local privilegiado de desenvolvimento da habilidade cognitiva, isto é, da inteligência, da capacidade de compreender e de resolver problemas.

Os alunos vão à escola para aprender. Isso é um fato. Português, matemática, história, geografia, artes, etc. Mas há algo fundamental que dá vida e significado a esse aprendizado. Os alunos não são máquinas em que se programam conteúdos e eles vão repetindo. Os alunos são pessoas, carentes de atenção, de cuidado, de vínculo.

Lembro-me de uma professora que me deu aula, no antigo primário, numa escola estadual. Quando voltamos das férias e as aulas se reiniciaram, ela entrou na sala e nos disse que havia sentido muito a nossa falta. Que estava muito feliz, naquele dia, porque estávamos juntos novamente. Esse sentimento nos envolvia, era, no subtexto, algo dizendo que éramos muito importantes para ela, para o exercício do seu ofício, para sua vida.

Outra vez, fui eu, como professor, que, ouvindo a conversa entre duas alunas, percebi que uma falava sobre um problema de saúde de sua mãe. Na semana seguinte, perguntei se a mãe havia melhorado. Um dia desses, encontrei essa ex-aluna, de tantos anos atrás. Ela se lembrou dessa história (eu não me lembrava) e disse que nunca se esqueceu de um professor que se preocupara com a saúde de sua mãe.

Há algo essencial que nós, professores, temos que ter em mente: o imenso poder de construir ou de destruir os sonhos de nossos alunos. Somos seus referenciais. É preciso que nossa postura de competência, de seriedade, seja iluminada com os afetos necessários nas salas de aula. A atenção, o olhar, o respeito. Sei que há muitos problemas de disciplina, de apatia, vindos – muitas vezes – de famílias que não fazem sua parte na educação de seus filhos. Mas, mesmo diante das dificuldades, podemos realizar, com dignidade, a profissão que abraçamos.

Que nesse início de ano letivo, nós, professores, nos lembremos da nossa aspiração de cuidar das pessoas, abrindo a elas as janelas das oportunidades. Afinal, a educação é o passaporte para a liberdade.

Façamos a nossa parte, com competência, com afeto.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/1/2014

Uma nova chance

A lei existe para ser cumprida. Existe para que a justiça seja feita. E a justiça é o caminho para o bem-viver, para a pacificação das pessoas, para a felicidade – ensinava Aristóteles.

Quando alguém descumpre a lei, deve, segundo a própria lei, responder pelos seus atos. A pena mais grave é a prisão, pois no Brasil não há penas corporais nem pena de morte. Com a prisão, o cidadão perde parte de seus direitos. Como o de ir e vir. Mas não perde, ou não deveria perder, o elemento central de nossa lei maior, a Constituição Federal, que é a dignidade.

Recente relatório da Organização Não-Governamental Human Rights Watch, apontou problemas crônicos nas delegacias e nos presídios do Brasil. Temos, hoje, mais de 500 mil presos que vivem em situação degradante. Superlotação, falta de assistência médica, ausência de atividades educativas, culturais, entre outras. 

Outro grave problema apontado é a barbárie da tortura. Espancamentos e mortes de presos são inadmissíveis. Essa crueldade não combina com a nossa legislação tampouco com a postura que os direitos internacionais vêm assumindo na defesa de um mundo que acredite na força dos acordos internacionais para exigir que os Estados respeitem suas próprias leis e os tratados dos quais são signatários.

Nossa legislação se preocupa com o processo de reeducação do detento, sua reinserção na sociedade e sua recuperação, de fato, para que possa ter uma nova chance. Assim prevê a lei. Por que não cumpri-la? Será que, com todo o dinheiro que se gasta com as penitenciárias, não nos falta competência e criatividade para desenvolver um novo sistema em que o preso cumpra a pena com dignidade? Que estude, trabalhe e não fique na ociosidade. E se prepare para viver novamente na sociedade.

É preciso um pacto entre os governos federal e estaduais para enfrentar, com coragem, a situação dos presídios no Brasil. Não dá para fingir que não há superlotação, que não há maus tratos, que não há tortura. Só se muda uma realidade quando se é capaz de enxergá-la. E, nesse caso, além do problema, enxergar quem errou como alguém que pode ter uma nova chance.

É assim que reza a constituição. É assim que determinam as leis. Basta cumprir.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/01/2014

Compaixão

Há palavras que nos trazem significados tão essenciais que é preciso, vez ou outra, usar um pouco de nosso tempo para refletir sobre elas. Compaixão é uma dessas palavras. Compaixão significa “sofrer com”. É a capacidade que tem uma pessoa de sofrer com a outra. De se colocar no lugar da outra, consciente de que fazemos parte do mesmo barro, da mesma espécie, da mesma humanidade.

Compaixão não se confunde com pena. Quem tem pena olha de cima para baixo. Quem tem compaixão senta junto. A pena é passiva. A compaixão, não. Ela requer atitude frente ao sofrimento do outro. Uma atitude que vise a minimizar a dor alheia. Para isso, é preciso sensibilidade e generosidade. Há exemplos por todos os lados: gente que sai a cuidar de quem precisa, que usa parte de seu tempo para ajudar os outros a encontrar significado para a própria vida.

Em trabalhos voluntários, é comum ver pessoas se emocionando com a capacidade que tiveram de roubar o sorriso de uma criança que sofre com câncer, de um idoso que não recebia visitas no asilo, de uma mãe que não sabia como cuidar de seu filho e assim por diante. Mas há um desafio que vai além. Usar a compaixão no dia a dia. Em qualquer profissão. Uma palavra, um gesto, uma preocupação do taxista e o passageiro sente-se cuidado. Um sorriso do motorista de ônibus, a paciência com aquele idoso que demora um pouco mais para subir. Um enfermeiro que usa as palavras corretas para que sua profissão não caia na rotina e ele continue enxergando o outro. Um professor que sabe do poder que tem de ajudar os seus alunos a serem protagonistas da própria história, superando dificuldades e seguindo adiante.

Podemos falar de compaixão, também, na família. Um pai que sofre com o sofrimento do filho. Um filho que sofre com o sofrimento do pai. Companheiros que se enxergam e, enxergando-se, sabem que podem amenizar a dor.

Em uma sociedade tão apressada, com relações tão egoístas, desperdiçamos o poder do “enlaçar as mãos”, do sentir, do alimentar de afeto. Mas dá tempo de mudar. O convite é viver compreendendo o sofrimento do outro, ajudando-o e nutrindo-o de esperança.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 10/1/2014

O sabor da amizade

Quando um ano finda, muitas pessoas gostam de limpar as gavetas. De jogar fora documentos que não mais terão utilidade. Papéis desnecessários.

Há os que arrumam o guarda-roupa. E tiram as roupas que já não servem ou que servem, mas podem servir melhor a outras pessoas que têm menos. Como é bom ser solidário.

Alguns guardam agendas antigas como memória de conquistas e de aborrecimentos. Outros as descartam. Há aqueles que fazem uma limpeza no computador. Programas que não são utilizados e que só ocupam espaço. É sempre bom deixar um lugar para o novo.

Descartar coisas nos faz muito bem. Descartar pessoas, não.

Evidentemente, há algumas que nos pesam e que nunca foram nossas amigas. Surgem para dar notícia ruim. E saem para fazer comentários piores ainda. Essas não contam. Aliás, é bíblica a reflexão de que “são belos os pés do mensageiro que anuncia a boa nova, a boa notícia”. E sempre há uma boa notícia a ser dada, é só ter boas intenções.

Os amigos, os que nos acolhem em qualquer situação, os que dão sabor ao cotidiano, esses não podem ser descartados, sob pena de ficar faltando algo essencial em nossa jornada.

Há contratempos que surgem, pequenas desavenças. Faz parte. Até porque nunca encontraremos um amigo perfeito. E a razão é simples. Não há ninguém perfeito. Nem nós. Os nossos amigos também terão que conviver com os nossos estranhamentos, as nossas manias. Mas é melhor assim do que prosseguir sozinhos.

A amizade tem um sabor especial. Um alimento que faz bem, que nos fortalece, que nos dá significado. É o amor que dá significado à vida. Saber que somos esperados não por aquilo que temos, mas pelo que somos. Porque rimos e choramos. Porque nos cansamos e nos revigoramos. Porque a nossa prosa faz a vida de alguém mais poética. Porque as nossas histórias alimentam outras histórias que nos alimentam também.

Guimarães dizia que  “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. É disso que falo, da travessia fascinante que é a vida, e dos afetos que a tornam mais saborosa.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 3/1/2014

Em defesa do professor

Neste ano de 2013, tive a satisfação de presidir a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Nosso trabalho foi intenso. Criamos, debatemos e aprovamos medidas de capital importância rumo à qualidade da educação. E colocamos essa causa acima de qualquer coloração partidária. Para finalizar essa etapa, redigimos um manifesto em defesa da valorização salarial do professor. Esse documento requer o pleno cumprimento da Lei do Piso Salarial. O salário mínimo fixado ainda não é suficiente, mas é um passo significativo para o alcance de uma remuneração condizente com a responsabilidade de educar.

 

A educação é o bem mais precioso que uma nação pode oferecer aos seus filhos. E para se fazer um país grandioso, é preciso ter um povo educado. Nesse cenário, está o professor, agente crucial nesse processo. Não se faz educação sem professor. Por mais modernos que sejam os aparatos tecnológicos a profetizar evoluções fantásticas, nenhum deles é capaz de substituir a ação humana do educador, que dá afeto, transluz emoção e vibra com a conquista de cada aluno.

Professores são multiplicadores de esperanças, de sonhos e de amanhãs. Trabalham com afinco, rompem obstáculos e iluminam o caminho dos aprendizes. Despertam, em si e nos outros, o prazer do conhecimento.

No entanto, são carentes de devida valorização profissional. Impõe-se, com urgência, um exercício diário de toda a sociedade no reconhecimento de seu valor e na conquista de um salário que corresponda à complexidade e à nobreza de seu ofício.

Valorizar os profissionais da educação compreende, é certo, outros aspectos: formação inicial e continuada, reestruturação da jornada de trabalho e condições adequadas ao exercício docente. Mas já não podemos negligenciar a questão salarial, sob pena de aprofundarmos o desinteresse dos jovens pelos cursos de licenciatura e de fomentar a evasão de profissionais, desesperançados com a carreira.

Nada se sobrepõe, em importância, à causa da educação. É preciso dar destaque ao professor, elevá-lo à posição imperiosa no amadurecimento da nação. Os desafios são imensos, urge obstinação para enfrentá-los.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/12/2013

Bravo, Mandela

Nos últimos dias, manifestações de celebração à vida de Nelson Mandela, na África, têm encantado o mundo. O colorido da nação arco-íris e a alegria dos filhos de Mandiba, nome pelo qual é carinhosamente chamado por seu povo, revelam que os ensinamentos do líder africano frutificaram. Certamente, de lá onde está, ele assiste a tudo e sorri. Feliz. Os funerais de Mandela parecem, aos olhos do mundo, uma grande festa de amor, um ritual de fé a um pai que nunca parte.

Nelson Mandela foi um líder que teve a coragem de ser amoroso. A causa da igualdade de direitos entre negros e brancos rendeu-lhe longos 27 anos de prisão. Mas Mandela não se abateu, distribuiu amor entre os prisioneiros e, também, entre os carcereiros, aos quais prometia, igualmente, liberdade. “Dono de seu destino e capitão de sua alma”, Mandela renunciou a qualquer tipo de vingança, concentrando esforços para promover a reconciliação e a liberdade de homens vitimados pelo maior exemplo de desigualdade de que se tem notícia. Com paixão, simplicidade e inteligência, ele perseguiu o ideal de liberdade. E venceu. Foi eleito presidente de seu país e libertou seu povo. Em seu discurso de posse, professou: “Chegou o tempo de curar as feridas. Chegou o tempo de construir”. E foi o que ele fez.

O grande líder africano não pertence mais à África apenas, mas a todos nós. Sua grandeza humana  abraçou o mundo que, hoje, reverencia sua lição de amor. Em sua homenagem, reuniu-se o maior número de líderes mundiais da história. Chega de discórdia, chega de guerras, chega de ódio. Lado a lado, as diferenças se dissipam para se unirem em oração ao gigante Mandela. Vê-se a África de Mandela acolhendo as nações do mundo.  Exatamente como ele queria. “Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.

E Mandela ensinava pelo exemplo. Odiava o ódio, amava o amor. Por isso, tornou-se mais que um grande líder, é um exemplo de ser humano. Para a vida. Para todos. Para sempre.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/12/2013 

Fernanda Montenegro, reconhecimento internacional

Fernanda Montenegro é uma dama da arte. Seu legado são as atuações inesquecíveis no teatro, na TV e no cinema. E mais ainda. Mulher, mãe, cidadã brasileira.

Lembro-me de quando Fernanda foi convidada para ser ministra da cultura e lembro-me de seu desprendimento. Agradeceu, respeitosamente, e disse que seu ofício deveria ser exercido, com dignidade, em defesa da arte e da sensibilidade. Seu lugar era no palco. E, no palco, ela comoveu, moveu, emocionou. Emociona.

O mundo conheceu seu talento, com a escrevedora de cartas, Dora, em “Central do Brasil”, filme que lhe rendeu a indicação ao Oscar de melhor atriz. O Brasil já a conhecia bem. Já sabia que a menina que nasceu em uma família simples, no subúrbio do Rio de Janeiro, era capaz de fazer rir e fazer chorar. Era capaz de trazer verdade à sua atuação. Filha de um mecânico e de uma dona de casa, Fernanda nunca hesitou em trabalhar e em se dedicar, com intensidade, a cada trabalho.

Prêmios, ela já recebeu aos montes. Mas o prêmio maior é ser uma referência de competência e de entrega em cada personagem que vive. Sim, ela é única. É inteira no que faz.

Agora, nossa dama recebe o Emmy Internacional – o Oscar da televisão – por sua atuação na série “Doce Mãe”. Fernanda tem 84 anos de idade. E é uma menina. Pacto com os deuses do teatro, talvez. Pacto com sua essência. Trabalhar corretamente. Viver corretamente. Esses são os segredos de uma vida boa. Evidentemente, há pedras nessa jornada, há desilusões, há erros, mas – acima de tudo – há sonho. Um artista vive do sonho, do êxtase e do êxodo. O êxtase é o encantamento, a elevação, a sensibilidade. O êxodo é a saída. A partida de si mesmo para repartir-se em tantas partes e, em tantos, deixar uma esperança.

Em um mundo tão carente de referenciais positivos, é preciso aplaudir, reverenciar, reconhecer o talento de nossa grande dama.

Fernanda Montenegro, receba nossa gratidão. Sem arte, a vida seria menor.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/11/2013

Consciência negra: leis, ações, intenções

Talvez, um dia, não precisemos mais de um “dia da consciência negra”. Talvez, um dia, o sonho de Luther King – “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele” – realize-se nas leis, nas ações e nas intenções das pessoas.

Nas leis, evoluímos muito. Não se tolera, no Brasil, nenhum tipo de racismo, de discriminação ou de preconceito. O princípio da igualdade, entre outros, exige que não tenhamos cidadãos de primeira e de segunda classe, sob nenhuma razão. Aliás, não há razão alguma para que alguém se sinta superior ao seu semelhante.

Um outro sonhador, Mandela, nos ensina que: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.

Ninguém nasce preconceituoso, portanto. Ninguém nasce intolerante. Ninguém nasce para fazer o mal. A reflexão sobre a consciência negra é uma reflexão sobre o respeito. Respeitar o outro me ajuda a viver melhor. É preciso olhar para o passado e ter a consciência do que sofreram nossos irmãos, que ajudaram a construir a nossa identidade. É preciso relembrar os horrores da escravidão para que fatos como esses nunca mais se repitam. É preciso educar as crianças para que elas compreendam o significado da palavra respeito e a beleza do conceito das diferenças. As diferenças não podem ser convertidas em desigualdades; ao contrário, são a prova da genialidade do Criador que nos fez únicos. Unicamente para que nos completemos. E só nos completamos quando compreendemos quem somos e quem são nossos irmãos de jornada.

É da jornada de Zumbi e de Dandara que nos lembramos nessa semana. Líderes que trocaram a vida pelo sonho de que, um dia, não precisaríamos mais falar sobre consciência negra. Ainda precisamos. Ainda há ações a serem feitas para que as intenções sejam sempre corretas.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/11/2013