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A cultura do encontro

Desde que o mundo conheceu o novo papa, somos todos – católicos ou não – surpreendidos por sua sabedoria e simplicidade. Francisco é um homem de palavras exatas. De reflexões singelas e provocativas. Ocupa-se, incansavelmente, de nos atentar para as evidências que, na velocidade da vida moderna, deixamos de enxergar, de ponderar.

Em sua rede social, com 14 milhões de seguidores, o papa nos chama para o cuidado com os idosos: “Às vezes descartamos os idosos, mas eles são um tesouro precioso: descartá-los, para além de ser injusto, é uma perda irreparável”. Alerta-nos contra a cultura do descartável. Da injustiça. Convoca-nos, enfim, à missão de paz e bem. “Fazei-me instrumento de Vossa paz”, como disse o outro Francisco, o santo de Assis. O revolucionário do Amor.

Apenas o amor pelo próximo nos faz enxergar a face de Deus. Descartar nosso irmão é desconhecer nossa essência. Somos carentes uns dos outros. Em qualquer idade. No caso dos idosos, há uma razão a mais: é desperdício não aprender com sua sabedoria e experiência. Os idosos, assim como os jovens, constroem a sociedade, sustentam-na, alimentam-na em sua fonte de conhecimento, de histórias, de continuidade da família, de vir-a-ser. Edifiquemos a cultura da inclusão, do encontro, do acolhimento.

Pesquisas revelam que a população mundial vem envelhecendo, e a pirâmide etária, antes triangular, tende a se transformar. As pessoas estão vivendo cada vez mais. Além disso, nota-se uma participação mais ativa dos idosos, seja na continuidade do trabalho ou do estudo, seja na contribuição orçamentária às famílias. É evidente a importância da mudança do estereótipo do idoso e de sua inclusão.

Sigamos os exemplos da milenaridade das culturas que respeitam e dedicam a seus idosos posição de destaque no tecido social; amemos os que se empenharam em construir o que somos. Continuemos. Juntos. Sem descartar ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/6/2014

O Brasil de todas as gentilezas

Em tempos de Copa do Mundo e de estrangeiros no Brasil, presenciei cenas que merecem ser compartilhadas.

Em São Paulo, uma senhora tentava, em português pausado, explicar onde ficava uma estação de metrô. O turista olhava sem entender, mostrava um papel com o nome da estação e perguntava em inglês. A senhora respondia com gestos. E sorria. Sorriso de quem desconhece o outro idioma, mas sabe das lições mais nobres da civilidade, da gentileza.

Vi, também, um taxista atendendo um visitante com um dicionário na mão e com uma impressionante disposição em atendê-lo. No aeroporto em Brasília, um jovem brasileiro, em bom inglês, dando sugestões de lugares para visitar.

Gente perguntando e gente ajudando a encontrar respostas. Convívio. Acolhimento. Somos marcados por problemas sociais, desigualdades gritantes, ações políticas que desconsideram sonhos e necessidades de nossa gente. Mas, ao mesmo tempo, somos um país marcado pela alegria, pelo respeito ao diferente. Formamo-nos a partir de tantos que aqui chegaram. Imigrantes corajosos, desafiadores do medo, construtores de futuro.

Este Brasil, com tantas contradições, é apaixonante. Bom seria que estivéssemos mais preparados para receber o estrangeiro. O turismo gera emprego, renda e é essencial para nosso reconhecimento internacional. Mas, se ainda nos falta muito, temos o essencial. A marca da cordialidade. O sentimento de ajudar.

Não há ingenuidade nesses relatos. Temos as chagas da violência. Nossas cidades carecem de infraestrutura. A desordem dos espaços urbanos gera mais violência e abandono. Mas essa é uma longa estrada que precisamos percorrer. Esses problemas não se resolvem com mágica, mas com competência e trabalho.

No entanto, a Copa está aí. Façamos o melhor. Independentemente de colorações partidárias, mostremos o Brasil de todas as gentilezas. Um país que não aprecia a guerra. Que não discrimina. Que recebeu de Deus uma natureza privilegiada. E gente. Gente que gosta de gente.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/6/2014

A chave de nossas lembranças

Gosto de conversar com as pessoas. Gosto muito.

Preocupo-me com um tempo em que pessoas gastam parte significativa da vida com máquinas e se esquecem do significado de “gastar tempo” com outras pessoas. Olhos fitos no celular. Mensagens. Redes sociais. Jogos. Avidez pelo mundo virtual. E quase nenhuma palavra com quem está ao lado.

Gosto de conversar com as pessoas. Repito. E gosto de ouvir suas histórias. Momentos, partidas, encontros. Lágrimas de nossas dores. Paixão. Dores de um amor não correspondido. Cicatrização. E, de novo, a esperança. E, de novo, a dor. Temos a chave de nossas lembranças e o poder de revisitá-las. O tempo passa e permanece dentro de nós.

Lembro-me de minha infância, de minha pequena cidade e das famílias sentadas na calçada em dias quentes. Não havia ar-condicionado, não havia internet, a televisão não ocupava nosso tempo. A violência não nos frequentava. Na praça, sempre havia música. Íamos à missa e, na saída, conversávamos sem pressa.

Presentes? No natal e no aniversário. Hoje, os quartos dos filhos são repletos deles, sem nenhum valor afetivo. Têm todo tipo de computador. Mas há ausência de pais contadores de histórias, de conversas reais, de pessoas que “gastem tempo” com pessoas.

Se não compreendermos a importância da simplicidade na convivência cotidiana, as lembranças de nossos filhos estarão recheadas de jogos virtuais e de um mundo que, embora fascinante, não tem a essencialidade do contato real.

Não sou contra o avanço tecnológico e confesso ser admirador desse universo. Uso as mídias sociais para propagar minhas crenças e aprender com os amigos que frequentam meu “quintal tecnológico”. Mas não abro mão do meu quintal real. De falar e ouvir.

Se os fogões a lenha, que faziam com que o preparo de nosso alimento desse um significado especial ao nosso tempo, não existem mais, existamos nós, presentes na vida e na lembrança futura dos nossos. Gosto de conversar com as pessoas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 6/6/2014 

 

É tempo de amizade

Somos produtos do meio. Isso não é novidade. Do idioma que falamos aos gostos culinários, passando por padrões éticos e estéticos, dependemos do aprendizado. Dependemos das influências que recebemos em casa, na escola, na rua, nas múltiplas formas de comunicação, virtuais ou pessoais.

Não somos máquinas. Isso também não é novidade. Chaplin nos ensinou que “Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido”.

A violência, de todas as maneiras, é o fracasso da convivência humana. As agressões ao outro roubam de mim o que tenho de melhor, minha capacidade de amar.  E, aí, entra a amizade. 

Em guarani, a palavra amigo é “chera’à” que significa, parte de mim. Fazer parte de alguém e permitir que esse alguém faça parte de nós é prova de desprendimento e de maturidade. Nos meios em que convivemos, infelizmente, proliferam-se vícios terríveis como a arrogância e a inveja. O arrogante faz um mal imenso a si mesmo e aos outros. Dono da verdade, é incapaz de se abrir à troca, à cumplicidade, aos encontros necessários entre pessoas e sentimentos. O invejoso sofre com o sucesso do outro e, perversamente, fica eufórico pelo seu fracasso. Tempos perdidos. Tempos violentos.

A amizade vai além das competições, vai além dos interesses. O amigo não é um meio, mas um fim. Não é um meio para se atingir alguma coisa, para se alcançar algum poder, mas um fim para experimentar o aroma agradável da generosidade. É desse perfume que carecemos.

Voltamos ao meio. Cuidar das relações humanas nos garante um direito ao futuro. Como colher paz, respeito, dignidade, se o plantio é de ódio, soberba, desonestidade? Pais, professores, líderes precisam refletir sobre o legado que deixarão. Sobre inteligência necessária e sobre “afeição e doçura” imprescindíveis para a construção de uma humanidade melhor. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/5/2014 

 

A perversidade do maldizer

São João Vianney foi um sacerdote do século XVIII conhecido por sua imensa capacidade de ouvir. Pessoas vinham, de todo lugar, ao seu confessionário para falar sobre seus problemas e receber uma palavra de sabedoria e acolhimento.

Conta-se que, certa vez, uma senhora lhe confessou que havia falado mal de sua vizinha. O padre aconselhou-a: “Pegue uma galinha, mate-a e retire todas as penas. Depois, jogue-as de um lugar bem alto”. A mulher obedeceu e voltou à igreja para lhe contar o feito. Foi, então, que o padre lhe disse para que lá voltasse e recolhesse todas as penas. Obviamente, viu que isso era impossível. E assim é a maledicência: uma vez espalhada, não tem volta. E o mal estará feito.

Dois fatos recentes remeteram-me à história de S. João Vianney: o linchamento atroz de uma mulher e a morte de um dos donos da Escola Base. Até onde vai a perversidade humana! As penas espalhadas por pessoas irresponsáveis ceifaram histórias, futuros e vidas. De um lado, a selvageria descabida e infundada que vitimou a mãe de duas meninas, mulher de família humilde, filha de um homem simples que, em sua sabedoria, resumiu a sua dor: “falta amor no coração das pessoas”.

De outro lado, o célebre caso de injustiça difamatória contra os donos da Escola Base, ocorrido em 1994. Duas mães espalharam a notícia de que as filhas sofriam abusos sexuais na escola. A mídia, sem cuidado e disposta a usar o poder da destruição, fez o desserviço. O casal proprietário foi preso; e a escola, fechada. Como a verdade apareceu, foram inocentados. Mas o que lhes restou? A escola e a residência do casal foram depredadas, suas vidas esfaceladas: a mulher morreu de câncer e o homem sofreu dois infartos. No último, veio a falecer.

Que poder é este de destruir biografias que algumas pessoas julgam ter? De difamar pessoas injustamente? De brincar com o futuro de seres humanos? Que perversidade é esta que sufoca o amor que todos deveriam trazer no coração? E que atropela a razão e as leis humanas?

É hora de construirmos muralhas contra esse mal! É dever de todo homem dosar suas palavras, ponderar sobre a responsabilidade e o peso da palavra dita. Pena que se espalha. Flecha lançada.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/5/2014 

A melhor profissão

Ontem, foi dia do trabalho. Dia em que se comemoram as conquistas dos trabalhadores.


Trabalhar é transformar. A nós mesmos e aos universos com os quais convivemos. Trabalhar é participar da responsável tarefa de construir o mundo.
 Há muitas profissões. Algumas mais conhecidas; outras, menos. Há aquelas que exigem graduação, mestrado, doutorado. Há outras que não. Há algumas em que se percebe, de imediato, o benefício para a sociedade. Outras, somente se refletirmos muito.


E qual a melhor profissão? Qual a mais importante? Qual a que mais contribui para um mundo melhor?


Lembro-me que minha mãe queria que eu fosse médico. “Um médico”, dizia ela, “melhora a vida das pessoas”. Eu decidi ser professor. Um professor também melhora a vida das pessoas. Um policial. Um engenheiro. Um taxista. Um juiz. Um comerciante. Um enfermeiro. Um artista. Um escritor. Em cada uma dessas e de outras tantas ocupações, temos o poder de melhorar o mundo. Às vezes, os pais se preocupam, demasiadamente, e resolvem decidir qual a melhor profissão para os filhos. Têm os pais o poder e o dever da conversa, dos esclarecimentos, das orientações. Mas o poder da decisão compete a quem há de executar a tarefa. E deve fazê-la com amor e com respeito.


Em todas as profissões, encontramos profissionais que prezam pelas escolhas e escolhem fazer o que é correto. E, em todas elas, deparamo-nos com os que fazem da profissão um tormento para si mesmo e para a sociedade. Imaginem o poder de destruição que tem um jornalista corrupto, um administrador insensível, um promotor de justiça injusto, um motorista irresponsável!


Na arte do trabalho, os artistas precisam estar afinados com suas escolhas e com sua vivência cotidiana. Não existe profissão mais digna ou menos digna. Quem dá dignidade a uma profissão é quem a exerce. Com zelo, com responsabilidade, com consciência de que seu papel no espetáculo da vida é tão importante quanto qualquer outro. Nem mais. Nem menos.


Viva o trabalhador. Viva as mulheres e os homens comprometidos com um mundo melhor.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 2/5/2014

Algumas linhas sobre o perdão

Perdoar é dar oportunidade para si mesmo de seguir adiante.

Perdoar é, mesmo diante da lembrança da dor causada, compreender a cicatriz. Não é esquecer. Não temos esse controle sobre nossa memória. Mas é deixar a dor partir.

Não perdoar é condenar-se a carregar o passado nas costas, como um peso que impede a dádiva do recomeço. Não perdoar é não vislumbrar futuros. É escolher o sofrimento. É negar a si mesmo as novas possibilidades. É desprezar a graça do momento presente que nada mais é do que um presente que recebemos todos os dias.

E perdoar não é fácil. Sabemos disso. Na sociedade competitiva em que vivemos, parece que o perdão demonstra fraqueza. Os fortes se vingam. Acabam com o outro. É assim nas lutas. Ganha o mais forte. O outro é o perdedor. É assim nas histórias de supostos vencedores que se gabam ao falar que enganaram, que destruíram, que venceram.

O que é vencer? Destruir o outro é vencer? Passar a vida aquinhoando migalhas de destruição alheia é vencer? Provar que é o mais forte é vencer?

Há formas estranhas de enxergar a trajetória da vida. Talvez tenha faltado educação. Talvez tenham faltado bons exemplos. 

Uma mente atormentada em busca de vitória ou de vingança ou de poder não pode ser considerada uma mente vencedora. Não é para isso que nascemos.

A vida ganha um sentido todo especial quando conseguimos usufruir seus mais modestos momentos. Do dia a dia, das relações de afeto na família, no trabalho, entre os amigos. Simples assim, como diria Mario Quintana, “como a água bebida na concha da mão”. 

Na simplicidade da vida, deparamo-nos com pessoas que, por alguma razão, voluntária ou involuntariamente, nos decepcionaram. Ou tramaram contra nós. Ou traíram a nossa confiança. O que fazer? Vingar-se? Desconfiar de todas as outras amizades que surgirão? Bobagem. A vida é curta demais para ser desperdiçada com o que não nos faz bem.

Façamos o bem. Sem concessões.

Essa é uma forma bonita de olhar para frente e viver. E seguir adiante. De cabeça erguida. Vitorioso.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/4/2014

Compaixão e generosidade

Entrevistei para o meu programa de TV, “Mundo Melhor”, na Rede Vida, o médico e cientista Paulo Saldiva. Falamos sobre diversos assuntos, ele é um dos maiores especialistas do mundo em meio ambiente e em doenças advindas da poluição.

Falamos sobre o amor pela cidade de São Paulo e pelas veias de dor que percorrem essa cidade. Da violência à ausência de calçadas. Do pouco verde ao abandono do centro. Da saúde precária. Dos invisíveis. Mas falamos também de esperança.

Quando perguntei a ele quais eram as principais qualidades que um médico deveria ter para realizar com dignidade o seu ofício, ele foi preciso. Um médico precisa ter compaixão e generosidade.

Compaixão é se colocar no lugar do outro. É sofrer o sofrimento do outro. Paixão é sofrimento. Compaixão é compreender, compartir esse sofrimento. Um médico não pode ser insensível. Não pode se tornar distante de seu paciente. Cada paciente é único. Tem uma história, uma família, medos, sonhos, aspirações. E, aí, vem a segunda qualidade, a generosidade. Se um médico tem a compaixão de compreender o que passa o seu paciente, ele deve ter a generosidade de dar o melhor de si para aliviar essa dor. De se fazer inteiro em cada consulta, em cada cirurgia, a cada momento em que tenha o poder de acalmar as angústias de quem sofre.

Dar o melhor de si significa ser competente na ciência e humano na vida. O paciente precisa do remédio certo, da intervenção correta. Mas precisa, também, de afeto, de consolo, de presença. Como é bom ir a um médico que nos olhe nos olhos, que nos ouça com atenção, que nos explique nossos problemas e que nos apresente alternativas. Que gaste tempo conosco. Como é um bom ir a um médico que goste de ser médico e que compreenda a responsabilidade e o poder da sua profissão.

Compaixão e generosidade. Essencial para os médicos. E, também, para os professores. Para os juízes. Para os taxistas. Para os artistas. Para os jornalistas. Para todos nós, os viventes.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/3/2014

 

 

Fraternidade e tráfico humano

Desde 1962, no período da Quaresma, a Igreja Católica realiza a Campanha da Fraternidade para despertar o sentimento de solidariedade entre as pessoas, sensibilizando-as para o enfrentamento e a transformação de um dilema humano. O tempo da Quaresma representa, para a Igreja, o tempo da conversão, da renovação interior, um “itinerário de libertação pessoal, comunitária e social”, nas palavras de Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. A cada ano, um tema e um lema são escolhidos pela CNBB, conclamando a sociedade a buscar, fraternalmente, soluções que promovam a erradicação de injustiças e de males que desconstroem a dignidade humana.

Este ano, Dom Raymundo Damasceno, presidente da CNBB, anunciou “Fraternidade e tráfico humano” como tema. “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1) é o lema que determina a direção para a qual os exercícios de caridade e de conscientização devem se orientar.

É o tempo da fraternidade, de despertar mulheres e homens para o drama humano do tráfico, do ceifar da liberdade, em todas as suas esferas.

É sobre a liberdade que a Campanha da Fraternidade se pronuncia. A liberdade a que cada ser humano tem direito. É para a liberdade que o homem nasceu e qualquer forma de escravidão é condenável. Qualquer tentativa de cerceamento da escolha humana é intolerável. E essa é uma causa de todos, e não apenas dos católicos. É um chamamento à luta contra a insensatez da exploração, da escravidão, da prostituição, do aliciamento, da violência doméstica e de tantas outras formas de violação da dignidade humana.

Em mensagem aos brasileiros, papa Francisco fez um apelo para que ninguém fique impassível diante dessas vidas roubadas em todo o mundo. Vítimas sem direitos e sem voz: “A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando firo a do outro, firo também a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!”.

A liberdade tem mão dupla. Não é livre o homem que rouba a dignidade de um irmão. Escravizar, violentar, fazer do próximo uma mercadoria é aprisionar a si próprio. Não nos habituemos ao sofrimento de um irmão. Não nos acomodemos diante dos abusos cometidos contra as fragilidades humanas. Vamos agir.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 7/3/2014

Dias de alegria

Algumas pessoas esperam as festas chegarem para extravasar toda a alegria que fica escondida durante o duro dia a dia. Trabalham, estudam, convivem em casa e na rua com uma certa desilusão cotidiana. Tudo é muito pesado, sem grandes e boas novidades. O acordar, o conviver com gente desagradável, os transportes desconfortáveis, o trabalho, muitas vezes, indesejado e assim por diante. Dia após dia, vive-se o que não traz alegria.

Quando chegam as festas, muitas pessoas acham que é momento de extrapolar. “De caminhar contra o vento, sem lenço e sem documento”, como na canção Alegria, alegria, de Caetano. E o carnaval é uma festa assim. Festa da carne. Para muitos, o momento de beber à vontade, de se fantasiar, de beijar todo mundo, de gritar, de desopilar. Alguns se enchem de energético para ficar sem dormir. Para não perder nenhum instante da festa, da alegria. Porque, depois, volta a mesmice, a chateação, a rotina indesejada. Namoros e até casamentos se desfazem. Tive um amigo que terminou com a namorada, na véspera do carnaval, para voltar depois; afinal, não se desperdiça um carnaval.

Não é estranho viver a alegria apenas nas festas? Ou nem isso é alegria? 

O dia da alegria tem que ser todo dia. Nada contra brincar no carnaval ou em outras festas que recheiam o nosso calendário. O que causa espanto é a mudança de comportamento, são os exageros, é o desperdício do prazer diário. A beleza da alegria está em encontrar prazer no que se faz. Acordar com prazer. Agradecer pelo privilégio de viver mais um dia. Desfrutar da convivência familiar. Ir para o trabalho sabendo que ali está um grande desafio. Conviver com os problemas sem se deixar sufocar por eles. 

Carlos Drummond de Andrade escreveu que “há uma pedra no meio do caminho”. Lygia Fagundes Telles, com licença poética, decidiu, “há um caminho no meio da pedra”. 

Aí, mora a alegria. No “sim” que damos à vida, na vontade de viver cada momento com intensidade, sem ingenuidade e com esperança.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/2/2014